drew clark é um cavalheiro da casta dois, que veio de fennley para ser chefe da guarda real. aos seus trinta e cinco anos, drew é extremamente parecido com ben barnes.
NOME COMPLETO: Drew Clark
FACECLAIM: Ben Barnes
IDADE: 35 anos
DATA DE NASCIMENTO: 20 de dezembro
LOCAL DE NASCIMENTO: Illea
CASTA: Dois
SEXUALIDADE: Homossexual
OCUPAÇÃO: Capitão de Tropa, Chefe da Guarda e Professor de Defesa Pessoal
GOSTA: Dormir/acordar cedo, fazer exercícios, cantar, tocar violão, café sem açúcar
NÃO GOSTA: Frio/inverno, doces muito açucarados, falar alto de forma desnecessária, desordem
PONTOS POSITIVOS: Paciente, organizado, educado, ambicioso, conciso
PONTOS NEGATIVOS: Cabeça quente, rancoroso, super confiante, ríspido
BIOGRAFIA
Drew, seu irmão gêmeo, James, e sua irmã mais nova nasceram de um casal de atores musicais. Os três filhos nunca chegaram a conhecer fortuna, e o mínimo conforto de vida parecia sempre estar a um fio de distância de ser retirado da família. Todavia, os pais fariam de tudo para manter o emprego que lutaram tanto para ter, e se isso significava ter de levar as crianças para ensaios e pedir para que elas trabalhassem nos bastidores das peças, ajudando os “moços e moças” com o que precisassem, então que assim fosse.
Por causa disso, Drew aprendeu desde cedo a obedecer ordens e se virar nas mais adversas das situações. Era necessário ter de aprender a costurar para remendar um figurino? Certo. Precisava aprender a usar um martelo e pregos para consertar uma parte do cenário? Deixa com ele. Alguém tinha de ir buscar comida para os atores, mas ninguém tinha tempo? Pede para o Clark. Sua irmã, por outro lado, fora proeminente dentro dos palcos, conseguindo até mesmo mais fama que os próprios pais, pela graça da voz e o talento nato. Muito de seus anos iniciais foram recheados de cultura, músicas e arte, sim, mas ao preço de uma vida simples e de estar sob constante estresse desde tenra idade.
Esse não era o caso de James, que era o total oposto do irmão gêmeo. Por muitas vezes, Drew e a irmã mais nova tinham de acobertar qualquer malfeitoria do outro irmão, que estava constantemente entrando em brigas e fugindo das responsabilidades. Faziam isso, claro, porque eles estavam sentindo na pele o que era o estresse de trabalhar constantemente em algo que eles sequer sabiam se gostavam ou não, compreendiam ele querer extravasar a raiva com brigas e gritaria e, claro, porque amavam o irmão. Porém, não foi o mais correto a se fazer, como foi mostrado mais tarde.
James costumava sumir por dias, às vezes semanas. Quando foi descoberto que ele estava envolvido com traficantes, era tarde demais. Estar na base da casta 5 já era um sacrifício horrendo, mas ter alguém diretamente associado na casta 8 era pior ainda. Foi por isso que o casal tiveram de fazer a difícil decisão de deserdar o gêmeo de Drew, que, por outro lado, nunca aceitou aquela decisão. Viveu todos os dias tentando proteger uma pessoa que tanto amava para depois simplesmente tê-la tirado da família? Não. Aquilo era inaceitável.
Mal atingiu a maioridade, alistou-se no exército real. Sua variedade de hobbies conseguiam ajudá-lo em uma ou outra coisa, mas o que mais valeu foi sua obediência e o fato que havia aprendido a ler e a escrever dentro do teatro. Aquilo sim, foi o que fez o garoto a sair de Fennley e ir escalando os rankings dentro da milícia aos poucos, sempre enviando grande parte do salário para os Clark e para o irmão conseguir sobreviver um dia a mais, esperando que ele conseguisse ajuda para sair daquela vida.
Mesmo que conseguisse o honroso título de 3° dos 20 Capitões da Guarda Real de Illea e oficialmente ter subido para a Casta 2, agora perto de responsabilidades de verdade como, por exemplo, ter uma voz dentro das estratégias de defesa… Havia um problema. E esse problema se chamava sua clara atração por pessoas do mesmo gênero que o seu. Drew nunca teve dúvidas quanto a sua sexualidade, mas sua disciplina era muito mais forte para saber quando e onde exatamente deveria satisfazer suas vontades: Em quartos escuros, longe das pessoas que poderiam usar aquela informação contra ele.
Infelizmente, a vida nunca foi fácil para ninguém de nome Clark. Drew tinha um caso com um dos cozinheiros, sim. Normalmente, a relação deles era vista ao público como “bons amigos”, até que um dos seus companheiros os flagrou aos beijos na dispensa da cozinha, por sabe-se lá o que ele queria comer naquela hora da madrugada. Esse companheiro foi o que contou ao general sobre suas aventuras românticas, e, por mais que não poderia ser expulso ou ter o título retirado de si, qualquer sonho de ascender dentro da guarda agora foi arruinado. Para sempre, ele seria apenas um capitão que não teria mais voz dentro da própria tropa, e ainda sofre ameaças do general para manter-se na linha e agradecer que ainda tinha um cargo, antes que aquela notícia se espalhasse e a família dele terminasse de ruir, afetando principalmente sua irmã, que agora começou uma carreira sólida no ramo artístico.
Atualmente, dentro da Seleção, Drew é instrutor das tropas mais novas, professor de defesa corporal das selecionadas e escolta da nobreza no tempo livre. Por mais que não foi para isso que treinou durante os últimos dezessete anos de sua vida e seu orgulho está despedaçado, vai fazer o que for para manter os sonhos de sua irmã de pé e ainda ter a esperança de conseguir salvar o irmão.
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o castelo havia sido sua casa desde que havia nascido, mas nunca fora seu lar. não da maneira intangível que a palavra costumava significar, pelo menos. não havia calmaria, não havia paz, nenhuma sensação positiva para além da familiaridade. o mais próximo que havia ali de um refúgio era seu quarto – que no fim, nem era dele. nada era, parecia. sua casa era da família real, sua posição era do seu sobrenome, sua imagem era de seu pai, sua rotina era da coroa. seus pensamentos eram de todos os problemas que a vida resolvia jogar em seu colo. só havia uma coisa que parecia ser unicamente sua, e apesar de todo o resto. tão íntima, tão intrínseca que nem ele próprio conseguia mais fingir não existir: o que sentia pelo rapaz embriagado diante de si. nem conseguiria colocar um nome no sentimento, tampouco considerar que havia um só. tantas coisas, tantos pensamentos, tantos desejos, tanto na mente de bellamy ultimamente se resumiam à drew clark e os efeitos dele em si. e tudo aquilo, por mais torturante que vinha sendo, era dele e de ninguém mais. quiçá era também boa parte do motivo de ter tentado, do jeito torto e problemático, colocar uma distância entre eles mais cedo naquele dia. porque quanto menos risco de descobrirem, menos chance de tirarem dele algo que finalmente era só seu. nos instantes no banho, naquele pequeno período de paz, sabia que era inútil desejar que tudo fosse diferente; decidiu tentar se satisfazer com a ideia de que, pelo menos, admitir a si mesmo tudo o que negara aqueles anos permitia que enfim tivesse posse de algo. clark seguiria a vida o odiando de longe, pensando que knox era como o pai. kirius seguiria a carreira colocando pressão no filho, esmagando todos. e blade seguiria lembrando da sensação no labirinto, do sabor dos lábios de drew, e dos sonhos que certamente se fariam criativos nos próximos dias. havia tentado fazer as pazes com aquela situação, aceitando a desgraça como tudo que lhe era imposto a vida toda, mas dessa vez, aceitar a existência daquele sentimento era como uma pequena rebeldia, um pequeno respiro após tanto tempo sufocado.
isso se drew não tivesse aparecido ali, trazendo tempestade para o único local remotamente pacífico daquele castelo. ateando fogo na ideia de que blade pudesse viver com aquela angústia, nutrindo-se do atrevimento de sentir, como se fosse uma ação de resistência. sua presença misturava tudo de novo, fazia confusão, trazia medo. nada mais justo, no fim, certo? não era como se blade tivesse dado qualquer paz ao juízo do capitão nos últimos dias. que recebesse o troco. estava exausto de procurar saídas. preparar justificativas. antecipar terremotos. cada passo de drew era uma batalha que bellamy perdia, já sabendo que com a proximidade certa, não teria forças de fugir dele uma terceira vez. assim que as mãos do mais velho tocaram sua mandíbula e o forçaram olhar em seus olhos, sabia que a guerra havia sido vencida.
quando os lábios já familiares tocaram os seus, bellamy fechou os olhos, os músculos relaxando como quem prova de uma droga após muito tempo em abstinência. em algum momento específico enquanto se lavava, levou a ponta do indicador até os lábios, lembrando a sensação do beijo no labirinto. agora percebia que sua memória não fazia jus à realidade. se o primeiro beijo dos dois havia sido rápido e agressivo, e o segundo forte e necessitado, esse era… lento. havia ainda tanto desejo e desespero quanto das outras vezes, mas era como se finalmente clark tivesse o encontrado com a guarda baixa. ele não iria mais lutar contra qualquer que fosse aquilo que sentia. estava entregue, e não tinha mais volta. a língua explorava cuidadosa como alguém que entra em um museu ansioso para decifrar cada pedaço de história, a mão esquerda encontrava o pescoço alheio e como fizera antes, se afogava nos fios escuros, apenas aproveitando a sensação que lhe causava entre os dedos. a destra alcançou por fim sua cintura, que ele podia sentir bem através do tecido fino da roupa casual que ele raramente utilizava, e o puxou para mais perto. percebeu, em meio aos toques cuidadosos que buscavam compreender cada sensação que o outro lhe causava, que talvez não fosse ele o único dono daqueles sentimentos escondidos. se minutos atrás pensou que odiaria que aquela única posse preciosa sua fosse roubada, viu-se gostando de partilhá-la com ele. quem sabe, bem, aquele fosse o mais perto de lar que ele já havia chegado?
em algum momento, não sabia após quanto tempo, a mão alheia esbarrou nas marcas doloridas do pescoço onde há horas atrás as unhas do pai fincavam. a dor o tirou apenas um pouco do momento, apenas o suficiente para trazê-lo de volta ao quarto, ao invés da nuvem pela qual havia subido desde o encontro dos labios alheios nos seus. o coração ainda batia forte, mas a respiração estava mais calma, e ele afastou apenas o rosto. blade tinha medo, muito medo, mas decidiu ao olhar nos olhos escuros do mais velho que não mais permitiria que aquilo o impedisse. se a sua vida era uma merda fazendo o possível e o impossível para ser o que o pai queria, então se arriscar não seria terrível. no pior dos casos, se tivesse que ir de encontro ao seu fim; ele teria pelo caminho alguns momentos de felicidade, como aquele. “drew…” um pequeno calafrio passou pelo seu corpo, lembrando do fim terrível que os últimos beijos tiveram. “nunca foi um jogo.” quis deixar claro. tentar, pelo menos. “eu só estava…” fugindo. se escondendo. enlouquecendo, surtando, e nas horas vagas, apanhando. “eu não vou fugir mais.” quis pedir desculpas pela situação daquele dia, e por todas as outras, mas já havia falado muito mais do que estava acostumado. mais um pouco, e talvez implodiria.
Drew era um estrategista nato. Moldado sempre pela lógica, pelo caminho mais eficiente. Se considerava um homem muito pragmático e que via várias facetas de uma situação de um ponto amplo o suficiente, e, portanto, que conseguia traçar conclusões precisas sobre diversos assuntos. Todavia, nunca se sentiu mais contrariado com a própria visão de si mesmo por toda a situação que aconteceu com Blade, desde o início. Cego pela própria vivência, não percebendo que ele estava no olho do furacão ao invés de flutuar por cima dele. Achava que tinha mais controle do que realmente o tinha, e que as coisas eram bem mais preto e branco do que realmente eram. Em uma ocasião normal, aquilo seria uma desgraça completa para seu orgulho e sua grande auto confiança tão inquebráveis e tão imbatíveis; era só se lembrar de quando Blade o apontara um único erro na segurança e já foi o motivo para lhe dar nos nervos. Agora? Não poderia estar mais feliz em estar errado. Estava feliz que se deixou levar pelos próprios desejos ao invés de se segurar pela milionésima vez. Feliz que pôde sentir de volta o calor do corpo do soldado contra o seu, as mãos dele bem-vindas em todo lugar que desejava tocá-lo. Feliz de poder aproveitar daquele momento sem outras preocupações, nem mesmo se importando se Blade se incomodava com o gosto de álcool na sua língua. Feliz, inclusive, em sentir novamente o gosto do beijo que o deixou acordado por noites a fio. Feliz em respirar e sentir o cheiro do perfume de Blade, da pele recém limpa. Feliz que pôde ele mesmo traçar seus dedos de volta pelo rosto que lhe fez sentir tantas emoções distintas e disjuntas em um período tão curto de tempo, deixando com que a mão que elevara a cabeça de Bellamy se encaixasse contra a bochecha dele, a outra não tardando a acompanhá-la no lado oposto.
Feliz. Drew Clark estava, simplesmente, feliz.
Felicidade não era uma sensação ao qual estava acostumado. Sentimentos bons como alívio e normalidade, sim, já eram mais conhecidas dele. Normalidade no cotidiano que conseguia controlar, em cumprir com suas tarefas de maneira bem feita, seja lá quais fossem elas. Alívio em receber uma ligação dos pais e saber que estava tudo bem com eles, escutar a voz da irmã ao telefone. Normalidade em preencher relatórios, gritar com cadetes, ministrar aulas para as selecionadas, servir de escolta para um convidado. Alívio em receber uma mensagem na caligrafia que reconhecia ser do gêmeo, o agradecendo pelo dinheiro e talvez o pedindo algum remédio necessário. Normalidade, alívio, normalidade, alívio. Feliz? Drew não pensava a si mesmo como feliz, não depois de ser flagrado com o cozinheiro na dispensa. Na verdade, não pensava em si mesmo como feliz desde que entrou para o exército. Até... Até antes, na verdade. No teatro, fazia o que fosse necessário para sobreviver. No exército, fazia o que fosse necessário para subir de patente e poder sustentar a família. Quando é que Drew teve uma felicidade dele? Um objetivo próprio que não fosse sustentar a própria família, todos eles vítimas de um sistema de castas injusto a ponto da única solução de terem um mínimo conforto era o sacrifício indubitável de um membro do núcleo familiar? Drew não se lembrava. Claro, já foi jovem e teve seus sonhos, mas há muito que foram embora, dispersos em meio à realidade. Teve pouquíssimos namorados firmes, o número nem preenchendo uma mão, pelos quais imaginou arriscar uma vida pacata, mas que nunca passava daquilo, de imaginação, um desejo efêmero destruído por situações mais urgentes que ele, que seus relacionamentos, que suas vontades particulares.
Era tão diferente estar com alguém que entendia. Que também se sacrificou, que também deu muito mais do que recebeu. Quando Blade recuou do beijo, as mãos de Drew agora pousadas na nuca do mais novo, e mantiveram contato visual, Drew soube que ele entendia. Os cantos dos lábios subiram em instinto quando escutou seu nome (não "capitão", não "Clark", mas Drew) seguido da afirmação que nunca havia sido um jogo. A felicidade transbordou do peito com a agora já conhecida sensação de alívio. Que jogasse fora todas as ideias, todos os planos e cálculos. Blade havia o dito, com tão poucas palavras, que estava no olho do furacão ao seu lado, e que não tentaria mais escapar dele sozinho. Aquilo era um alívio, e o deixava tão, tão contente. Não precisava escutar uma verbalização de um pedido de desculpas, pois aquilo já era tão imensamente suficiente que nem se dava conta do quanto precisava escutar aquilo.
