Você nunca soube ser minha.
Era uma quarta-feira de agosto, quando eu respirei fundo e te contei que estava com as passagens compradas pra passar o feriado prolongado de novembro na sua cidade. Já faziam quase 2 semanas que estava tudo certo, mas eu... Morria de medo de falar e ouvir as suas desculpas. E quando eu contei você só respirou, por uns dois minutos e eu fiquei muda, sem saber se devia perguntar algo ou talvez... Me desculpar? Mas por que cargas d'água eu estava me sentindo culpada? Era uma viagem. Pra um lugar que eu amava. Que eu sempre amei. E de quebra... Tinha você. Te ouvi rir do outro lado da linha e senti a tensão passar pro meu lado.
- Sério? E... vai fazer o que aqui outra vez?
- Bom... Tem as praias que eu amo... E eu sigo um perfil de turismo que posta uns lugares bem legais pra conhecer a gastronomia local... Tu sabe que eu curto esse lance, né?! - Nem eu senti firmeza na minha própria voz. Acho que é por isso que tu ria na minha cara.
- Ah, claro! Que legal May! Acho que tem muita coisa pra tu curtir aqui.
Nenhuma palavra. Nada. Nem tocou no assunto. Agiu como se você nem morasse aí. E eu já tava na merda, então... Decidi me afogar.
- E quando posso ver você, Lari? - Senti minha voz ir falhando conforme as palavras saíram e ouvi sua respiração pausar e em seguida um suspiro profundo. Tava pensando em como me despachar, eu sei.
- Ah, Mayara... É sério isso? De novo? A gente... Já não conversou?
Fechei os olhos enquanto absorvia (outra vez) aquelas palavras. Respirei fundo algumas vezes. Não sei quantas. Mas precisava encontrar ar pra te responder à altura.
- Bem, se eu não tentasse, não seria eu. - Belíssima resposta. Que inferno. Nunca consigo explodir com você. Inferno!
- Tenho que desligar... eu te chamo no whats... Minha avó tá me gritando aqui e...
- Tchau, Larissa... Boa noite.
Antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa, você já tinha desligado. Era sempre assim. Pela terceira vez, eu tentava. Terceira. Quer dizer, terceira vez que eu ia pra Floripa, você já tinha estado em São Paulo outras duas vezes e... Nada. Talvez eu devesse aceitar, saca? Não era pra ser. E se era, você não queria, então não ia acontecer... Mas que porra! Agora... Só me diz... Como enfiar isso na minha cabeça? E convencer meu coração, porque... Ele é o babaca da história.
Não consegui dormir naquela noite e cheguei a pensar se aquela viagem era a coisa certa mesmo. Eu já sabia que não ia te ver mais uma vez... Insistir seria só... aumento de sofrimento, não? Bem, não de todo. Amava aquela cidade. E... se eu quisesse mesmo, de verdade, tinha todas as coordenadas pra chegar até você. Todas.
Pela primeira vez na vida, agosto acabou num tapa. E sabe o "te chamo no whats" daquele dia? É, não aconteceu. Em nenhum dia de agosto. Mas quer saber? Agosto é o mês que mais trabalho. Então mal senti. Final de inverno, todo mundo fica doente.
No feriado de 7 de setembro, senti meu coração apertar. Resolvi ligar, mas você... Não atendeu. Fazia parte do processo. Eu estava acostumada: eu avisava que ia, pedia pra te ver, você negava, desaparecia e provavelmente quando voltar, vai estar namorando ou frustrada com um pé na bunda. Era sempre esse o processo. 3 anos. Eu conhecia o suficiente.
Passa tempo, passa... Dormia e acordava pensando nisso. E ele passou. Tão, tão rápido que mal me dei conta que viajaria no dia seguinte e ainda não tinha falado com você depois daquele dia.
Peguei o celular umas cinquenta e duas vezes, enquanto arrumava a mala, mas...Não, nada de mensagem. Ia viajar logo de madrugada, era o horário que mais gostava... Chegava vendo o sol refletindo o mar e me enchendo de energia. Mas lá no fundo, no fundinho, meu coração tava apertadinho... Eu sempre achava que "dessa vez ia ser diferente ", mas nunca era.
Entrei no avião com o coração na mão. Lá ia eu, outra vez. Sozinha. Só.
Quando ia desligar o celular, vi tua mensagem "Boa viagem... Não vou dizer pra aproveitar, porque sei que vai. E quando deitar pra dormir, vai conseguir ouvir meu coração mais perto." . Senti meus olhos marejarem quando li as últimas palavras. Você nunca disse que jogava limpo, né? Mas também... Não precisava pegar pesado. Era o típico "Não fode e não sai de cima". E eu? Bem, eu amava você. Ia fazer o quê?
Saí do avião com o coração apertado, outra vez. Com aquela droga de frase ecoando na minha cabeça. Não te respondi. Você não merecia. Não tinha que saber de mim.
