Você viu Antonia Ortiz Corona que acabou de chegar no instituto? Não? Você precisa ver, dizem que ela tem 27 anos de idade e que tem certa tecnopatia, não é fascinante? Eyre disse que ela é muito bem vinda como instrutora. mas não ache que é só isso, ouvi dizer que ela costuma ser cautelosa e independente, porém poucos sabem que é orgulhosa e impaciente. E a sua semelhança com Eiza Gonzalez chega a ser muito comentada pelos corredores.
Quando, ainda bem pequena, Antonia se descrevia como “uma grande filha da puta”, não entendia o motivo para as risadas ou expressões horrorizadas. Afinal, era exatamente isso que ela era. Fruto de uma relação de poucas noites entre uma prostituta e um famoso político do México, que até a gravidez mostrava-se apaixonado por aquela que, depois de um tempo, deixou de cobrar pelas horas que passavam juntos. Era uma jeito estranho de começar um romance, mas o jeito que acabou não podia ser mais clichê: uma mulher abandonada com um filho na barriga, porque aquele que amava preferira a família à amante.
Foi no meio de um prostíbulo que cresceu, a única criança no meio do caos que era o pequeno prédio no subúrbio da Cidade do México. E conforme fora crescendo, a face angelical da garotinha foi virando alvo de desejo dos clientes mais doentios, que ofereciam quantias absurdas por alguns minutos sozinhos com a mais nova, e mais bonita, do prédio. Tudo que Gael, o proprietário do lugar e chefe das garotas, podia fazer era rejeitar as ofertas e manter Antonia o mais próxima possível dele. E a garotinha nunca reclamou, pelo contrário, quando se via muito afastada do homem, corria para os braços dele, tendo plena certeza de que era o único lugar em que estava segura.
Numa das festas quinzenais que eram oferecidas por Gael, Antonia ficou dentro do escritório por horas, brincando enquanto a festa acontecia, com os fones de ouvido, como fora ensinada a fazer desde bem pequena. Foram horas e horas a mais do que o de costume, então decidiu sair, acreditando que talvez tivessem esquecido dela. Todas as garotas estavam ocupadas, mas ela procurava por Gael. Procurou em cada cantinho, mas ele não estava. E foi antes mesmo de pisar fora do prédio que ela o viu. Bem abaixo de um poste de luz, iluminado para que todos pudessem vê-lo, mas não viam. Só ela viu, e correu, correu como se sua vida dependesse disso, e talvez dependesse. Antonia nunca esqueceu do nariz sangrando, a respiração lenta e pesada, o corpo lutando para se manter vivo. E os olhos. Os olhos desesperados, que encontraram os seus e os fitaram com afeto durante vários minutos antes de fecharem.
Depois da morte do chefe, tudo virou um caos. Cada garota acabou indo para um lugar, incluindo a mãe de Antonia, que há tempos não precisava se preocupar com um lugar para ficar ou o bem-estar de sua filha, que na época tinha dez anos. Ambas acabaram na rua, sem nenhum conhecido no México e com o dinheiro no fim. Limitadas à sobrevivência, as Corona andaram sem rumo por aí, dormindo em motéis e comendo o que o dinheiro podia pagar, o que não era muito. Foi questão de tempo até Gabriella, a mãe de Antonia, acabar desistindo de cuidar da filha. Foi extremamente fácil para a mulher entregar uma mochila pequena à filha de treze anos e mandar que fosse embora, que sobrevivesse sozinha, dando de costas à criança e indo embora. E a menina não foi atrás, não correr atrás da mãe e implorou por amor, cruzou os braços e ficou ali por horas, acreditando fielmente que a mulher se arrependeria e voltaria para buscá-la. Ela nunca o fez.
