Como eu queria me afogar em um abraço. Me lançar em braços firmes, perder a noção do que é meu coração e o que é o coração de outro alguém, e poder respirar fundo. Como eu queria sentir o pulmão se enchendo de ar, somente para depois o esvaziar com um suspiro prolongado; vivenciar a sensação de meu corpo expandindo e se encolhendo em um enlaço, enquanto sou aconchegada mais para perto. Me perder no cheiro da pessoa, na sensação do corpo encostando no meu, esticar a coluna e esfregar o rosto em um ombro gentil.
Porque de repente eu me olho no espelho e não vejo uma mulher, mas uma garotinha. Frustrada por seus sonhos não se tornarem realidade, ignorada e carente de atenção. Em que momento eu me acostumei tanto com a ausência de afeto, que um afago parece uma língua estrangeira, de um país tão distante do meu? Em que momento eu aprendi que era assim? Que a vida era repleta de episódios de solidão, tão profundos que os poucos capítulos de afeto parecem uma mera ilusão?
Onde raios eu me perdi, que ousei desejar ser amada de um jeito que eu desejei? Exigente e mimada como uma princesa iludida, que crê no próprio senso de escolha, mas está fadada a seguir os requisitos do reino. Quantos anos se passaram desde a última vez em que eu tive a calma da segurança, o calor de um colo, o olhar zeloso de alguém por quem eu também pudesse zelar?
Queria poder voltar no tempo e destruir aquelas fantasias eu mesma. Para que eu nunca mais ousasse sonhar e desfalecer de ausência.
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Estou farta dos amores adolescentes. Das paixões fugazes, das náuseas de ansiedade. Já não me acalenta mais o coração acelerado. Não existe interesse na angústia do querer. Tenho ódio do ciúme doentio. Aqueles joguinhos, que uma vez me foram tão excitantes, agora só provocam um revirar de olhos. Porque estou farta dos amores adolescentes, dos amores eloquentes, dos amores fantasiosos.
Quero, para mim, o conforto de um amor que entedie. De um amor preguiçoso, como o arrastar do Sol se pondo no horizonte. Um amor que transpareça segurança na ponta dos dedos. Um amor que se disponha nu, à mesa, e que me nutra com filés de seu coração. Um amor cuja alma pareça o reflexo da minha. Um amor que escore em mim e suspire, que largue todo o peso que carrega nas costas sobre mim, só para que possamos dividir, juntos, por um tempo.
Por onde andam os amores sem medo? Os amores cuja insegurança se limita a ponderar se há, ou não, alface presa nos dentes. Os amores que se entregam naturalmente, que se permitem, que se arriscam. Os amores que seguram na sua mão e dela não largam. Os amores recheados de sorrisos. Os amores em que se dá beijinho de esquimó. Os amores que te enxergam, que te compreendem, e que somente não habitam seu âmago porque não seria possível.
Onde está o amor de construir? O amor de entrelaçar os braços e pular, juntos, no precipício do desconhecido. O amor fundado na parceria, em que cada passo meu é um passo seu. O amor de compreender e ser compreendido. O amor cíclico. O amor sem tempo de validade. O amor que não é interesseiro, mas interessado. O amor cauteloso, dedicado e, acima de tudo, gentil.
Meu amor, não se esconde, não... Vem cá que eu te dou um cheiro. Prometo que eu sou do tipo que só sabe se entregar.
Diga-me se está tudo bem; se eu posso mesmo pôr as mãos nas suas bochechas, emoldurar seu rosto e admirar de pertinho. Quero decorar cada um de seus cílios, das pintinhas que porventura venham a ter, o exato tom da coloração dos teus lábios. Quero admirar sem escrúpulos, como quem admira arte. Sem tempo para parar, como quem vai ao museu. Sem a preocupação de ser julgado, como quem é analisado por visão míope.
E, não me leve a mal... Eu poderia roubar um beijo. Pressionar minha boca na sua, tomar como meu algo que a ti pertence, em um movimento tão fugaz que você sequer tivesse reação. Mas, quero que permita. Quero o prazer de perguntar, baixinho, e presenciar sua reação. Quero passar a vontade de provar daquilo que não tenho o direito de ter, só para me lembrar diariamente de que preciso me esforçar, como quem lapida uma pedra preciosa, porque alcançar você é um trabalho minucioso.
Perdoe-me, porém, por querer lhe envolver nos braços. Escorar seu rosto no meu peito e deixar que ouça meu coração, enquanto fecho meus olhos e aprecio o odor agradável do seu xampu. Quero me aproximar de você, demonstrar minha adoração nos toques mais sutis, como se estivesse polindo porcelana. Quero que você sinta seu estômago revirar em um farfalhar de asas de borboletas, apenas para depois relaxar no momento que você perceber que, comigo, há segurança.
