Se já Ă© difĂcil dar adeus quando nĂŁo se ama, imagina quando se ama. NĂŁo Ă© simples colocar um marcador de página numa histĂłria de amor e abandonar a leitura. Reconhecer que jamais terminaremos aquele romance. NĂŁo haverá recompensa por aquilo que se leu atĂ© ali. NinguĂ©m nos contará o que aconteceu. NĂŁo participaremos do final feliz: os filhos, a velhice lado a lado, a casa cheia de netos. NĂŁo estaremos juntos na derradeira linha. É morrer sem ter morrido. É desaparecer estando onipresente. O livro de sua imaginação ficará fechado para sempre. A relação terminou antes do fim do amor. O leitor terminou antes da obra. NĂŁo descobriremos qual será o desfecho. NĂŁo queira viver o dia de uma despedida com a consciĂŞncia de que Ă© uma despedida. É uma cirurgia sem anestesia. Será cortado, será remexido por dentro, será costurado, sentindo cada pontada e rasgo, antecipando cada movimento com os olhos abertos. A pele vai doer como um osso, a sensibilidade pedirá piedade, o ouvido apanhará qualquer frase como uma possĂvel sentença salvadora. Melhor que a despedida seja involuntária, desconhecida, desavisada. Melhor que seja abrupta, de repente, improvisada. Pois se despedir Ă© sofrer com tudo que lhe tornava feliz. É abrir os braços para a mágoa como se viesse uma alegria em nossa direção. É um esforço para decorar o estranho momento em que abandonaremos uma vida tĂŁo desejada. O nĂłs Ă© a primeira partilha – o plural perderá seu domĂnio. Voltará a chamar a pessoa que ama pelo nome, como se nĂŁo a conhecesse. NĂŁo mais de Meu Amor. NĂŁo mais de Minha PaixĂŁo. É entrar pelo quarto pela Ăşltima vez, e ter noção de que será a Ăşltima vez. É olhar pela rĂ©gua que mantĂ©m a janela aberta da cozinha pela Ăşltima vez, e ter noção de que será a Ăşltima vez. É abrir o guarda-roupa pela Ăşltima vez, reconhecer o estalo da divisĂłria de madeira, e ter noção de que será a Ăşltima vez. É fechar o registro do chuveiro pingando pela Ăşltima vez, e ter noção de que será a Ăşltima vez. É ajeitar as almofadas do sofá pela Ăşltima vez, e ter noção de que será a Ăşltima vez. É ouvir a respiração perto pela Ăşltima vez, copiosa, irrefreável, e ter noção de que será a Ăşltima vez. É abraçar pela Ăşltima vez e nĂŁo soltar porque Ă© realmente a Ăşltima vez. É beijar pela Ăşltima vez e soluçar porque enfim chegou a inacreditável Ăşltima vez. É uma coleção de instantes definitivos. Preciosos. Sábios. Despedir-se Ă© guardar. Guardar Ă© cuidar. Cuidar Ă© nunca deixar de amar. Quem faz questĂŁo de se despedir, quem faz questĂŁo de inventar uma despedida, Ă© quem ainda ama. Ama muito. Ama demais. Ama loucamente.