𝐚𝐥𝐞𝐜 𝐢𝐫𝐨𝐧𝐯𝐞𝐢𝐥 & 𝐣𝐨𝐬𝐞𝐩𝐡𝐢𝐧𝐞 𝐞𝐬𝐬𝐚𝐞𝐱, 𝒏𝒐 𝒑𝒐𝒓𝒕𝒐 𝒅𝒆 𝒂𝒓𝒅𝒐𝒔𝒊𝒂;
Sylwen ocupava um canto permanente de seus pensamentos. Desde aquele dia, o campo de flores habitava seus sonhos mais tranquilos e pacíficos, em escancarada utopia à realidade. Perturbado pelas tantas ideias acerca da mulher sem sobrenome, teorias rondavam os devaneios de Alec, mais espessos e conscientes a cada pregar de olhos. O lenço de iniciais bordadas, que não condiziam com a nomenclatura por ela outrora oferecida, abismava ainda mais suas dúvidas. Era uma Khajol. Chamava-se Sylwen, supostamente. E era dolorosamente linda: ele só sabia disso. De qualquer jeito, o Changeling mantinha o pequeno retalho de tecido no bolso, lavado e cuidadosamente passado, para o caso de encontrá-la outra vez. Tinha suas dúvidas, por ora questionando se a havia imaginado, tão primorosa era, mas existia ainda singela esperança no peito de que sua imaginação não fosse assim tão fértil.
A vida, porém, continuava a engolir Alec Ironveil, dividindo seu escasso tempo entre reuniões, treinamentos e uma papelada que parecia infinita, obrigando-o a deixar a mulher no mundo das ideias. Mal sobrava algum para montar Myra ou dar-lhe a atenção que merecia; a pobre égua tornava-se cada vez mais frustrada e de difícil manejo. A guerra com Uthdon havia acabado, mas Auberön andava exigente com o restante de sua regência, mantendo uma agenda apertada para os Dirigentes dos quadrantes, devido à reestruturação de Wülfhere. Daquela vez, o encontro foi convocado na Ilha de Ardosia com o objetivo de atender à agenda da Futura Imperatriz, em Hexwood; parte substancial da conversa, já que logo se formaria e ocuparia o trono. Porque era muito mais fácil deslocar um monte de Dirigentes e todos os seus subalternos. Torin, assim como Alec, não mantinha a família Essaex em alta estima. Era indiscutível, porém, a qualidade do outro em ocultar o escárnio e o ressentimento contra aqueles que se mantinham sentados, comendo e bebendo, enquanto seus soldados descartáveis ofereciam suas vidas na linha de frente.
Indiferente ao humor protestante de Alec, o grande barco saiu pela manhã ensolarada da costa continental, rumo ao Arquipélago. Naturalmente, navegar era terrível para o Ironveil: tinha que esconder a náusea vertiginosa, recolhendo-se na saleta a si designada, fingindo assinar e estampar papéis enquanto evitava a proa com todos os seus habitantes. Iria morrer se tivesse que sustentar mais alguma conversação com a Dirigente dos Montadores sob seu olhar de ferro. Khalkedon o ajudava por detrás dos panos, tendo aprendido a assinatura de Torin e todo o manual do ofício: conseguia ser muito melhor do que Alec naquele quesito e o aprimorava sempre que possível, emprestando sua coragem e altivez. Ah, se ele pudesse se aposentar... viver recluso numa casinha nos confins de Aldanrae junto com Myra, apenas observando as campânulas desabrocharem que nem naquele dia. Não. Não seria aquele o final feliz para o irmão.
