As raízes se tornavam de um roxo berinjela sob os dedos, que replicavam o movimento do pilão conforme as instruções de Sylas. Zara demorou a perceber a dormência crepitar, subindo a mão direita, coisa que passaria despercebida se a esquerda (eternamente arruinada para sensações suaves) tivesse sido a única a tocar aquela planta. Ela observou os dígitos de perto, mas resolveu se preocupar com aquilo depois; apenas limpou a seiva viscosa na altura das coxas e deu-se por satisfeita, evitando encostar novamente sem proteção. Ao menos não doía. A face era concentrada, mesmo que os pensamentos estivessem tão tumultuados, chocando-se nas mais diversas constatações. Mas a perícia em afastar tudo o que pudesse lhe afligir quando enfrentava um desafio maior era ampla. "Não." A Byaerne respondeu, com a voz quente e melíflua.
Ela gostava mesmo daquele tipo de coisa⸺ver-se em situações inusitadas, ainda que por motivos terríveis. Havia certo orgulho em desafiar o travesso e suceder, e talvez uma pitada de confiança exacerbada demais... Também faltava vergonha em admitir a inépcia naquele tipo de medicina, mesmo que Zara fosse igualmente pouco versada na cura Khajol. Por dois instantes, ela tirou os olhos da mistura para observar o Vexthorne. Aquilo podia não soar encorajador, mas os olhos de íris verdes compensavam em credulidade. "Passei algum tempo recebendo tratamento no alojamento Changeling. E sabe como eu fico ao redor de coisas novas... Nunca tinha dado dois passos para dentro daquele lugar antes." Zara deu de ombros, tornando a arranhar o pilão de pedra, como se o resto fosse óbvio e autoexplicativo. Hanna, a curandeira-chefe que havia a atendido durante semanas, utilizava coisas parecidas para lidar com o veneno da Quimera. Além disso, Zara era uma ótima estudante quando o assunto lhe interessava⸺e Sylas ocupava um altíssimo cargo naquela escala. Não ficaria perfeito, era óbvio, mas seria o suficiente para devolvê-lo as condições de produzir o próprio unguento.
Quando a Byaerne julgou ser o suficiente, já não conseguindo se aprofundar na escureza do produto, ela deu a volta no balcão para se aproximar da figura do Vexthorne. Ver aquele tipo de vulnerabilidade vinda dele... Era como se Zara o enxergasse sob outro ângulo, numa coletânea de trincas e rachaduras na máscara apática e por vezes indiferente. Era real. Sentia poder tocar sua fragilidade com os dedos, assustando-o a cada movimento ou sobressalto. Deixou sair o ar pelo nariz, assentindo para a mão alheia que expressava de maneira tão sutil o tremendo receio. Não poderia se sentir ofendida ou desejar mais confiança, afinal, quem era ela na vida de Sylas?
Portanto, ela assentiu ao pedido, olhar amolecido, apertando o pequeno recipiente contra a lateral oposta do corpo, para sustentar melhor o peso do Changeling durante o curto trajeto até o quarto. A curiosidade não demorou a vigorar ao passar pela soleira, olhos ávidos esquadrinhando cada pedaço daquele lugar, quase sorrindo ao ver seu presente na estante... Zara estaria mentindo se dissesse nunca ter pensado naquilo. As circunstâncias, porém, eram completamente diferentes durante seus devaneios insones, desde que Sylas havia lhe contado sobre sua coletânea de animais peçonhentos; desde que Zara havia descoberto suas habilidades de desenho. Outras mais, agora íntimas e demasiadamente românticas, após o beijo em Zelaria. Ela o ajudou a sentar na cama, grata que as luzes continuassem amenas, Sigrún tornando-se de uma tonalidade quente ao lado de fora do quarto, iluminando o suficiente para que ela trabalhasse. "Quer que eu feche a janela?"
Antes que pudesse apreender qualquer outra coisa sobre o lugar em que Sylas passava suas noites, o brilho da adaga a fez erguer as sobrancelhas em surpresa. Era desconcertante segurá-la, ainda que curioso. Imaginava se era um item precioso para Sylas, para guardá-lo tão próximo, ou algo que ele utilizava por se sentir inseguro. Talvez os dois. De qualquer modo, não era necessário que ele explicasse o que fazer a seguir. Zara observou a lâmina por pouco tempo, agachando-se frente ao joelho machucado para poder rasgar o tecido. Antes, porém, assentiu para o outro pedido com gentileza e entendimento cegos. "Não precisa olhar." Era uma garantia ousada, até mesmo para a Khajol. E se estivesse tão ruim que fosse irrecuperável só com aquilo? Por que diabos ele não iria querer ver? Zara sentiu o estômago se enjoar e cair, mas se obrigou a erguer o rosto assertivo. Já tinha ido até ali, continuaria otimista. Estabilizou o peso da adaga com a mão esquerda, a direita colocando-se sobre o terço médio da coxa de Sylas. Logo, o tecido deslizou sob a lâmina, o corte feito de maneira lenta e delicada para mitigar qualquer possibilidade de dano na pele. Ela só tornou a respirar quando se viu livre do objeto e com cuidado desceu o pedaço de pano cortado até o pé.