Não quero usar você. Não pretendo plantar essa flor e a cativar, apenas para depois a transformar em um buquê de caules-cadáver. Quero o mais próximo o possível da experiência de cultivar um pé de fruta, que pode – ou não – me dar seus frutos, dependendo da temporada. Porque seria mentira se eu dissesse que não quero nada em troca; é claro que quero. Mas, acima de tudo, não somente quero sua presença como também sua ausência, te conhecer tão intrinsicamente ao ponto de tocar sua alma nos momentos mais obscuros, em que você sinta que de valor não há nada, apenas para que eu te lembre que, para mim, até nos dias mais nublados eu consigo ver beleza no relampejo da sua tempestade.
Permita-me te despir, te agarrar nos braços e te manter pertinho. Dividir calor, em um abraço apertado, e sussurrar besteiras no seu ouvido. Me permita ter o luxo de dividir uma intimidade tão profunda, que ultrapasse o sexual. E me permita construir uma conexão que se torne tão confortável quanto uma boa e velha xícara de chocolate quente, em um dia frio e cansativo.
Quero decorar a posição dos teus dedos quando eu abrir minha mão contra a sua. Respirar a sensação dos seus braços enlaçado na minha cintura, e os meus na sua. Me deixe ser moradia e morador, cuidar de você nos dias mais sombrios e ser cuidada igualmente, em uma duplicidade que ultrapasse o comum ao ponto de qualquer outra parceria parecer um mero acordo perto do que tivermos, assim que você deixar.
Sussurra-me teus maiores segredos que eu prometo sussurrar, a ti, os meus de volta. Me procure quando quiser estar só, para que dividamos uma solidão compartilhada, em que eu fico na minha e você fica na sua, com o conforto de saber que, a qualquer momento, estaremos no alcance um do outro. Deixe que eu ouse me entregar, que eu ouse te pedir em troca, e que nossas mãos se encaixem uma na outra em uma simetria imperfeita, mas que funcionaria tão bem entre você e eu.
Faz-me de amiga, de conselheira, de namorada ou de amante. Na peça da tua vida, distribua os diversos papéis para que eu possa os ocupar um por um, conforme você precisar de mim, se você prometer que vou ser sua artista favorita. E me entrega sua parceria, seu tempo, suas birras e suas manhas, sua carência – e até mesmo sua irritação... Porque quero beijar cada faceta tua, uma por uma, até que você veja, em mim, nada mais do que um abrigo a quem depositar sua confiança.
Então, retribua. Não por obrigação, mas por querer. Porque quer, tanto quanto eu, manusear alguém que lhe dê tanto poder para machucar. Porque quer mostrar que, mesmo com tamanha fragilidade, ao receber algo tão delicado, há apenas boas intenções em troca. Me cura onde fui ferida e me deixa irradiar calor na tua hipotermia. Faz de mim seu escudo, e eu prometo fazer de ti minha espada. E, por fim, me beija como se quisesse dividir cada momento da sua vida ao meu lado. Porque não somente quero ver um pássaro livre voar, como também quero migrar ao seu lado.
se eu te pedisse com jeitinho, você deixaria eu segurar a sua mão? passar a ponta dos dedos pela pele, contar quantas veias eu conseguisse contar, memorizar o formato que você gosta de cortar a unha e fingir que sei ler seu futuro, pela palma da sua mão?
se eu te pedisse com jeitinho, você me seguraria? e me envolveria nos braços, com as mãos espalmadas nas minhas costas, enquanto eu faço cafuné no seu cabelo e ficamos assim até ficar tudo bem?
se eu te pedisse com jeitinho, você deixaria eu tocar no seu rosto? pentear seu cabelo para trás da orelha, esfregar o dedão nas suas bochechas e te olhar de pertinho, como se eu tivesse o mundo nas mãos?
se eu te pedisse com jeitinho, você me envolvia pela cintura? tirava sarro da circunferência, sentia minha pele entre a palma, amassava a gordura com o dedão e dizia que me adora?
Naquela madrugada,
em que eu fui na cozinha
assaltar a geladeira, tomar um
sorvete numa noite
quente de setembro, atípica
e enfiei a mão na gaveta de colheres,
mas me cortei em todas as juntas dos dedos
porque estava repleta de facas.
Ninguém te ensina
como não ser a pessoa favorita
da sua pessoa favorita
e como é ruim a sensação
de tomar sopa com garfo
e faca, sem nem ter
pão pra comer de acompanhamento.
É como ter um quintal pra varrer
com um arado de ferro que
raspa no chão e causa aquele som
insuportavelmente alto,
mas que é tudo que você tem
e o máximo que vai ter.
Tomando sorvete com faca,
lambendo direto da serra,
napolitano de creme,
chocolate e sangue;
garota, nunca te ensinaram que
não se coloca navalha na língua?
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e me parece que, dessa vez, o rouxinol não pôde afiar seu bico
Um dia,
quando fiquei preso no trânsito
eu percebi que
todas as músicas do rádio do carro
me fazem lembrar de você.
