a menina já não chorava, mas o rosto desvelava a carga descomunal de seus ombros, tão contrastante com seu tamanho diminuto. abracei-a mais forte. queria dizer tantas coisas, eu sinto tanto, menina, tanto, que não posso tirá-la daqui, queria tanto tirá-la daqui, mas meu poder de mudar a sua sina é tão ilusório quanto o de mudar o meu passado, não tenho como, te abraço forte, mas não tenho como. aonde esteve esse tempo todo, ela diz, e também me pergunto pois na realidade nem sei, tanto tempo de dor desintegrando essa menina e eu andando em outras bandas, não sei, o importante é que agora me tens, menina, agora estou aqui, aqui, aqui com você. queria que o futuro lhe reservasse a resposta de todas as suas perguntas, queria ter como responder todas as perguntas, porque comigo, o que ele quer comigo, porque eu preciso passar por isso, você não pode me tirar daqui? não posso, e outro tijolo se posiciona em seus ombros, não fui eu que o pus ali, mas também não posso tirar, só posso abraçá-la, não irei a lugar algum. o mundo não vai te responder, menina. no máximo te presenteará com algumas novas perguntas.
é aquele choro que contorce seu rosto num pulso involuntário e violento, aquele choro feio, cru, da necrose que nos come por dentro colocando o nariz verruguento pra fora e ali está, tudo que você não queria que ninguém visse estampado na sua cara. é esse choro que me vem, ultrapassa as barreiras da minha garganta e toma todo o meu corpo, de repente a dor entra por debaixo das minhas unhas e eu acho que vou morrer. mas preciso protegê-la, então não morro. o mundo não vai responder suas perguntas, menina. não vai. eu sei. você vai deixar grande parte de você pra trás pra sobreviver e vai passar a próxima década procurando os caquinhos, assombrada pelo fantasma dele. você vai se proteger porque você é muito forte, mas vai fazer isso sem pensar muito e cometer alguns erros de estratégia, soluço, estou soluçando bastante, ela aqui sem chorar me olhando com essa cara de gente grande e eu chorando, mas quem sabe do futuro dela sou eu, então continuo falando. você vai colocar esse dia, esse mês, esse ano numa térra inóspita de ninguém e seus próximos tempos serão essa confusão entre o que é pra enterrar e o que você gostaria por favor que a vida te devolvesse de você mesma. é como aquele jogo das baratas dos parques infantis, você está lá com seu martelo batendo na cabeça das baratinhas que saem do buraco, uma atrás da outra, só devolvendo pra dentro, e você é boa nisso, até que de repente sai um pedaço de chocolate de um dos buracos e você bate sem querer e é um tempão de esforço perdido, estou falando em metáforas, será que uma menina de treze anos entende metáforas? o que quero dizer é que eu escolhi hoje, escolhi hoje e agora pra aparecer e passar por isso com você porque hoje é o dia que você criou sua caixa-forte, essa caixinha em que você decidiu colocar esse dia e enfiar debaixo da sua cama. ela vai crescer, vai virar um cofre anti-fantasmas que daqui a uns anos vai parar de funcionar, porque os fantasmas são muito inteligentes e descobriram uns buracos embaixo da porta. pode ter medo, menina, eu também tenho medo, eu ainda tenho medo. eu queria ter notícias melhores para te dar.
os anos vão se arrastar e você vai empurrando seu cofre, ele vai ficando pesado mas você não tem outra escolha, você jogou a chave fora, menina. você vai empurrar até não dar mais, até se acumularem todas as outras coisas que ainda vão te acontecer e ficar pesado demais, e aí você vai cair, e essa vai ser a fase mais assustadora da sua vida, mais ainda que agora. ela treme e é o primeiro momento em que alguma emoção além da dor aparece em seus olhos, ela está ficando com raiva. claro que está, estou lhe tirando toda a esperança minguada que restava, mas não tenho escolha, eu não tenho nenhuma escolha sobre nada que está acontecendo, a não ser a escolha de estar aqui, então eu fico. eu fico e continuo falando. está doendo, ela diz, está doendo muito e eu não quero mais ouvir, me abraça mais forte, abraço, mas continuo falando. você vai cair mais alto do que está caindo agora. porque vai ficar tudo incerto. até esse momento vai ficar incerto. até esse abraço vai ficar incerto, eu acho, porque na verdade esse abraço é a parte que é novidade pra mim. esse abraço é porque vai chegar uma hora em que você abrir o cofre. você vai abrir, em pânico, hesitante, incerta, querendo sair correndo, mas você vai abrir e vai entrar e vai encontrar esse dia e vai encontrar a si mesma, doze anos mais nova, no dia que precisou se conformar com o que estava passando para sobreviver. e a dor que você está sentindo agora vai voltar, mais forte, depois de doze anos de maturação, uma dor velha e cortante querendo se vingar de tanto tempo de clausura. e mesmo assim você não vai morrer, porque você precisa proteger a si mesma.
ele está voltando, ela diz, e ele está mesmo, nosso tempo está acabando, não poderei mais falar, não vou fingir que está tudo bem. não está. não é pra isso que vim repovoar essas lembranças com a versão mais velha de mim mesma, não vim salvar a menina de treze anos das garras do homem tão maior, tão mais velho, tão sádico e podre, eu não posso fazer isso porque não posso mudar quem eu fui. mas posso prometer, eu prometo, menina, eu prometo que vai chegar o dia em que as coisas estarão melhores, eu prometo que você não estará mais com ele na caixa-forte, eu vou derretê-la com um maçarico gigante e você vai poder morar junto com o resto das minhas lembranças, onde a dor vai deixar de te atormentar. eu prometo, digo a ela, eu prometo. nenhuma de nós duas vai precisar voltar a estar aqui nunca mais.
ele chega, e ela fecha os olhos, meu braço já não a alcança, não posso protegê-la disso, me desculpe, menina, me desculpe pelo tamanho da sua dor, me desculpe pelo tamanho da minha. ela estende os dedos pequeninos e envolve a minha mão. nenhuma de nós está mais sozinha.