Foi somente no instante em que Lorcan Scamander ocupou o lugar ao seu lado que Lucy pareceu finalmente romper a espécie de transe em que se encontrava pelos últimos instantes. A caçula de Percy Weasley sentia o ritmo cardíaco errático dando as batidas de seu coração muito mais intensidade do que realmente deveriam ter. Reações que não se justificavam apenas na surpreendente reaparição dos Scamander, mas na percepção que mais uma de suas visões se concretizava. Ela não queria lembrar do desenho naquele exato instante, especialmente com Molly tão perto e tão capaz de ler sua mente, mas foi impossível não relembrá-lo. As figuras idênticas, o trem, a cabina já cheia, tudo se concretizava a ponto de deixá-la completamente enjoada.
A Weasley respirou fundo, repetida e calmamente, recobrando certo controle sobre si mesma para assim ter uma maior compreensão do que acontecia ao seu redor. Faziam mais de dois anos desde a última vez que falara com Lorcan Scamander, e a última conversa entre ambos fora uma briga onde palavras dolorosas foram proferidas de ambas as partes. Lucy gostava de agir como se aquela história fosse passado, como se não sentisse magoa àquele respeito, entretanto, sua postura, o evitamento em olhar para o garoto ao seu lado denunciava seu desconforto. Nem mesmo Lysander recebera atenção em demasia de sua parte. Ela sentia que nada tinha a dizer naquele instante, mas desejava de toda maneira sair da cabine que de repente parecia sufocante. Pegando o celular que jazia em seu colo enviou mensagem no grupo dos monitores informando que ela e Edgar pegariam a próxima ronda ao invés da última. Em um movimento rápido se colocou de pé e pegou a mochila que Molly havia mudado de lugar. ❝Nós temos ronda.❞ murmurou ainda evitando encarar os gêmeos e se dirigindo mais especificamente ao outro monitor da cabine. Rumou para fora, entretanto, a porta, a educação que ainda possuía a fez virar-se em direção aos irmãos Scamander. ❝Bem-vindos de volta! A propósito, é proibido o uso de cigarros no trem e na escola, dá próxima vez eu e Edgar não poderemos fazer vista grossa. Bom restante de viagem pra vocês.❞ concluiu sem olhar para trás enquanto marchava em direção a cabine dos monitores.
Edgar não demorou a seguir a deixa de Lucy. Levantou-se atrás da amiga e, seguindo-a, só conseguiu dizer: “É… bem-vindos e… Wilde vivo sim… E… é… sem vista grossa, sem cigarro e tal.”, mas sem olhar para os gêmeos. Lysander e Lorcan, depois de tanto tempo… E tudo o que o rapaz conseguia fazer era balbuciar uma frase sem nexo que mais ou menos imitava o que sua amiga acabara de dizer aos dois. Não tinha certeza se queria gritar com eles, socá-los no meio da fuça ou abraçá-los com força e cair no choro. Todas as opções eram igualmente tentadoras e, portanto, não conseguiu escolher nenhuma: limitou-se a fechar a porta atrás de si.
No entanto, não foi capaz de acompanhar Lucy em sua marcha determinada. Estava quase zonzo, se é que se podia ficar zonzo de surpresa. Sentia tantas coisas, todas ao mesmo tempo: raiva, alegria, desconforto, ansiedade… Sequer sabia nomear. Foi caminhando, meio perdido em pensamentos e meio estarrecido. Quando finalmente alcançou a lufana, já quase na porta da cabine especial, tudo o que pôde falar foi: “Puta que pariu.”
Lysander ainda acomodava-se na cabine quando Lucy e Edgar levantaram-se e rumaram para fora oferecendo boas-vindas e uma bronca que era direcionada muito mais a seu irmão gêmeo. Logo sua atenção recaiu sobre Lorcan que parecia retraído e possivelmente chateado com as reações de Lucy. Ele considerava que seu irmão tinha até saído no lucro uma vez que a briga entre os ex-melhores amigos fora bastante feia em sua humilde opinião. Quanto a si próprio, bem, por mais que mantivesse uma postura que parecia descontraída ainda se encontrava bastante tenso. Era estranho estar de novo ao redor de seu grupo de pessoas favorito sabendo que muito provavelmente sua aparição não era bem quista. ❛ ━ Levou bronquinha dupla, irmãozinho! Vamos considerar como sorte tu não ter levado advertência dupla antes de pisarmos em Hogwarts.❜ embora soasse como quem brincava havia uma leve reprimenda em seu timbre uma vez que instruíra o mais novo a não se utilizar do cigarro em um ambiente como o do trem, entretanto, nem sempre Lorcan lhe dava ouvidos.
