Charllie e Brendan - Borstal Boy - 1999
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Charllie e Brendan - Borstal Boy - 1999

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Se você soubesse que o amor da sua vida morreu durante a guerra, o que faria? Essa foi a reação de Brendan ao saber que seu grande amor Charllie morrer.
Charllie e Brendan - Borstal Boy - 1999

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Estou quebrado, disperso em pedaços no chĂŁo, nĂŁo sobrou nem um terço do homem que já fui. Eu, que antes encontrava abrigo nos livros, que passava horas em conversas profundas e escrita, hoje mal me reconheço no espelho. Virei a sombra de um tempo que se perdeu. Há dias arrasto essa existĂŞncia sem norte, carregando um esgotamento que paralisa o corpo. Isso nĂŁo Ă© uma melancolia barata ou um drama passageiro, Ă© a exaustĂŁo real de uma alma que saturou da dor. Cancelei os planos e parei de dar ouvidos Ă s promessas vazias que o mundo insiste em fazer. Desistir, afinal, Ă© apenas interromper uma jornada, mas o cansar Ă© muito pior: Ă© o esvaziamento completo. É o desejo latente de que o silĂŞncio absoluto apague o ruĂdo desse peito cansado de lutar. Permaneço no meu canto, recolhido e sem forças, esperando o tempo necessário para refazer o meu chĂŁo. — Robertyman. R
“Gentileza, cuidado e afeto são coisas que deveriam ser uma linguagem universal, mas ainda parecem dialetos raros em um mundo que desaprendeu a sentir.”
Nebulento.
Há dias em que o céu parece um teto de chumbo, frio e mudo, Onde a doença, o golpe e a perda levam quase tudo. A alma se sente esquecida, um barco à deriva no breu, Questionando o silêncio de quem um dia nos prometeu. Eu sei das minhas falhas, sou barro, sou humano, sou pó, Caminhando entre processos, sentindo o aperto do nó. Mas quando a angústia me cega e o deserto parece não ter fim, Eu fecho os olhos e busco o que ainda vive dentro de mim. Ali, no altar do peito, a fumaça branca volta a subir, E a voz do Vovô me ensina o que eu preciso ouvir: "Filho, sossega o passo, o tempo do alto não é o teu, O que é teu te encontra, no relógio que o Céu escreveu." Com a calma de quem curou feridas com o próprio suor, Ele diz: "Deus não derruba quem não pode levantar melhor. Se a queda foi grande, é porque o destino é ser gigante, Dez vezes mais forte, dez vezes mais firme e brilhante." "Confia," ele sopra, "pois a dúvida é o vento que quer te parar, Mas só quem mantém a fé é quem consegue o mar atravessar. O Céu não esquece quem Ele está lapidando no chão, A dor de agora é o alicerce da tua nova construção." — Robertyman. R
Aprendi a duras penas, sob o açoite do engano, Que nem todo riso largo é abrigo do ser humano. Eu, que sempre fui afeto, compaixão e mão estendida, Vi meu brilho ser escárnio na plateia da própria vida. Dói admitir o avesso: que a bondade, por vezes, irrita, E que o ódio se disfarça na face de quem nos imita. A maioria não quer o mel que a gente tem para ofertar; Querem ver a estrutura ruir, o castelo desmoronar. Mas no silêncio do terreiro, a fumaça do cachimbo desenhou, A voz do Preto Velho, que em meu peito assim falou: "Fio, firme o ponto e vigie, não entregue o seu tesouro, Pois nem todo brilho no olho é reflexo de um ouro." "Aprenda," disse o velho, com a calma de quem tudo viu, "Que o coração do maldoso é como um rio que faliu. Nem toda palavra lançada é oração de proteção, E nem todo sorriso no rosto é sinal de afeição." Hoje eu guardo o meu carinho para quem sabe receber, Pois vigiar a própria alma é o segredo pra não morrer. — Robertyman. R