E me intrigou
aquela vez que fui ao cinema
e, enquanto mascava pipoca,
pensei que só faltava uma garrafa de vinho
e você.
Tive de parar na rua
e olhar, perplexo,
para meu reflexo na vitrine
no momento em que vi um livro
e pensei em levar para você.
Mas nada se compara
à conformação cruel que senti
parado na rua
enquanto via você
escolhendo ele e não a mim.
Agora, ao invés de relembrar você
eu estou fadado a reviver
cada momento que gostaria que acontecesse,
várias e várias vezes na minha cabeça
e que nunca achei que merecesse ter.
Repito o caminho até a sua casa,
vou na sua cafeteria preferida,
almoço seu prato favorito
e, de sobremesa,
pego aquele doce que você gosta.
Meu sangue ferve de ódio
toda vez que me lembro
das vezes em que pude aproveitá-lo
mas que pensei: é inefável;
vamos nos encontrar outra vez.
você nunca imaginou que faria algo assim. você ainda vai ter 13 anos e vai escrever uma carta para a sua futura eu de 20 e poucos anos que, infelizmente, vai ter jogado ela fora há muito tempo. mas você vai se lembrar de ter escrito que esperava que estivesse muito feliz, morando sozinha, com um namorado que fosse seu príncipe encantado e que fosse uma escritora publicada.
esses anos vão ser difíceis. você deve estar animada e chateada ao mesmo tempo. você não escolheu escrever para essa idade à toa; você só tem nove anos e acabou de trocar de escola, mudou com seus pais pra um apartamento novo. ao mesmo tempo que a ideia de morar em um lugar tão legal e tão grande é incrível, que ver seus pais felizes é maravilhoso, você está de coração partido pela vida que você deixou para trás.
você tem medo de muita coisa. medo de que seus antigos amigos não te queiram mais; medo de não fazer novos amigos; medo da puberdade; medo do escuro; medo de ficar sozinha... e mesmo com todo esse medo, tudo isso vai ser superado. eu sinto muito, mas hoje em dia todos aqueles amigos que você tinha medo de perder, se foram; alguns por conta própria, outros você mesma escolheu ir. você fez muitos amigos novos e amigos muito queridos, alguns deles que você espera levar para a vida toda. você vai sobreviver a todas as vezes em que chorar porque menstruou na escola e sujou a calça de sangue (a dica é água oxigenada, querida!). você vai descobrir que o escuro é silencioso, calmo e amigável. e o medo de ficar sozinha se tornará um apreço pela solidão e o aprendizado de valorizar os momentos em que não estamos só.
a puberdade vai ser cruel. eu mentiria se dissesse que, mesmo depois de todos esses anos, você não fica triste quando se olha no espelho. você ainda tem suas encrencas com os seus braços gorduchos, as panturrilhas salientes e as coxas que nunca tiveram um vão entre si. com 15 anos, você infelizmente vai aprender a não almoçar e vai emagrecer quase 10 quilos em três meses. com 19 anos, você aprenderá a contar calorias. com 21 você ainda tem espinhas, seu nariz ainda é daquele jeito que você não gosta, seus dentes estão ainda mais tortos e seu cabelo ainda nunca parece bom o suficiente.
seus pais vão se separar. e vai ser o inferno. você vai viver com eles em pé de guerra por anos que parecerão a eternidade, até o momento em que eles consigam finalmente vender o apartamento. você vai brigar com a sua mãe, porque você vai querer morar com o seu pai. você vai voltar a morar com a sua mãe. e depois voltar a morar com o seu pai. e em todas essas ocasiões você vai odiar eles por diversos motivos diferentes. mas, vai chegar um momento em que você vai aprender que, por mais que eles sejam seus pais, eles também são pessoas. você vai engolir que as pessoas erram. e você vai escolher continuar ao lado dessas pessoas porque as ama, independentemente do mal que elas fizeram. você vai valorizar o bom, vai amar o bom. não vai esquecer o mal. mas, vai perdoar. do mesmo jeito que sua mãe te perdoou por deixá-la pós divórcio e seu pai te perdoou por todas as vezes que você mentiu que não estava tendo comportamentos nada suspeitos para um adolescente. você vai encontrar o equilíbrio com eles e eles com você. e você vai amá-los como nunca pensou que seria capaz de amar.
seus avós vão envelhecer. sua avó vai desenvolver demência e seu avô vai se amargurar com isso. e vai doer. vai doer para caralho. você vai querer fugir, mas não tem para onde correr. você vai assistir aquela senhora que cuidou de você desde o nascimento se resumir a alguém que acorda, come, tem a fralda trocada e é posta para dormir. você vai ver seu avô, tão cheio de energia, aos poucos ir diminuindo. e você vai lembrar de como ele parecia tão imponente e tão grande e seu coração vai partir em mil pedaços quando perceber que ele, agora, parece um bibelô. e você vai querer voltar no tempo e aproveitar de novo o tanto que você aproveitou quando era mais nova. você vai ter medo de que eles não vejam você se formar na sua faculdade. você vai ter medo de nunca ter apresentado um alguém pra eles. você vai ter medo de que eles morram lembrando de você como aquela garotinha e você sempre vai se emocionar quando alguém falar sobre demência ou alzheimer.
