SĂŁo 2:33 da madrugada e eu jĂĄ perdi a conta de quantos bares atravessei. Eu queria estar bĂȘbado, daquele jeito ridĂculo e confortĂĄvel, anestesiado, igual o narrador de Clube da Luta depois que começa a frequentar grupos de apoio e finalmente consegue apagar como um nenĂ©m. Mas nĂŁo. Eu ainda sinto tudo. Cada coisa no seu lugar exato. Cada lembrança afiada.
A cerveja nĂŁo resolveu nada. NĂŁo apagou vocĂȘ, nĂŁo embaralhou meu corpo, nĂŁo diminuiu esse peso no peito. Ainda assim, eu gosto do gosto. Gosto da primeira engolida, do frio descendo pela garganta, da promessa mentirosa de que talvez dessa vez funcione. Mas o ĂĄlcool jĂĄ nĂŁo faz diferença em mim. Talvez eu tenha me acostumado a sobreviver assim: lĂșcido demais, sensĂvel demais, consciente demais de tudo que dĂłi. O problema Ă© que, mesmo assim, eu lembro. Lembro do seu cheiro. Do seu gosto. Daquela bendita maldita memĂłria que aparece sem pedir licença, inteira, como se fosse ontem. Como se vocĂȘ ainda estivesse aqui.
Tenho 29 anos. Vinte e nove. E carrego um amor que nunca foi meu, a porra de um amor platĂŽnico, palavra bonita pra uma coisa patĂ©tica. Eu deveria estar casado, ou pelo menos fingindo que sou feliz em alguma rotina morna, mas mal consigo passar um dia sem tropeçar em vocĂȘ dentro da minha cabeça. Ontem saĂ com uma mulher. Uma secretĂĄria que sempre esbarrava comigo no elevador, Ă s vezes no cafĂ© embaixo do prĂ©dio comercial. Nem lembro o nome dela, o que diz muito sobre mim. A gente bebeu, riu do nada, foi pra cama. E mesmo ali, com outro corpo, outro cheiro, outro som, era vocĂȘ que aparecia. Alguma coisa nela me lembrou vocĂȘ. E isso me deu vontade de ir embora no meio do ato. Que tipo de maldição Ă© essa? Transar com alguĂ©m e continuar vendo vocĂȘ por cima do ombro, no teto, no escuro?
Ă uma merda. Uma merda enorme. Eu nĂŁo consigo aceitar que vocĂȘ casou. Que tem um filho. Que mora longe, em outra vida, em outro mundo. Que me bloqueou de tudo como se o que a gente viveu, ou quase viveu, tivesse sido nada. Como se eu tivesse inventado tudo sozinho, sentado num bar qualquer, com um copo na mĂŁo e o coração aberto demais. DĂłi pensar que fui tĂŁo facilmente apagĂĄvel.
Eu fumo demais. Cigarro atrĂĄs de cigarro, como se cada um fosse levar embora um pedaço da sua voz. Eu entro em todos os bares, repito os mesmos caminhos, sento nas mesmas mesas, numa tentativa desesperada de esquecer o jeito que vocĂȘ falava meu nome, o gosto da sua boca, a forma como vocĂȘ ocupava o espaço sem esforço nenhum. Nada funciona. Nada. E isso Ă© o pior: saber que estou tentando e falhando.
Ăs vezes me pego imaginando se um dia a gente vai se encontrar por acaso. Num cafĂ© de esquina, desses pequenos, meio escondidos, onde ninguĂ©m presta muita atenção em ninguĂ©m. VocĂȘ talvez com pressa, eu fingindo que estou bem. Um âoiâ atravessado, um silĂȘncio pesado, aquele segundo em que tudo o que nunca foi dito grita. NĂŁo sei se eu teria coragem de ficar. NĂŁo sei se eu iria embora. SĂł sei que, se esse dia existir, ele vai me quebrar de novo.
SĂŁo 2:33 da madrugada. A cidade continua respirando e eu continuo acordado. NĂŁo estou bĂȘbado, nĂŁo estou bem, nĂŁo estou livre de vocĂȘ. E talvez nunca esteja.