❛❛ —- Por favor, ❜❜ pediu, em súplica. O tom era tão distinto da sua voz normal, costumeiramente tão ríspida e seca, que sentiu a garganta arranhar com o timbre mais doce, mais vulnerável. ❛❛ —- não me deixe mais para trás. ❜❜ fechou os olhos, inclinou a cabeça para mais um selar demorado dos lábios, deslizou as bochechas uma na outra e, por fim, recostou a testa no ombro de Blade. As palmas saíram da nuca dele, passearam pelo tronco despido e enfim encontraram seu lugar nas costas cheias de cicatrizes (as quais mal imaginava os verdadeiros significados) para poder apertá-lo em um abraço. Os ombros se tensionaram por um momento, o gesto nada usual. A paz que o trouxe, no entanto, fez com que relaxasse imediatamente. ❛❛ —- Me prometa, Blade. ❜❜ a fala veio sem retirar o rosto do conforto que era a pele do soldado. Ali, de olhos fechados, tudo o que precisava era que ele o segurasse e o som da voz dele o confirmasse o que queria.
Pareceria até piada que mesmo após tantos anos sendo criado com Benjamin e Alexander, os dois rapazes nunca puderam colocar Bellamy muito distante de sua comum postura. Claro que houvera uma época em que Blade ainda não sentia o peso excruciante da pressão e da cobrança, alguns poucos anos da infância, quando o apelido que faziam menção à suas habilidades estava longe de lhe ser concedido. Ainda sim, era uma criança introvertida e de pouca abertura, que aprendera cedo o que fazer para não ofender ou incomodar o progenitor. A adolescência e os anos como adulto, por outro lado, foram pautados em um Bellamy endurecido, sério, fechado. E simplesmente não importava quantas pegadinhas Benjamin fizesse, ou quantas mulheres Alexander tentava pagar para lhe oferecer noites inesquecíveis, Blade continuava sendo e agindo como… bem, Blade. Só podia mesmo ser, então, alguma brincadeira cósmica que divertia algum ser divino que a pessoa capaz de desestabiliza-lo e o fazer agir tão fora de si fosse um outro soldado tão introvertido, reservado e arisco. Ora essa! Em tantos aspectos, Drew Clark era exatamente igual à Bellamy Knox. E havia sido ele (e um punhado de desejos e sentimentos reprimidos) que o fizera chegar no limite das rédeas que o vinha controlando desde tenra idade. Afinal, em que outro momento ele teria tamanha coragem? E não, sequer se referia aos beijos trocados em outros momentos, mas à maneira completamente desrespeitosa que o xingara no início da conversa. Com tanta acidez, indelicadeza, e acima de tudo, intimidade. A intimidade que vinha crescendo entre eles, mesmo que tão sútil que somente os dois poderiam perceber, e a mesma que Blade necessitava que se findasse de uma vez pelo bem de ambos. A que, apesar de suas tentativas, seguia ali. Por isso provavelmente o capitão não disse nada, muito embora sua expressão fora bastante dramática diante da audácia do mais novo. Ou era apenas o álcool, ou ainda o fato de que Bellamy continuou despejando diversas palavras de uma só vez no colo do mais velho — mais uma coisa que era pouco comum a si, que evitava falar a qualquer custo. Não que ele falasse tanto, também, quando perto do outro; mas muito mais que o normal. Quando terminou de falar, o peito subia e descia não porque fizera esforço demais naquela simples ação, mas porque o nervosismo o tirava o ar. Não apenas isso, mas coloria seu rosto com uma irritante vermelhidão. O jovem sequer precisaria ver seu reflexo para saber que estava ali, não quando podia sentir as bochechas queimando. Os dizeres alheios, aos poucos, faziam os ombros do soldado caírem. Parte em frustração, parte em realização. Como se nunca tivesse pensado naquele ângulo antes. O que não era bem verdade; o fato era que ele apenas afugentava o assunto da própria mente quando arriscava ponderar demais sobre tal coisas. Verdade fosse dita, ele não sabia. Não tinha como saber como ele seria se tudo o que conhecia era uma vida repleta daquelas insatisfações. Algo dizia que se fizesse algo por si, tudo desmoronaria. E no final, ele não devia mesmo pensar em qualquer outra coisa além do bem estar do príncipe herdeiro — certo? Distrações apenas atrapalhariam, ele tinha plena certeza. Ao menos até aquele instante, em que as palavras de Clark pareceram mexer certeiramente em sua cabeça. E se, em um mundo em que ele fosse um tantinho menos miserável, Bellamy conseguisse realizar um trabalho ainda mais excepcional? E se, sem se preocupar em esconder tanto de si, ele gastasse suas energias com o que realmente importava? Não pôde chegar a uma conclusão para tais teorias, pois logo o assunto tocado por Drew o fizera erguer os olhos na direção dele. Desejou que estivessem no labirinto, com as luzes apagadas, já que a lâmpada no quarto devia fazer o incômodo trabalho de demonstrar o rosto completamente rubro do soldado. Oh. O que ele diria? Que não? Que sim? Que ele não quisera? Ha, como se a última fosse uma opção àquele ponto. Diria a verdade? Ou inventaria algo? E se simplesmente o expulsasse dali?
Provavelmente um minuto inteiro se passou conforme Blade se sentia cada vez mais enervado, mas o tempo não parecia fazer mais do que deixá-lo no limite. “Sim” Finalmente a palavra escapou, trazendo um alívio como quem coloca água corrente em alguma queimadura. O seu olhar, porém, desviou para o chão - para os pés do soldado ébrio. “Eu… Quer dizer, sobre… querer…” O cenho estava franzido, porque o fato era que ele vinha tentando responder aquilo para si desde a sala de treinamento. “…se eu quis antes, não sabia” Talvez aquilo não fizesse sentido, mas de alguma forma, sentiu que Drew o entenderia.
Observar que sua linha de raciocínio teve algum efeito em Bellamy fez com que seu peito ébrio sentisse, na forma de uma pontada, uma sensação a qual não conseguiu identificar de primeira. A primeira hipótese foi empatia. Definitivamente havia algo daquilo ali; afinal, o próprio Drew passou por algo muito parecido quando tinha a idade de Blade. Ele conhecia bem culpa de querer algo para si, alguma felicidade e satisfação egoísta, enquanto tinha um trabalho a ser cumprido que era maior do que ele. Mas não era só isso — não podia ser — até porque as expectativas dos dois se diferenciavam tremendamente: Drew lutava pela proteção e manutenção de sua família; Blade lutava sob pressão e tortura psicológica da sua. E, claro, Drew nunca teve dúvidas quanto à sua sexualidade e seus parentes imediatos sempre souberam, o que era um grande peso tirado dos ombros quando se comparado ao almejo pela perfeição de um homem e soldado como Kirius tanto impunha ao filho. Não, a sensação era um pouco diferente de empatia, era algo seu. Então, em meio aos seus devaneios e dúvidas, Blade lhe entregou a singular resposta positiva, e Drew soube. O que sentiu era esperança. Esperança de... O quê, exatamente? Aí ele já não tinha tanta clareza. Imaginava que era esperança em ver Blade menos preso às correntes de um homem que agora sabia que era cruel até mesmo com o próprio sangue, que pudesse se libertar delas por si só agora que conseguia se reconhecer melhor. Esperança de poder não mais ser ignorado, de poder voltar a ter com Blade um convívio não mais distante, indiferente e frio; ele odiava o frio. Esperança dessas interações evoluírem, de que aquilo significasse que todos os sentimentos bons que foram intensificados no labirinto poderiam apenas... Serem sentidos. Era uma pena que Drew fosse tão ruim compreendendo os próprios sentimentos, e muito mais ainda que estivesse embriagado. Afinal, as consequências daquela pontada de esperança eram muito maiores do que ele se permitia perceber. No momento, enquanto terminava de escutar a resposta de Blade, Drew sentia a garganta secar. ❛❛ —- E agora? ❜❜ questionou, apenas depois que a proximidade havia se estabelecido. Não querendo que o mais novo continuasse olhando para seus pés, encostou delicadamente a ponta dos dedos debaixo do maxilar alheio e o empurrou para cima, reestabelecendo o contato visual. ❛❛ —- Você sabe se quer. ❜❜ não mais uma pergunta: uma afirmação. Em um paralelo irônico à primeira interação que tiveram desde a circulação dos boatos, Drew se flagrou na mesma sensação quanto a segurar imensamente seus instintos. Só que ao invés de "não o soque, não o soque, não o soque", o mantra era "não o beije, não o beije, não o beije". Contudo, diferentemente daquela interação, Drew não estava sóbrio, muito pelo contrário. E ele queria muito beijar Blade de novo. Justificaria outro dia sua falta de senso de se aproximar sem esperar uma resposta, amanhã pensaria em como sua ansiedade deu de bandeja uma fuga para o soldado. Hoje, naquele momento, cederia ao próprio discurso de se satisfazer e buscaria os lábios de Blade com os seus, porque queria. Queria muito.
Não era como se Bellamy tivesse tempo de focar em qualquer coisa além de treinos, de modo geral — sequer tinha um hobby, ou qualquer tipo de diversão tão comum em seus dias. Era por isso que Alexander e Benedict tanto o forçavam a acompanhá-los em tavernas ou qualquer uma das aventuras que os príncipes inventavam, mas com a chegada da Seleção, até mesmo Alex havia diminuído aquelas suas escapadas. Todos tinham coisas demais para fazer, responsabilidades demais sobre os ombros; e quando Blade não estava treinando ou rondando o castelo, estava escoltando o herdeiro do país em algum daqueles terríveis encontros com as jovens competidoras. O que lhe restava como o mais próximo de um momento seu poderia até mesmo parecer triste tamanha a simplicidade, mas desde a infância aprendera a apreciar os longos minutos que se encontrava embaixo da água corrente no chuveiro. Era a única forma que ele conhecia - na medida do possível - relaxar e clarear a mente, o único momento que permitia analisar o que lhe acontecia, parar de fugir dos próprios pensamentos. Era ali, embaixo da água quente, que ele pensava no olhar decepcionado do capitão Clark, e em como tinha de aceitar que era melhor assim considerando as tantas formas em que tudo o que faziam era perigoso. Era ali também que tentava relaxar enfim os músculos que por tanto tempo estiveram tensos, ali que aliviava o corpo dolorido não apenas pelos treinos pesados do dia mas pelo reflexo da raiva de seu pai, que parecera bastante infeliz com a postura do filho em toda aquela confusão do mapeamento das rotas. Ainda que Kirius se satisfizesse com a possibilidade de ter um grande erro nas costas de Drew Clark, o nome do Knox estaria envolvido se qualquer escândalo acontecesse, já que Blade havia supostamente notado a falha e ainda sim não fora eficiente em corrigi-la. E oh, não havia nada pior que colocar em risco a reputação impecável dos Knox, claro — por isso podia ainda sentir o pescoço doendo pela forma indelicada que o mais velho o segurara mais cedo, especificamente na nuca, onde as unhas afundaram um pouco na pele. Ao menos não fizera nada em seu rosto daquela vez, já que era sempre mais difícil de esconder. Devia ter ficado embaixo d’água por quase meia hora, até finalmente deixar aquele seu pequeno espaço do mais próximo de paz que Bellamy Knox conhecia. O corpo ainda não havia secado tão bem quando tão logo ele já vestia a calça do pijama, mas as batidas na porta com aparente urgência jogaram no lixo todo o seu recente relaxamento. Sentiu os músculos tensionarem outra vez, sem saber se preferia mais um ataque rebelde a ver seu pai. Com a toalha jogada nos ombros, abriu a porta apenas para se surpreender com quem ali estava. “O que—“ Mal terminou o questionamento quando o capitão adentrou seu quarto, fechando a porta atrás de si enquanto o empurrava. Por um instante, dividiu-se entre focar na mão espalmada em seu peito, e no fato de que ele trancava a porta. O que porra estava acontecendo? A proximidade permitia que Knox reconhecesse, pelo menos, a embriaguez alheia. Não parecia bom; não quando capitão Drew costumava ser tão contido. “Joguinhos?” Era isso que ele pensava, então? Que tudo havia sido calculado para desestabiliza-lo? O cenho do mais novo se franzia, conforme o rapaz falava, a expressão apenas relaxando um pouco quando ele mencionou a festa, e Blade precisou desviar o olhar por alguns instantes. Voltou a encara-lo, porém, ao que o outro insinuava que o Knox não era tão diferente do seu pai. “Você é um idiota” Jamais, em qualquer circunstância, ele se sentira capaz de falar naquele tom com o capitão. E não pelo teor da grosseria apenas, mas sim da intimidade.
“Acha que eu estou fazendo um joguinho? Que o que eu fiz…” A voz falhou um pouco, porque era sempre tão difícil falar aquilo em voz alta. “O que eu fiz na sala de treinamento, o que nós fizemos na festa… você por acaso sabe quem é o meu pai?” E oh, aquilo até podia soar, aos desavisados, como se Blade quisesse se engrandecer com aquilo. Não. E Clark saberia muito bem o que ele realmente queria dizer. “Sabe mesmo? Porque se soubesse, então estaria óbvio o quanto esse joguinho seria de extrema imprudência” Kirius era do tipo que acreditava em fins justificando os meios, mas nunca aceitaria um comportamento como aquele nem mesmo com segundas intenções. E só depois de vociferar as falas que percebeu que, talvez, devia ter permitido que Drew seguisse pensando tal coisa de Bellamy. Pois se ele não fazia com más intenções, então suas ações haviam sido com base em genuínos desejos. E Clark não tinha de saber disso, não podia. Porque ele tinha de se afastar, para que nenhum deles se colocasse em maiores problemas. Uma vez mais, o Knox desviava o olhar, sentindo-se exposto. Mal havia superado o fato de admitir para si mesmo que beijara Drew porque quisera, e agora afirmava ao próprio. “Não. Não estou satisfeito. Mas eu não estou aqui para estar satisfeito, e sim para seguir ordens, regras e instruções que são bastante claras no que eu posso ou não posso fazer. No que eu posso ou não posso querer. Então se era isso que você queria saber, não, Clark, eu não estou satisfeito.” Sentia o coração acelerado conforme falava, mesmo que fizesse esforço para que a voz estivesse baixa, com medo de que alguém do lado de fora os ouvisse. “E se tem uma coisa que eu aprendi, é que é melhor assim” A infelicidade era quase que uma segurança, considerando que o que o fizesse feliz de fato certamente seria motivo da ira de Kirius.