A garotinha passou a correr o tempo todo, estava sempre com pressa. Suja, faminta, apressada, Antonia ia de casa em casa pedindo por ajuda. Sabia que nunca teria muito, mas havia um pingo de esperança que não deixava que simplesmente encostasse em algum lugar e esperasse pela morte. Uma hora sua sorte tinha que mudar. Entre a correria, Antonia conheceu uma adorável senhora, dona de um pequeno mercado entre tantos outros do bairro. Era geralmente ela que lhe dava o que comer e insistia que tomasse um banho, a única coisa que impedia a senhora de colocar Antonia dentro de casa e cuidar dela era o marido, que detestava crianças. E foi esse mesmo marido que acabou comprando uma passagem só de ida para a garota quando esta completou dezesseis anos, entregando-lhe o nome de seu irmão mais velho, que pagaria para que ela cuidasse dele. De início pensou em recusar, mas o que a menina tinha ali era menos que nada, era estupidez continuar morando naquelas ruas.
Foram cinco horas da Cidade do México até Nova Iorque, onde o veterano de guerra incapacitado fisicamente esperava pelos cuidados de Antonia. Foi estranho ir de sem-teto à moradora de uma casa tão grande e bonita como aquela, mas seu coração se apertava ainda mais quando pensava em quanto tempo aquele homem passara sozinho ali. Estar na casa de Steve, cozinhar e limpar para ele não era algo que Antonia gostava de fazer, mas notou que o homem queria apenas companhia e ela adorava escutar suas histórias. Não se sentia empregada do senhor, que beirava os oitenta anos, eram mais como avô e neta.
Passaram-se alguns anos até a relação de ambos estar tão boa que Antonia passou a negar qualquer salário que o homem houvesse a tentar lhe pagar. Era um prazer estar ali com ele, não queria ser paga por isso. Por fim, decidiram que ela continuaria morando com ele, mas não seria como empregada, seria como sua neta. As únicas condições entre tudo isso eram que a mulher trabalharia e não perderia sua liberdade e a segunda era que teria que começar os estudos. Afinal, Antonia possuía vinte e um anos e sequer sabia escrever seu nome.
Não demorou muito para que se adaptasse à nova vida. Não fez muitos amigos, mas não era como se realmente tivesse tempo para isso ou estivesse acostumada. Não conseguiu emprego algum graças à nenhuma escolaridade e ao pouquíssimo que sabia fazer, então decidiu que se concentraria nos estudos por um tempo. Assim o fez durante os próximos anos e ninguém duvidava quando a mulher dizia que era inteligente, sim. Aprendera a escrever em meses e se desenvolveu muito rápido, conseguindo sentir o orgulho de Steve a cada novo passo que dava. Terminou a escola na mesma semana em que as notícias sobre o Acelerador de Partículas começavam a encher os jornais. Sentia o pesar no ar e perguntava ao avô se este sentia o mesmo. O homem começou a se sentir mal não muito tempo depois, falecendo alguns dias antes do aniversário de 90 anos e deixando uma fortuna para Antonia.
No enterro de Steve, haviam muitos militares e tantas armas que Antonia sequer conseguia contar. Nenhum familiar foi, assim como nenhum importunou Antonia sobre o dinheiro deixado. Assim que chegou em casa, explodiu de raiva, a dor pesando em seu peito assim como foi tantos anos atrás, com Gael. No mesmo instante, todos os eletrodomésticos explodiram. Algumas horas depois, a mulher já havia concertado todos eles. Não sabia como, não sabia o porquê, apenas o tinha feito. Compreendeu só depois, quando novos boatos surgiram. Foi para as portas do instituto assim que soube delas, de onde não saiu desde então.
Poderes: Principal: Tecnopatia é a habilidade de controlar e entender qualquer forma tecnológica. A mutação acontece primeiro no cérebro, que passa a funcionar exatamente como um computador; ou seja, possuí pastas que, se o desejar, guardam a memória eternamente, assim como as apagam com facilidade, além de outras funcionalidades que imitam as máquinas tanto antigas quanto atuais. Pode entrelaçar sua genética com a de máquinas, podendo, por exemplo, ter um órgão mecânico para substituir um convencional ou “plugar-se” à uma tomada para adquirir a mesma energia que teria em algumas horas de sono. Com o controle e a criação de máquinas, a meta-humana consegue melhorar máquinas e ainda criar novas a partir de uma velha.
Subpoder: Aptidão intuitiva foi a primeira capacidade manifestada por Antonia, seguida da tecnopatia. A mulher não compreendia muito sobre tecnologia até então, mas logo foi compreendendo e estudando tudo o que podia, com o desejo de aprimorar a capacidade que havia recebido.