você vai descobrir que não importa quantas vezes você tente, você nunca vai ser a melhor para os outros. você vai escrever assiduamente por dias, desenvolver mais de 100 histórias, escrever mais de 1000 capítulos, ter mais de 10000 páginas em arquivos .docx no seu computador. e você vai passar meses sem escrever. talvez um ano, dois. você vai ter medo de escrever. você vai implorar para seu corpo escrever, mas ele vai estar paralisado em ansiedade. você vai tentar escrever não um, nem dois, nem três livros. você vai tentar escrever cinco livros, estagnar no quinto e passar três anos desenvolvendo ele, para chegar ao ponto de estar o escrevendo pela terceira vez porque ele não estava bom o suficiente antes. você vai escrever mais de 150 poesias e vai jogar metade delas no lixo. você vai odiar suas poesias. você vai amar suas poesias. você vai se sentir órfã de si mesma e pensar que se jogou fora. até o momento em que você se reencontrar. até o dia que você se perdoar por ter demorado quase dez anos para finalmente pôr a cara a tapa e se lançar na vida como escritora, por mais que você vá sentir vergonha de se chamar assim. você vai publicar textos e eles serão ignorados. você vai criar mundos e universos que não serão devidamente apreciados. mas, você vai entender que basta que você goste deles e que eles te façam feliz. e quando você entender isso, todos eles vão fluir e você vai perceber que você finalmente consegue voar nos seus sonhos. você vai voltar a escrever. lentamente, mas vai. você vai amar escrever. você vai chorar pelos seus próprios textos depois de mais de cinco anos achando todos eles sem sal, sem açúcar, sem pimenta. e você vai se apaixonar pela sua criatividade. e quando isso acontecer, você vai perceber que cada vez mais surgirão pessoas que enxergam isso em você, também. e vai ser agradável.
você vai entrar em depressão profunda duas vezes. você vai tentar se matar três vezes. você vai odiar a vida, sentir dor ao respirar, sentir medo de abrir os olhos no dia seguinte e perceber que está acordada. você vai querer gritar, mas nada vai sair. você vai negligenciar. você vai fechar os olhos para a verdade. você vai ser vítima. vai se encrostar na cama. vai demorar anos para finalmente conseguir começar a unir forças. e quando passar, você vai apreciar o silêncio. você vai passar horas olhando o céu azul e escutando os pássaros. você vai dar risada porque se sentiu feliz com o cheiro de um produto de limpeza. você vai ansiar o dia seguinte e o próximo. você vai querer fazer tantas coisas que não vai nem sobrar tempo. e então você vai cair de novo. você vai cair mais fundo. você vai sentir desespero quando perceber que marcou data e hora para dizer adeus. você vai se odiar por não valorizar as chances que tem. você vai desejar que qualquer um pudesse ter a vida que você tem, menos você. e, mais uma vez, isso vai passar. você não vai mais sentir medo de ficar deprimida novamente algum dia, porque você vai aprender a se reerguer em 1/3 do tempo que você demorou na última vez. você vai finalmente ver como você é uma guerreira. você vai olhar a força que você tem e você vai se amar por isso. você vai amar ela por ter tido esperança de te trazer de volta. e você vai prometer sempre estender a mão pra ela quando ela precisar ser forte mais uma vez.
seu mundo vai cair por terra quando você aprender que as coisas não são sempre como você queria que fossem. você vai aprender que as frustrações são tão valiosas quanto as realizações. você vai aceitar que nem você, nem o mundo ao seu redor precisa ser perfeito. você vai aprender a montar as coisas do jeito que você quer, mas da forma como elas podem ser montadas. vai aprender que a bola encaixa no círculo e o cubo, no quadrado, mas que eles não necessariamente precisam ser da mesma cor que o brinquedo original de fábrica. você vai aprender a caber e a não caber. vai aprender a pedir e a receber. vai aprender a esperar, esperar, esperar e aceitar se não receber nada em troca. você vai correr quando tiver de andar e andar quando tiver de correr, mas também vai caminhar quando precisar caminhar e pular quando precisar pular. você vai descobrir que a perfeição não está no ser perfeito, mas sim no poder ser perfeito e, consequentemente, poder ser falho. e mesmo nessas falhas, vai aprender a enxergar beleza.