Arregalou os olhos quando Blade demonstrou tamanha audácia e absurdo desrespeito o chamando de idiota. Ok, com certeza teve uma reação muito mais exagerada, mas parecia que as amarras sentimentais do capitão se perdiam quando ele bebia. Soprou uma risada incrédula, e estava preparado para balbuciar algum outro xingamento de volta (algum “você é um idiota” muitíssimo maduro) quando o mais novo lhe fez uma pergunta que parecia tão óbvia que Drew nem segurou o rápido revirar de olhos. ❛❛ —- É claro que eu sei. ❜❜ resmungou, impaciente como uma criança que estava recebendo uma bronca e queria que o falatório acabasse logo. Até parecia que ele era o errado ali! Que coisa mais ridícula. Contudo, Blade logo o cortou, disparando uma frase que foi capaz de deixar Drew em silêncio e continuar a escutá-lo. Afinal, não fora uma confissão direta e com todas as letras que se beijaram por intenções genuínas do Knox, mas, mesmo ébrio, o Clark era capaz de compreender aquelas entrelinhas. Não só por conta do passado de rivalidade amigável e da maneira parecida como se expressavam, mas principalmente pela proximidade que (ao menos Drew) sentiu ao ganharem no labirinto. Por mais que criou mil e uma teorias sobre em que pé estavam Kirius e Blade para o tirarem de sua posição, depois daquela festa jamais desconsiderou os abusos que ele lhe contou tão brevemente. Depois da reunião de hoje, a ideia mais aceita era que Kirius fora vago em ordenar “faça qualquer coisa para tirar ele do posto” e Blade, pressionando e sem ideias, optou por um caminho não ortodoxo. Essa hipótese não caía por terra com a rápida confissão (estaria ele unindo o útil ao agradável?), mas, além de deixar o capitão ainda mais curioso com o enigma que Bellamy Knox se mostrava ser, o deixava também aliviado. Afinal, teve receio que o momento no labirinto havia sido meticulosamente fabricado; não apenas os beijos em si, mas principalmente a demonstração de vulnerabilidade. Não havia se passado uma noite sequer que não se lembrava do rosto de Blade à semiluz, seguro em suas mãos, os olhos escuros trêmulos de medo antes de Drew acalmá-lo outra vez. Aproveitou que Blade havia desviado o olhar para começar a se aproximar do mais novo enquanto ele continuava a falar. Era irônico o quão rápido havia ganho sua confiança de volta (provavelmente o álcool o ajudava ali). Ainda estava irritado, sim, muito; a admissão junto com a confissão que não estava satisfeito com a situação não apagava seus dias tormentosos, estressantes e cheios de dúvidas. Porém se antes havia apenas a coragem de um homem irritado e ébrio, agora havia a confiança que poderia resolver a situação para além de apenas propor se afastarem. É, seria uma saída triste e muito infortuna, mas não deixaria aquele quarto sem se sentir um pouco mais estável com os próprios pensamentos. ❛❛ —- É melhor, mesmo? ❜❜ questionou, tão logo Blade havia acabado de falar. ❛❛ —- Ficar insatisfeito te ajuda a fazer um bom trabalho? Se lembrar o tempo todo que deve cumprir regras enquanto reprime todos os seus desejos está te fazendo um soldado melhor? ❜❜ Drew uniu as palmas das mãos numa única palma. ❛❛ —- Se for esse o caso, meus parabéns. Mas eu não sou uma máquina, Blade, e eu sou afetado pelas minhas insatisfações, pelas minhas dúvidas. Então, se ao menos pudéssemos resolver o que... ❜❜ a frase que começou tão determinada acabou morrendo enquanto desfazia o contato das mãos e o olhar se perdia pelo rosto do mais novo e o fazia não concluir a linha de pensamento. Hesitava principalmente na região dos lábios, os quais, afinal, pareciam tanto os verdadeiros culpados por toda a sua atual loucura. Ah, as que daria para reviver os tão proibidos momentos que não conseguia parar de pensar sobre. ❛❛ —- Foi a primeira vez? ❜❜ questionou, e subiu de volta o olhar para reestabelecer contato visual. Um pequeno silêncio de confusão se estabeleceu, ❛❛ —- Que beijou um outro homem. Ou que sentiu vontade. ❜❜ um pequeno sorriso interessado apareceu no rosto do capitão depois que fez sua pergunta tão descarada. Oras... Iria conseguir sua paz de espírito, sim. Mas podia sanar uma ou outra curiosidade enquanto tinha tempo, não?
Se havia um sentimento com o qual Bellamy se sentia plenamente familiarizado desde a tenra idade, era a vergonha. Não apenas por se sentir a razão de sua mãe ter ido embora, como por ouvir no decorrer dos anos as duras e grosseiras palavras do pai que apontavam cada um dos seus defeitos. Não poderia dizer, portanto, que a sensação de ardor no peito e no rosto eram especiais, bem como a pontada que sentia no fundo da garganta — reflexos físicos do que lhe passava internamente, e que pareciam ainda mais doloridos conforme ele se forçava a manter a postura e o queixo erguido, sem se atrever a desviar os olhos para o capitão. Odiava Kirius, ainda que parecesse inevitável buscar sua aprovação, e o sorriso de satisfação no rosto do general era quase que nojento; mas preferiu manter os olhos fixos no pai, já que a última coisa que queria era confirmar a decepção e raiva de Clark. Depois do Halloween, houve um determinado momento em que o mais novo pegou-se pensando em como nunca havia notado o capitão antes. Obviamente, o rapaz sempre foi figura presente é comum em seu dia a dia, mas… ainda sim, não sabia como nunca o havia observado por aquelas lentes. As que faziam seu sangue ferver, as que o deixavam instável o suficiente para fazer algo tão arriscado quanto beija-lo, as mesmas que pareciam torná-lo uma tatuagem em sua mente. E já seria horrível fazer algo assim mesmo antes da mudança de relação entre eles, mas se tornara ainda pior. As mãos de Blade estavam atrás do corpo, e ele as apertava em busca de algum tipo de alívio (ou auto punição, dependendo do ponto de vista). Os nós nos dedos já estavam esbranquiçados e certamente haveria pontos avermelhados nas palmas, mesmo que as suas unhas não fossem tão longas. Que situação de merda, era o que queria gritar. Era, porém, preferível ter Drew Clark pensando que o filho do general era um traidor mimado, que colocar um alvo nas costas dos dois por sua falta de auto controle. Se Bellamy não saberia se controlar perto de Drew, era melhor que o deixasse distante. O mais novo mal respirava, com medo demais de colocar qualquer coisa ali a perder, mas medo também de tudo o que fazia dar certo. De qualquer modo, a situação acabaria ruim para si, e era agonizante saber disso. Assim que o capitão argumentou sobre a substituição, Blade sentiu o olhar do pai em si outra vez, como quem esperava uma ação sua. Ele sabia que Kirius queria um pouco mais daquele comportamento, queria que o Knox mais jovem aproveitasse a situação e jogasse Drew aos leões de uma vez, mas o garoto ficou quieto. O general ainda o encarou por quase dez inteiros segundos, antes de suspirar em um som decepcionado que lhe era extremamente comum. No final, Kirius sabia bem que não podia se dar ao luxo de fragilizar o exército - e gostasse ou não, era esperto o suficiente para saber que ninguém faria o trabalho de Clark melhor que o próprio, ao menos ninguém até aquele momento. ‘Mais um erro, Clark. Um erro, e eu não pensarei duas vezes antes de te substituir.’ A ameaça até parecia improvável, mas não impossível. O que apenas reforçava, no fundo da consciência de Blade, de que a sua decisão havia sido a correta. ‘E você.’ Dessa vez, a respiração já fraca foi interrompida, conforme o olhar raivoso do pai foi para sua direção. ‘Fique. Precisamos conversar. Clark, esta liberado’ Avisou, e foi a única vez ali que Blade se atreveu a olhar para o outro. E sequer fora de forma consciente; na verdade, pareceu quase que instintivo buscar por ele assim que sentiu o medo espalhar pelo corpo, conforme enumerava na mente os possíveis motivos para os quais o general provavelmente lhe machucaria assim que estivessem a sós no escritório. O olhar não durou mais que cinco segundos, e logo o mais novo voltou a encarar um ponto qualquer a sua frente; a postura ereta e o coração disparado.
A dezena de segundos que Drew sustentou o olhar de Kirius enquanto esperava a resposta para sua proposta (e pequena ameaça) pareceram horas. O capitão normalmente era bem seguro de suas estratégias, mesmo que feitas sob pressão: desde que tivesse um plano principal e ao menos três saídas pensadas para caso algumas situações não saíssem como inicialmente planejado, sentia que tinha o poder de improvisar e se readaptar de forma instantânea. Ali, no entanto, estava em uma situação tão de vida ou morte que ainda era somada à toda tensão e falta de resolução com conflitos externos com o soldado ao seu lado, que sentiu-se incapaz de pensar direito e acabou duvidando das próprias habilidades. Talvez tivesse sido muito vago. Talvez estivesse esperando mais. Sentiu vontade de falar mais, mas sabia que não poderia, não sem a permissão ou uma pergunta do general. Portanto, foi com grande alívio que ouviu a sentença final sendo dada. Mais uma única margem para erro era tudo o que ele precisava. Tudo o que lhe restava a fazer agora era o que melhor sabia: abaixar a cabeça e obedecer. Se assim o fizesse, e focasse integralmente nas suas novas tarefas sem mais se preocupar com o respeito perdido, poderia manter o título que fazia o pagamento cair na sua conta no final do mês. Era aquilo que importava, Drew se relembrou, esperando que o leve e aliviado cair de ombros não parecesse tão óbvio. ❛❛ —- Sim senhor. Obrigado, senhor. ❜❜ bateu uma última continência para o general antes de se virar para sair, derrotado. A língua era incapaz de ficar inquieta na boca, sentindo um amargo horroroso por sua extensão, como se pudesse fisicamente sentir todas as palavras que queria dizer mas não havia conseguido. O virar nos calcanhares feito no sentido a favor de Blade fez com que os olhares cruzassem um instante. Viu ali a mesma insegurança que havia visto no labirinto, o medo, o receio. Sentiu um apertar no coração ao saber que precisava deixar o mais novo sozinho com quem sabia que era um homem horrível para os dois, mas, tão rápida veio a vontade de protegê-lo, ela desfez-se. Não tinha o luxo de arriscar sua posição com alguém que não estava disposto a fazer o mesmo por si. Baixou o olhar para os pés, não aguentando mais olhar para Bellamy, e depois ergueu o queixo outra vez enquanto saía da sala e se dirigia aos seus aposentos, mesmo que sentindo-se tão humilhado.
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Ainda bem que tinha um frasco cheio de whisky escondido no armário, porque foi com ele que afogou todas as lágrimas daquela reunião maldita que teve com Knox pai e filho. Direto da garrafa, epserava que cada gole pudesse afastar um sentimento ruim diferente: primeiro, as dúvidas quanto ao próprio trabalho que surgiram de repente; aquelas eram as mais fáceis, porque, ao menos, Drew tinha confiança no que fazia, ainda que tivesse sido abalado. Segundo, a raiva com as injustiças que Kirius havia lhe jogado na cara; também não tão difícil assim, já que não foi pego de surpresa pelo general tê-lo dito aquelas coisas -- não duvidava de mais nada vindo dele. Terceiro, as preocupações com a renda familiar que indubitavelmente perderia em questão de tempo; isso foi mais difícil, a lembrança do irmão gêmeo que vivia nas ruas o afetava consideravelmente, e precisou de alguns goles a mais. Quarto, a confusão horrenda que Blade estava lhe fazendo sofrer; e essa, nem mesmo a metade do frasco havia sido motor o suficiente para fazê-lo esquecer. Na verdade, só havia piorado tudo, intensificado mil vezes mais os sentimentos que queria tanto se desfazer -- e, como se não bastasse, o álcool havia o dado a coragem que estava faltando para tirar aquela história a limpo de uma vez por todas. Nem se importou de ter saído andando com suas roupas casuais pelo palácio durante a noite, onde outros guardas podiam observar seu péssimo estado, cruzando os corredores de forma certeira (até mesmo embriagado Drew conseguia movimentar-se pelo castelo, tão bem havia guardado os corredores) até parar na frente do quarto de Blade, não demorando em bater contra a porta e recebê-lo com um olhar irritadíssimo assim que ela fora aberta. ❛❛ —- Eu preciso de uma palavrinha com você. ❜❜ se o hálito forte de whisky não denunciasse que estava sob influência de álcool, as palavras que saíam sem a polidez costumeira fariam o trabalho. Espalmou a mão no peito do homem e o empurrou de volta para dentro do quarto, sem se importar com delicadezas, e logo bateu a porta atrás de si, dando sorte que a chave estava no trinco para poder virá-la e mantendo seu corpo entre ela e o mais novo, impedindo que Blade o expulsasse de lá sem que lhe desse uma explicação. ❛❛ —- Prometo ser rápido. ❜❜ o garantiu, porque, se não houvesse rodeios, então seria uma conversa rápida, mesmo -- ao menos, era o que fazia sentido na cabeça ébria de um soldado muito confuso. ❛❛ —- Estou cansado-- esgotado, dos joguinhos que você tem jogado nos últimos meses. O que quer comigo, Blade? ❜❜ o apelido deslizou natural em meio à súplica, sem qualquer intenção, outra vítima da embriaguez. ❛❛ —- Você me beijou na sala de treinamento e me ignorou por semanas até precisarmos fazer as rondas do mês juntos no dia que os rebeldes atacaram. Depois tivemos um momento bom no labirinto antes de me deixar para trás naquela estúpida festa à fantasia... ❜❜ cuspiu o xingamento, deixando claro que as memórias finais que guardou da noite tinham grande conotação negativa. ❛❛ —- ... Para me jogar aos leões daquele jeito hoje mais cedo? Onde foi parar a história de não me pintar em uma luz injusta, de não ser como seu pai? ❜❜ sentiu ter ultrapassado alguns limites aceitáveis, ali. Todavia, estava ébrio demais para se importar. Blade havia atravessado os seus limites primeiro. ❛❛ —- Me diga, valeu a pena? ❜❜ aproximou-se alguns lentos passos. ❛❛ —- Está satisfeito com o que conseguiu? ❜❜
Não que a situação fosse tranquila a ponto de Blade pensar em tudo friamente, para que analisasse as coisas daquela maneira, mas o fato era que era muito mais seguro seu pai pensar que o Knox mais novo estava pronto para puxar o tapete do capitão — assim, sequer pensaria em procurar algo entre eles. Porque eles podiam tentar ignorar, mas havia, sim, algo ali. E o quão mais improvável fosse tal coisa aos olhos do general, mais seguro ambos os soldados estavam. Mas seria uma mentira dizer que fora aquele o motivador do discurso de Bellamy, ao deixar claro que a culpa não somente era do capitão, mas que havia tentado evitar aquela falha. Também não seria correto dizer que o fizera por motivos exclusivamente egoistas. Certo, não egoístas no sentido de quem tentava conquistar tapinhas satisfeitos nos ombros e duas palavras gentis do papai. Quiçá não também as mais altruístas, no caso, já que seu objetivo com toda aquela palhaçada era só um: provar a si mesmo que ele não tinha, não teria, não queria, não precisava se envolver de qualquer maneira com Clark. Provar que não eram nada, se não duas pessoas trabalhando no mesmo campo. E sem dever qualquer coisa, podia ser sincero: o erro havia sim sido apontado por si, e posteriormente ignorado (esquecido*) pelo capitão. Pena; mas naquela área, erros simples podiam custar vidas. Ainda encarava o pai diretamente conforme o capitão fazia um bom trabalho em contornar o ocorrido e deixar explícito a sua contribuição para o ataque. Bellamy se lembrava claramente da situação, de como Drew havia percebido o intruso e o ameaçado com firmeza, raiva, força. Tão… determinado. Sexy. Não, espera. O que? Quando deu por si, os olhos não estavam mais na figura paterna mas no soldado ao seu lado, recordando a carranca irritada e injustamente sensual que era ele durante um confronto. ‘É verdade, Bellamy?’ Voltou sua atenção à Kirius, e tardou alguns segundos para responder. A memória da visão atraente parecia ter grudado na mente, e nem com o olhar irritado do próprio pai o mais novo era capaz de chacoalhá-la para longe. “Que ele fez o trabalho dele?” A resposta foi cirúrgica, com uma soberba não característica dele. Blade podia ser sério e pouco entusiasmado em suas falas, mas raramente era grosseiro daquele modo. Isto é, com outras pessoas. “Sim.” Finalizou, então, movendo os ombros enquanto ajustava a própria postura, em uma tentativa de aliviar o incômodo dos músculos tensionados. Estava acostumado a se preocupar o tempo todo, mas nos últimos tempos aquilo vinha se intensificando de tal modo que ele não se recordava a última vez que fizera qualquer movimento sem ao menos um pouco de dor. Blade não podia dizer que vira facetas muito diversas do próprio pai no decorrer de seus anos de vida — ele era, basicamente, um grande filho da puta o tempo todo. E por isso, nas pouquíssimas vezes que arrancava aquele meio sorriso satisfeito, a diferença era tão gritante que podia muito bem considerar uma grande festa do orgulho. Ha. Orgulho. Aquela palavra era só uma piada de mal gosto para ele àquele ponto. Mas podia ver a satisfação estampada no olhar do general. O que, ao contrário do que alguns (Drew, provavelmente) poderiam pensar, Bellamy não via com bons olhos. Porque se Kirius aprovava algo, então aquilo certamente estava errado. Bom; tarde demais. O mais velho então se virou para o capitão, a expressão no rosto já fazendo bom trabalho para que qualquer um que o conhecesse soubesse exatamente o que estava por vir. ‘Depois da nossa conversa sobre seu comportamento, capitão Clark, achei que se esforçaria para me provar errado. Mesmo que, convenhamos, nunca me convenceria. Mas você parece mesmo empenhado em mostrar que não serve nem para as coisas simples.’ Blade sentiu a garganta fechar, uma culpa sendo substituída por outra em uma interminável agonia. ‘Quer dizer, se eu tenho um capitão que faz o mínimo, o que qualquer outro soldado faria, então para que mantê-lo nessa posição?‘ Oh, sabia bem o gancho que seu pai tentava pegar ali. ‘Assim me sinto obrigado a considerar outros para o cargo’