Cheguei naquele flat que eu amava e me senti em casa. Era um carinho pro meu coração me sentir assim. Mas não conseguia parar de pensar em você. E esse era o inferno da minha vida. Joguei o celular na cama e tirei toda a roupa pra ver se um banho ia te levar de mim. Entrei no chuveiro e ouvi meu celular, era o seu toque. Instintivamente me enrolei na toalha e corri até o celular:
- Oi sumida... - te ouvi rir e não sei dizer o que senti.
- Sumida? Eu? - ri ironicamente e pela primeira vez senti a mágoa ultrapassar a minha voz - você ia me chamar no whats e... Bom, sabe o que aconteceu. Eu te liguei, tu não atendeu... Então... Acho que a sumida é você.
Te ouvi respirar fundo e sabia exatamente como estava sua expressão.
- Sabe que não tenho mais o que dizer sobre... Sobre você tão perto. À propósito... Já tá por aqui?
- Já, Larissa. Não precisa falar. Não vim por você. - Menti descaradamente.
- Que bom... que chegou bem...
Senti meus olhos marejarem e engoli seco, porque não ia mais chorar.
- Tô saindo, então... Tchau.
- Aproveita, tá? Quero você feliz...
Antes de te ouvir responder de volta, desliguei. Não tinha como te ouvir me rejeitar outra vez. Você era importante demais dentro do meu coração pra me pisotear daquele jeito. Eu só queria te ver. Te olhar nos olhos, sabe? Sentir teu cheiro... Mas... Deixa pra lá.
Me joguei na cama nua mesmo, e fiquei ali, fitando o teto, enquanto sentia as lágrimas saltando de dentro de mim... Dormi sem perceber e acordei quase 3h depois. Decidi que ia esquecer aquela droga de conversa e ia aproveitar tudo o que eu podia. Vesti meu biquíni preferido, desliguei o celular e fui pra praia. Ficava a dois quarteirões de onde eu estava e só de ouvir o mar, sentir a maresia, eu já me sentia mais tranquila.
Passei a tarde torrando no sol, enchendo a raba de álcool e me esvaziando de você. Perto das 17h senti minha cabeça girar. Precisava de um banho e água e qualquer glicose. Ri sozinha quando pensei nisso.
- Tudo... só preciso... ir pra casa. Tá tudo girando. - ri baixo enquanto Letícia me encarava.
- Não.. Tranquilo. Tô há dois quarteirões daqui, chego rápido. - Falei me levantando e já juntando minhas coisas.
- Ei, calma... A gente vai num barzinho de um amigo nosso mais tarde... Quer conhecer?
- Ah, claro... Pode ser... Me manda o endereço no WhatsApp. - Pensei por um segundo quando foi a última vez que fiz tantos amigos. Não me lembrava. Era o álcool, eu sabia, eu não era tão legal. Mas foda-se. Merecia aproveitar cada dia desse feriado.
Me despedi de todo mundo e no caminho pra casa fui fazendo um balanço mental da tarde na praia, fiz tudo o que eu queria fazer, só faltou você, mas isso.... Era impossível. Esse pensamento fez o efeito do álcool passar quase instantaneamente. Fui direto pro chuveiro e sem nem me dar conta, já tava apagada na cama.
Acordei com o meu celular gritando, pelo menos parecia isso.
- Chego aí assim que meu uber vier, prometo.
Escutei ela rir do outro lado e levantei num pulo, desligando o celular e começando a me arrumar. Chamei um Uber enquanto me maquiava e me sentia uma multitarefas haha.
30 minutos depois da ligação da Lelê, cheguei no barzinho. Meio afobada, meio atrapalhada, totalmente eu hahaha. Tropecei no último degrau, trombando em um cara que tinha um cheiro bom.
- Tudo bem aí? - escutei uma voz rouca na minha direção, rindo baixo.
- Tudo... Desculpa, sou meio atrapalhada mesmo. - Ri sem graça e levantei o olhar pra ver de onde vinha a tal voz. Talvez eu só devesse ter ido atrás de Letícia, mas... cruzei o olhar com um moreno gato e quando olhei pro lado dele... Você. Te vi corar e senti minha respiração sumir. - Desculpa mesmo.
Entrei no barzinho sem saber pra onde ir e só procurei a placa do banheiro. Entrei direto pro vaso e botei pra fora cada borboleta que o seu olhar acordou dentro de mim. Ouvi sua respiração do outro lado da porta e tudo dentro de mim sabia que era você.
Não conseguia responder. Não era assim que eu tinha imaginado. Até tinha imaginado te ver com alguém, em algum momento, em algum lugar, mas... não assim... não tava pronta.
Saí dali em direção à pia, passando por você sem nem te olhar. Era a primeira vez que eu sentia vontade de não te ver. Lavei o rosto com toda a calma do mundo, tentando colocar qualquer ar pra dentro de mim. E tudo sumiu quando senti você tocar meu braço.
