IX - THE HERMIT
Ainda me lembro das vezes que cruzei com Édouard Bonhomme na kappa phi! Ele era tão parecida com Oussama Guessoum, mas, atualmente, aos 33 anos, me lembra muito mais o Tyler Posey. Fiquei sabendo que atualmente é fotógrafo e artista e que ainda é sábio e solitário. uma pena acabar encontrando ele assim… Não é possível que esteja envolvido com o acidente de Fiona e a morte de victor, certo?
aest: gaveta abarrotada de cadernos - varais de fotografias que deram errado - uma cabana ao lado do riacho -sobretudo preto - pilhas de livros velhos - câmeras analógicas - móveis de madeira - um homem bebendo culpa - dois olhos brilhando na noite escura
aviso: abandono parental, desaparecimento, drogas lícitas
. Não era de se tardar com os espólios da memória .
06/06/2024
Os signos resvalavam sobre ele: um cadeado de latão, uma chave forte, a pirâmide de penas no canto da mesa; decifrava o universo de sinais no silêncio do quarto de madeira e, sob os efeitos duma confluência desconhecida dos astros, ou por causa da sopa de signos, setas e metáforas daquele cômodo abarrotado de livros, foi tomado de súbito por uma saudade alucinada do tempo de outrora. Ao mesmo tempo que queria resguardar-se dos flagelos do passado, ansiava o retorno do ontem como se fosse o amanhã, como se pudesse esperar pelo que vai acontecer nos dias que já foram. Estendeu os braços por debaixo da cama e puxou das sombras um baú grande. Seu tesouro mais valioso; o cofre dos seus afetos e conceitos, feito de madeira e metal, pintado e envernizado.
Sob o magnetismo de seu tesouro perdido e achado, banhado à luz do mistério das palavras escritas e o emblema dos signos estampados, ao abrigo da abóbada de deuses e estrelas que circunscreve seu universo íntimo, mas também: a terra, a luz e o tempo, acreditou piamente poder escutar sua solidão dizendo-lhe para que abrisse a arca, agora posta sobre a escrivaninha de cedro. Cedeu aos delírios daquela madrugada insone e rodou a chave grossa pelo segredo do cadeado que pendia do baú, um arrepio subiu-lhe a espinha, a parte de si que temia pelos espólios daquele cofre de recordações escondeu-se atrás da parte que sentia sede de ver mais uma vez as criptas de sua própria memória. um rangido fino e liso fendeu o ar… fotografias, envelopes, retalhos, receitas manchadas, amuletos de pedra, cartas de baralho escritas… lembrava-se de tudo e de nada, inerte num meandro de encontro da curiosidade com a saudade, sacou um caderno escuro e robusto abarrotado de papeis avulsos que pendiam as pontas por entre as páginas secas, abriu a capa realizando um estalo alto e abriu um carta clipada à contracapa, a carta emanou o cheiro de uma manhã distante na cidade de Desine.
10/09/2020
“...Je veux te raconter comment j'ai vécu et tout ce qui m'est arrivé…”
Mudei-me há um ano para Denise, não vivo longe de Des Moines, mas o suficiente para sentir que não estou perto, afinal fugi - assumo aqui na intimidade de minha carta à mim - daquele lugar que foi palco dos piores momentos que já vivi. Encontro-me agora só, pela primeira vez completamente só. Neste quase um ano que morei na route du ruisseau pude sentir o veneno dos fantasmas de des moines saindo lentamente pelas frestas de meu quarto a noite. Os dias são muito mais claros aqui e pela manhã consigo ver pela janela, na colina que fica depois do riacho, uma revoada de estorninhos que migram da oliveira para a plantação de lavanda, tenho cultivado uma horta e comecei a desenvolver um grande projeto de multimídias no atelier que improvisei no celeiro, eu chamo o estúdio de grotte du fugitif, já estou produzindo o escopo da primeira parte do projeto e os resultados estão me satisfazendo muito, ainda estou no começo, verei que fim levará esta promessa que me faço.