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Eu já fui o verbo aceso, a mesa farta e o gesto aberto, Transbordava em palavras o amor que eu trazia por perto. Era fala que abraçava, era o riso que se dava inteiro, Sem saber que nem todo hĂłspede Ă©, de fato, companheiro. Mas o tempo, esse mestre severo de olhos atentos, Mostrou que nem todos habitam a paz dos nossos aposentos. Descobri que o abraço que eu dava, por vezes, sufocava o outro, E que o veneno corria solto quando eu já nĂŁo era o porto. Hoje, habito o meu canto. Prefiro as pálpebras caĂdas e o fĂ´lego guardado, Observando a cena, mantendo o meu mundo blindado. Aprendi da forma mais dura, no corte seco da ferida: Muitos amam o seu silĂŞncio, mas poucos suportam sua vida. Se antes eu era o grito que buscava o pertencimento, Hoje sou a escuta que entende o valor do isolamento. Pois quem muito fala, se expõe ao açoite da maioria, E quem se cala, preserva a prĂłpria luz na travessia. — Robertyman. R
Trecho do Livro: "Ele Ă© Primavera"
A festa já estava rolando por algumas horas; jovens adultos dançando e circulando ao som de uma banda genĂ©rica que a nova diretora havia contratado. Todas as vezes que meu olhar procurava por Gabriel Shaw, eu o encontrava dançando — Ă s vezes com uma garota negra que eu nunca havia visto no colĂ©gio, outras vezes com Ian, Anny e atĂ© mesmo com Sean, que havia resolvido dar as caras ali. Ele estava cercado tambĂ©m pelos demais meninos do time de basquete do qual já fizera parte. Todos sorriam, e era nĂtido que a alegria de Shaw era contagiante.
Perto da hora de anunciar quem, de fato, havia ganhado a coroa de rei e rainha do baile, Ian e os meninos do time de basquete foram para perto do palco para apoiar Anny. Eu também me aproximei e pude ver que Sean e a garota que eu não conhecia estavam de mãos dadas, conversando com Ian. Gabriel estava meio afastado, sentado em uma cadeira; acho que ele não queria me ver de perto, e eu não podia culpá-lo por isso.
A diretora do colégio subiu, então, ao palco para anunciar os vencedores.
— Atenção, formandos do NOHS de 1994! É com muito orgulho e, como já era previsto, que comunico a vocês que o Rei do Baile é Benjamin Franklin e a Rainha é Anny Lisbon. Subam aqui para pegar suas coroas e fazer o discurso de vitória — concluiu a diretora.
Anny foi a primeira a discursar. Ela falou da importância de se ter amigos e do privilégio que teve de conhecer pessoas maravilhosas; dizia isso olhando para Ian. Eu busquei Gabriel com o olhar novamente e o vi de pé, ao lado de James e Dave, afastado do povo, mas bem no centro da quadra, onde ele tinha uma visão clara de mim e eu podia vê-lo por completo. Quando peguei o microfone para falar, James e Dave se afastaram dele, deixando-o sozinho naquele local.
— Eu só tenho a agradecer a todos. Ser o rei do baile é... — Todos já estavam batendo palmas e assoviando para mim; inclusive Shaw batia palmas discretamente e com um sorriso. Mesmo depois de tudo, ele ainda estava ali, feliz por mim. — Eu quero dedicar...
Não consegui concluir o que estava falando, pois um barulho estrondoso foi ouvido e uma espécie de suco vermelho caiu do teto bem no local onde Gabriel estava. Ele ficou encharcado e, por um momento, pareceu não acreditar no que estava acontecendo no dia de sua formatura.
Todos ali pareciam chocados. Olhei para um canto e vi James e Dave sorrindo vitoriosos; mais uma vez, eles haviam conseguido humilhar Shaw. Gabriel, no entanto, provou ali na frente de todos o quanto era forte: de cabeça baixa, deu um suspiro e, logo após, ergueu o rosto com um sorriso ainda mais aberto. Olhou para Ian e Sean, que já iam ao seu encontro, e fez um gesto negativo com a cabeça. Os meninos pararam.
— A noite nĂŁo Ă© minha, e eu nĂŁo vou fazer com que seja sobre mim — ele começou a falar, para que todo mundo ouvisse. — Hoje Ă© sobre nĂłs, nossa formatura e nossos sonhos. E hoje, duas pessoas de quem eu gosto muito estĂŁo comemorando um tĂtulo. Benjamin, continue seu discurso.
Naquele momento, todos se voltaram para mim novamente. Anny, que estava ao meu lado, sussurrou em meu ouvido:
— Isso é coragem, Benjamin. Está na hora de deixar sua covardia de lado, não acha?