Noutro instante, a mão esquerda dobrava-se sobre os lábios.
O coração surrou as costas num solavanco assustado, e o olhar subiu ligeiramente exasperado para o rosto de Sylas, procurando por qualquer explicação. Deuses, como ele conseguia ficar em pé? O corte irregular e de tamanho considerável era cheio de remendos que não conseguiam juntar a pele que parecia lentamente morrer ao redor. Decerto estava ali há tempo demais, azul e roxo vívidos contavam a história de para onde iria a evolução daquilo. Agora, ela tinha a amplitude do quanto poderia estar doendo, do quão desesperador poderia ser habitar aquela ferida... As unhas começaram a se afundar na pele da palma quando Zara se deu conta de que não poderia continuar com aquele trilho de pensamentos; não era ela quem estava sofrendo.
Suspirando lágrimas que se acumulavam nos cantos dos olhos, fechando-os por dois instantes, a Byaerne pegou com a mão trêmula o potinho de remédio, incerta de onde começar, receosa de fazê-lo passar por ainda mais dor. Indicador e médio imbuídos da pasta gelatinosa escolheram então a parte de cima, ligeiramente anterior à patela. O toque era tão sutil que, por vezes, ela se perguntava se estava realmente encostando a pele de Sylas. "Dói? Muito?" Olhava-o esporadicamente para averiguar, tão logo continuava o percurso tortuoso.
Na falta de luz intensa, o rosto se aproximou do machucado, e então ela notou algo curioso. Uma luminescência que não era a de Sigrún, pulsando símbolos que definitivamente carregavam magia. Arrastando-se para mais perto e conforme finalizava a aplicação de todo o unguento, fez questão de gravar os desenhos na mente. O que eram? Ela sentia certa semelhança coçar o intelecto, mas não conseguia os ler, como os tantos outros áons que faziam parte dos seus dias... Mas era certo ser a razão pela qual o machucado estava tão ruim. Zara sentiu emanar algo desequilibrado dali, mas não sustentou invadir mais a dor de Sylas.
Quando enfim acabou a aplicação, a Khajol limpou a mão e se ergueu para guardar o pote vazio em qualquer superfície. Havia besuntado a ferida agora completamente roxa, na esperança de que ao menos Sylas não sentisse mais dor; tanto que a mão direita inteira estava dessensibilizada ao toque. Tornou a se aproximar da cama, ajeitando o travesseiro antes de tocar o peito de Sylas, indicando para que ele se deitasse. Não esperou protestos para erguer de leve a perna ferida para cima, com cuidado e delicadeza retirou os sapatos, e depois se viu num impasse.
Zara passou as mãos pelos fios soltos. Não queria ir embora. Jamais conseguiria pregar os olhos ao imaginar Sylas sozinho, ferido, com os olhos tão vulneráveis, após ter lhe mostrado algo tão crucial. Sem pensar demais nas consequências, escutou o coração que desesperadamente pulsava no peito pedindo proximidade. Chutou os sapatos com pressa, cansada de demonstrar desprendimento. Contornou a beirada da cama, pulou a poça de água e ergueu-se sobre o colchão, engatinhando até o travesseiro que ficava ao lado do de Sylas. Era um lugar pequeno para duas pessoas, mas ela não ocupava muito espaço. A mão direita dormente foi para debaixo do travesseiro, sustentando o corpo lateralizado para encarar o Changeling, sobrancelhas franzidas numa expressão que não era nem um pouco próxima à de pena, mas exalava um sofrimento muito cristalino. "Sei que já acabei de te ajudar. Mas não quero ir embora." Ela faria algo a respeito, tinha que fazer. "Não me mande embora."
Mais silêncio. E então o deslumbre. Zara havia ouvido aquela palavra inúmeras vezes, de tantos outros lábios femininos. Apenas não tinha percebido que era o que transbordava das próprias íris esverdeadas, incomparavelmente otimistas ao convencer-se de que tudo ficaria bem, observando-o assim tão de perto. Tinha que ficar. Ela estendeu a mão esquerda, tocando a bochecha do Changeling num carinho suave, como se já tivesse feito aquilo milhares de vezes. E então, a primeira pergunta de muitas escapou dos lábios num sussurro. "Por que não me contou?"