você vai amar. você vai amar pra caramba e vai ser amada. e você também não vai amar o suficiente e vai ser pouco amada. você vai odiar amar e vai amar amar. e seu coração será partido tantas vezes, mas tantas vezes que você vai desejar que ele não existisse. vai demorar, mas você vai aprender que o príncipe encantado não existe. você vai perder muita gente por culpa do amor, mas vai perceber que não escreve do mesmo jeito quando não está apaixonada. você vai encontrar o que realmente é amar no lugar em que você menos esperava. e você vai amar. profunda e meticulosamente, você vai amar. você vai perceber que amar de verdade não é só querer ser amada. você vai descobrir que a dor de não ser amada de volta não chega aos pés da dor de você amar e não poder dar esse amor. você vai perceber que amar não é simplesmente estar com alguém que te ama de volta, mas que amar é você encontrar alguém que faça com que você aprecie dividir. você vai aceitar seus sentimentos e não vai ter vergonha de dá-los aos outros. você vai amar alguém simplesmente porque você quer amar. e amar vai deixar de ser aquele peso assustador, passando a se tornar uma vela que ilumina o canto daquele quarto confortável dentro do seu ser. vai demorar, mas você vai aprender a deixar que te amem por ser somente quem você é. você vai perder grandes amores por não ter se achado digna de amor, mas vai descobrir que é. e você vai continuar sem alguém por tanto, mas tanto tempo que você vai se sentir só e carente. mas você vai aguentar. porque você vai decidir que a ti não basta desejar ou se apaixonar: você só aprendeu a amar. e você aguardará o momento em que finalmente poderá canalizar todo esse amor.
prestes a fazer 21 anos, você vai sentir como se estivesse fazendo 30. você vai se odiar por todo o tempo que sente que perdeu, mas vai respirar fundo e vai se perdoar. você vai aprender a se amar. você vai descobrir que a maior loucura que se pode fazer, por amor, é perdoar. e você vai se abraçar. você vai ficar ao seu lado e vai segurar sua mão como ninguém foi capaz de fazer. você vai perceber que desperdiçou muito tempo procurando na vida o que você sempre teve, mas nunca valorizou: você. e você vai se permitir se apaixonar perdidamente por você, a valorizar cada momento em que passamos juntas. vai abraçar cada parte de você, que há dentro de você, cada idade que você teve e cada faceta, cada sentimento, até mesmo os piores. você vai se permitir errar. vai se permitir esquecer. vai se permitir viver e será incrível.
acima de tudo, você vai meditar. você vai sorrir ao perceber que aprendeu muito, mas que ainda há muito a aprender. você vai se animar ao perceber que, por mais irritante que seja não conseguir as coisas da forma exata e no tempo que você gostaria, você ainda é capaz. e você vai se acolher mesmo nos dias em que a vida faça o menor sentido. você vai ser falha e, ainda assim, vai ser tão completa que vai se assustar. você vai ser você. e vai se amar por ser você. e vai se odiar por ser você. e mesmo quando odiar, você vai aceitar que está tudo bem ter dias assim. momentos assim. vivências assim.
luiza, tudo que você aprendeu durante todos esses anos veio de ensinamentos carregados de dor e muito sofrimento. você não precisava ter passado por isso e eu sinto muito, muito mesmo por toda a dor que você sentiu. mas você não vai conseguir negar o fato de que, hoje, você só é capaz de ser tão leve e feliz assim, porque um dia carregou o peso da tristeza que viver pode trazer. e no dia em que você perceber que não tem mais medo do seu lado falho, ruim, infeliz, irritado, socialmente desajustado e malvado, você vai ser muito, muito feliz.
até lá, o que eu posso te prometer é que você vai ver o quanto você pode ser forte. e o quanto você ainda poderá ser forte e admirável.
você ainda não consegue aceitar isso, mas eu amo você. e vou carregá-la comigo, no meu peito, para todo o sempre, luiza de nove anos. assim como, em um futuro talvez breve, talvez distante, eu serei carregada por uma luiza mais velha. mais sábia. mais experiente. mais falha. mais humana. mais luiza.
o sentido é que não faz sentido e por isso que é gostoso assim
Se você me lançar um blues,
eu te devolvo um pagode;
sua réplica é um jazz,
então eu mando rock.
Você grita ópera
e eu sussurro bossa-nova,
ao passo que o óleo
beija a água.
Berra bem baixinho no meu ouvido
que eu te bato com carinho
e nós dois fingimos
que nada aconteceu.
Se tua boca é um túmulo,
meu ouvido é pinico
e do zíper dos meus lábios
só você sabe abrir a fechadura.
Ontem concordamos
em cinco versos por frase
e eu escrevi
assim como prometi.
