TĂtulo: CLT depressiva vira Agro girl.
CapĂtulo 1- Stressed out.
(Adendo especial de que #^%#%@ ou ***** ou qualquer coisa assim nĂŁo ĂŠ palavrĂŁo, ĂŠ sĂł a minha incapacidade de escolher nomes.)
Encarava o teto acinzentado, vendo os pontos pretos se moverem...Se eram aranhas ou moscas flutuantes? NĂŁo tinha certeza. JĂĄ fazia 5 minutos que o alarme tocava, deveria levantar, mas...Sentia-se tĂŁo cansada quanto no momento em que se deitou.
Passou as mãos pelo seu rosto, precisava sair dali. Não havia opção. Levante-se, *******. Pensava consigo mesma, tentando forçar seu cÊrebro a movimentar aquele corpo moribundo, o barulho infernal do alarme sendo um incentivo extra.
Respirou fundo e tomou um impulso, sentando-se na cama. Com uma mão coçando os olhos, desligou o alarme; por mais que o que quisesse mesmo era jogå-lo contra a parede, vendo aquela måquina infeliz se despedaçar em diversos pedacinhos.
Estando sentada, ficar em pĂŠ jĂĄ era mais fĂĄcil. Seus mĂşsculos doĂam enquanto seus pĂŠs sentiam o gelado do chĂŁo, andava de maneira automĂĄtica para o minĂşsculo banheiro.
NĂŁo hĂĄ muita necessidade de detalhar sua rotina banheral (banheirĂstica?) atĂŠ o momento do banho. Respirou fundo ao entrar no box e ligou a ĂĄgua, tinha que fazer que nem esparadrapo; assim entrou debaixo de uma vez. A ĂĄgua gelada sĂł faltava congelar seus ossos, mas a acordou de vez.
Ensaboou-se o mais rĂĄpido que dava, nĂŁo duvidaria nada de que ficaria com alguma hipotermia caso ficasse mais alguns minutos ali debaixo. Quando terminou, fez questĂŁo de se enrolar na toalha o mais rĂĄpido que dava. A toalha era rĂspida, arranhando sua pele. Nem parecia ser feita de tecido e sim de palha de aço.
Os próximos passos foram mais råpidos. Em alguns minutos, colocou parte de seu uniforme, com exceção da blusa, para não sujå-la. Trabalha trancada dentro de um escritório e ainda tinha que usar uniforme, nunca compreendeu essa lógica.
Foi atĂŠ a cozinha, os armĂĄrios tragicamente vazios jĂĄ chegavam a ter teias de aranha, definitivamente precisava limpar o apartamento algum dia. O problema ĂŠ que, quando finalmente tinha tempo livre, hibernava atĂŠ o prĂłxima manhĂŁ.
Esquentou um pouco d'ĂĄgua e derramou sobre um coador de cafĂŠ. Aquele cheiro deveria lhe trazer alguma alegria, mas sĂł sentia nĂĄusea ao senti-lo. Pegou a caneca quente, respirou fundo e meteu para dentro. Era amargo e descia queimando sua garganta, mas lhe acordava ainda mais.
Com a cafeĂna em seu corpo, pegou as Ăşltimas duas torradas e as comeu rapidamente. Agora, escovar os dentes. Escovou rapidamente seus dentes amarelados, nĂŁo conseguindo evitar seu reflexo no espelho rachado.
Suas olheiras a faziam parecer mais um guaxinim do que um ser humano, alĂŠm daqueles olhos tom de musgo e caĂdos, como se estivesse sempre triste (o que nĂŁo fugia tanto assim da realidade), seus ossos marcados em seu rosto quase sem carne, seu cabelo escuro Ăşmido embolado que escorriam em sua pele. Sabia que poderia ser bonita caso se cuidasse mais...entretanto, como quase tudo em sua vida. Ela ĂŠ um potencial desperdiçado.
Quando terminou de escovar apenas passou um pente para abaixar a juba e o prendeu. Colocou a blusa, um perfuminho e pronto. Desligou o gĂĄs, checou se realmente tinha fechado as janelas, pegou sua mochila (maleta?), crachĂĄ, trancou a porta e foi para o ponto.
O ponto de metrĂ´ nĂŁo era longe; apenas uns 7 minutos andando rĂĄpido. Chegando lĂĄ jĂĄ estava lotado, uma fila de gente que pareciam tĂŁo alegres quanto a sua prĂłpria pessoa por estarem ali tĂŁo cedo.
O homem na sua frente fumava, a fumaça entrando diretamente nos seus ĂĄtrios. Tossiu algumas vezes em uma tentativa de bom senso, mas foi uma missĂŁo fracassada. Se ele notou nĂŁo deu a mĂnima.
O metrĂ´ (como sempre) atrasou cerca de 20 minutos, atĂŠ menos do que o usual. Tentou entrar lĂĄ dentro com a multidĂŁo e ali se iniciava os jogos vorazes, nĂŁo havia misericĂłrdia na luta pelos lugares.
Com sua sorte de milhĂľes acabou em pĂŠ. Sentia como se estivesse em uma lata de sardinhas; quanto mais pontos passavam mais apertado ficava, alĂŠm de fedorento. O homem ao seu lado parecia nĂŁo conhecer a palavra desodorante.
SĂł foi liberada de sua tortura cerca de 1h50min depois. Agora era uma pequena caminhada, ou melhor, corrida de 25 minutos atĂŠ a empresa. Esse era seu exercĂcio diĂĄrio.
A caminhada era ao som de Britney; tinha medo de ser assaltada, assassinada ou algo assim, mas o silĂŞncio estando 100% acordada era ainda mais perturbador, sua mente ĂŠ uma constante inimiga que ama a lembrar de sua misĂŠria.