Eu suspirei fundo e levei o microfone Ă boca.
— James e Dave, meus "melhores amigos"... vocĂŞs estĂŁo prestes a completar dezoito anos e ainda agem como se tivessem doze. Eu tenho tanta vergonha de vocĂŞs. Sempre achei que vocĂŞs eram bons e que tudo o que fizeram atĂ© aqui era algum tipo de fase ou de ciĂşme maluco. Mas nĂŁo; vocĂŞs sĂŁo escrotos mesmo. SĂŁo egoĂstas a ponto de tentar estragar a festa de quem nĂŁo está nem aĂ para a existĂŞncia de vocĂŞs. SĂŁo mesquinhos a ponto de estragar esta festa que estava linda para todos nĂłs. — Olhei profundamente para aqueles que chamei de amigos desde a prĂ©-escola e pude, finalmente, enxergá-los como sempre foram. — Mas eu estou cortando laços com vocĂŞs aqui. NĂŁo quero desculpas, pedido de perdĂŁo ou redenção; sĂł quero distância.
Havia chegado a hora. O momento de fazer algo que eu devia ter feito há muito tempo. Aquele era o instante e o lugar necessários para eu aprender que a covardia não gera felicidade. Olhei para ele; olhei nos olhos dele e, mesmo com o cabelo molhado e as roupas encharcadas de suco, seus olhos brilhavam como se fossem dois faróis apontando para um cais.
— Ontem, na comissão de avaliação, a senhora me perguntou, diretora, o que eu queria para minha vida e o que eu aprendi aqui no colégio. Bem, eu disse que não tinha uma resposta certa, mas eu tenho. — Falava olhando para a diretora, mas, no exato momento da resposta, virei-me para ele: — Aprendi muito sobre matemática, ciências e biologia. Aprendi também a ser o melhor jogador de futebol americano que posso ser. Porém, a melhor coisa que aprendi aqui foi a amar. Esse amor me ensinou que sentimentos requerem coragem. Coragem de enfrentar xingamentos, socos, piadas de mau gosto e até banhos de suco. Aprendi que o amor não combina com covardia; aprendi que, para ser a gente mesmo e amar quem a gente ama, é preciso ser forte. Agora, estou olhando para quem me ensinou tudo isso. Estou olhando para quem me ensinou o que de fato é o amor — ou, pelo menos, no auge dos meus quase dezoito anos, o que eu acho que ele seja. Estou olhando para a pessoa que, mesmo depois de ser humilhada, está olhando para mim e sorrindo.
Estendi a coroa que agora segurava para que a diretora a pegasse antes de encerrar minha fala.
— Agora, eu vou descer deste palco e pegar o maior prêmio que este colégio poderia me dar. Sobre o que eu quero para a minha vida... bem, eu quero encher a minha vida de Gabriel Shaw, pois eu o amo.
Todos ficaram me olhando descer e, sem me importar com mais nada, eu o beijei. Beijei Shaw ali na frente de todos: colegas, amigos, inimigos, professores e de quem mais quisesse assistir. Ao terminar o beijo, ele me convidou para sair daquele lugar e assim eu, ele, Ian, Anny, Sean e a namorada dele fomos para o bar dos pais de Gabriel, deixando um monte de alunos surpresos em um baile de formatura que, tenho certeza, havia ficado totalmente sem graça. Naquele bar, localizado no número cinquenta da Bourbon Street, Shaw e eu dançamos a noite toda.
Autor: Robertyman R. | CapĂtulo: O Baile de Formatura
Trecho do Livro: "Ele Ă© Primavera"
Se Gabriel nĂŁo era a pessoa que gostava de pressionar, Ian, o melhor amigo dele, era exatamente quem faria com que eu caĂsse na real e deixasse de esperar que toda a minha vida passasse antes de ser feliz com Shaw. Eu sei que ele nĂŁo estava fazendo aquilo por mim; afinal, tenho plena certeza de que, se pudesse, ele me apagaria da vida de seu melhor amigo, tal como se apaga o trecho ruim de um livro. Contudo, naquele dia, naquele banheiro do colĂ©gio, ele estava disposto a abrir meus olhos ou, finalmente, dar um basta na minha participação na vida de Gabriel Shaw.