Então, fecha os olhos
e escuta o toque quente
da mão gelada que,
acanhada,
tenta desesperadamente tocar a sua.
eu sempre quis te contar sobre os sentimentos que entalei em minha garganta durante tanto tempo, pelos motivos mais diversos. retirar meu coração do peito, o colocar sobre a mesa e o fatiar em pedaços, manuseando com o garfo para te mostrar aquilo que mora no meu âmago. se você pudesse ver 1% do que eu vejo em você, acabaria parando nos jornais por se tornar a versão contemporânea do mito de narciso. você implodiria de amores por si mesmo e perceberia que nem mesmo habitar seu próprio ser seria o suficiente para aguentar todo esse amor.
eu sempre quis pegar tua mão pra mim. segurá-la contra o rosto e amassar a bochecha nela até que o calor do meu corpo se igualasse ao seu. eu beijaria a ponta dos teus dedos, um por um, e ainda assim não me contentaria: teria de afundar a boca na tua palma e beijar cada traço que nela tenha, como um devoto honra seu ídolo, para enfim abraçá-la rente ao peito e suspirar de paixão.
eu sempre quis perder os dedos entre teus cabelos, sentir o cheiro fresco de shampoo. emaranhar-me neles até que eu soubesse nomear um a um, sem sequer hesitar. dar-te um colo para se aninhar enquanto tenta afastar a insônia, cantando baixinho junto a um cafuné para te acalmar. e eu velaria seu sono, acordando de meia em meia hora somente para me assegurar de que você está tendo o descanso que merece. eu roubaria todos os seus pesadelos e os vivenciaria em looping, ao ponto de que dormir fosse uma tortura, somente para poder te livrar. e, mesmo assim, sentiria-me a mais sortuda mulher por poder dividir a cama com você.
eu sempre quis te abraçar forte. manter-te em meus braços por tempo demais, passando do que é socialmente aceitável. mas também me deleitaria com o mísero segundo que eu pudesse tê-lo tão perto de mim, porque eu estaria segurando não somente meu mundo, porque o que mais me encanta em você é a sua complexidade enquanto existência; eu estaria segurando todo o meu universo, perdida em puro êxtase ao poder vislumbrar cada minúscula e insignificante poeira cósmica, que eu faria questão de exaltar até que você entendesse que tudo sobre você é passível de adoração.
eu sempre quis que você soubesse que cada momento que passo ao teu lado, é visto como uma dádiva e apreciado como um evento. e que mesmo os episódios mais nebulosos me são percebidos com valor. porque amar você é entender que sua essência complexa não é boa, nem má, é apenas você. e amar você todo dia é uma escolha. é escolher depositar carinho em algo que me faz feliz. é amar você simplesmente porque faz sentido. porque é você. e não teria outro sentimento que eu pudesse direcionar a você a não ser esse.
Ela chega atrasada na cafeteria, mas ele está lá, esperando por ela. Não parece surpreso quando nota que o atraso dela foi de exatos 15 minutos. Pelo contrário: ele a observa com aquela mesma careta de sempre, entediado, conforme a assiste pendurando a bolsa na cadeira, tirando o sobretudo, o cachecol...
Enquanto ela está cheia de tralha, ele só trouxe sua carteira, o celular, as chaves e um caderno de bolso com uma caneta. Tudo cabe em seu bolso. Mas ela precisa da bolsa, de uma ecobag para carregar algo extra e, bastasse tudo isso, ainda precisa carregar nas mãos as peças de roupa que ela usa de forma exagerada, como se fizesse, assim, tão frio. Não faz: ele só está de camisa e blusa de lã. Mas, ela sempre foi friorenta.
— Você não imagina o trânsito que eu peguei vindo pra cá. — É a primeira coisa que ela fala, assim que consegue, finalmente, se sentar.
Ele observa de forma silenciosa conforme ela tira as chaves e o celular do bolso, os deixando sobre a mesa. Mais tralha.
— Depende. Você pegou o caminho mais longo?
— Obviamente.
Ele não se surpreende, mas também não fica contente com o que ouve.
— Esse caminho sempre te faz atrasar 15 minutos.
— Eu sei. Mas, o trânsito que eu pego naquela ponte, me deixa ver a vista bonita do parque que fica embaixo. E eu gosto muito da vista bonita do parque que fica embaixo.
— Então, saia 15 minutos mais cedo.
— Não é como seu eu planejasse passar pelo caminho mais longo toda vez. Eu sempre acho que vou pelo caminho mais curto, mas quando chega a hora...
— Se você percebe que isso sempre se repete, por que ainda insiste?
Ela faz bico. Estica o braço sobre a mesa e rouba o cardápio do lado dele, o puxando para si. Quando abre, ela passa os olhos por todas as opções possíveis. Suspira, boba, quando se lembra das vezes em que tomou cappuccino ali. Ou daquele dia em que provou o chocolate quente. Do quentinho que sentiu no peito quando provou café preto com brownie. E da satisfação de tomar um suco de melancia com um sanduíche integral.
— Você já pediu? — Ela questiona, sem o olhar.
— Não. — Ele responde, simples. Tira o óculos do rosto e passa a limpar a lente em um guardanapo. — Imaginei que você iria atrasar, então esperei pra pedir quando você chegasse.
— Se você já espera o meu atraso, por que ainda tenta me convencer de não me atrasar? — Ela ri, jogando o jogo dele. — Por que você não marca 15 minutos antes do horário que gostaria de me encontrar?
— Dessa vez, quem chamou foi você.
