Você me fez voltar a ouvir aquelas velhas canções e melodias esquecidas dentro do meu coração maltrapilho. E eu cantei. Depois de tanto tempo, eu me vi cantarolando aquela estrofe repetitiva e brega no meio de um dia monótono. São nesses dias que meus pensamentos vagam, saindo a tua procura. Essa saudade, que fez de mim sua morada, me apunhala por dentro, sangrando essas feridas nunca cauterizadas. Eu resisto, dia após dia, esperando a tua chegada. Não quero mais que minhas palavras sejam em vão - pelo menos, hoje, não. Quero te mandar uma carta, mesmo que isso seja antiquado, e mesmo que eu não saiba teu endereço. Talvez o vento a leve. Talvez o mar a lave. Talvez a areia a seque. Já não me importa: o que me interessa é ter a sensação de que, em um lugar qualquer, você abre um sorriso a cada vez que te poetizo. E, se assim for, escreverei para sempre, afim de te ver feliz até que eu vire nada. Entenda... esse lápis já guardou muitos segredos, muitos nomes. Nenhum como o teu. Simples, fácil. Quatro letras, e todo o sentimento do mundo. Assim, tÃmida, confesso: nunca escrevi sobre o medo que tenho de traçar essas letras - de te nomear de qualquer outra coisa que não seja "meu". Mas, à s vezes, repito o teu nome até dormir, baixinho, quase inaudÃvel. Aperto os olhos fechados, cruzo as mãos no peito, e repito uma vez, uma centena de vezes, um milhão, se possÃvel. Talvez você ouça. Talvez acorde no meio da noite, coração acelerado, mãos suadas. Talvez consiga me ouvir chamar na brisa de um fim de tarde qualquer. Não, eu não estou louca. É só que eu não acredito mais em Deus. Da mesma forma como foi com a fada do dente, coelho da Páscoa, Papai Noel: eu deixei de acreditar que algo existe e zela por mim. Veja você, eu também já não acredito em conto de fadas. Eu deixei de ter qualquer fé em amores eternos e mútuos; eu parei de ter esperança em felicidade infinita. E essa é a grande tragédia que me aflige. Pra ser sincera, nem sei mais se acredito em mim mesma. Tenho vivido há anos nessa corda bamba entre a sanidade e a loucura; no limite daquilo que quero e daquilo que sou. De vez em quando invoco um anjo, equilÃbrio meu chakras, me comunico com o universo... Mas acreditar é uma palavra forte, difÃcil pra quem já passou por tanta coisa. Porém, eu preciso acreditar em algo; alguma coisa que dê sentido para essa vida vazia e fútil - alguém capaz de consertar esse meu coração tão quebrado pela dor e pelo tempo. Então escolho acreditar em você. E acredito nos teus olhos azuis, que contam toda a história da humanidade e escondem a ruÃna e o caos desse mundo. E acredito nos teus lábios que, mesmo mudos, narram todos os grandes amores já vividos e silenciam as mágoas daqueles que choram quando ainda é madrugada. E acredito nas tuas mãos, que carregam as frustrações e os desejos dos seres humanos - e também meu pobre coração. E acredito no teu corpo, ferido, despido, carne e ossos, músculos e pêlos; tão inusitado, tão distinto, encapsulando uma alma tão bonita que sangra por todo o seu ser. E acredito no que você me faz sentir - nada, nunca, foi tão real. E acredito nesse teu coração - que não bate junto ao meu, mas que faz com que o meu continue a bater quando tudo mais é solidão. E acredito nas tuas palavras intrÃnsecas, nos teus gestos suaves, nas tuas ideologias corajosas. Quem te vê, calmo e sereno, não imagina da tormenta incessante pela qual o teu espÃrito navega em busca de um cais. Talvez não seja você: talvez seja o meu próprio reflexo no teu olhar - o único espelho que não me amedronta. Eu também preciso de um espelho... Eu preciso me encontrar em algo, me identificar em alguma coisa. Eu preciso me sentir menos sozinha, menos patética, menos... pequena. Eu preciso me sentir menos minha e mais tua. Eu preciso te confessar tudo aquilo que está engasgado aqui: que eu te amo tanto, tanto; e entre canções e devaneios, escrevo. Escrevo para me manter viva. Escrevo para poder continuar. Escrevo para te canonizar e lembrar, infinitas vezes, o quanto eu te amo agora. Mas não porque acho que vou esquecer: é porque esse momento da minha vida, em que você ocupa uma parte tão grandiosa, é muito bonito... Bonito demais para, um dia, se perder por aÃ. Eu sei que esse amor por você estará sempre guardado em mim. "Sempre": poucas letras, e uma palavra tão imensa. É assim que te vejo: eterno, infinito, sempre. Você, todo dia. Quero você no café da manhã, no almoço, no jantar. Quero você nos dias frios e nas noites quentes. Quero você para, enfim, afastar toda essa melancolia que me dilacera - quem sabe você poderia me salvar de mim mesma. Porque, agora e pra sempre, eu quero você, do seu jeito, com seus defeitos, seus traumas, suas bagagens, suas memórias... quero tomar um pedacinho desse espaço dentro de ti, pra acreditar, finalmente, que minha existência, neste curto tempo que nos é permitido, não será em vão. Então, escrevo. Mais uma noite, mais um poema. Mais uma vez minha alma sangra pelo papel, e eu não ligo: este sangue tem o teu cheiro, tem o teu gosto. Este sangue, vivo e intenso, é o que nos conecta - quando nem mesmo há conexão. Há quem diga que é irreal, que é fantasia. Em que momento alguém decidiu o que era realidade? Em que momento foi estabelecido que essa vida medÃocre que nós vivemos é o que, de fato, existe? Ainda assim, aceito. Como aceito que meus sentimentos são reais; sentimentos, esses, dolorosos e magnânimos, cruéis e abençoados. Como pode isso ser uma mentira? Tudo o que eu sinto é real. Tudo isso que você plantou em mim há de crescer, há de dar frutos, há de desabrochar antes da próxima primavera. Até lá, escrevo sobre você. Pois você é, da cabeça aos pés, poesia... Disfarçada do mais belo ser humano. {Thaisa Leite Meyka}