Teria sido bem mais cômodo para si manter a atenção em Lorcan, mas o mais novo enfiou os fones nos ouvidos e virou-se em direção a janela, um claro e óbvio movimento de quem não estava a fim de conversa. Como fora sua ideia irem até aquela cabine caia sobre seu colo a responsabilidade de manter o diálogo mesmo que nada de completamente honesto pudesse ser expressado. ❛ ━ Agradeço a oferta, Dominica, mas prefiro não correr o risco de tua praga pegar em mim e precisar lidar com gosto de merda na boca.❜ suas palavras saíram acompanhadas de uma piscadela que era complementada pelo sorriso arteiro no canto de seus lábios. Para ele era mais fácil encarar Dominique à sua frente do que olhar para Molly ao seu lado. Seria difícil manter o controle sobre seus pensamentos se mesmo por um instante se deixasse distrair na intensidade dos olhos azuis da lufana. ❛ ━ E aí? Como estão as coisas? Como vai a boa e velha Hogwarts?❜ questionou impulsionado pela hiperatividade que o fazia odiar ambientes silenciosos.
Molly não sabia o que responder. Na verdade, mal sabia o que pensar, o que sentir. Como ia a boa e velha Hogwarts? Agora, estava de cabeça para baixo, no mínimo. A chegada, ou melhor, a volta dos irmãos Scamander trazia à tona tantas coisas. Mordeu o lábio inferior, nervosa. Seriam eles um grupo de amigos novamente ou os gêmeos flutuariam por aí como párias? Talvez não buscassem nada mais do que uma cabine vazia… Tinha vontade de suspirar alto. Sentir o ar entrando em seus pulmões poderia lhe dar algum senso de realidade, quem sabe. Mas, ao invés disso, limitou-se a forçar um belo sorriso, encarando o Scamander mais velho sem calor algum no olhar. “Tudo igual, Lysmander. Mas agora podemos ter celulares.” comentou, balançando o seu na frente dele. Que estranho era fingir que não havia nada de errado quando… Quando tudo parecia errado! Dissonante, no mínimo. Lorcan isolado, olhando pela janela sem sequer cumprimentá-los. Num impulso, Molly decidiu provocá-los. Não podiam sair assim e depois voltar como se os dois últimos anos fossem no máximo umas duas semanas. Arrancou um dos fones do ouvido de Lorcan, recebendo um olhar feroz em troca. Devolveu-o com firmeza. “E qual a razão da visita de vocês? Não estavam satisfeitos com a boa e velha Ilvermorny?” falou, o sarcasmo e a raiva misturados no tom habitual. Sentia um mundo de coisas no coração. Estava tensa, feliz, triste, raivosa, ansiosa, puta da cara e esperançosa, tudo ao mesmo tempo. E, por isso, resolveu soltar o furacão Molly em cima dos gêmeos e eles que lutasse. Era o mínimo que podiam fazer para merecer os dois lugares vazios naquela cabine de trem.
A carranca, associada aos braços cruzados, indicava o quanto estava brava com toda a situação que se formara ali, com a chegada tão repentina dos dois que haviam partido da mesma forma. Porém, ainda que estivesse pê da vida com os gêmeos, parte de si estava feliz por tê-los ali, satisfeita por tê-los reunidos novamente. Precisou, assim, de toda sua força de vontade para não sorrir, para não dar uma risadinha, porque não queria demonstrar sua satisfação ao vê-los novamente. Não queria, de forma alguma, demonstrar que sentira falta dos dois. A fala de Molly a tirou de seus devaneios e, olhando da prima para as duas figuras masculinas, Dominique apenas assentiu. “Sim, temos celulares agora.” E vamos criar um grupo para falar mal de vocês, pensou, mordendo o lábio inferior para conter uma risadinha. Com a fala seguinte da prima, a Delacour endireitou a postura e, mais uma vez, assentiu. “Pois é. Ilvermorny se tornou chata para vocês assim como Hogwarts havia se tornado? Qual a próxima parada? Beauxbatons?” arqueou a sobrancelha ao perguntar, os braços ainda cruzados. Precisou, porém, desviar o olhar mais uma vez, para não correr o risco de demonstrar de forma alguma que estava genuinamente feliz, em partes, por tê-los de volta.