— Ah, é verdade. Tinha me esquecido. — Ela vira a página do cardápio mais uma vez. — O que você vai pedir?
— Suco de laranja e pão de queijo.
— E desde quando você gosta de pão de queijo?
— Eu não gosto. Mas, você vai pedir alguma coisa exótica, que você não vai gostar, e eu vou ter que comer. E você vai ficar com o meu pão de queijo, como sempre. — Ele gesticula, em seguida põe o óculos no rosto. — Simples assim.
— Eu não peço nada exótico. — Enfim, ela fecha o cardápio, o apoiando sobre a mesa. Sua expressão é ofendida. — Meu gosto é impecável. É só que o seu pão de queijo sempre parece tão delicioso...
— Então, peça logo um pão de queijo, que tal?
— Não é a mesma coisa.
— Como não? Eu não consigo entender.
— É claro que não consegue... — Ela apoia o queixo na mão, desviando o olhar para a garçonete, que se aproxima. É possível ler o apelido “Charlie” em seu crachá. — Olá, tudo bem? Eu vou querer um cappuccino de brigadeiro com leite desnatado... E acréscimo de chantili, por favor. Junto de um pão na chapa.
— Claro, moça... — Charlie anota em seu bloquinho. — E o senhor?
— Um suco de laranja, um pão de queijo e um brigadeiro.
— Certo. Vou trazer.
Ela se ajeita em seu lugar. Enfia o cachecol na bolsa, pega o sobretudo — que estava pendurado em sua cadeira — e o usa para cobrir as coxas. Ele não entende por que ela usa quatro, cinco casacos diferentes se no final usará saia com uma meia-calça felpuda por dentro. E porque raios ela teima em usar aquela bota de salto, sendo que ela sempre reclama que odeia dirigir com ela, porque pega no calcanhar quando vai pisar na embreagem.
— Bom, vamos ao que interessa? — Ele joga suas cartas na mesa.
— Tudo bem. Quem começa dessa vez?
— Você. Hoje é par.
— Como assim... “hoje é par”? — Ela repete, confusa.
— É a 24ª vez que estamos vindo ao café pra conversar sobre o divórcio. Na primeira vez, quem falou, fui eu. Na segunda, você. Então, em todas as vezes pares, foi você quem teve a primeira palavra. — Ele explica, lógico.
— Ah, sim. — Ela murmura, sem interesse. — Eu nunca tinha percebido isso. Na verdade, eu só estava falando quando tinha vontade de falar... E, nas vezes que você começava, eu só aceitava e ouvia o que você tinha a dizer.
— Você nunca planejou fazer isso em ordem, então?
— Não. — Ela franze o cenho. Quando observa a expressão desapontada dele, ela fica inquieta na cadeira, incomodada. — Ótimo. Eu nem tive tempo de pensar em um dos motivos pro nosso divórcio e você já me dá um.
— Hm.
— É estúpido da sua parte fazer isso. Estamos falando sobre um divórcio, afinal, e ainda assim você quer achar lógica nas coisas. Por isso que eu já desisti de tentar resolver a nossa relação. Não importa quantas vezes eu queira procurar um pouquinho de calor vindo de você, você é frio como uma geladeira.
— Já eu, acho estúpido você não querer achar ordem em algo. De que adianta nós dois berrarmos o que guardamos aqui dentro, se nenhum dos dois ouvir o que o outro tem pra falar? Se tiver uma ordem, você vai me ouvir e eu vou te ouvir. Mas, você não entende isso. — Ele ri nasalado, irônico. — E é por isso que eu já desisti de tentar resolver a nossa relação.
— Não seja um babaca. Tentar controlar sentimentos é coisa de babaca.
— Um relacionamento não é só feito de sentimentos. Relacionamento é compromisso. De que adianta você sentir tudo, se você não sabe colocar em palavras pra mim que me ama?
— E do que adianta você colocar em palavras o quanto me ama, se você age como uma pedra?
Os dois se pulverizam com o olhar. Charlie traz ambos os pedidos, os deixa sobre a mesa e o casal agradece. Em pausa de sua discussão, ela pega uma colher e dá uma colherada um pedaço do chantili, o trazendo até a boca. Ele ajeita o brigadeiro no centro, o pão de queijo na direita e o suco na esquerda, bem próximo, para que ele tome de canudinho.
— Eu só queria que você fosse um pouco mais racional, às vezes. — Ele murmura, observando conforme ela troca seu prato, com o pão de queijo, pelo prato dela, com o pão na chapa; é o favorito dele. — Isso, por exemplo. Por que você simplesmente não pega a droga do pão de queijo pra você, ao invés de me obrigar a comer o que quer que você esteja a fim de pedir?
— Você quer comparar nosso relacionamento com um pedido em uma cafeteria? — Ela arqueia a sobrancelha. Está com a parte de cima do lábio suja de chantili.
— É um paralelo. Não faz a menor lógica você agir desse jeito. Assim como não faz a menor lógica você me dizer que não quer insistir na nossa relação, sendo que você só usa cílios postiços quando quer flertar.