Quando Kirius pediu pela confirmação do filho à história de Drew, o capitão jogou o olhar para Bellamy instantes antes de ele retomar a atenção para o pai. Naquele rápido contato visual, havia a discrição de um pedido de cumplicidade que imaginava que ele entenderia. Oras, poderiam até ter tido um final agridoce no Halloween, mas haviam se tornado cúmplices, não? Não só pelos beijos, mas por todas as palavras trocadas que se antecederam a eles. Imaginou que haviam reestabelecido o mínimo de uma conexão que tivessem, ainda que o antigo coleguismo e rivalidade amigável já houvesse se extinguido e substituído por algo a mais -- esse algo que Drew não sabia o que era, mas estava disposto a descobrir se Blade também quisesse. Além do mais, seria fácil, muito simples, na verdade, aquela cena terminar bem: bastava que Blade concordasse consigo; não precisava tecê-lo mil elogios, mas garantir a Kirius que falava a verdade seria o suficiente. Ah, o quão errado percebeu estar meros segundos depois. Pois Blade havia sim concordado consigo, mas o fez com tamanha soberba e ignorância que conseguiu tirar todo o efeito de seus esforços. Foi então que percebeu: Bellamy Knox estava, de fato, trabalhando ativamente para conseguir seu cargo, e não mediria esforços para tal. Lembrava-se vividamente da discussão dos dois em sua sala em que ele havia lhe falado que “se conquistasse o cargo, não seria porque o pintou de uma forma insincera”, mas não era, de certa forma, o que estava fazendo naquele exato momento em diminuir sua conquista contra a invasão rebelde? Que ideia imbecil, aquela de depositar tamanha confiança em outra pessoa -- e ainda teve a inocência de dizer a Blade que o confiava com sua vida! Patético. Não tinha noção do quão boa era a visão do mais novo, mas se Blade gostava de ver a carranca de um Drew muitíssimo irritado e nervoso, então que se deleitasse com o olhar traído que o lançou, seguido do raivoso que tomou seu rosto conforme Kirius lhe ditava aquelas palavras e provocações que fariam ferver o sangue de qualquer um em sua situação. Oras, Drew podia ser um homem dotado de uma paciência gigantesca e ter bom jeito com as palavras, mas não era, nem de longe, um ser iluminado o suficiente para conter as expressões enraivecidas e atônitas diante de tamanha injustiça. Não eram nada cartunescas, explosivas ou exageradas -- mas eram, sem dúvidas, oriundas da mais pura cólera. Anos de trabalho perfeito. Décadas. Tudo sendo atirado aos porcos porque havia cometido o erro fatal de ter sido pego com outro homem nos braços. Algo que nunca pôde, ou sequer quis, controlar, e que nunca acreditou ter qualquer influência sobre a maneira que realizava seu trabalho. Olhares desgostosos como os que Kirius lançava a si, com uma pitada de sádico prazer, nunca fizeram sentido na cabeça do Clark. Parecia ser tempo e energia jogados fora, preocupações irrelevantes por coisas que não poderia controlar. Inclusive, não imaginava que aquele pensamento era dado pela sua criação como um cinco (como já ouviu pessoas cuspirem depois que sua sexualidade fora descoberta), mas sim por um misto de sua personalidade reclusa com a objetividade que aprendera a viver e respirar no exército: se não é um mandato, ignore; se não é com você, ignore; aja como a máquina perfeita de acatar ordens que o exército precisa que seja. Queria poder gritar aos quatro cantos todo o ódio que sentia, chorar alto a desolação que sentia pelas palavras duras e recheadas de sarcasmo, quebrar toda a frustração com os próprios punhos. Todavia, depois de um longo suspiro, a única coisa que Drew disse, sem ter coragem de olhar para Blade novamente, foi: ❛❛ —- Peço perdão pelo meu erro, General. Não vai se repetir. ❜❜ se aquilo não comprovasse todo o seu imenso auto-controle, nada mais iria. Ainda assim, o pulso seguro na palma da mão oposta atrás das costas, na postura de descanso do exército, chegava a latejar de tanto que era apertado pelos dedos com tanto rancor. ❛❛ —- E peço também que reconsidere minha substituição, senhor. Não só para que eu possa tornar a executar meu trabalho com melhor desempenho, porém estamos em um período delicado para trocas de soldados de maiores patentes. ❜❜ ele quis se referir, justamente, à tentativa de invasão. Oras, se os rebeldes haviam conseguido um uniforme de recruta oficial a ponto de enganar a maior parte dos soldados, o que mais deveriam saber da estrutura organizacional de dentro do palácio? Trocar um dos capitães era um indício de instabilidade, o que seria aceitável em momentos menos turbulentos. Ah, e, claro-- havia a Seleção; evento que havia tomado grande parte das responsabilidades de Drew como capitão justamente para que ficasse longe dos afazeres normais que o título pedia. O que seria maior em Kirius: o ódio pela sexualidade de Clark ou o receio com as burocracias da troca de cargo e a imagem de um exército falho que poderia se espalhar? Drew apostava no segundo; todas as suas fichas, na verdade. Percebeu, assim que terminou sua proposta, que em meio à toda a raiva havia também medo, muito medo. Segurou ainda mais firme o pulso nas costas, não querendo deixar aparente o fato que as mãos tremiam não por raiva. Estava a um fio de perder tudo o que lhe restava, e o peso da responsabilidade da manutenção de todo o seu núcleo familiar começou a afetá-lo com a mera ideia de sua demissão. Cerrou os dentes, sentindo a mandíbula travar. Detestava aquela sensação, detestava. Só desejava que aquela maldita reunião se encerrasse logo para que pudesse sair a passos largos em direção ao seu quarto.
Sabia que tinha repetido aquilo para si mesmo tantas vezes que começava a soar patético. Ele tinha que parar! O feito no labirinto fora impensado, irresponsável, imprudente. Chegaram tão perto de serem pegos — de novo!! Se Kirius descobrisse, Blade estava ferrado. Não! Morto. Drew também. E sua família. Ou talvez, não mortos; o Knox mais velho não gostaria de lhes oferecer saída tão rápida. Torturaria os dois como pudesse antes, destruiria. Sabia que seu pai tinha uma alma corroída que poderia somente fazer o pior. Então agora estava mais do que decidido a manter aquela parte errada de si sob controle, aqueles desejos indevidos e o interesse escondidos. Mesmo que, enquanto os soldados treinavam no lado de fora, era malditamente tentador olhar para onde um suado e cansado Clark fazia seus exercícios, comandando também os soldados abaixo dele. O próprio Blade sentia o corpo queimar, desejando poder se livrar da camisa também (mas, claro, sem a coragem de o fazer), enquanto o suor fazia com que a regata alva se tornasse um tanto translúcida. Era bom cansar daquele jeito, especialmente considerando as frustrações dos últimos dias. E os sonhos… os sonhos que vinham ocupando suas noites, lembranças dos toques do capitão e principalmente da sensação dos lábios nos dele. Com raiva de si mesmo, era muito mais fácil derrubar o outro soldado com quem lutava, até ouvir sua voz ser chamada em um tom forte, por uma voz que o fazia sentir a espinha congelar. Apenas teve tempo de ajudar o colega a se levantar da grama após a derrota antes de seguir caminho até seu pai, que não apenas chamava por Blade, mas por Drew também. Um único olhar foi lançado na direção do capitão, alguns segundos breves de um desespero e medo que somente o mais velho poderia entender. Então acompanhou o pai, em silêncio, até o seu escritório. Durante todo o caminho evitou o olhar do outro, o rosto fechado e o olhar focado em frente conforme andava. Já do lado de dentro, os dizeres de Kirius faziam as mãos de Blade tremer. Ele as colocou atrás do corpo, mas talvez daquele ângulo Drew fosse capaz de notar. ‘Vocês. Eu sinceramente não esperava isso’ Começou. Pronto. Estavam mortos. Mortos!! ‘O capitão. Meu melhor soldado’ Ah, não era bom mesmo! Seu pai somente se atreveria a utilizar um título daquele se fosse para em seguida destruí-lo. ‘Estão achando que isso aqui é brincadeira?’ Ferrados. Estavam ferrados. Sentiu o estômago revirar, quis vomitar. Os nós dos dedos provavelmente estavam brancos, considerando o quanto apertava as mãos. ‘Bem na curva’ Merda. MERDA. ‘Que coisa de iniciante. Bem na curva do corretor dos nobres, vocês me fazem uma falha dessa? O que droga é essa? Quem fez essas rotas?’ O ombro de Blade finalmente relaxou miseravelmente, e ele conseguiu soltar o ar que havia prendido devagar. O que devia fazer? Dizer que foi culpa dos dois? Culpa do ataque rebelde? Havia só um culpado para aquele erro específico e Knox sabia. Quando viu que pensava demais, incomodou-se consigo mesmo. Eles não eram nada! E não podiam ser. Não eram amigos, não eram amantes. Nem mesmo inimigos podiam ser, tinha reparado. Então não lhe devia nada. “Capitão Clark preparou as rotas.” O pai semicerrou os olhos, desconfiado. ‘E você não notou?’ Ele podia dizer que não, e aliviar a situação do mais velho. Pare de se preocupar com ele, vocês não tem nada!! “Sim. Eu apontei o erro, mas o Capitão tomou a decisão final”
@drewclark
Desde o Halloween, Drew caíra sob um humor terrível. Também, pudera: havia estragado completamente a única noite de folga que tivera em tanto tempo com alguém que julgava não merecer mais sequer um terço da sua atenção. Ainda assim, a cada vez que ficava minimamente ocioso, recordava-se do sorriso dele junto ao seu, da sensação boa no peito causada pela trégua, dos beijos firmes e necessitados, dos sussurros, das promessas de segurança feitas em silêncio, do gosto da pele do pescoço-- e então, encontrava urgentemente algo para poder se distrair, até que aqueles pensamentos sedutores cessassem por completo. Era uma tarefa mentalmente cansativa, sim, e por cima de todo o terrível marasmo que era suas obrigações normais; é claro que andaria mais carrancudo que o normal. O quão irônico era ter se empolgado, deixado se mergulhar tão fundo no momento esperando que fizesse Blade não esquecer de si por dias, e acabar caindo vítima do próprio plano? Odiava aquela sensação de incerteza, de joguinhos estúpidos. Havia decidido que, da mesma forma que foi com o rapaz com o qual foi flagrado na dispensa e causou o seu declínio social, o tempo curaria o fracasso do breve relacionamento. Aquelas coisas aconteciam, e serviam de aprendizado. E que Drew aprendesse a não se envolver com pessoas como Blade outra vez. Pessoas determinadas, excelentes em seu trabalho, que pareciam estar sempre impecáveis não importavam onde iam, e que eram tão bonitas que até mesmo sob um treinamento tão pesado conseguiam ser tão gost-------- AH, os nomes sendo chamados no campo de treino pelo Knox mais velho interromperam a sua linha de pensamento graças ao bom Deus. O olhar quis encontrar o de Blade, mas se forçou a focar na figura imponente de Kirius ao notar que havia desperdiçado tanta atenção com o mais novo durante o treino que sabia exatamente onde ele estava. Não olhe, Clark. Sabia que era tentador (e aquela era a palavra que melhor poderia descrever Blade em sua mente), mas também estava aprendendo a lidar com a tentação. Andou ao lado do outro soldado olhando para frente com uma serenidade que não o pertencia, qualquer sentimento incômodo guiardado sob sete chaves e correntes fabricadas de ligas de cólera e tensão sexual mal resolvida. Todavia, por mais que se mantivesse aparentemente calmo, sua mente rodopiava com o que diabos Kirius poderia querer com os dois. Afinal, só tiveram curtas interações desde que a Seleção havia começado, e não era possível que tivessem sido flagrados no labirinto... Não é? Deveria ser. Talvez fosse outra tarefa que ele queria designar para os dois? É... É, isso. Com certeza. Porque nada deu de errado da primeira vez, e não estavam escondendo nada. Sua tese começou a ir por água abaixo quando chegou na sala do general e ele começou um discurso irritado, cheio de nuances interpretativas. Drew podia ser o homem com um grande nível de autocontrole, mas nem ele foi imune ao alívio sentido quando percebeu que suas suspeitas estavam corretas e que Kirius não havia descoberto sobre os dois. Haha... Que idiotice ter ficado com medo, por menor que fosse. Infelizmente, a sensação de paz não durou muito (nunca durava), porque tão logo o general cobrou as explicações pelo erro de principiante nas guardas que os dois organizaram, Blade foi rápido em jogar a culpa no capitão. Uma das sete correntes estourou ali mesmo, e foi o suficiente para lançar um olhar de soslaio para o mais novo, claramente incomodado com aquela fala. A audácia... ❛❛ —- Perdão, General, senhor. Sim, o soldado Knox apontou o erro, mas não foi possível de corrigi-lo por conta do ataque rebelde. ❜❜ e por conta da pequena discussão que se sucedeu ao apontamento do equívoco, que, se não tivesse acontecido, teria sido facilmente consertado. Não importava. O ataque havia lhe sido avisado tardiamente, e também havia atrapalhado a organização de várias outras coisas que teve de ir resolvendo aos poucos. Quem diria que Clark era humano e acabaria deixando um erro daqueles passar despercebido em meio a uma situação tão tensa e delicada! Infelizmente, não havia espaço para erros ou menos do que a perfeição ali, na junta militar de Kirius Knox. Blade, inclusive, sabia disso melhor do que ninguém. E mesmo assim...---- ❛❛ —- Quando eu e o soldado Knox fomos avisados, chegamos a tempo de encontrar uma tentativa de invasão no palácio, mas consegui evitar que o rebelde intruso se infiltrasse pela guarda. A ordem de vistoria dos uniformes e a vistoria dos novos recrutas em si foi conduzida posteriormente por mim. ❜❜ e era com isso que havia tanto ocupado sua mente nos últimos dias. Com a mania de perfeccionismo, de mostrar dez vezes mais serviço que o normal depois do escândalo e de querer tirar Blade da sua cabeça. No final das contas, podia dizer que todos os atuais problemas de sua vida foram causados por um Knox. Que sobrenome amaldiçoado.
Não era como se Bellamy fosse um virgem, ainda que sua vida sexual não fosse das mais ativas. Na verdade, seria até mesmo injusto dizer que ele não tivera um bom número de experiências até então; experiências muito boas, até. Mas talvez fosse o misto do proibido, ou da sensação leve de finalmente admitir (pelo menos para si mesmo) o que ele tanto queria — ou, simplesmente, nunca tivera experimentado qualquer um que beijasse tão ridiculamente bem quanto o capitão. Não importava os motivos ou os fatores que construíam aquela sensação deliciosa, na verdade não importava mais nada além dela própria e de como Blade decidiu que poderia se perder ali pela eternidade. Com a troca de papéis, sentiu as costas expostas encontrarem a parede que, muito embora coberta pela vegetação, estavam bastante frias. O corpo quente em contato com o gélido o instigou a mover o quadril para frente alguns poucos centímetros, pressionando-lhe contra o do mais velho naquele movimento instintivo. Sentia o toque firme em seu quadril, subindo pelo tronco exposto, e Knox teria apostado que os dígitos eram capazes de deixar marcas por onde passavam. O beijo findou uma vez mais, mas as preocupações não foram capazes de usar aquele pequeno momento a seu favor — só conseguiu se concentrar na mão que segurava o seu maxilar com firmeza, sentindo o próprio corpo se colocar à prontidão para o que quer que ele pudesse sugerir. Ainda conseguiu encontrar o olhar de Clark por um momento, o suficiente para se lembrar do quão perdido estava. E quase que como uma última confirmação, os beijos que seguiram, não mais em seus lábios mas agora no pescoço em meio à mordidas tão logo vieram e o fizeram fechar os olhos outra vez, perdido em sensações que nem sabia que poderia sentir. Um pequeno gemido escapou, e a mão voltou aos fios do capitão com a mesma firmeza de antes, apenas não o suficiente para afastar o rosto dele dali. Porque ah, não arriscaria ser o responsável pelo fim daqueles beijos. A voracidade da boca alheia provavelmente deveria alertar Bellamy que, naquele ritmo, teriam algumas marcas na pele - mas para alguém que passava vinte e quatro horas se preocupando, ele havia decidido desativar todos aqueles instintos dentro do labirinto. Podia sentir o peito, a curva do pescoço, o quadril queimar. E, além disso, a sensação familiar na virilha não tardou, nem os sinais iniciais da excitação. Podia ele ser culpado, se Drew continuava pressionando o corpo contra o do mais novo daquela forma? Blade não resistiu, descendo a mão que não nos fios do rapaz por suas costas, passando pela lombar, até alcançar uma de suas nádegas. O movimento, claro, serviu apenas para intensificar a fricção dos corpos, e mais um gemido baixo escapava pelos lábios grossos do asiático.