Entrou dentro do prĂŠdio, lĂĄ dentro sentiu o frescor do ar condicionado. Caso pudesse ficaria ali parada por alguns minutos. Na portaria tinha Tom, que compartilhava de sua mesma felicidade de estar acordado nessa hora da manhĂŁ. Murmurou um bom dia para ele, que foi respondido com um aceno do mesmo, e entrou.
A subida no elevador rĂĄpida, sĂł tinha mais um rapaz do 4 andar -Carlos? Caique ? Caio? Ca alguma coisa- que conversava no celular. Acenou para ele que apenas ignorou. Ele falava sobre algo da empresa, porĂŠm como ainda nĂŁo tinha tirado o fone, nĂŁo entendeu muito bem.
NĂŁo demorou muito e a porta abriu em seu andar, o terceiro. Guardou o fone, respirou fundo, sentindo o cheiro forte atĂŠ demais do perfume de alguĂŠm, provavelmente Giulia, ela sempre parece ter jogado o vidro inteiro de perfume no corpo antes de chegar.
Entrou no andar. Entretanto, apesar do cheiro forte, lĂĄ parecia mais um enterro. O que raios aconteceu ali? SĂł chegou meia hora atrasada, porĂŠm alguma coisa aconteceu.
Marcou o ponto e foi para a sua cadeira, dando um leve toque no ombro de Andreia.
--*******, Oi! Ela dĂĄ um pequeno sorriso educado, enquanto abaixava o fone.
--Oi, uh... o que diabos aconteceu? Aqui estĂĄ parecendo um enterro.
Ela empalidece um pouco, engolindo seco, seus dedos começaram a batucar a mesa.
--Ah... bem, o Sr. $%#%@% avisou para todo mundo que haverĂĄ cortes e... e ele vai precisar... Uh...'redimensionar para a rua' algumas pessoas; se ĂŠ que vocĂŞ me entende. Ela diz, ainda tentando dar um sorriso amarelo. --Mas vai dar tudo certo...
E educadamente voltou para fazer outra chamada... Merda, merda, merda, merda, merda, merda, merda. Com a sua sorte de milhĂľes... merda. Estava ferrada, para dizer o mĂnimo.
Respirou bem fundo, respira por 4, prende por 4... ou era 6, e solta por 4. Pode ser que não fossem demiti-la, e seria bom não dar razão para isso. Logo começou a trabalhar.
Seu papel era cobrar dĂvidas; traduzindo? Um inferno disfarçado de trabalho. As pessoas ignoravam, contavam histĂłrias tristes, xingavam, ameaçavam... atĂŠ tĂŞm umas descentes; mas nĂŁo tĂŞm essa sorte de pegar os nĂŁo caloteiros.
Hoje não foi muito diferente. Teve que ouvir um homem cujos gritos atÊ a deixaram meio surda, que a chamou de tantos nomes que provavelmente iria vencer o bingo de xingamentos levados da semana. Depois tentou ligar para uma senhora que aparentemente deu o número errado. Após isso, veio uma outra moça que contou uma história lamentåvel, digna de livro.
 ApĂłs um tempo trabalhando assim, essas histĂłrias nem a afetavam mais... pelo menos era o que dizia para si mesma. Quando chegou a hora do almoço, nunca imaginou que iria torcer para voltar a trabalhar. No momento em que se sentou para comer seu humilde sanduĂche, a perspectiva de ser chutada para fora voltou Ă sua mente.Â
Seu pĂŠ inconscientemente batia contra o chĂŁo, enquanto mastigava sem sentir o sabor... nĂŁo que fosse muito gostoso mesmo, pĂŁo com uma margarina de qualidade questionĂĄvel. E se fosse demitida? CĂŠus, provavelmente iria morar debaixo da ponte, morrer de fome e seu corpo seria devorado por ratos.
Sentia cada vez mais como se tivesse engolido uma bola de sinuca, dificultando engolir o sanduĂche. Seu coração parecia que tinha alguĂŠm o apertando, serĂĄ que teria um infarto? Do jeito que estĂĄ, uma morte rĂĄpida seria bem vinda.
Acabou deixando o almoço pela metade, voltando para o seu lugar. Queria conversar, mas Andreia sempre saĂa para almoçar fora, o namorado dela tem uma vendinha de lanches ou algo assim.
As pessoas ao redor tambĂŠm estavam tensas, porĂŠm mais presas as prĂłprias panelas ou em suas mentes...talvez no mĂĄximo Giulia e Rodrigo quisessem, mas nĂŁo conseguia falar com a Giulia sem sufocar lentamente, nem com Rodrigo sem ter ela por perto.
Assim pela primeira vez no sÊculo, trabalhou durante o resto da sua meia hora de almoço. O resto do dia foi nesse ritmo de perigo a qualquer momento.
Seu coração batia rapidamente, como se estivesse no meio do mato e a qualquer momento um bicho podia a pegar. A única diferença era que o mato era seu escritório e o bicho, seu chefe. Mas em ambos os casos, muito provavelmente terminaria morta no final, ou de morte matada ou de fome na rua.
PorÊm, conforme o dia foi chegando ao final com mais ligaçþes; contudo sem nenhuma fora do normal, começou a sentir que talvez, apenas talvez, a demissão fosse em outro andar, ou em outra årea que não fosse telemarketing. Quem o desgraçado do $%#%@% só estivesse fazendo medo.
Seu tempo terminou, arrumou suas coisas e lavantou-se com sua bolsa. NinguĂŠm havia sido chamado, nem falaram mais nada...talvez, tudo desse certo. Muito provavelmente apenas ficou ansiosa atoa e-
--Srta. **********, antes de sair, poderĂamos conversar em minha sala?