Desviei o olhar devagar pro espelho, te olhando através dele. Você tava tão pálida quanto eu, o que me deixava um pouco menos envergonhada.
- Bom, você queria me ver.... olha só. - vi seu sorriso sair fraco demais. Sabia que não tava feliz.
Desviei o olhar e nem me dei ao trabalho de sorrir de volta.
- Não assim. Não com... esse sorriso aí. - Não dava pra esconder a raiva que eu tava. Mas não era de você. Era de mim. Por eu sentir tanto por alguém que... Não sentia nada.
- Eu só não tava... preparada.
Soltei uma risada irônica alta demais pra quem eu era.
- Você não me conhece. Só... trombei com o seu namorado, Larissa. Finge que não foi nada. - tava pronta pra sair dali quando senti você me segurar.
- Mas eu conheço... E ele não é meu... namorado. Bem, namorado não... é... só um cara que eu beijo de vez em quando... E você...
Senti meus olhos marejarem. Essa era você.
- Eu digo quem eu sou. Eu sou alguém que você não faz questão. Então... - sorri fraco e balancei a cabeça, tentando afastar aquilo tudo de mim.
Saí dali antes que as minhas lágrimas dessem as caras e senti uma Letícia me barrar no meio do caminho e me abraçar com tanta força que não deu pra segurar mais. Me afundei nela e escutei a voz dela como um pequeno mantra na minha mente "Calma, vai passar. Pode chorar. Tô aqui com você. Calma, vai passar. Pode chorar. Tô aqui com você.". As lágrimas iam saindo e aquele aperto foi indo junto enquanto ouvia a voz dela. Fui Respirando. Foi passando. Até eu conseguir levantar meu rosto e olhar pra ela.
Senti meu sorriso sair mais fraco do que gostaria.
- Não... Mas finge que sim... obrigada.
Passeei o olhar pelo lugar e pude te ver aninhada no peito daquele cara que agora... Eu já nem achava mais tão gato assim. Senti Letícia me puxar pela mão pra uma mesa de canto, vazia e só me deixei levar. Ouvi ela falando e perguntando algumas coisas, mas pra ser sincera, não sei muito bem o que foi que respondi. Sei que ela te conhecia. E por esse motivo estávamos sentadas longe e sozinhas. Na verdade, ela tava sozinha, porque eu... nem tava mais ali.
Não me lembro ao certo como foi que saí dali, o que disse, como cheguei no meu quarto. Só sabia que tava no flat que tinha alugado, tirando toda aquela roupa e ainda tentando respirar. Olhei o celular e havia diversas mensagens de diferentes pessoas. Mas as únicas que me irritaram, eram as suas. Você não tinha o direito de se preocupar. Você tinha enfiado a faca bem no meio do meu peito antes mesmo de eu chegar aqui e... Com as palavras de hoje... tinha girado e girado essa faca, dilacerando em pedacinhos a ferida. Minha respiração estava tão fraca que podia ouvir o mar batendo na areia lá fora e o vento cantando seu nome. Me lembrando de tudo o que eu queria esquecer. Fechei os olhos e tentei me concentrar no ritmo da minha respiração. Ouvi a porta se abrir e por um momento me perguntei se tinha entrado no lugar errado. Seria possível?
- Obrigada, de verdade. Vou cuidar dela agora. - Ouvi sua voz e aquilo foi se embrulhando dentro de mim. Como você tinha chegado até aqui? O que você pensava que tava fazendo?
Me mantive jogada no tapete, imóvel, ouvindo o som dos seus saltos cada vez mais próximo. Fixei o olhar nos seus pés, era o máximo que eu podia olhar de você. Te vi tirar as sandálias e quando começou a se abaixar, fechei os olhos. Não queria te ver. Não hoje. Não agora. Não assim. Mas você... Era a rainha do contra. Senti teu corpo próximo do meu e tudo o que eu tentava nesse momento, era continuar Respirando. Você me abraçou e eu não conseguia sair daquilo. Senti meus olhos vazarem. Vazarem, mesmo. Porque eu não tinha dado permissão pra que chorasse, eles estavam vazando por conta própria. Senti seu abraço apertar mais a cada soluço. Me encolhi entre os teus braços e te ouvi sussurrar:
- Me desculpa. Por favor... Me desculpa.
- Tá me... pedindo desculpas exatamente pelo quê? - levantei o rosto devagar pra que meus olhos encontrassem os teus.
Eu ri. Acho. Não sabia. Se era choro ou risada ou um suspiro desesperado. Me afundei contra o teu pescoço e permaneci ali, Me embriagando com teu perfume quente e com teu abraço tão apertado que, por um segundo me fez pensar que tu não queria que eu escapasse. Mas logo me chamei de iludida. Sempre fui. Com relação à você. Mas nesse momento, só nesse momento, eu ia fingir e deixar os pensamentos pra lá. Só queria te abraçar.