Osho dizia que sĂł conseguirĂamos enxergar puramente um ao outro se tirĂĄssemos de nosso olhar toda a poluição e tudo aquilo que nos forma. se eu espero que vocĂȘ toque na minha mĂŁo enquanto caminhamos pelas ruas da cidade, a frustração disso nĂŁo acontecer Ă© puramente minha. se eu te enxergo bonito pela manhĂŁ mesmo com o cabelo bagunçado, isso Ă© um reflexo de informaçÔes, cĂłdigos e conceitos que eu criei na minha cabeça. se eu me jogo na adrenalina da tua pele quente todos os dias Ă© porque aquilo que me forma me assegura que vocĂȘ Ă© um caminho confortĂĄvel por onde posso me desfazer sem risco.
se eu olhar pra vocĂȘ agora, no entanto, o que eu verei serĂĄ eu mesmo? se eu passar minhas mĂŁos pela sua pele e se sua pele tomar minhas sinapses e transformĂĄ-las em afeto, isso serĂĄ de mim, natural?
desde o dia que pisei no mesmo espaço-lugar que vocĂȘ. e eu via vocĂȘ segundo aquilo que esperava hĂĄ muito tempo: alguĂ©m que me via para alĂ©m de um corpo. alguĂ©m que tocava na minha alma porque a via primeiro. eu vi vocĂȘ pelas lentes poluĂdas do meu coração manchado e Osho me detestaria por isso. mas seguimos, ambos, nos olhando e concluindo segundo nossos conceitos, teses, construçÔes.
eu enxergo vocĂȘ pelo que vocĂȘ me proporciona. vocĂȘ sĂł existe pra mim porque meus sistemas te notaram no meio da multidĂŁo de outras muitas pessoas que buscavam por paz. eu gostei do seu cheiro - que era o favorito da minha mente -, eu gostei da maneira como vocĂȘ se vestia, eu gostei de quando me abraçou com os braços apertando minhas costas - as sensaçÔes, tambĂ©m poluĂdas, vinham de mim atĂ© o seu encontro. nosso encontro era fruto de dois desejos, o meu e o seu, pelo amor-cometa que salva tudo e todos.
mas não éramos espelhos puros e imaculados.
mas nĂŁo tĂnhamos o poder soberano de nos despirmos para enxergar o outro com pureza.
e quem Ă© que quer abrir mĂŁo de todas as teses, bagagens e experiĂȘncias em troca de um relacionamento puro e limpo? as pessoas se esbarram umas nas outras carregadas por outras histĂłrias, cheias de outros traumas, com vontades imprĂłprias. e o amor Ă© propriedade. peito aberto, alma limpa, desejo de se entregar e de olhar sem viseira.
vocĂȘ Ă© capaz de me amar por aquilo que eu sou e nĂŁo por aquilo que vocĂȘ quer que eu seja? vocĂȘ Ă© capaz de entrar numa relação inteiramente limpo de si mesmo e limpo, principalmente, de tudo que carregou atĂ© aqui?
hoje eu queria enxergar vocĂȘ e nĂŁo aquilo que eu projeto em cima dos seus ombros. hoje eu queria enxergar todos os seus tropeços como parte de vocĂȘ e nĂŁo como uma desculpa para eu ir embora na primeira mancada. hoje eu queria te enxergar como um ser humano perdido igual a mim, correndo atrĂĄs de um porto seguro no meio de um furacĂŁo que vem sem aviso prĂ©vio. hoje eu queria te enxergar sem pudor, sem medo de me arrepiar com o demĂŽnio que hĂĄ em vocĂȘ, sem medo de me surpreender com o sobrenatural que habita em vocĂȘ, sem medo de encontrar lixo, dejeto, sujeira.
o amor sucumbe porque a gente se olha e nĂŁo se vĂȘ. a gente nos vĂȘ. e Ă© horrĂvel perceber no outro aquilo mesmo que somos: ruins.