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Seres como você não são raros. Entre um quarteirão e outro, uma esquina ou duas, é até fácil encontrar versões de você. Eles, iguais a você, não dizem quem são. Ficam naquela jogatina das sombras, entre o desinteresse frio e o poeta louco, apostando palavras sombreadas de um enigma já resolvido. Quando eu vejo um, a pulga da intuição traga uma dedução e assopra a fumaça bem debaixo do meu nariz; e, modéstia à parte, essa praga nunca erra. Não me interprete mal, mas o sarcasmo típico dos sobreviventes do inferno não te torna diferente, nem te torna indiferente. Você é outro igual. Tome o seu vinho barato, mastigue o fumo amargo, escreva suas torpezas e belezas, sacie a boca com beijos eloquentes, entregue seu desejo aos amores quebrados, faça do pecado algo sagrado, pegue o trem das onze e leve o vazio para o metro quadrado onde dorme. Mas essa cidade não é tua, você pertence a ela. Ela te toma, toma a tua dor. Eu sou outro igual a você, ou até pior. Não te vejo de cima; o céu não é meu. Não te vejo de baixo; o inferno também me cabe. Eu te vejo igual a mim, ou até melhor. Só não seja como os outros que se perdem na fantasia de que, por andar na boêmia, acham que têm o sol nas mãos, a razão na ponta da língua, a sabedoria na ponta dos dedos. O mundo é uma sarjeta que fede a decepções, e todos nós somos pedintes de vida, esperando por misericórdia. A noite não te venera só porque você conhece os males dela. Você é filho, aprendiz, amante, poeta. Não seja tão arrogante.
Invenções da minha mãe numa quarta‑feira à tarde: comprar picolés de açaí e colocar leite em pó enquanto assiste aos jogos da Copa. Segundo ela, é muito importante conhecer os adversários.

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Sugestão de leitura:

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Minha mãe gritava: — Peste, deixa de fazer arte! Arte? Arte do tipo criança moleca? Arte do tipo Picasso? Arte do tipo Beethoven? Arte do tipo Fernando Pessoa? Travessura, pintura, música ou literatura? Não sei dizer qual delas, mas, em todas elas, o eu lírico é de tirar o fôlego. Uma mais bonita que a outra. Se eu faço arte assim, o homem do saco me leva? A tristeza de Guernica me atinge? A Sonata de Luar me faz chorar? Os sonhos do mundo podem caber em mim? A dor lúdica do eu lírico, em sua forma lírica, é uma arte feita com as artes da vida. Daquelas que não ferem somente o joelho, mas provocam feridas no peito. A peste que um dia fui, a peste que ainda sou, do jeito bom, do tipo ruim, fez de mim poeta dos pés à cabeça. Eu disse: — Mãe, eu não posso! Sou tabacaria reflexiva, sou piano tristonho, sou quadro de guerra, sou menino curioso. Cada arranhão na pele reflete como cicatriz na alma; sou tudo isso que digo e um pouquinho mais. Nada muito espalhafatoso, mais um cadinho fantabuloso. Reticências das vivências, vírgulas cansativas, travessões atravessados na garganta, pontos finais difíceis de engolir. A arte de mais um capítulo vivido, apesar de toda a dor que carrego, é a arte mais difícil que já fiz e a mais linda que já vi.
Não se mata, Carlos. É domingo e ainda dá pra ver sol...🎶
P.S.: Você ainda tem muitos livros para ler.
Não sabíamos absolutamente nada da vida um do outro, mas conversamos sobre a vida com uma facilidade absurda. Falamos de dor sem mencionar as nossas próprias. Falamos de amor sem citar nomes. Falamos de futuro sem engatar o passado. Falamos de medo sem contar fobias. Falamos de estudo sem detalhar as disciplinas preferidas. Falamos de decepções sem revelar feridas. Não somos amigos. Não somos um romance. Não somos família. Somos colegas de mundo, aprendizes da realidade. Cada um com sua bagagem na estação de todos, apenas esperando o próximo trem. Trocamos poesias, pensamentos e pontos de vista. É difícil encontrar esse tipo de sintonia abissal em apenas uma conversa jogada fora com alguém que você nunca viu e provavelmente nunca mais vai ver. A vida e suas surpresas. A vida e seus acasos. Penso que, se fosse planejado, não seria tão gratificante. Provavelmente, se eu tivesse arquitetado o breve encontro, com certeza ele não teria acontecido. Eu estaria de fone de ouvido evitando contato. E, pela minha rápida dedução, a pessoa também. Não é um conto; é uma pequena crônica de jornal. Dessas feitas de recortes reais, quase sempre esquecidas na última página, porque ninguém lê até o final. Não informa, não emociona, não impacta. Apenas se faz cotidiana. É tão normal que soa poético — claro, se assim você quiser. A vida nem sempre é poesia. É conversa jogada fora. Não é bonito, não é encantador. É esse gosto de monotonia que te leva a um encontro sincero, feito sob uma camada rasa de um assunto qualquer que te faz refletir profundamente. Só isso. Às vezes é preciso ser só isso. Às vezes é bom ser só isso.

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Só resta solidão no jardim das escolhas. A estrada é pavimentada por pedras tortas e flores mortas. Ao óbito foram levados muitos sonhos, castos, lindos sonhos. Morreram por medo, por aflito silêncio; o sangue ainda fede entre os meus dedos. A realidade reivindicou suas almas. Para não sucumbir à beira do caminho, matei-os um a um, sem hesitar. Agora sou fugitivo, culpado e procurado, réu e juiz de mim mesmo. Vivo neste jardim empobrecido, tingido de carmim e vinho, cercado por lírios-aranhas-vermelhas. Poderia eu, um dia, ser perdoado? Poderia eu, um dia, ser perdão? É fácil desculpar os outros; difícil é compreender os próprios motivos. Jazem aqui minhas cartas de retratação; quem sabe, um dia, eu as leia sem rancor no coração, sendo capaz, enfim, de perdoar minhas ações e encarar de frente o meu próprio eu, sem resignação.