Se a consciência estivesse mais clara, talvez ele percebesse o quão cômico era que estivesse naquela situação. Não fora ele mesmo que tentara utilizar o argumento contra Drew sobre colocar tudo em risco por caprichos? No fundo, claro, sempre soube que os próprios dizeres não eram mais do que completa besteira. Mas mesmo que fossem meros caprichos; enquanto estava ali, com aquelas mãos em seu corpo e aqueles lábios em seu pescoço, arriscaria tudo. Já o estava fazendo, na realidade. Pronto para mandar ao inferno o último resquício de controle que tinha, decidiu em um ímpeto que deviam sair dali. Não para escapar!! Para seu quarto. O lado bom de ser guarda costas real era ter o seu quarto distante da ala dos soldados, dentro do castelo; tinha de ficar próximo do príncipe afinal. Não que fosse tão menos arriscado, mas certamente diminuía o número de soldados que poderiam flagra-los. Além do mais, ambos sabiam os horários das rondas e poderiam despista-las. Isso! Com o plano formado em mente sem muito esmero, finalmente disse algo. “Drew…” Chamou; clamou. “E se fôssemos para o m…” Claro que o universo parecia incapaz de lhes oferecer paz. O som de risadas fez com que os olhos do mais jovem se arregalassem, e a postura endurecesse em tensão. Se os vissem ali, os cabelos bagunçados, os lábios inchados… meu Deus, estavam ferrados. Meu Deus, morreriam!! A respiração ofegante já não era mais de prazer e sim de nervoso, enquanto os risos do que parecia ser um homem e uma mulher caminhando perdidos apenas aumentava. O coração de Knox estava prestes a sair pela boca, e se aquela noite era responsável pela mais deliciosa sensação de sua vida, também seria pelo pior medo que já sentira. Os cenários se desenrolavam na mente, as consequências possíveis, sentiu até uma pontada de dor em uma das cicatrizes mais recentes no corpo. Merda! Estavam mortos. Não sabia bem se fora ele ou Clark que se afastara; mas agora estava há meio metro de distância do capitão, olhando em volta sem saber o que fazer. Desesperado. ‘Ali! Tem que virar ali, aí a gente volta.’ Ouviu a voz masculina apontar, e em seguida a conversa ficar mais distante. Estavam indo embora! Ótimo. Logo os dizeres sumiram por completo, mas qualquer calmaria que existia ali já tinha extinguido. “Não… Não chega perto de mim.” Avisou, apontando em sua direção, o coração acelerado ainda em uma ansiedade quase paralisante. Juntava as forças para conseguir sair dali, fugindo daquela bolha que eles arriscaram fingir por alguns minutos que ninguém seria capaz de estourar.
Nada poderia estar mais perfeito. Talvez, é claro, se tivessem apenas uma pequena mudança de cenário, mas Drew poderia trabalhar com aquilo. Estavam cobertos por pouca luz, e o desespero só deixava tudo ainda melhor. Gemeu contra o pescoço de Bellamy quando ele apertou sua bunda, deixando-se suspirar um ar quente de pura satisfação na pele exposta e cheia de desenhos. Ao sentir o volume na calça alheia -- que inclusive era muito bem correspondida pelo próprio --, Drew deslizou uma das mãos que estava no quadril alheio para fazer uma pequena provocação com a ponta dos dedos ali, dando apenas insinuações dos toques que se seguiriam. E ah, como daria o céu a Blade se ele continuasse o chamando daquela forma-- não só pelo nome, que era importante demais para si, mas entre aqueles suspiros que o fariam enlouquecer, ele jurava. Mas as vozes perto demais alertaram a ele próprio, e, por impulso, afastou-se do soldado o suficiente para que não deixasse muito claro o que estavam fazendo (ainda que as fantasias desarrumadas e a respiração descompassada não pudessem ser tão facilmente disfarçadas), mas tão logo percebeu que ninguém iria até ali, Drew sorriu, maldoso. ❛❛ —- Então... Para onde mes--? ❜❜ foi cortado pela frase imperativa, e não conseguiu disfarçar a surpresa pela brutalidade daquele balde de água fria. ❛❛ —- Blade? ❜❜ ele riu, sem achar muita graça. Aquilo era algum tipo de piada? Se fosse, era real demais para o gosto do capitão. Até tentou se aproximar de volta do garoto, tentando enroscar os dedos no indicador que antes lhe foi apontado com tanto ímpeto, querendo entrelaçar as mãos; talvez ele só tivesse se assustado com as vozes, mas poderia acalmá-lo e garantir que ficaria tudo bem, como fizera há pouco, não? Queria trazê-lo para perto outra vez-- não estava preparado para terminarem o que mal haviam começado. Contudo, foi recebido com um amargo empurrão para trás. Mas que...? Não tinham feito uma trégua? Não estavam bem? O que diabos havia significado aquilo tudo? ❛❛ —- Blade! ❜❜ até tentou chamá-lo, mas novamente ele havia conseguido fugir (e que ironia, tendo prometido a si mesmo que não iria deixar aquilo nunca mais acontecer!). Que forte déja-vù. Até tentou correr atrás do mais novo, mas veja bem, era muito difícil fazer uma perseguição em meio a um labirinto com tantas decorações repetitivas estando com uma mente nebulosa e muito mais ébrio do que deveria. Ao perceber que perdera o Knox de vista, chutou uma abóbora ali ao lado, frustrado, e só depois percebeu a terrível ideia que teve quando também apagou a pobre vela dentro da fruta que em nada tinha a ver com sua situação, o deixando ainda mais no escuro. Além, é claro, de ter sujado o labirinto e seus sapatos. E por falar em sujar roupas... Não. Nem ousaria conferir se a tinta do corpo de Blade havia manchado algo seu. Chega. Estava cansado. Não era mais tão novo para fazer aquele tipo de joguinho. Voltaria para seus aposentos sozinho, sem fazer mais nada o resto da noite-- nem pensaria direito sobre tudo o que aconteceu. Se antes queria deixar a imagem daquela cena presa na mente de ambos por noites afins, agora só queria apagar as memórias para sempre. Foi bom enquanto durou, aqueles poucos minutos de paraíso. Mas aparentemente, até um pequeno momento feliz tinha de ser limitado.
Bellamy sentiu o peito arder, bem como a garganta arranhar pela vontade inerente de gritar o que passava pela cabeça. Às vezes se sentia assim, quando ouvia por tempo demais as frases acusatórias do pai em alguns contextos de culpabilização, como era justamente o que acontecia ali conforme Drew Clark tão claramente o comparava ao Knox mais velho, fazendo direta conexão aos pontos de sua personalidade que Blade mais odiava. Como podiam aquelas duas pessoas o enxergarem tão mal? Se por um lado Kirius repetia o quanto Bellamy jamais seria tão bom quanto si; lá estava Clark dizendo que era exatamente como seu pai. O fato era que, mas duas ocasiões, a raiz de tudo vinha daquela mesma desconfiança de que o rapaz simplesmente não era bom o suficiente por si só. Não alcançaria nada sem o sobrenome, sem jogar sujo. Não alcançaria nada porque não era digno. E ele não sabia bem o que gostaria de gritar, não haviam palavras claras na mente. Podiam ser igualmente acusatórias, ou serem justificativas, ou ainda uma tentativa de provar o próprio valor enumerando situações em que agira corretamente (como um garotinho desesperado por aceitação). Seria perigoso agir sem saber ao certo o que ele mesmo faria, a última vez que fizera aquilo, os seus lábios haviam ido de encontro aos que agora o acusavam de coisas que feriam seu ego. Lembrar disso o permitiu por um segundo focar nos lábios de Clark outra vez, como se quisesse garantir que se lembrava bem. Porque, sim, nas últimas noites era aquela imagem que ocupava seus sonos. Os lábios pareciam ainda mais atraentes do que a memória parecia deixar claro, e quando o olhar escorregou para os fios da barba foi como se pudesse sentir aquela mesma sensação dos pelos roçando em seu rosto. Os dedos apertaram contra a mesa de madeira ao perceber que queria se entrelaçar nos fios de seu pescoço mais uma vez, mas toda aquela emoção interna que elevava sua temperatura (e aconteceu em questão de segundos) logo se dissipou bruscamente com a entrada inesperada de alguém. Não conseguiu prestar muita atenção nas primeiras palavras de Heath, já que só podia ouvir da consciência o que raios teria acontecido se Knox tivesse se permitido inclinar sobre a mesa como pensou em fazer, e a cena fosse flagrada pelo terceiro soldado do cômodo. Arrumou a postura, erguendo o queixo com a coluna perfeitamente ereta e há bons passos da mesa onde outrora repousava as mãos que imploravam por toques específicos. Foi a tempo de ouvir as localizações do ataque que Blade retomou a própria consciência, não tardando para compreender muito bem a mensagem por trás dos atos de seu pai. Kirius não apenas deixava claro para o próprio capitão mas para todos o quão dispensável era Clark, em uma ridícula jogada que inclusive colocava Bellamy no mesmo patamar de indiferença. Drew era um soldado brilhante, Blade sabia muito bem, mas não importava o quanto seu histórico fosse impecável; seu pai estava determinado a apagar qualquer boa impressão do homem. Quanto ao próprio Knox mais jovem, bem, não era a primeira vez que o progenitor agia como se o filho não servisse para mais do que escoltas idiotas dos príncipes até algum bar ou aparição pública repleta de outros tantos guardas. Não que contasse com uma realização de Drew, especialmente porque podia ver que ele estava extremamente irritado, mas se este tomasse apenas alguns instantes para analisar friamente tudo aquilo veria que se Clark estava no fundo do poço, então Blade estava logo ali a seu lado. E literalmente o fizera, caminhando a passos rápidos para alcançá-lo conforme o mais velho andava para fora da sala. Era óbvio — sabia que era, mas sentiu necessidade de esclarecer mesmo assim, até porque se ele mesmo estava profundamente ofendido, não podia imaginar como o outro estaria. “Não fazia a menor ideia, Drew.” Opa. O nome escapou sem que ele pudesse controlar, soando tão delicioso na boca quanto da última vez, independente da situação caótica. Abriu a boca para corrigir os dizeres, mas uma vez mais Heath os interrompera, dando mais informações sobre o ataque mais próximo.
@drewclark
Drew era um homem de muitas qualidades, mas eram muito facilmente ofuscadas pelo brilho do seu orgulho-- somada à raiva, então? Se o capitão normalmente era paciente, agora ele marchava com força na direção que Heath os indicava. Se era observador e detalhista, agora só focava na macro situação de ter sido desprezado, deixado à vista de todos o quão inúteis na verdade eram seus serviços, sua posição naquela guarda. Estava com o orgulho tão ferido que sequer notou ou percebeu que Blade estava no mesmo barco que si até ele erguer a voz. E não só isso-- mas chamá-lo pelo nome. Sem formalidades, títulos, ou sobrenomes. Drew. A voz de Bellamy foi como um farol guiando um barco em alta velocidade no meio de uma neblina, e, por um segundo, o capitão até parou de andar, desacelerando as passadas cheias de cólera. A realização veio como um tapa: Se ele estava sendo tão descartado por Kirius daquela forma, então Blade também... ❛❛ —- Blade, eu... ❜❜ mal teve tempo de reagir ou formular uma frase direito; Heath o puxou para a Terra com mais informações sobre os ataques. Porém, agora o moreno as recebia com o foco que a situação pedia. Ainda estava irritadíssimo, sim, e não sabia como reagiria formalmente com aquele tamanho desprezo, mas não estava mais propenso a fazer algum tipo de besteira. O famoso “foco na base do ódio”. Estava tão focado, na verdade, que quando Heath finalmente os levou para o foco da tentativa de ataque ao castelo, já com a confusão dispersa e os guardas no local mais servindo para acalmar a população, Drew conseguiu notar um rosto diferente entre os recrutas uniformizados. Um detalhe que antes, cego por sentimentos ruins e egoístas, lhe passaria despercebido. E o pior! Provavelmente não o notaria nos dias seguintes, em que receberiam a próxima leva de recrutas para o exército. Porém, como chefe da guarda do mais baixo pelotão, tendo a pequena rede de apoio com Blade ao seu lado, franziu o cenho imediatamente para um rosto desconhecido e que não parecia saber bem o que estava fazendo. Até mesmo o uniforme parecia não se ajeitar direito no corpo do homem atrapalhado, que, na verdade, estava passando batido como apenas mais um. ❛❛ —- Qual seu número de identificação, recruta? ❜❜ o rapaz gaguejou, os olhos arregalados. De longe, não era o melhor ator, e provavelmente não esperava ser chamado a atenção daquela maneira. Clark sorriu, cínico, esperando pela resposta, e o garoto até tentou ditar uma sequência de números aleatória (e muito incorreta). Drew assentiu com a cabeça, indicando que o “soldado” descansasse, mas bastou que ele se virasse para tentar ajudar outro ferido para que Drew chutasse as juntas de sua perna em um lugar extremamente doloroso. Talvez tivesse deslocado alguma coisa, mas foi eficaz o suficiente para fazê-lo cair de joelhos, dando abertura para o capitão imobilizá-lo no chão apropriadamente. ❛❛ —- Tentando invadir a cena por dentro, hm? Discreto. Depois você vai me responder algumas perguntas. ❜❜ falou, a falsa calma sendo demonstrada pela raiva nos olhos e as fileiras de dentes se arrastando enquanto ele fazia ainda mais força para pressioná-lo ao chão. ❛❛ —-Heath, faça uma checagem urgente da listagem dos uniformes. ❜❜ ordenou, ao que o muito assustado soldado saiu correndo de volta para o palácio. ❛❛ —- E Knox, as algemas, por favor. ❜❜ estendeu uma mão ao mais novo, esperando que ele o auxiliasse ali, como fizera antes, ainda que inconscientemente.
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Mal havia espaço para sua consciência ali, mas ela até tentou se fazer ouvir conforme gritava sobre as inconsequências de tudo aquilo. Não apenas Bellamy engajar naquele tipo de relação com outro homem era extremamente perigoso para a própria integridade física (e moral, nas condições ridículas dos pensamentos daquela gente), mas fazê-lo do lado exterior do castelo daquela maneira, em meio aos labirintos — mesmo que estivessem distantes e escondidos —, correndo o risco de serem pegos por qualquer desavisado que errasse o caminho vezes o suficiente. Se somente um pare olhos recaísse sobre ambos, estariam os dois completamente ferrados. Não que Kirius já não estivesse se esforçando para que Drew perdesse sua posição na guarda e todo o prestígio, mas se aquela situação lhe chegasse aos ouvidos inventaria qualquer coisa para não apenas arrancar tudo o que importava do capitão como colocá-lo nas masmorras. Knox já o tinha visto vezes o suficiente em explosões de raiva para ter medo de imaginar os limites do próprio pai. Já sobre Bellamy? Bem, ele provavelmente não se recuperaria da surra tão cedo - se é que sequer o faria. Todos aqueles medos reais e situações assustadoras até se atreveram a atrapalhar aquele momento, e seriam sem dúvidas as responsáveis por como ele repensaria aquela noite depois. Mas enquanto as mãos de Clark estavam em sua cintura, puxando seu corpo forte contra o dele, Blade não conseguia pensar em absolutamente nada além do capitão que tanto ocupara seus pensamentos nos últimos tempos (e que depois daquele beijo, seguiria por muito mais). Chegou a arrepiar quando a palma da mão do homem deslizou por suas costas expostas, a própria mão que se encontrava na nuca alheia então subindo apenas o suficiente para que pudesse afundar os dedos nos fios do homem e segurar com firmeza, tentando aliviar toda a euforia também através daqueles pequenos toques já que apenas o beijo quente não parecia dar conta. Os lábios tinham gosto de uísque e Drew, o que tomou então um lugar honroso em sua lista dos melhores sabores que já havia experimentado. O primeiro beijo partilhado sem jeito e com muita tensão na sala de treinamento fora ótimo, melhor do que qualquer um que já tinha testado antes. Mas nada, absolutamente nada se comparava à maneira que os lábios moviam em completa sincronia (mesmo embebidos em tamanho desejo que beirava o desespero), ou os toques firmes e fortes que o capitão tinha. Ah, sim, parecia justo que houvesse uma real chance de morrer se alguém descobrisse sobre eles — porque sinceramente, Bellamy Knox estava o mais próximo que já estivera do céu.
