Lotto: Chapter 2 - High Roller
Matteo e eu estávamos namorando há quase um ano, faltavam apenas 2 meses para a data comemorativa. Ele era um rapaz muito bonito, e eu me sentia especialmente orgulhosa de ter um homem possuidor de tamanha beleza ao meu lado. Sua personalidade era um pouco difícil de ser definida, às vezes fechado, outras não. Em primeira análise, você diria que se trata de um badboy, suas inúmeras tatuagens dispersas ao longo de seu corpo apenas reforçam essa ideia. Entretanto, uma vez que a intimidade é adquirida... bem, ele se mostra totalmente o oposto de um garoto mau.
Embora pudesse, facilmente, se tornar um.
Após nossa saída extremamente lucrativa, ficamos durante uma semana apenas trocando mensagens. O trabalho nos consumiu por completo, ele com reuniões até tarde da noite e eu completamente exausta pela grande pilha de livros a serem estudadas.
Sábado pela manhã uma mensagem brilhou na tela de meu celular.
“Prepare seu capacete. 7h :P”
Você provavelmente deve estar se perguntando: quem em sã consciência sai para andar de moto às 7 da manhã com o namorado após uma semana inteira de trabalho exaustivo? Bem, Matteo, como eu descobrira pouco tempo depois de começarmos a nos relacionar, detestava acordar cedo. Apesar disso, nós dois apreciávamos a quietude e a solidão que o horário nos oferecia, principalmente aos finais de semana, quando ninguém realmente estava disposto a dar as caras. No início de nosso namoro, costumávamos dar passeios assim, consideravelmente cedo, o trabalho nunca nos permitiu madrugar. Com o passar do tempo, fomos abandonando esse hábito, nos encontrando à noite e até mesmo nos deixando ficar até tarde em bares e praças vazias.
A madrugada e a manhã são opostos extremamente semelhantes em alguns aspectos. Um deles é a solidão.
Pontualidade. Essa é uma das qualidades que eu mais aprecio nas pessoas, e Matteo a praticava. Outro fato interessante é que ele possuía uma dualidade incrível: no trabalho e em ocasiões específicas era um homem totalmente formal e sério, em outras era um jovem rebelde de 23 anos que parecia querer viver a vida adoidado. Essas características provavelmente se deviam a seu vestuário.
Às 7 horas em ponto ele estava na rua, sentado em sua moto clássica.
- Bom dia - ele sorriu ao me ver.
Outro detalhe: Matteo era o dono de um dos sorrisos mais lindos que eu tive o prazer de observar, mas acredito que já tenha citado isso.
- Bom dia - sorri de volta enquanto caminhava em sua direção. - O que te deixou tão disposto a sair da cama pela manhã? - perguntei com um tom de desconfiança.
- Basicamente ficamos uma semana sem nos ver e eu sinto falta de ficarmos juntos sem tanto barulho ao redor... - ele me olhou de uma maneira doce.
- Que estranho... e adorável - sorri. - Então vamos...
Matteo parou a moto a poucos metros da entrada do pier menos famoso da cidade, sim, o menos famoso. Inversamente proporcional a sua fama, temos sua beleza. O local era extremamente fabuloso e isso se devia a sua simplicidade. Era uma passarela larga de tábuas cinzas gastas pelo tempo e não havia nenhum guarda-corpo nas laterais. Era uma passagem direta para o mar aberto, uma imensidão azul se estendia no horizonte, coberta pelo branco do céu, onde o sol escondia-se, tímido, por entre as nuvens.
A brisa leve acariciava meu rosto, enquanto a mão de Matteo aquecia a minha durante nossa caminhada lenta em direção ao pier.
O silêncio nos envolvia de maneira confortável. Quando estamos em sintonia com alguém, o som das batidas do coração e um toque é o suficiente.
Nos sentamos na beira das últimas tábuas descascadas, lado a lado. Minha cabeça pendeu em seu ombro, nossos dedos ainda entrelaçados.
- Se lembra daquele lugar que fomos e tinha os jogos? - ele perguntou após um longo tempo sem palavras trocadas.
- Bom, os caras da empresa disseram que há pelo menos uns 20 só no centro da cidade.
- É mesmo? - perguntei sem interesse real.
- Sim, inclusive existem alguns extremamente restritos, com pessoas de todas as partes do mundo. Pessoas com mais dinheiro do que você seria capaz de imaginar - ele disse como se vislumbrasse nas nuvens como seria um desses locais.
- Só tendo muito dinheiro para arriscar dinheiro para ganhar ainda mais dinheiro - disse, soltando uma gargalhada descontraída ao perceber o trava-línguas criado. Matteo também riu.
- Isso fez muito sentido...
- É uma questão de lógica, não há como apostar o que não se tem.
Mas havia sim, e eu não tardaria a descobrir isso.
- De qualquer forma, - continuou - me convidaram para ir a um deles, no mais simples após o que nós fomos. Hoje à noite.
- E você aceitou o convite?
- Não. Estou muito cansado pra isso, quem sabe em outra ocasião.
Continuamos em meio a conversas soltas, desconexas, sem um roteiro preestabelecido. Falávamos sobre coisas banais, rotineiras, nada especial. Matteo me levou para casa e combinamos de nos ver à noite, uma típica sessão de filmes e comidas. Nada como um programa clássico jovem que, costumava ter after party, mesmo sem ser uma festa.
Minha vida não era, naquele ponto, o que poderíamos classificar como interessante. Com base nisso, apenas vamos ignorar o que eu fiz até o fim do dia e focar no que Matteo fazia.
