“A inevitabilidade dos finais sempre me assustou, foi por isso que eu dei tantos passos para trás. Sempre me gabei, naquelas conversas de roda de bar, que eu estava só e muito bem obrigada, ironicamente, eu via o reflexo dos seus olhos naquele copo de cerveja. Me desculpe por todas as vezes que eu desliguei o telefone de madrugada, porque eu não queria correr o risco de te ligar no meio de uma crise de insônia, me desculpe por todas as mensagens que eu não mandei, os segredos pesados que eu guardava, e que eu podia ter compartilhado com você, me desculpe pelas coisas que eu não compartilhei com você, todas as flores que eu cancelei quando o entregador me ligou pra confirmar seu endereço, por ter dito para aquelas garotas que eu não tinha ninguém, e que ninguém significava tanto assim para mim, a ponto de eu negar sexo à três. Eu tinha alguém, e me assustava que você pudesse preencher todas as partes minhas que eu achava serem impossíveis de preencher, era mais fácil viver com a possibilidade de ser só, que com a possibilidade de ser só após você ter ido embora. Quando você já tinha passado por aqui, e deixado marcas e cicatrizes e pequenos toques que nunca mais vão sair da minha cabeça. Sentia alívio sempre que lia que amor pode sim, acontecer duas vezes, que nem tudo é pra sempre e que com o tempo a gente consegue encontrar uma outra pessoa, ufa, pelo menos eu não vou pensar em você pra sempre. A gente acredita que é melhor assim, sábado à noite vendo Netflix, comendo Nutella com pipoca, seus amigos te ligam às 23h e você diz que tá doente, mas desiste, porque não consegue aceitar que está só em um sábado à noite, então você saí, e dança, e bebe, e beija, e transa, e esquece. É o ciclo, metade dos apaixonados já passaram por isso, a parte de desintoxicação do amor. No meio de toda essa bagunça de possibilidades e na crueldade da realidade de que você não vai voltar, eu acabo pensando que fiz tudo certo, que eu evitei o amor a todo custo, e que é melhor assim, que talvez em uma outra vida, eu terei a mente menos fodida, e a gente vai se encontrar em um desses cafés ao ar livre, e o pôr do sol será testemunha dos sorrisos que esperamos décadas, ou uma vida inteira para dar, você vai esbarrar em mim, talvez, e vai parecer que tudo será certo dessa vez, e talvez eu consiga te amar da forma certa agora, sem o fantasma da inevitabilidade dos finais, talvez eu me entregue de corpo, alma e poesia pra você, e todas as coisas horríveis do mundo não vão mais estar lá. Talvez.”