Nos limites daquele lado do labirinto, talvez tivesse sido bem mais conscientemente que pensara que ambos trilhassem a caminhada na direção de um caminho sem saída. Inibido pela própria incapacidade de pensar além do que acontecia entre eles, não teve problema em tomar o controle da situação por tempo o suficiente para - sem afastar o rosto do dele - andar alguns passos, fazendo com que Clark precisasse fazê-lo de costas, apenas para que o prensasse então na parede firme e coberta por heras. Se a tinta não fosse tão fixa quanto o prometido, então teriam um problema - porque no momento em que o seu corpo prensou o de Drew contra a parede, a destra voltou a explorar o corpo alheio sem qualquer pudor. Por meio segundo - e meio segundo apenas -, aquela voz irritante da consciência conseguiu se sobrepor sobre o instinto e o prazer; Blade afastou o rosto, aproveitando para recuperar então o fôlego que parecia tão dispensável instantes antes. O estômago virou quando todos os seus medos retornaram de uma só vez, ao som da respiração ofegante de ambos os guardas. Talvez Drew tivesse percebido o pequeno brilho do medo que fizera seus olhos crescerem, porque tão logo a mão fria encostou no rosto do mais novo que fervia. O toque não podia ser o único a levar o crédito, embora tivesse feito bom trabalho em trazer sua atenção de volta ao capitão - os próprios olhos passearam com cuidado pelos detalhes da face alheia, a face que pensou por sólidos segundos que socaria apenas há alguns dias. A face que em um passado longínquo não representava mais do que piadas leves e provocações amigáveis, que agora representava a sua própria perdição. Bellamy, contra qualquer hipótese que ele próprio poderia criar, sorriu. Ah, maldito Drew Clark, que o fazia se afastar da lógica com tamanha facilidade. Dessa vez, no entanto, o beijo partiu do outro - e o capitão não encontraria qualquer resistência, como fora com ele há alguns minutos.
A leve dor que sentiu ao ter os fios escuros puxados serviu apenas para grunhir contra os lábios de Blade e descender ainda mais naquela espiral de desejo e insanidade. Porque, claro, mesmo que soubesse bem que queria cada segundo daquilo, a maluquice de fazê-lo em espaço aberto era uma ideia ridícula para um capitão sóbrio-- e esse capitão sóbrio não estava ali no momento, então faria questão de tirar proveito de cada ação, cada movimento, até mesmo ser empurrado para trás até a outra parede (na verdade, aquilo foi um gesto que o surpreendeu de forma extremamente positiva). No instante em que se separaram por ar, Drew ainda inclinou o rosto levemente para a frente, em um suspiro dengoso, porque mesmo que as células pedissem por oxigênio, ele não estava pronto para encerrar o contato. E qual foi a sua surpresa quando, ao abrir olhos novamente, deparou-se com um relance de receio no olhos de Blade, e aquilo o fez se desesperar-- não, não, não, haviam demorado tanto para chegarem ali, estavam indo tão bem! Não conversaram exatamente sobre aquelas coisas nada importantes de ações confusas e impulsivas -- ou pior, sentimentos --, mas estavam melhor que antes, era um fato! Segurou o rosto do mais novo nas mãos, buscando pelos olhos incertos, tentando reconfortá-lo no próprio olhar decidido, como se apenas com aquilo quisesse reafirmar que estaria ali para o que viesse-- se algo viesse. Ouviu o mínimo suficiente da história de Blade para agora compreender que ele também era uma vítima de Kirius, e que, portanto, carregava tanto medo quanto ele próprio, ou talvez até mais. Estavam ali, juntos, embarcados naquela mesma situação que poderia piorar ainda muito, muito mais, mas que deveriam aproveitá-la o quanto podiam, como podiam. Todavia, o coração batia rápido demais, a adrenalina corria forte demais, os pensamentos estavam embaralhados demais-- e o sorriso que lhe foi lançado o deixou ainda mais perdido. Como querer construir um argumento sólido-- como construir uma frase coerente quando Blade o pegava de surpresa daquele jeito? Desgraçado. Flagrou-se espelhando o sorriso alheio por um único segundo antes de sentir o sangue ferver e os pulmões arderem novamente por estarem ser o ar que precisava, então mergulhou em busca dos lábios de Blade outra vez. Como aquilo era bom, como era delicioso. Sabia que queria fazer Blade se lembrar daquela noite por várias outras que se passariam, mas, hah, ele próprio estava se empolgando demais, de forma claramente indevida. Aproveitando que agora fora ele quem iniciou o beijo, girou os corpos para poder pressionar as costas do outro soldado contra a parede de vinhas. Não se lembrava se a parede estava fria ou se as plantas conseguiam cobri-la apropriadamente, pois não era a coisa que havia mais prestado atenção quando fora pressionado contra ela (haviam coisas mais importantes ali!), então qualquer reação das costas nuas do Knox o faria deslizar as mãos para os quadris alheios, subindo os dígitos firmes pela extensão da pele exposta sem qualquer cuidado. Novamente, se sentia um adolescente-- quando foi a última vez que fizera um ato tão inconsequente assim que se divertira tanto? Conseguia se sentir sorrindo contra o beijo, pequenos ares de prazer se externalizando nos músculos do rosto. Queria aproveitar mais. Queria poder pegar Blade dali e levá-lo para seu quarto-- não, não, sua sala era mais perto dali, ele tinha uma chave reserva escondida. Mas aí, talvez, já estivesse pensando muito longe, um, dois, cinco, dez passos à frente. Bem, que desacelerasse, então. Desgrudou os lábios dos dele, levando uma das mãos até o maxilar alheio para segurá-lo firme, deixando agora o pescoço alheio exposto e livre para que Drew pudesse dispersar ali outros beijos em conjunto com mordidas, os dentes atritando com a pele com talvez bem menos cuidado do que deveria. Ops. Culparia seus atos inconsequentes no álcool no dia seguinte; o que queria mesmo era aproveitar tudo antes que tivessem de voltar ao mundo real, às obrigações e às repetições de tarefas mundanas.
Então aparentemente, Blade teria enfim algo pelo qual agradecer a Kirius Knox. Claro que o ideal seria estar naquela situação com muito menos medo e tensão e passando por um caminho bem menos tortuoso; mas, ainda, parecia ser a primeira vez que conseguia de fato encarar toda aquela merda que antecedia o encontro de ambos no labirinto escuro com algum grau de positividade. Teria uma manhã repleta de arrependimentos e duras auto repreensões no dia seguinte, com certeza, mas naquele instante? Não podia deixar de admitir o quão boa era aquela sensação leve no peito, e o quanto apreciava ver o rosto do outro soldado tão tranquilo. E que surpresa, então, ao ver que ele próprio também estava com aquela mesmíssima expressão? E não apenas de tranquilidade, mas de felicidade! Sim, porque um sorriso pôde ser visto em seu rosto — o que ele só notou quando as bochechas reclamaram, desacostumadas. Drew não estava tão longe em sua hipótese: Blade de fato não quis vê-lo nunca mais, assim que o incidente na sala de treinamentos aconteceu. Mas não por conta do capitão, e sim porque ele próprio não confiava em si mesmo e nos pensamentos incontroláveis perto de Clark. Claramente era tarde demais, porque agora que estavam naquela situação, a mente começava a se rebelar uma vez mais. A diferença era que, daquela vez, parecia saber exatamente o que queria. Foi uma terrível batalha interna na sala de treinamentos, e a descoberta do que queria veio de repente e como um choque; trazendo ações impensadas e impulsivas. Ali (e ele mentiria sobre aquilo para si mesmo depois), Blade sabia o que queria. Não! Sabia quem queria. E ele sabia muito bem o que fazia quando repetiu a ação do mais velho, também dando um pequeno passo em contribuição para a proximidade exagerada entre os dois homens. Não teve a oportunidade de responder a pergunta que na realidade era mais uma brincadeira, pois Drew seguira com seus comentários deixando claro que também estava tão aliviado de estar ali quanto o guarda. Agora, quando ele terminou de falar, finalmente o fez. “Não o suficiente.” Disse, poucos instantes antes de explicar à qual parte da conversa se referia. “Satisfatório, eu digo. Não o suficiente. Ainda” Oh, ele teria trabalho demais depois para criar desculpas para o seu comportamento quando estivesse remoendo aquilo em seu quarto. Quis dizer que sentia muito por toda aquela situação, se desculpar por seu pai. Se desculpar pelos próprios atos, desde ignora-lo depois dos boatos até a forma dura e insubordinada com que falava com o capitão nos últimos tempos. Ele quis dizer, também, que não parava de pensar no que acontecera na sala de treinamento, que dormia e acordava tentando organizar a bagunça que estava dentro dele mas que não conseguia sacudir aquela lembrança. Além disso tudo, quis agradecer pelo momento roubado naquele labirinto, pela tranquilidade daquela conversa agradável, pela trégua acordada em silêncio no início daquela noite. Mas Bellamy Knox era terrível com palavras. Ele sabia, no entanto, agir. O uísque levaria o peso da culpa, mas foi muito conscientemente que a destra do mais novo encontrou as costas da mão de Clark, a ponta dos dedos tocando ali como se Drew fosse de cristal. Então ele subiu aquele mesmo toque mínimo por seu punho, antebraço, bíceps. Os batimentos cardíacos do Knox pareciam batidas de tambor no seu ouvido, o coração acelerando em antecipação à decisão arriscada que estava prestes a tomar. A mão direita chegou a atingir seu ombro mas desceu novamente, como se Blade de alguma forma descobrisse o corpo alheio — escorregou por seu abdômen, até encontrar um lugar em sua cintura. A respiração estava acelerada, e a canhota não parecia tão paciente quanto a outra mão quando foi direto na direção da nuca alheia. Só então ele conseguiu reunir alguma coragem de olhar o outro nos olhos, esperando que houvesse qualquer indício de que Drew o faria parar. Não encontrou nenhuma resistência, e aquele foi seu fim.
❛❛ —- Ainda? ❜❜ respondeu no seu melhor tom formal, se fingindo de desentendido. Haha, que piada-- Drew já tinha muita noção do que faltava para que aquela noite fosse completamente satisfatória, mas queria que o Knox fizesse o primeiro movimento. Não queria que acabasse remoendo aquele momento considerando hipóteses como Blade não querer aquilo de verdade, que tivesse sido coagido ou que o estivesse o manipulando, como foram suas suposições iniciais. Contudo, como poderia continuar naquela linha de pensamento depois do que acabou de ouvir? Não, não se enganaria mais: Tanto ele quanto Blade queriam um ao outro. Tudo bem, ainda queria que tivessem conversado sobre aquele dia na sala, que fosse explicado o porquê de ter sido beijado de forma tão inesperada e depois ser tratado de forma tão fria, e depois com tamanha rispidez-- a verdade era queria fazer sua cabeça parar de dar voltas e voltas no mesmo lugar, tentando inutilmente completar um quebra-cabeças com peças faltando. Mas, hah!! Já havia mandado tudo aquilo (suas hipóteses, suas demandas de explicações, e, mais importante, seu autocontrole) para longe no instante que Blade deu seu passo a frente, os olhos escuros tão cheios de curiosidade. E se por um segundo pensou que poderia ter uma noite tranquila em meio a uma trégua em que pudessem conversar e se resolver, com aquele simples olhar tudo o que poderia pensar era: Sim, por favor, que o usasse para poder responder qualquer pergunta que tivesse. Nem era como se qualquer um dos dois fosse especialista em conversar, não é mesmo? Inspirou profundamente de olhos fechados ao sentir os dedos na sua palma da mão, o toque parecendo elétrico, e os abriu novamente a tempo suficiente de acompanhar o tracejar que fizera pelo braço, até chegar no ombro, deixando uma trilha ardente pelos músculos que iriam lembrar daquela sensação por mais muito tempo. Ao tempo que Blade passou a mão pelo seu abdômen, Drew já estava completamente entregue. A partir dali, não existia mais um labirinto, não existia mais Seleção, não existia o peso de ser o único provedor de sua família, ou alguém que ativamente maquinava sua desgraça; só existia Blade, e mais nenhuma outra preocupação. Demorou sua total atenção por dois longos segundos pelo rosto calmo do soldado (uma face tão bela, com expressões tão raras... Queria poder guardar aquele momento em uma fotografia) para somente então arranjar coragem de fechá-los e mergulhar na intensidade que seria o contato das duas bocas, não oferecendo um pingo sequer de resistência que Blade tentava encontrar. Oh, não, senhor. Agora não havia sido pego de surpresa como na primeira vez, agora poderia revidar apropriadamente: As mãos seguraram firme na cintura do soldado, o puxando para mais perto sem qualquer hesitação, e, assim que estavam próximos o suficiente, com os torsos colados (depois iria verificar mesmo se a tal tinta corporal mancharia sua camiseta branca -- não que aquilo fosse minimamente importante ali), deslizou as palmas pelas costas bem delineadas, deixando sentir sobre os dedos a pele quente do Knox. E o beijo, ainda-- puta merda, como fizera ser mil vezes melhor do que antes. Sim, a língua tinha um gosto terrível de álcool, mas beijaria Blade como se precisasse roubar seu ar para respirar. Desesperado, intenso? Oh, muito. Tremendamente. Arrancaria no beijo todas as respostas que Blade não queria lhe entregar-- e, de quebra, faria questão de fazê-lo se lembrar de si pelas próximas noites que se seguiriam. Iria fazer aquilo se tornar a primeira lembrança, a primeira sensação que teria quando se vissem nos corredores. Não iria mais deixá-lo fugir.