Ao chegar em casa, Matteo tomou um banho quente e se dirigiu a seu home office. Seu apartamento era de um tamanho mediano, mas possuía uma decoração extremamente criativa em alguns pontos. Desenhos, grafites e móveis feitos de maneira inusitada contrastavam com alguns elementos de luxo. A dualidade estava expressa em tudo o que ele tocava, inclusive em mim.
Roteirizou apresentações, organizou algumas papeladas, fez alguns desenhos e tentou calcular alguns dados. Ele era bom no que fazia e isso incluía dotes culinários. Ao fim de suas tarefas de homem de negócios, fez algo para comer e caiu no sono. Quando acordou, a luz pálida do dia tinha sido substituída pelas ofuscantes iluminações artificiais. Já era noite.
Não faltava muito para o horário combinado para o cinema privé, então Matteo apenas mexeu em mais alguns arquivos para, logo depois, se arrumar e vir até minha casa.
Devo dizer, mais uma vez, que estava lindo? A jaqueta de couro causava efeitos diversos sobre mim, mas não era o preto reluzente em si, era o que estava por baixo dele.
Nos cumprimentamos, ele entrou e logo estávamos na sala discutindo sobre o que assistir. Eu não me importava muito com o gênero, desde que não fosse de terror. Não era uma questão de honra dizer que poderia ser só para parecer legal para ele, não seria diferente com você.
- Vamos fazer um sorteio - sugeri após ele se recusar a escolher. - Escolhe um número, eu escolho outro. Somamos os dois e esse é o filme que vamos ver.
- Você enfia conta em tudo, como é possível? - perguntou ele me encarando de maneira teatralmente indignada, enquanto eu saía de seus braços e me sentava de maneira ereta com o controle na mão, visivelmente animada com a técnica brilhante.
- Vamos lá, pra isso não ficar demorado, escolhe de 1 à 10. Assim dá pra contar nos dedos sem ninguém roubar - afirmei ficando de frente pra ele, ainda sentada.
- A louca dos números tem 7 anos de idade... - ele riu virando-se pra mim.
- Tem alguma ideia melhor? - perguntei.
Colocamos o método em prática e nos deparamos com um filme completamente diferente do que qualquer um dos dois teria pensado em escolher. Não consigo me recordar o nome deste, mas era algo do estilo cult, que você precisaria, no mínimo, assistir umas 500 vezes para entender.
Quando o filme chegou ao fim, lá estava eu, completamente atordoada com um milhão de teorias rondando minha mente. Matteo compartilhava deste estado de espírito. 10 minuto se passaram entre discussões pacíficas, até que ele resolveu tirar a jaqueta.
- Você poderia dar essa coisinha linda pra mim... - brinquei rindo pra ele.
- Não sei que fixação você tem por isso - comentou.
- Ela tem superpoderes de sedução, não quero você andando com ela - firmei uma expressão séria em meu rosto.
- Bom saber disso... Agora você é controladora? - questionou com um quê de falsa modéstia crescente.
- Muito... Você não acredita em mim?
- É só uma jaqueta - afirmou como um pai explicando ao filho que não tem bicho papão nenhum embaixo da cama.
- Ah é? Veja só - peguei a jaqueta de suas mãos e a vesti, o calor de Matteo ainda estava nela.
- Bem... - ele me analisou por alguns instantes antes de estampar em seu rosto um sorriso imoral - eu diria que a jaqueta não fez nada.
- Mesmo? Pois saiba que eu senti algo muito diferente. O magnetismo tem cheiro - sim, o cheiro dele.
- Você não me deixou terminar.... - aproximou-se e murmurou baixinho - A jaqueta não fez nada, mas pode ter certeza de que eu vou fazer.
Agora o sorriso imoral estava estampado em meu rosto.
contrário ao pudor, à decência; libertino, indecente.
O toque suave dos lábios tornou-se um beijo feroz, vívido, apaixonado. O calor foi tornando-se insuportável à cada carícia trocada, a cada sístole seguida de diástole do coração, realizada em um ritmo frenético.
Cada agrupamento de tecido colado ao corpo mostrava-se como um empecilho, uma visita inoportuna, uma pedra no caminho.
O que você faz quando tem uma pedra no seu caminho?
Você tenta se livrar dela.
A tensão era palpável, o ardor era intenso, as pedras eram retiradas, uma a uma. O telefone de Matteo emitiu um som, para mim, apenas um bipe sem a mínima importância, para ele o rugido de um leão em uma sala completamente vazia. O primeiro foi ignorado, o segundo também. Veio o terceiro. O que seria tão importante às 2 da madrugada?
- Pode ir... pode ir olhar... deve... deve ser importante - murmurei, lutando contra mim mesma para deixar as palavras saírem.
Ele foi olhar, mas levou-me junto, sem deixar que seus lábios se afastassem da minha pele, que ardia, quase febril.
De repente, suas mãos quentes ficaram geladas e seu corpo enrijeceu.
Um minuto pareceu uma hora.
- Eu tenho que ir - murmurou bloqueando a tela do celular e soltando-me para ir em direção a sua camisa e seus sapatos, espalhados pela sala.
- O que aconteceu? Alguma emergência? - a preocupação substituiu a urgência que vibrava em cada célula de meu corpo.
- É... Mais ou menos isso... - ele se recompunha rapidamente - Amanhã eu te explico... Isso não acaba aqui - sorriu novamente de maneira completamente inadequada antes de ir embora.
E definitivamente, não iria acabar ali.