Você sempre disse pra mim que antes de ser meu pai, você era meu amigo e hoje fazem exatamente 365 dias desde que você se foi e tudo o que eu queria era mais um dia com o meu melhor amigo aqui comigo. Tu sempre foi o meu único sinônimo de amparo, e agora? Você colocava todas as suas fichas em mim, até quando nem eu mesma punha nenhuma. Você nunca me julgou. Pelo contrário, você só me acolheu. Quando você soube da minha depressão e das minhas diversas tentativas de por fim em tudo, você não me julgou, não perguntou o porquê, você só me acolheu e falou que eu poderia contar contigo. Quando eu te contei da minha sexualidade, você me falou que só queria que eu fosse feliz, independentemente de quem eu amasse e que, nada que eu fizesse ou fosse, faria você me amar menos. E eu sei que eu nunca mais serei tão bem acolhida quanto eu sempre fui com você e isso dói, entende? A sua ausência ainda dói. Sinto saudade de quando você cantava para eu dormir, de te chamar de paizinho aos 4, de papai aos 12 e, aos 16, de idiota; de, a cada dez palavras que saíam da sua boca, oito eram palavrões; de abrir minhas redes sociais e ter um monte de mensagens suas dizendo que está com saudade de mim. Pode ser egoismo, mas às vezes me parece muito injusto pensar que eu só tenha passado cerca de 1/4 da minha vida com você presente nela e que você não vai estar presente nos outros 3/4. Você não chegou a presenciar o quão bem eu apresentei o meu TCC. Você não teve a chance de chorar, de aplaudir ou de me envergonhar na frente dos meus professores. Você não viu eu me graduar, você não estava lá. E eu trocaria todas as pessoas presentes por você, porque eu sei que não teria alguém tão orgulhoso e incondicionalmente feliz quanto você, se estivesse lá. É doloroso demais pensar que eu nunca mais vou acordar com uma mensagem sua. Que a gente nunca mais vai tomar uma cerveja no bar e discutir sobre as aleatoriedades da vida. Que você nunca mais vai estar lá quando eu precisar. Nunca mais é muito tempo e eu ainda tô tentando aprender a lidar com essa dimensão temporal. Eu sei que a última coisa que você me prometeu é que você não morreria e eu te prometi que se isso acontecesse eu iria ficar bem. Você não cumpriu a sua promessa, nunca foi muito bom nisso, mas você sempre fez o que pôde. E eu ainda estou aqui trabalhando pra cumprir a minha. Logo você, que sempre atrasado para todo compromisso, acabou se adiantando pro seu último. E por aqui eu te mantenho vivo e lembro-te com carinho sempre que sinto o aroma de Portinari ao virar uma esquina, ou ouço uma música do Jorge Vercillo na rádio, ou tomo uma cerveja com meus amigos.
Sei que o seu único desejo era que eu fosse feliz, mas, até o momento, eu ainda estou te devendo essa. Mas algum dia - e eu espero que não tão distante de hoje - eu vou cumprir a minha promessa.