Se acostumar era provavelmente uma condição instintiva e natural, necessária até, de qualquer ser humano. Por isso os treinos ficavam mais fortes, por isso era cada vez mais fácil dar várias voltas correndo ao redor do castelo. Por isso ele tinha parado de perguntar sobre a ausência da mãe, e por isso também que ele tinha aprendido a ficar sozinho (e que assim ele merecia que fosse). Mas, ah, ele ainda buscava se acostumar de vez com a sensação terrível e angustiante da desonra. Porque era assim que ele se sentia diante dos olhos de seu pai, desde sempre, referente à tudo. Ele não era duro o suficiente, forte o suficiente, habilidoso o suficiente. Não era frio o bastante, ou rígido. Homem, seu pai dizia. Bellamy Knox não era homem, de acordo com o progenitor. E havia algo que o poderia afastar ainda mais daquela categoria aos olhos do general? Havia qualquer coisa naquele mundo que o instigasse maior desgosto do que qualquer tipo de demonstração caricata daquilo que ele achava tão errado? Aquilo que Drew Clark era, e o que, inferno, Blade sabia que era também. As vestimentas ridículas reforçariam um estereótipo estúpido que até então sequer passaram por sua cabeça, mas que apenas a ideia de ser flagrado pelo pai o fez perceber enfim. As palavras que ouvira do próprio pai sobre o capitão ecoavam em sua mente, e sabia que seriam ainda mais baixas se sequer desconfiasse que seu filho estava mesmo tão distante do que ele idealizava. O corpo permanecia quente mesmo com a temperatura baixa do lado de fora, mas fora a resposta tão rápida e sincera de Clark que fizera com que o mais novo queimasse por dentro. Blade conseguia pensar em pelo menos vinte motivos que responderiam aquela pergunta, isso apenas com coisas apontadas por Kirius nas últimas três semanas, mas não viera uma só em sua mente. Talvez porque estava ocupado demais digerindo a reação ligeira do outro – especialmente quando essa era seguida dos comentários sobre suas habilidades, tão… cândidos. Eles caminhavam rápido, provavelmente carregados pela emoção (ou quem sabe fosse o ritmo costumeiro da guarda), sequer percebendo o quanto se desviavam do caminho até então indicado aos convidados para trilhar aquele labirinto dos horrores. Fato era que não haveria horror maior para ambos que o mundo fora dali. Franziu o cenho ao ouvir que ele confiaria a vida à Knox, genuinamente surpreso e sinceramente, confuso. Era o agridoce de ter tamanho ego, e ainda sim, gigantesca insegurança. Os passos finalmente diminuíam, porque Blade passou a encarar com atenção as feições alheias, buscando qualquer sinal de mentira ali. De alguma sinceridade falsa. Não encontrou. O rosto definitivamente deveria estar vermelho àquele ponto, com o misto da genuína satisfação e também da vergonha. Não sabia porquê se sentira tão tímido com aqueles elogios, mas poderia fritar algo em suas bochechas. “Não se desculpe” Ele conseguiu dizer, finalmente, a garganta até arranhando um pouco. Não saberia dizer quando exatamente ele pausou a caminhada para continuar analisando o rosto do mais velho com tamanha dedicação. “Eu precisava ouvir isso.” Se ao menos Drew soubesse que naquela simples frase havia mais sinceridade do que se atrevera a utilizar nos últimos vários anos de vida… “Eu nem… sabia. Mas eu precisava.” Assentiu, os olhos teimosos não cansavam de avaliar cada aspecto do rosto bonito. Do rosto ridiculamente bonito, dos olhos que naquele momento eram gentis (embora sérios como sempre), dos lábios que Knox ainda se lembrava do sabor. “Disso tudo, na verdade. Dessa noite, dessa fantasia ridícula. Daqui, no labirinto. Com você.” Oh, as últimas duas palavras definitivamente não foram calculadas antes de escapar.
Drew ainda mantinha uma das mãos massageando a bochecha formigando de vergonha pelas próprias palavras impulsivas quando Blade pediu para que ele não se desculpasse, a garganta arranhando. Ao virar-se para o mais novo, surpreendeu-se ao deparar-se com uma face rubra -- e com certeza não era por qualquer efeito da iluminação, que ali era tão escassa. Era até cômico pensar o quanto a relação dele e de Blade havia mudado desde o incidente. Estavam estagnados em uma relação de rivalidade amigável há tanto tempo que eram momentos como aquele que percebia o quão distante na verdade eram-- ou apenas nunca chegaram em um nível de conforto um com o outro para demonstrarem aquele tipo de emoção. De serem vulneráveis como estavam sendo agora. E, sinceramente, aquilo importava muito mais para Drew do que um milhão de piadas bestas trocadas em treinamento, ou votos de confiança em um milhão de missões. As expressões ficaram ainda mais gentis, soltas-- vulnerável. Normalmente, o Clark odiava aquela sensação, mas (e talvez aquele fosse seu complexo de salvador falando mais alto) saber que Blade precisava ouvir seus pensamentos mais sinceros e que aquilo havia o ajudado o deixou genuinamente feliz. Há quanto tempo não sentia aquilo? Até mesmo com pessoas tão próximas a si: Seus poucos amigos, sua família-- normalmente os bons sentimentos relacionados rondavam em torno de alívio e paz interior. Felicidade. O quão risível era se sentir feliz apenas por fazer outra pessoa se sentir bem? Droga, agora ele se sentia ridículo; um adolescente. Um adolescente que em muito achou divertido as duas últimas palavras que saíram, impulsivas, da boca de Bellamy. ❛❛ —- Comigo? ❜❜ se antes sua mente já tinha viajado por uma simples insinuação à tinta das tatuagens, agora, com uma fala bem mais direta (e com uma dose de uísque -- e serotonina -- a mais), fora incapaz de se controlar. ❛❛ —- E eu aqui achando que nunca mais queria me ver. ❜❜ a provocação saíra com o melhor tom de brincadeira que Drew conseguia fazer -- ou seja, com um sorriso pequeno e um curioso erguer de sobrancelhas. ❛❛ —- Fico feliz que eu tenha falado algo que tenha te dado um pouco de paz de espírito, para variar um pouco. ❜❜ o lançou um olhar de soslaio, ainda com as palavras cheias de cutucadas secretas. O manteve pelo tempo o suficiente de receber uma reação, e depois soltou um riso anasalado curto, negando com a cabeça, indicando com o gesto que a pequena piada havia se encerrado ali. ❛❛ —- Espero que tudo o que precisava esteja sendo satisfatório. ❜❜ mal terminou sua fala rebuscada praticamente automatizada, Drew pausou, deixava as próprias palavras o atingirem, processando junto delas a sinceridade alheia. Relaxou os ombros, e sentiu uma fisgada de dor de fazer uma ação que não era acostumado (há quanto tempo mantinha-se tão tenso?). ❛❛ —- Eu... Também precisava. ❜❜ encarou Bellamy como se ele fosse um bruxo que o havia enfeitiçado para o caminho da abertura de sentimentos-- mas se dissesse que não gostava daquilo, seria um completo mentiroso, e, como bem sabemos, Drew era péssimo mentindo. ❛❛ —- E sim, está sendo satisfatório, antes que me pergunte. A festa, a descontração, a fantasia... O labirinto. ❜❜ e, enquanto pausava para raciocinar as próximas palavras (porque ele sim, com muito menos dúvidas dos próprios desejos, não ousaria completar aquela frase com o mínimo de consciência que queria fazê-lo), ousou aproximar-se um passo. ❛❛ —- ... Com você. ❜❜
Até percebeu o breve desconserto de Drew, afinal não poderia ignorar as tosses, mas não relacionou aquilo à sua frase. Ele não havia falado nada demais, afinal. Esperava. Atentou-se aos dizeres tranquilos sobre a memória da infância, um mísero sorriso no canto dos lábios de Knox se formando. Percebeu que gostaria de saber mais; quase o perguntou. A infância de Blade não fora repleta de muitos momentos infantis, ou muitas atividades de criança. Ele vivia uma vida de regras duras e rígidas desde que se lembrava. Vez ou outra, quando fugia daquilo, era fruto da obediência à Alex e Benedict. Podia dizer, na verdade, que nunca experimentara a liberdade para nada. E quem sabe não fosse isso que havia sentido ao escolher, contra tudo, beija-lo na sala de treinamento? Tomar uma escolha por si mesmo, mesmo quando tudo indicava que seria mal vista pelos outros a seu redor. Verdade fosse dita, Blade podia ignorar muita coisa sobre si mesmo. Sua infelicidade, sua insegurança, os sentimentos confusos sobre a sexualidade, até mesmo os reais motivos que o atraiam para Drew Clark como um ímã. Mas não podia ignorar o fato de que, naquela sala de treinamento, ele havia tomado pela primeira vez em sua vida uma decisão unicamente porque queria. Estava ocupado com o copo de uísque, que bebia um pouco menos devagar que talvez fosse devido, e então percebeu que o capitão havia se interrompido. Bellamy finalmente ergueu os olhos e ao fazê-lo, escutou o complemento em forma de convite para que saíssem dali. Sua mente foi, imediatamente, para o mesmo lugar que nas últimas vezes: o que pensariam deles? Se o notassem, claro, com tanta coisa acontecendo. Mas muito embora seus pensamentos se aproximassem daquele ponto de vista, o corpo não ousou resistir ao toque em seu braço, que o arrastava pra fora dali com menos seriedade que os dois soldados costumavam agir. Como se não conseguissem aguentar a ânsia por ficarem a sós — o que, sinceramente, não era mais que a pura verdade. Foi apenas perto da saída que percebeu, olhando por cima do ombro de Clark, que seu pai havia adentrado o local. Para seu alívio, não tinha sido flagrado pelos olhos duros e rodeados de algumas rugas de Kirius, e mesmo que já tivesse saído de seu campo de visão, Blade apertou o passo. A caminhada pelo jardim até o labirinto parecera tão rápida, muito embora não fosse curta - talvez a repentina dose de adrenalina se misturasse à vontade desesperada de fugir do pai naquela noite em que, por enquanto, tudo parecia correr excepcionalmente bem. Mas, claro, o ato carregava uma certa angústia. Não queria precisar tomar aquele tipo de ação. “Você o viu, não é?” Finalmente falou qualquer coisa, ainda nos primeiros passos labirinto adentro. “Por isso quis sair de lá” Constatou o óbvio, e havia uma sombra de incômodo no tom. Não pelo feito de Drew!! Pelo contrário, estava não apenas satisfeito como agradecido. Apenas era triste que estivesse naquela situação. “Obrigado. Eu acho que não conseguiria lidar com ele. Não hoje, e definitivamente, não vestido assim. Acho que ele me b…” bateria ali mesmo, era o que percebeu que quase disse. “Bom, ele não precisa de mais um motivo para sentir vergonha de mim”
Mesmo que se apressasse para sair dali sem deixar Blade ver o mais velho, percebeu que falhara na missão particular assim que a fala do mais novo foi convertida em passos mais velozes. Merda. Fechou os olhos por um instante, esperando que aquele incidente pudesse passar despercebido pelos dois, ignorando tudo como sempre faziam. Seria apenas dois bonecos, alvos de príncipes folgados, saindo da maioria dos olhares das pessoas ao redor, tentando recuperar a honra depois de terem sido expostos ao ridículo com aquelas fantasias terríveis. Infelizmente (ou felizmente, dependendo do ponto de pista), assim que chegaram ao labirinto, Blade fez a pergunta derradeira. ❛❛ —- Não, eu... ❜❜ até tentaria mentir, mas como era péssimo naquilo (era bom em seguir ordens e ocultar informações e sentimentos, mas não de mentir assim na cara dura), acabou confirmando as suspeitas do mais novo. Suspirou pesadamente, derrotado e envergonhado. Sensação essa que não durou muito: Foi logo trocada pela surpresa, pelo agradecimento, pela curiosidade, pela frase interrompida, mas, principalmente, pela forte indignação, que foi capaz de apagar qualquer outro sentimento. ❛❛ —- E por que seu pai teria vergonha de você?! ❜❜ da maneira que nem se segurou para ponderar os próprios pensamentos antes de falar qualquer coisa, deu na cara que, com certeza, era o álcool ali afetando sua fala normalmente tão séria e monótona. Como poderia ficar calado com aquela informação? Até os passos no meio do labirinto ficaram mais pesados, arrastando pela grama bem cortada as botas pesadas (ao menos isso dos acessórios normais fora mantido em meio à fantasia ridícula). ❛❛ —- Ele criou um dos melhores soldados desse castelo para quê? Para usar de estepe para a própria carreira já formalizada? Sinceramente. ❜❜ quando se deu por si, a ébria cólera pela qual estava enfeitiçado foi o suficiente para fazê-lo expulsar todos os sentimentos do peito de uma única vez. O advérbio final saiu com tamanha intensidade e irritação que o monstro do final do corredor que iria começar a persegui-los deu meia volta e preferiu perseguir algum outro desavisado. ❛❛ —- Eu já sabia que Knox não era o melhor dos Generais, mas sentir vergonha de um dos poucos homens que eu confiaria a vida? Imperdoável. ❜❜ dois segundos depois que terminou a frase, arrependeu-se instantaneamente. Não apenas estava falando mal do chefe que queria expulsá-lo da guarda, mas o fez baseado em um sentimento que, pela concepção de um homem de fora da situação, parecia mais um rant de um filho perfeccionista do que qualquer outra coisa. Ah, claro, e o fez para o filho, ainda. Parabéns, Drew!! Talvez quem fosse o péssimo soldado (e uma péssima pessoa) era você o tempo todo!! Passou uma mão pela lateral do rosto, massageando os nervos do rosto. ❛❛ —- Desculpe. Acabei me exaltando demais. O que eu quero dizer... ❜❜ suspirou, deslizando os dedos para a nuca de forma desconfortável, sentindo a choker apertar ainda mais a garganta. ❛❛ —- ... É que você é um ótimo soldado, Blade. Não há qualquer motivo cabível para seu pai sentir vergonha a seu respeito. ❜❜
Arqueou uma das sobrancelhas com a constatação de que haviam sumido com todas as roupas de Clark. Não era nada tão longe do que Ben costumava fazer com o soldado Knox, mas céus, parecia um exagero. Escolhia levar aquilo tudo, mesmo nos piores dias, com o humor que a situação solicitava — porque o fato de serem manipulados da forma que quisessem para entretenimento de pessoas mais poderosas era, no mínimo, incômodo. Mas no fim, Blade sabia que mesmo de forma torta, os dois príncipes em questão dificilmente tinham más intenções. Dificuldades tremendas de interpretar limites? Sim. Mas maldade? Definitivamente, não. Era o que tornava mais aceitável estar vestido daquela forma, na realidade. Além do mais, se Drew fosse como Bellamy (e ele era), também poderia se aproveitar da leveza de culpar aqueles momentos descontraídos em outra pessoa. Já que, como soldados que tentavam com tanto afinco mostrar suas capacidades para além de quaisquer boatos, colocar-se em situações tão mundanas por espontânea vontade podia ser mal visto. Havia alguma liberdade ao se livrar do peso da escolha, agir como se Blade não estivesse mesmo desesperado por um tempo livre, por uma oportunidade de participar de uma festa idiota, com aquela roupa idiota, e esboçando aquela risada idiota. Observou por alguns segundos o garçom que ia até eles para entregar as bebidas, e Knox deveria ter findado aquela proximidade para evitar qualquer má interpretação (mesmo que eles nem estivessem tão exageradamente próximos, não da forma que ele preferiria), mas não o fez. E não saberia justificar. Talvez não tivesse uma justificativa, afinal. Sinceramente? A mente estava exausta, cansada de procurar por explicações e intenções por trás de tudo que fazia e pensava. Arqueou as sobrancelhas ao ouvir o comentário alheio, que alguns poderiam argumentar ter sido um elogio. Piscou um par de vezes, trincando o maxilar para evitar que os músculos da face se contorcessem em um sorriso, já que parecia ser aquele o seu instinto repentino. Quando Drew bebeu o uísque tranquilamente, Bellamy resolveu fazer o mesmo, perguntando a si mesmo por alguns instantes o porquê havia ficado tão nervoso com as palavras simples. E mais! Porquê de repente parecera tão malditamente satisfeito em saber que Clark apreciava o que via. Beber. Precisamos beber, a voz no fundo da consciência foi o que o fizera espelhar o ato alheio, bebendo um gole generoso do líquido de coloração âmbar. Mas nem se tivesse ingerido cinco vezes aquela quantidade, o álcool teria sido capaz de relaxar as batidas que repentinamente se aceleraram diante do toque alheio. O sangue parecia fluir com rapidez, e ouvia o coração ressoando em seu ouvido enquanto observava o capitão distraidamente passeando com o toque pelos desenhos feitos em seu braço. Por um segundo, tentou se recordar se já havia se sentido daquela forma perto dele antes. Mais ainda: se Drew já o tivesse tocado daquele jeito tão… amistoso, interessado. “E-Eu não sei muito bem” Ele tinha gaguejado!? Ah, que coisa mais patética! Fez questão de prosseguir, exigindo de si mesmo concentração para não hesitar mais em seus dizeres. O que era aquilo, agora? Agiria como uma adolescente no ensino médio? “Disseram que era alguma tinta para o corpo. Primeiro quiseram usar maquiagem, mas disseram que poderia manchar. Essa tinta é mais resistente, e faria menos bagunça se encostasse em outra pessoa. Ainda não testei” A frase fora dita sem segundas intenções, mas não pôde controlar a imaginação diante dos próprios dizeres. Será que a tinta mancharia as vestes de Drew, se ali esbarrassem? As batidas se tornavam audíveis outra vez em nervosismo, e finalmente se afastou, endireitando o tronco e buscando pelo copo, bebericando outra vez o destilado. “Fizeram um bom trabalho na decoração. Não entendi bem a ideia dessa comemoração, um dia apenas para sentir medo e comer doces? E se fantasiar, claro. Mas disseram que o labirinto está muito bem decorado, estão até evitando o lugar” Soltou um pequeno riso pela falta de coragem com algo tão bobo por parte da maioria dos convidados.