Ian adentrou o banheiro como um furacão que sabia exatamente qual era sua missão. Ele checou cada cabine para ter a certeza de que não havia mais ninguém ali e, enquanto eu o observava sem entender nada, ele segurou a gola da minha camiseta e me jogou contra a parede, começando a falar:
— Chega! Eu estou cansado, Benjamin. Já sĂŁo trĂŞs anos assistindo vocĂŞ vir encher o coração do Gabriel de esperança e, em um piscar de olhos, levar toda essa esperança para debaixo do mar mais profundo — o garoto falou, e eu pude sentir o cansaço e a decepção em cada palavra que saĂa de sua boca.
— Mas Ian, você não entende o que está em jogo para mim? — questionei, já imaginando a resposta.
— Eu entendo, sim. A verdade é que eu poderia até respeitar sua decisão, mas o problema é justamente este: você não toma uma decisão! — Nesse momento, ele me soltou. — Você já se acostumou a brincar com o Shaw e depois pedir desculpas com uma dúzia de violetas azuis, pois sabe que ele te ama e vai te perdoar ao seu primeiro sorriso torto.
— Mas... — Eu ia começar a falar quando ouvi um soco sendo desferido contra uma das portas das cabines.
— Não fode, Benjamin! Sem essa de "mas"... Mas meus amigos, meus pais, minha carreira... tudo é mais importante que o Gabriel! — Ian deu um longo suspiro e limpou a própria mão, que estava vermelha pelo impacto. — Você tem uma vida cheia de pessoas e coisas, mas nenhuma dessas pessoas ou coisas inclui meu melhor amigo. Por que você ainda tenta se aproximar dele, se nem sequer um "puxadinho" da sua grandiosa vida você pode dedicar a ele?
— Eu... eu não sei te responder isso — falei de cabeça baixa.
— Se você vai mentir para si mesmo, eu não me importo. Mas, quando for mentir para mim, pelo menos seja homem o bastante para olhar no meu rosto. — Quando levantei a cabeça e o encarei, fazendo menção de dizer algo, fui interrompido novamente: — Você é covarde. E é por isso que você nunca vai ficar com o Gabriel, porque covardia é um defeito que meu amigo nunca teve. Ele prefere ser xingado, levar suco na cara por três anos consecutivos e até mesmo ser espancado, como ele foi, do que ceder à covardia.
As lágrimas, mesmo a contragosto, começaram a cair e a dançar pelo meu rosto como se estivessem em uma grande festa fúnebre. Eu sabia que cada palavra dita era a mais dura verdade. Mas ele não tinha terminado; Ian havia guardado as palavras que iriam me destruir para o final.
— Eu conheço o Gabriel há mais de sete anos e com ele aprendi a ser mais compreensivo. Eu posso até entender a sua covardia, de verdade, mas, por favor, já chega de arrastar o meu amigo para os seus rompantes passageiros de coragem. Pode ser covarde o resto de sua vida, eu não me importo. Só não deixe mais que a sua covardia sem limites brinque com o coração dele.
Quando o melhor amigo de Gabriel Shaw terminou de falar e saiu, deixando-me ali, já não havia em meu corpo mais lágrimas para chorar. Apenas fiquei encarando minha própria face naquele espelho sujo do banheiro.
Autor: Robertyman R. | CapĂtulo: O Baile de Formatura
Trecho do Livro: "Ele Ă© Primavera"
Mesmo apĂłs as várias tentativas de alunos, professores e atĂ© mesmo do diretor do colĂ©gio de impedir que Gabriel Shaw ocupasse aquele espaço, ele conseguiu: o jovem caçula da famĂlia Shaw estava se formando. Faltavam dois dias para o grande Baile de Inverno e os preparativos estavam a todo vapor.
De longe, eu sempre o observava. Quase sempre ele estava sorrindo, porém, em raras vezes, parecia demonstrar um certo cansaço, uma certa dor. Em um desses momentos, em que ele estava só e com um semblante não tão alegre, criei coragem para me aproximar e falar com ele.
— Oi, Gabriel — disse, tĂmido, ao me aproximar.