Por sorte ou por azar, os ventos estavam a favor do movimento até Ardosia, e Alec desembarcaria antes do previsto. Aquilo lhe dava algumas horas de preparo até a reunião, para acalmar seus nervos e poder relaxar. Ao menos isso. Pisar em terra firme transmitia alívio ao corpo tenso. Antes de descer, Alec jogou água no rosto e ajeitou os cabelos, menos rebeldes àquela hora do dia. O uniforme oficial escolhido era da cor do brasão da família Essaex, bem adornado e bonito, com quinas retas que delineavam os músculos adquiridos e lapidados pelos anos de guerra, cheio de medalhas que não eram suas. Com um suspiro para exalar o nervosismo, ele arrumou o lenço no bolso. Estava limpo, quiçá bem apessoado, muito diferente de quando estava no campo de batalha ou em suas manhãs mais desleixadas: Torin jamais se apresentava em desalinho. Dispensou também a presença de Khalkedon e mandou seus outros subalternos se assentarem, preferindo caminhar em solitude pelo porto, aproveitando aquele momento livre de vertigem para se acalmar e se concentrar. Alec tinha uma relação complicada com o ócio: lidava bem com ele se não tivesse nada importante a fazer. Em quase dois anos, ainda não havia se acostumado com aquele posto de comando. Demandava coragem, por assim dizer, e todos tinham grandes expectativas e olhos voltados para Torin Ironveil.
Com as mãos nos bolsos, ele iniciou a caminhada pelo enorme porto, olhos azuis observando as ondas se quebrarem num amontoado de pedras em alto-mar. A parte mais baixa das docas, perto da praia e dos vários túneis que ligavam ao castelo, estava quase vazia. Alec nunca havia mergulhado. No máximo, havia molhado os pés na água salgada⸺nada sob a face escura do mar era convidativo a ele: era perigosamente bonito, selvagem e distante, coisas que ele nunca se atreveria a ser. Ao se contar as mentiras de que a tarde mais uma vez correria bem e que nenhuma suspeita seria levantada, inspirou o ar úmido com ligeiro cheiro de piche e de cera, aproveitando um dos últimos raios de sol para esquentar a pele.
O Changeling não sabia quanto tempo estava perambulando pelas pedras e cascalhos quando notou algo vermelho colorir o canto da visão, destoando da paisagem azul-amarronzada. O coração percebeu antes que a cabeça, pipocando num sobressalto infantil. Num instante, as íris se encontraram. Era... ela? Os cachos ondulados de um loiro singular batiam com a estatura e o jeito gracioso de se movimentar. Não podia ser. Seria coincidência demais. Alec quase tropeçou quando a brisa suave eliminou as dúvidas ao carregar seu perfume inconfundível. Sylwen estava aparentemente só, em um daqueles vários túneis que desaguavam nas docas. Tão próxima. De repente, ele havia se esquecido até de como andar; as memórias do último encontro sobressaindo à mente em respiros de sentimentos que eram reais demais. Ela o havia deixado abruptamente, com inúmeras questões, desenterrando em si sensações que ele pensara haver perdido. Bom, fazia sentido que ela estivesse ali, não fazia? Ela era uma Khajol. Alec engoliu a ansiedade, dissolvida em sua maioria pela vontade de revê-la, e resolveu tocar no lenço que guardava no bolso, pensando se a abordaria com aquela desculpa.
Antes que decidisse, já começava a caminhar na direção da mulher que trajava uma vestimenta vermelho exuberante. O passo se tornou um ligeiro trote que a seguia para dentro do túnel, incerto de conseguir sua atenção. Aquilo o preocupava. "Sylwen!" Chamou com a voz grave, tingida de surpresa. Alec a observou como pôde, uma olhadela desavergonhada, mal escondendo o sorriso que se formava na expressão taciturna. Rudimentar, até. E a chamou novamente alguns metros adiante. O vento soprou forte entre eles, engarrafado pelas paredes de pedra, bagunçando seus cabelos recém-arrumados. Ironveil semicerrou os olhos, fazendo uma viseira improvisada com a mão dominante para se proteger das partículas de areia, colocando-se no centro da passagem para protegê-la também. E então a deteve pelo pulso, deleitando-se em todos os detalhes que lhe chamavam a atenção. "Por que está sempre correndo?"