À primeira resposta de Blade, Drew arqueou as sobrancelhas, mantendo as pálpebras baixas, em um pedido silencioso para que ele repetisse. Não que precisasse, porém-- havia o entendido bem. Bem até demais. Mas não era possível que tivesse ouvido Bellamy Knox gaguejando. O mesmo rapaz que conseguia lhe disparar insultos tão afiados quanto a lâmina das facas que atirava, que questionava sua autoridade na sua própria sala sem nem pensar duas vezes... Tropeçando nas palavras? Não, devia ter ouvido coisas; não havia motivos para que ele gaguejasse assim depois de um leve toque. Ou talvez, e aquela era a explicação mais plausível, fosse a queimação do whisky na garganta o fazendo pigarrear. Negou levemente com a cabeça, deixando que ele terminasse de respondê-lo apropriadamente. A frase final de Blade, contudo, fizera o próprio Drew engasgar-se com a bebida, tossindo enquanto o mais novo se afastava. Testar se a tinta saía com o toque de outra pessoa-- como evitar os próprios pensamentos maldosos com aquela brecha? Impossível, principalmente com o agravante que Blade era o protagonista de todos os seus últimos devaneios desde o incidente na sala de treinos. Não por ter gostado, não por querer mais, obviamente. Não porque, às vezes, ainda conseguia sentir o toque da mão alheia na sua nuca, queimando, o puxando para mais perto. E sim para apenas entender o porquê daquilo ter acontecido em primeiro lugar. É, claro. Claro... Aquilo o fazia dormir melhor à noite. ❛❛ —- Bem, isso é verdade. Eu já usei muito dessa tinta com meus irmãos nos meus anos de cinco. ❜❜ ah, merda. Mordeu a língua, segurando o copo com um pouco mais de firmeza. Em meio ao nervosismo para tentar agir naturalmente e não esticar mais o último comentário de Blade, jogou ali uma informação avulsa sobre seu passado antes do exército. Não que fosse algo super secreto, mas, por motivos óbvios, o capitão não gostava de comentar de sua vida particular para qualquer um. Não que Blade fosse qualquer um--... Uh, mudando de assunto! Isso, festa sem sentido, labirinto, boa ideia. ❛❛ —- Também não vi muito sentido nisso, mas... ❜❜ prendeu a respiração, interrompendo-se. Ao desvio de atenção do chefe da guarda para não cair vítima dos próprios devaneios outra vez, deparou-se com a figura mais recorrente nos pesadelos dos dois soldados: Kirius Knox. Virando o copo de uísque de uma só vez para acabar logo com aquilo (o que provavelmente não era a melhor das ideias) e deixando o copo agora vazio sobre a mesa, tratou de emendar a frase o mais rápido possível. ❛❛ —- ... Agora que comentou, eu não tinha visitado o labirinto ainda. ❜❜ principalmente porque era na direção oposta de onde o general havia acabado de entrar. ❛❛ —- Vamos lá, melhor do que ter de ficar nesse lugar abarrotado de gente. ❜❜ sem esperar muito por uma resposta, tomou o pulso do mais novo na mão agora livre, o puxando com a emergência que a situação pedia para o labirinto. E que não ousasse se questionar por aquele ato impensado! Sabia muito bem que Kirius iria interromper a pequena e tão necessária interação dos dois se os visse conversando, e não estava preparado para perder aquilo. Só por mais alguns minutos, queria poder conversar com Blade como antes dos incidentes se empilharem. Enquanto o puxava para longe, percebeu que queria, sim, se divertir, mas mais ainda, que não só Blade também o fizesse, mas que estivesse ao seu lado. Só por mais alguns instantes, e depois poderiam voltar a realidade. Só um pouco mais.
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A vida de um guarda illéano era complicada e regradíssima. Não havia tempo para nada que não fosse servir à nação, treinar para servir à nação e descansar para poder servir à nação. Tanto Blade quanto Drew já haviam se acostumado com aquela vida há anos; Blade por nunca ter vivido algo diferente, e Drew por ser muito bom em acatar ordens desde pequeno. Eles eram pequenas engrenagens de um grande contexto que era o exército do país nem tão bem visto assim ao redor do mundo, e pareciam cumprir bem seus papéis até então. Até o “segredo” do mais velho se espalhar, até sua glória conquistada a duras penas se espatifar no chão como um lindo e delicado vaso de vidro. Até o incidente na sala de treino, até se iniciarem discussões carregadas de agressividade e farpas não mais amigáveis como antes. Até a festa à fantasia. Até (um não tão sóbrio) Drew ir até o quarto de Blade e cobrar explicações sobre aquele tratamento esquisito. Até tudo aquilo, estavam em certa conformidade com suas tarefas, com suas vidas, com suas responsabilidades.
Agora? Pareciam adolescentes. Trocavam olhares nos corredores, combinavam agendas para irem se encontrar em lugares dispersos pelo palácio. Não sabia se Blade fazia o mesmo, mas Drew flagrou-se pensando no mais novo em contínuas noites-- e não apenas no corpo que tinha cada vez menos vergonha em explorar um pouco mais a cada encontro, mas as pequenas coisas: Em como havia adorado quando Blade lembrou-se de um detalhe ridículo de uma conversa casual que tiveram sobre comidas favoritas, em como achou muito lindo as bochechas dele se acendendo pela vergonha quando admitiu que não sabia utilizar hashis, sobre como adorou ouvir a risada dele quando o hamster havia mordido o capitão. Droga, sentia-se tão, tão estúpido! Estava quase entrando na quarta década de vida e lá estava ele, arrepiando-se como um adolescente pelas coisas mais bestas; na verdade, só havia ficado tanto tempo preso na concepção de engrenagem que havia se esquecido daquelas sensações simplesmente humanas.
No meio de toda aquela confusão de agendas apertadas com poucos espaços livres coincidentes, descobriram um dia uma brecha da qual poderiam abusar muito bem, unindo o útil ao agradável. Desde que Cedric continuamente solicitava a presença dos dois guardas quando queria passear pela capital -- sozinho, diga-se de passagem --, Blade e Drew perceberam que em escoltas menores, dois guardas seriam muito que bem o suficiente para acompanhar a tal realeza de perto, enquanto os grupos de reforços ficavam em outros pontos estratégicos, a uma chamada de rádio de distância. Tudo pela privacidade dos convidados, é claro, que não gostavam de se sentir observados. Aquela pequenina brecha na verdade se mostrava muito útil quando se tratava dos encontros das selecionadas. Afinal, Blade precisava participar da escolta por tabela; Drew iria acompanhá-lo pela obrigação de não deixá-lo com aquele peso sozinho. O melhor de tudo? Normalmente o príncipe fazia questão de tornar os passeios os mais privados possíveis. Não apenas por conforto e segurança, mas também por… Bem. Poder aproveitar o encontro apropriadamente. Blade e Drew entendiam, claro. Deixariam os dois com toda a privacidade; estariam apenas alguns passos atrás para caso acontecesse qualquer coisa que precisassem chamar a atenção dos guardas do lado de fora, claro. De longe, os melhores momentos que podia se recordar eram por ventura daqueles encontros. A cada dia começava a agradecer mais a Kirius pela excelente oportunidade que havia o entregue de bandeja. Afinal, se não fosse instrutor particular das selecionadas e chefe da guarda, provavelmente escalar ele próprio junto a Blade em todos os encontros tornaria-se muito mais suspeito do que realmente parecia. Na verdade, era até o mais lógico a ser feito. Provavelmente o General divertia-se pensando que estava aplicando um castigo aos dois ao mesmo tempo. Pobrezinho.
O encontro daquele dia, no entanto, não havia começado agradável. Com a Selecionada e o príncipe querendo dar uma longa volta por Angeles antes de irem até a casa de shows para aproveitarem um número musical particular no teatro municipal, Drew teve que aturar uma hora de um frio intenso; era dezembro, e a decoração das festividades que se aproximavam brilhava bem entre os telhados cobertos por uma fina camada de gelo. Sim, ele estava de casaco e não estava efetivamente congelando, mas o vento incomodava o rosto desprotegido.
❛❛ —- Sentindo frio, Clark? ❜❜ Blade perguntou, utilizando a formalidade que a situação pedia. Mesmo que os guardas do time de reforços não estivessem efetivamente de olho neles, e o casal mais à frente estava ocupado entre si, não poderiam se dar ao luxo de agir como gostariam.
❛❛ —- Um pouco. Nada para se preocupar. ❜❜ Drew respondeu, ainda que sua carranca indicasse que estava muito que incomodado por toda a situação.
❛❛ —- Um pouco? Sua boca está azul. ❜❜ a frase saíra natural, e em um tom verdadeiro de preocupação. Porém, o capitão sabia que aquele não era um detalhe a ser passado despercebido.
❛❛ —- Está? ❜❜ ele ergueu as sobrancelhas, guardando para si, com uma força homérica, o sorriso malicioso. Toda a maldade possível já havia sido depositado na expressão curiosa. Subitamente, seu humor havia melhorado em cem por cento. ❛❛ —- Obrigado por se preocupar tanto comigo, soldado. Tem alguma ideia do que posso fazer para resolver isso? ❜❜ porque, hah, ele tinha. Mal podia esperar para poder fazer aquela chamada tão formal pelo sobrenome virar uma súplica pelo seu primeiro nome, normalmente sem ar----
❛❛ —- Na verdade, sim. ❜❜ e, enquanto esperava um comentário maldoso de volta, Drew se surpreendeu ao ouvir um: ❛❛ —- Espere um momento. ❜❜
Para sua terrível surpresa, o que Blade fez foi andar a passos apressados até a barraquinha de uma senhora que vendia bebidas quentes para comprar uma e levá-la até o capitão, que segurava o copo de forma atônita. ❛❛ —- Desculpe. Não é do seu agrado? ❜❜ Blade perguntou, arqueando uma sobrancelha ao ver as expressões de Drew. Não era que o gesto não foi apreciado — muito pelo contrário, o peito do capitão havia se esquentado sem consumir uma gota do líquido quente —, fora apenas… Inesperado, principalmente por conta do tom malicioso das desfeitas que as conversas dos dois normalmente carregavam. Drew limitou-se a um franzir de cenho envergonhado, tomando o copo nas próprias mãos, repreendendo-se mentalmente enquanto negava com a cabeça. Nem tudo era um jogo, nem tudo eram cutucadas no ego, nem tudo se resumia a luxúria. Aquele tipo de pequena gentileza era o que fazia Blade ser tão cativante em primeiro lugar.
❛❛ —- É muito de meu agrado. Obrigado, Knox. ❜❜ e, naturalmente, seguiram o resto do caminho em silêncio. Aquilo não era incomum. Conversas eram algo que os dois guardas pareciam ter tanta dificuldade. Além do mais, a bebida realmente fez um bom efeito em afastar a sensação ruim do frio e os pensamentos maliciosos que haviam invadido sua mente de forma tão súbita. Talvez estivesse se acostumando demais, se precipitando demais, se sentindo à vontade demais. Deveria ser menos invasivo? Guardar um pouco mais as vontades para si? É, estava mesmo se sentindo como um adolescente ao lado do mais novo.
Quando enfim chegaram ao teatro e as portas se fecharam e se trancaram atrás dos guardas, Blade e Drew acompanharam o príncipe e a princesa entrarem por uma das portas laterais que os levaria até as poltronas vazias do teatro. O príncipe os olhou por cima do ombro, os fazendo entrar em postura de sentido. Vossa Alteza apenas sorriu de forma cúmplice, passando um braço ao redor da cintura da Selecionada-- o sinal combinado de forma tão discreta que ele não gostaria de ser interrompido. Blade assentiu, indicando que havia compreendido bem, e os dois sumiram para dentro do teatro, deixando os soldados a sós dentro do hall imenso de um teatro muitíssimo bem decorado.
❛❛ —- Nós temos que-- ❜❜
❛❛ —- Que fazer a revista do perímetro, sim. ❜❜ ainda que estavam sozinhos, o tom sério e compenetrado era mantido, como as boas engrenagens que eram. Porém, a cortada que Blade deu em sua fala fez Drew perceber um detalhe que antes, em meio à capital barulhenta, não foi possível de distinguir. Ele parecia emburrado. Talvez confuso? Um misto dos dois. Demorou algum tempo com mais silêncio e com Blade soando agora tão claramente incomodado (fazendo o capitão se questionar como não havia percebido antes) para Drew perceber. Assim que passaram por uma lata de lixo e o mais velho finalmente pôde se livrar do copo, lembrou que Blade havia estranhado a maneira que Drew reagiu ao entregar o pequeno agrado. Ficou um tempo encarando o copo vazio no fundo da lixeira até tomar coragem para falar.
❛❛ —- Eu te disse que foi do meu agrado. ❜❜
❛❛ —- Não pareceu. ❜❜ na mosca. ❛❛ —- Me desculpe ter demonstrado preocupação em público, capitão. Prometo que não vai acontecer novamente. ❜❜
Que tipo de magia negra Blade conseguia fazer consigo? Ele estava irritadiço, frustrado com a tentativa de carinho discreta que Drew “recusou”, e, mesmo assim, a frase que parecia dita como forma de pirraça o deixava ainda mais atraente. Drew relaxou as expressões, e, aproveitando que Blade não o olhava diretamente, aproximou-se dele o suficiente para, agora com as mãos livres, encaixá-las nas laterais do rosto alheio para deixar alguns beijos delicados por cima das maçãs altas. Quando se afastou, deparou-se com um muito surpreso e constrangido Knox, e, finalmente, permitiu-se sorrir. Na verdade, mesmo se não se permitisse, teria sorrido mesmo assim. Era impossível não sorrir.
❛❛ —- Perdão, Blade. Só fui pego desprevenido. ❜❜ comentou, de forma tão natural enquanto um dos polegares acariciava a pele alheia. ❛❛ —- Isso foi prova o suficiente que eu gostei do café? ❜❜
Blade até tentou falar algo em resposta, mas pigarreou, provavelmente porque não queria fraquejar a voz. Ahá, agora ele havia sido pego de surpresa. ❛❛ —- Talvez. ❜❜ o respondeu, por fim, e os olhos foram na direção da uma porta não muito longe dali, que lia-se “Camarote B”. ❛❛ —- Isso te fez ganhar uma chance de redenção. ❜❜
❛❛ —- Oh, por favor. ❜❜ Drew fingiu suplicar, as duas palavras contendo mais diversão do que demonstrou perante ao seu batalhão nos últimos cinco anos. ❛❛ —- Eu faria qualquer coisa. ❜❜ e faria, mesmo. Decidiu que não mais seguraria os sentimentos novos, que se barraria e os chamaria de estúpidos. Não tentaria se convencer que aquela relação era instigante somente pela luxúria. Havia algo a mais ali-- e sobre aquilo pensaria depois, em outros momentos. Por hora, deixaria-se aproveitar. Estava adorando ser humano de novo, ainda mais por estar o sendo do lado de Blade.
❛❛ —- Qualquer coisa? ❜❜ Blade confirmou, recebendo como resposta um aceno de cabeça. Soltou uma curta risada anasalada, tomando as mãos de Drew de seu rosto para poder abaixá-las e andar até a porta do segundo camarote. Exclusivo. Só para eles. ❛❛ —- Veremos, Drew. Veremos. Já viu essa peça antes? ❜❜ perguntou, dando passagem para o mais velho entrar primeiro.
❛❛ —- Não. ❜❜ admitiu, enquanto passava pelo batente.
❛❛ —- Que pena. ❜❜ Blade suspirou, fingindo desânimo, andando atrás do Clark e deixando a porta se fechar atrás de si. Drew sorriu outra vez, esperto. Ele já sabia o que vinha dali para a frente. ❛❛ —- Porque eu não vou te deixar assistir. ❜❜