— Benjamin, tudo bem? — Ele me respondeu sem mudar o semblante, o que era estranho, pois, em todas as vezes que ele olhava para mim, seu rosto se enchia de luz.
— Eu estou bem, mas você não parece estar, Shaw.
— Por favor, não! — Ele falou de maneira suplicante. Eu apenas o olhei sem entender nada, pois realmente não havia feito ou falado nada demais.
— NĂŁo o quĂŞ? Eu nĂŁo entendo, Shaw! — Falei, e meu semblante confuso era visĂvel.
— Você sempre chega assim, de mansinho, me chama de "Shaw", depois fala que gosta de mim e que vai mudar, que não vai mais ter medo nem vergonha dos seus sentimentos... mas, no fim das contas, você me deixa de mãos abanando, sem você para segurá-las. Benjamin, eu estou cansado disso. Por favor, ao menos desta vez, ao menos nestes dois dias, não faça isso comigo. — O garoto em minha frente deu um longo suspiro antes de continuar: — Porque, Ben, se você me chamar, eu vou. Eu esqueço tudo o que você me fez passar nestes últimos três anos, eu vou, Benjamin, e passo por tudo outra vez. Mas, por favor, vá ser o rei do baile e me deixe ser só o Gabriel, desta vez.
Eu poderia abraçá-lo ali e gritar para todo o colĂ©gio ouvir que eu gostava daquele garoto que possuĂa o brilho da primavera nos olhos. Eu poderia encher o rosto dele de beijos e correr de mĂŁos dadas, mandando todo mundo daquele colĂ©gio para o raio que os parta. PorĂ©m, mais uma vez, eu o deixei ali, com um olhar mergulhado na decepção.
O que eu poderia ter feito? Eu era o capitão do time, seria o rei do baile e tinha um futuro brilhante; como eu poderia largar tudo isso por um simples amor de colégio? No fundo, eu sabia desde o primeiro momento que Gabriel não era "só" um amor de colégio. Ele foi quem encheu de alegria todos os meus dias no New Orleans High School. Contudo, naquele momento, lá estava eu roubando toda a alegria do olhar dele, mais uma vez.
Eu iria fazer dezoito anos na próxima semana e ainda não tinha vivido o suficiente para saber como é ter um amor para a vida toda. Porém, Shaw se parecia muito com aquelas pessoas que eu via em filmes ou sobre as quais lia em livros de romance. Gabriel Shaw se parecia muito com o lar que o coração das pessoas escolhe para viver, e eu sentia que, talvez, meu coração o tivesse escolhido como morada.
Antes de perceber que o estava perdendo de vista novamente, olhei para trás. Ele ainda estava lá, vendo-me afastar pela, sei lá, quinquagésima vez. Sei que, no fundo, ele queria vir atrás de mim, me sacudir e gritar que ele era a pessoa de quem eu gostava e que eu era um covarde. Mas ele não o fez. Gabriel Shaw era bom demais para isso. Bom demais para mim.
Autor: Robertyman R. | CapĂtulo: O Baile de Formatura

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Trecho do Livro: "Ele Ă© Primavera"
— Perdão, meu filho. Seu velho pai precisou quase perder você, sua irmã e sua mãe só para chegar à conclusão de que nem sempre a vida que planejamos para os nossos filhos é a vida que os faz felizes.
Meu pai falava agora na frente de todos, tĂŁo emocionado como eu jamais o havia visto.
— Perdoe seu velho pai por tentar, tentar e tentar fazer você deixar de ser você para ser uma cópia minha. Perdoe seu velho pai por muitas vezes fazer sua mãe ficar contra você. Eu não conseguiria listar aqui todas as coisas pelas quais devo lhe pedir perdão.
— Pai, não precisa... — tentei falar com ele.
— Deixe-me terminar, filho. Eu não vou dizer que entendo ou que compreendo tudo isso, porque eu estaria mentindo. Todavia, apesar de não parecer, eu entendo de amor. E, filho, há quanto tempo eu não o via sorrindo como o vi hoje? Benjamin, eu não vou dizer que já estou cem por cento de acordo com isso, mas posso afirmar que nunca vi ninguém lhe olhar como o Gabriel o olha desde a época do colégio. Eu estou velho, contudo, ainda não estou tão velho a ponto de não poder aprender ou mudar — com o tempo, claro. Gabriel, você me disse anteontem que não estava querendo o meu convite para os almoços de domingo lá em casa, mas veja: minha esposa, minha filha e meu filho aprenderam a conviver e a respeitar você, e principalmente a relação de vocês dois. Se eles conseguiram, eu acho que também posso. Não digo que será rápido, mas os almoços de domingo ajudarão. Claro, Benjamin, se você perdoar seu velho pai!
