A voz de Corinne trouxe uma Lori pensativa de volta à realidade. Fechando a agenda onde previamente checava os nomes de seus alunos, isto é, antes de se perder em pensamentos aleatórios, se virou a tempo de colocar os olhos no que parecia muito ser um presente e como não havia mais ninguém na sala, assumiu que fosse para ela. “Isso aí é pra mim? Nem é meu aniversário.” Indagou mesmo assim, um sorrisinho se formando nos lábios ao se aproximar, fazendo charme já que gostava bastante de presentes sem um propósito. A Lorelai de alguns anos atrás estava concentrada demais em ser mandada de volta para casa, sendo uma dor de cabeça para os pais e não enxergaria benefício ou realização alguma em ajudar alguém. Corinne lembrava muito as meninas populares do colégio, aquelas que Lori passava longe porque significavam problema e ela estava focada em ser o problema, não em cair na teia de um deles. Felizmente ela mudou bastante, a evolução tem dessas e a recompensa que ela ganhou em troca de ajudar a mulher a se adaptar na cidade, era se entreter com sua personalidade única. E aparentemente presentes. “Não dá pra julgar mesmo, um lugar doido desse? Sem chance. Sério? Que loja é essa?” Queria dizer que já se acostumou com coisas do tipo acontecendo naquele lugar insólito, a verdade é que cada vez que pensava no assunto, ganhava uma bela dor de cabeça.
Pegou o pacote puxando o laço devagar, estava ansiosa como sempre ficava quando recebia presentes, mas com expectativas baixas, isso evitaria uma situação onde ela não conseguiria conter suas expressões e denunciaria que odiou claro demais. “Vai me dizer o que é primeiro ou é surpresa?”
⸻ * “Para a sua chefe que não ia ser.” Alfinetou, olhando-a de forma cúmplice. “Falando no diabo, você vai dar uma lembrancinha de Natal à ela? Ela bem que merece, não acha? Uma mulher tão boa...” Agora sim estava dedicada em provocar. Sabia o quanto a proprietária da Matres podia ser intragável, especialmente aos olhos de Lorelai, portanto, não podia evitar admirar a paciência com que a professora lidava com ela. Se fosse com ela, já teria armado um barraco há muito tempo. Se recusava a levar desaforo para casa, e sabia que a amiga também não fazia o tipo, mas ao contrário de dela mesma, ela precisava do emprego — o suficiente para aguentar Agatha por todo aquele tempo, supunha. O quê a italiana achava o auge, inclusive, mas acreditava que era melhor não meter o nariz onde não era chamada pelo bem da amizade. Quem diria que um dia mediria as palavras para preservar um relacionamento? Ela mesma que não. “Exatamente, mas quase acabaram estragando a surpresa.” Falou com dissabor. Prestes a revelar o nome da loja que começava com C, a loira se refreou num susto, praticamente fechando os olhos ao que a olhava desconfiada. “Contar o nome da loja seria spoiler, espertinha. Vai ter que descobrir na surpresa.” Piscou à ela de modo divertido. Bastou a tailandesa tomar a caixa das suas mãos para que Cori desviasse dela à passos graciosos, levando-se com leveza, para checar a própria imagem nos espelhos do estúdio, fazendo caretas enquanto arrumava o cabelo, desfazia os vincos das roupas e mandava beijo para si mesma ao final, contrariando os seus propósitos. Ao girar os calcanhares para voltar-se à asiática, deu uma bela de uma olhada na sala. O sentimento de nostalgia era grande — não em relação à Matres, especificamente, mas à estar dentro de uma academia de dança. Quando sua mãe era viva, ela costumava dançar também. “Seja sincera, odeio quem fica com cara de sonso só porque não gostou.” Segurou a cintura e liberou um suspiro cansado, tudo para reforçar que detestava aquele tipo de falsidade. Se não gostou, era só falar. Ninguém ia morrer por causa disso. Apenas o seu orgulho, por ter tido uma (e provavelmente única) amiga verdadeira de quem gostava à ponto de calar a boca quando era a pessoa mais sem papas na língua da Terra não gostar do presente, jogando no lixo os três dias que demorara para fazer a seleção perfeita, crendo que a conhecia o bastante para acertar. Fora isso, o mundo não ia acabar! “E então? O que achou?” Dentes capturaram o lábio de baixo, expondo o tamanho da sua expectativa, e as mãos se uniam numa espécie de prece. Atenta à todo e qualquer indício da reação de Lori, Cori esperou.