Sobre os amigos permaneço em ausência de suas vidas, com exceção daqueles que não preciso citar, mas tirando estes que não desistem de mim e de minhas paranoias iconográficas e que também estão seguindo suas vidas e seus projetos, agora que formados não estamos mais naquela instituição, temos nossos trajetos para tocar, eu acho que no fundo sempre soube disso e eles também sabiam que aquela foi a fase mais intensa de nossas vidas, mas que não seria para sempre, Que bom que não era, pelo menos algumas partes. Mas ao mesmo tempo eu me enganava e enganava os demais para que acreditassem em um brilhante futuro no qual estaríamos todos juntos, ou pelo menos passava isso em minha cabeça e eu tinha devaneios e às vezes sonhos nos quais eu era mais velho e todos da kappa phi moravam e trabalhavam em grandes empresas que surgiram naquela cidade de des moines, só poderia ser um sonho mesmo, mas o importante é que eu via todos passando na rua e eles me cumprimentavam e eu os interrogava sobre o sucesso de suas vidas pessoais e profissionais… eu andava descalço sentindo a densidade das pedras nas plantas dos pés e via passar uma multidão de rostos conhecidos e agora eles eram de todas as faces familiares daquela cidade na qual nasci e cresci: Marcie da mercearia, Susée da livraria da rua do açougue, Pietro, Sansa, Marie do Giuseppe, Marienne, Marc o costureiro, não o padeiro, Jacques, Fiona… Sim, seu rosto cruzou com o meu em um sonho e tínhamos crescido e você sorria para mim como naquele dia que nos despedimos na rue des andalusia, mas então você passou por mim, tão rápido quanto veio e eu tentei mudar o sentido, mas você sumiu na multidão de rostos conhecidos. Acordei pensando se você teria se formado, se teria tido uma família e se seria minha amiga.
Hoje sobraram essas fotos e essas cartas e estou trancando nesse baú para que pare de me torturar com a saudade e o medo desse tempo que não mais viverei, porque eu preciso não mais viver à sombra da distância dos que amei e nem mais a culpa ao pesar daquela nébula que vivi, mas que não consegue sair de mim.
Ao terminar pousou, sobre a escrivaninha, a carta escrita a próprio punho anos antes e acendeu um cigarro. Deixou que as memórias transbordassem pelo rosto, lembrou do passado, do passado do passado e lembrou de Fiona e lembrou até do futuro que arquitetou para ela, pensou que talvez em sonhos a menina estaria vivendo uma vida deliciosa, com um lindo vestido, com gosto de manteiga, com estorninhos e oliveiras que vivem depois do rio. Quis voltar no tempo.
Passou os dedos por um maço de fotografias, sacou uma. Era a foto de um homem, jovem; tinha feições semelhantes às de Édouard, porém mais robusto, um homem do campo, segurando nas mãos um chapéu e no rosto a imponência serena que tem as montanhas e as grandes pessoas. Aquele era seu irmão, a maior pessoa que teve em sua vida. Também seu cuidador, o arrimo da família que se resumia aos irmãos Édouard e Polo. Clipada à foto havia uma folha de caderno dobrada.
14/04/2005
Tirei essa foto do meu irmão Polo poucos dias antes do desaparecimento de nossa mãe, hoje faz um ano que ela desapareceu deixando todas as coisas para trás, inclusive nós. Polo não parou de trabalhar um dia se quer, mas hoje ele não conseguiu sair do quarto de nossa mãe, escutei ele chorando pela primeira vez, sei que não deve ser fácil para ele, mas queria dizer que ele faz muito por mim, por nós; mas me falta coragem de enfrentar e assumir a realidade de que não vamos mais ter nossa mãe conosco. A polícia ligou hoje para Polo e disse para ele que estão encerrando o caso do desaparecimento dela, que ela está declarada morta, mas eu prometo, em juramento nesta carta, que vou passar na prova daquela universidade e vou conseguir aquela bolsa integral para formar e trazer conforto e paz para meu irmão, para retribuir tudo que ele tem feito para mim todo esse tempo.
ass Édouard L’ermite Bonhomme
Secou o rosto do choro e do suor ao terminar de examinar as fotos do bloco, encarou por longo tempo uma foto 3x4 de sua mãe em 1995, mais jovem do que a conhecera, claro, porém com a mesma jovialidade que sempre tivera, um sorriso meigo escondido entre os longos cabelos negros e cacheados que escorregavam da boina azul royal, seus olhos enormes, como caramelos brilhantes. Apagou o cigarro.
Em sequência visitou os anuários dos colégios que passou, escolas públicas em sua maioria, mas só até o ensino médio, que fez nas melhores escolas particulares da região por meio de bolsas de estudos e do trabalho dobrado de seu irmão. Abriu o envelope que continha pequenos bilhetes engraçados e caricaturas de colegas de trabalho: cozinheiros vesgos, recepcionistas debochados, um guardanapo com um flerte que recebeu em algum evento, uma foto de Annette, uma colega barista de quando fazia bicos na cafeteria, em meados de 2010.
Varou a noite esvaziando as camadas de sua cápsula do tempo, riu e chorou, bebeu e fumou, pediu aos deuses de todos os panteões, rezou pelo tempo, compilou e separou por cor os cúmulos de papel, chegou às profundezas e tocou o fundo de madeira… Foi só então que reparou num item que não tinha recordação alguma da existência, puxou a rígida e longa carta de tarot das frestas da madeira do fundo do baú.




