Eu nada disse, apenas abracei meu pai como há tempos eu queria, sentindo que ele estava ali, presente, abraçando-me de volta. Ainda abraçado a ele, olhei para todos os rostos surpresos no salão de festas e, então, olhei para o meu marido, Gabriel Shaw. Ele ostentava um sorriso leve, aquele que ele sempre dava quando conseguia fazer algo bom.
Shaw conseguiu, de alguma forma, amolecer meu pai. E foi ali, abraçando meu pai e olhando para meu marido, que eu percebi que ele era como a primavera: ele encantava almas.
Autor: Robertyman R. | CapĂtulo: O Casamento
Trecho do Livro: "Ele Ă© Primavera"
— O que você está fazendo aqui? Você não é bem-vindo em minha casa, aberração — falei para ele.
— O senhor já me insultou outras vezes, Bernard, mas tenha a plena ciência de que, se eu estou aqui ouvindo coisas das quais não preciso ouvir, é porque eu amo seu filho.
A petulância tĂpica de um advogado; eu o odiava com todas as minhas forças por achar que ele havia tirado meu filho de mim. No fim das contas, eu estava errado, mas, naquele momento, eu nĂŁo iria dar meu braço a torcer.
— Veja bem, não venha me desrespeitar dentro da minha casa, seu doente...
— Bernard, você não entendeu. Eu não vim aqui para discutir com você, também não vim pedir a sua bênção e sequer vim ouvi-lo. Estou aqui pelo Benjamin e, hoje, depois de todo esse tempo, quem vai me ouvir é você.
Eu tentei argumentar, mas ele me interrompeu mais uma vez.
— Eu não quero afrontar nem desmoralizar você. Eu vou me casar com seu filho depois de amanhã e não há nada que você possa fazer quanto a isso. Como eu disse antes, eu não preciso de sua bênção, mas eu ficaria extremamente feliz com ela. Eu não posso garantir a felicidade do seu filho pela eternidade estando ao meu lado; contudo, eu posso garantir ao senhor que amor não vai faltar a ele. Bernard, desde que conheci seu filho no pátio do New Orleans High School, eu o tenho amado.
— Eu não quero saber desde quando você...
— Não, hoje você vai ouvir. O Benjamin tem tentado e tentado viver uma vida que você escolheu para ele. Tentou isso por trinta anos e, mesmo assim, ele voltou a mim. E sabe por quê? Porque eu sou o lar dele. Mas, Bernard, eu tenho certeza de que, se você estivesse lá, o lar dele estaria mais completo. Eu tenho certeza de que, se o Ben tivesse o pai dele ao lado dele, seu sorriso seria ainda mais radiante e sua felicidade ainda mais completa.
— VocĂŞ está me pedindo para aprovar essa atrocidade que vocĂŞ chama de amor? O Benjamin nĂŁo pensou em mim quando envergonhou a famĂlia ao te pedir em casamento em frente ao fĂłrum municipal, ao meio-dia — cuspi as palavras diante dele.
— Qual famĂlia, Bernard? Sua esposa está lá ajudando a gente, sua filha inclusive será nossa madrinha. Eu nĂŁo estou pedindo para que vocĂŞ me aceite e me convide para os almoços de domingo. Eu apenas estou pedindo para que vocĂŞ possa, ao menos desta vez, colocar a vida de seu filho Ă frente dos seus preconceitos. Afinal, o Benjamin te ama. NĂŁo faça isso por mim, faça por vocĂŞ, pelo seu filho e pela sua famĂlia. VocĂŞ tem dois dias para decidir que pai quer continuar sendo na vida dele.
Gabriel Shaw não esperou sequer que eu o respondesse. Ele apenas me deixou naquela sala vazia e com um forte odor de álcool. Mas, realmente, que tipo de pai eu fui?
Autor: Robertyman R. | CapĂtulo: O Casamento