O rosto dela fica avermelhado. Ele não sabe dizer se é de vergonha ou de raiva, mas ela bem sabe que é os dois. A moça apanha um guardanapo e o usa para limpar o bigodinho de chantili, resmungando no processo:
— E qual o sentido de você esfregar isso na minha cara? Te faz se sentir melhor, por acaso?
— É uma constatação.
— Sim. Mas, o céu ser azul é uma constatação e nem por isso toda vez que você o vê, você diz em voz alta que o céu é azul. — Ela resmunga, fazendo uma pequena pausa para comer um pedacinho de pão de queijo. — Você que não faz sentido. Se você reclama tanto que eu vou roubar seu pão de queijo, que você nem gosta, por que você continua pedindo?
— Porque eu sei o que vai acontecer.
— Pois, eu acho diferente. — Ela gesticula, apontando a unha vermelha na direção dele conforme continua: — Eu acho que você pede o pão de queijo de propósito. Porque você quer me agradar. E porque você sabe que eu não quero comer um pão de queijo; eu quero comer o seu pão de queijo. E ainda assim, você olha pra mim e diz que não quer ter mais nada comigo.
— Não tem lógica. — Ele nega. — Não faz sentido eu fazer algo assim, só porque eu quero te agradar.
— É claro que faz. — Ela ri, dando de ombros. — Veja, eu fiz a mesma coisa que você, agora, e você nem reparou. Eu pedi pão na chapa, que você gosta, porque nós íamos trocar de prato.
Ele franze o cenho. Parece abismado.
— Não. Não faz o menor sentido. Bastava eu pedir um pão na chapa e você pedir um pão de queijo. Qual é a diferença de você ou eu pedirmos, se no fim vamos comer a mesma coisa?
— Viu? É por isso que estamos nos divorciando. — Ela lambe a colher, depois de misturar o chantili ao cappuccino que, na opinião dele, é rococó demais. — Porque você não entende que o amor está nas entrelinhas. O amor não precisa ser óbvio, não precisa ser uma “constatação”.
Ao finalizar seu suco de laranja, ele pondera bem quais palavras irá usar em seguida, para enfim poder degustar de seu pão na chapa.
— Eu discordo. O amor não tem de estar nas entrelinhas, pelo contrário. Do que adianta você fazer algo pensando em mim, se você não me avisa? Pra mim, o mais lógico era que você não queria se esforçar e pensar em pedir algo, já que você iria comer meu pão de queijo. Mas, você vira pra mim e diz que pediu o meu favorito, porque iríamos trocar. Como você quer que eu perceba isso, se você não me afirma?
— Porque tem coisas que não precisam ser reafirmadas. — Ela gesticula, simples. — Se você sabe que eu amo você, por que é difícil entender que faço coisas pensando... em você?
Ele para por alguns instantes... Olha para cima, põe a mão no queixo. Enquanto mastiga seu pão, ele arqueia rapidamente as sobrancelhas, com os olhos um pouquinho mais abertos, antes de admitir:
— É, isso tem lógica.
— Viu? — Ela abre um sorriso. Se sente vitoriosa. — Agora, me diz: você realmente só pede o pão de queijo porque se acostumou comigo roubando seus pães de queijo, ou você faz isso porque, aí dentro, você quer me agradar?
— Seria mais lógico eu simplesmente pedir o pão de queijo pra você.
— E você pediu. Assim como eu pedi o pão na chapa. Só que nós pedimos no nosso nome e depois trocamos. — Ela mexe a colher no ar, fazendo uma volta. — A sua lógica sempre tem que ser horizontal ou vertical? Ela não pode ter um formato de, sei lá, uma rasura?
— Uma lógica rasurada poderia ser facilmente transformada em uma lógica horizontal ou vertical. — Ele afirma, convicto. — Ao invés de fazermos toda essa volta, faz muito mais sentido que eu simplesmente peça por nós dois e, no final, te diga que pedi pão de queijo porque você gosta.
— É verdade, isso seria bem mais fácil. — Ela tem de admitir, embora não goste muito. — Mas, no final, o resultado não foi o mesmo?
— Foi.
— Então, pra que usar uma lógica tão objetiva todas as vezes? — Ela dá de ombros. — Por que não complicar as coisas? Dar profundidade a elas. Complexidade. Emoção.
— Você diz isso, mas sempre se dispõe a sentar comigo e conversar de forma extremamente objetiva sobre a nossa relação. — Ele argumenta, se endireitando na cadeira. — Deixa claro o que você acha que está “entrelinhas” e só assim que conseguimos, realmente, nos entender.
— Concordo, mas só em partes. — Ela ressalta. — É verdade que conseguimos entender algumas coisas de um jeito melhor quando elas estão estampadas na nossa cara. Mas, tem outras que nós simplesmente pescamos no ar... sentimos.
— Tipo o que, por exemplo?
— Tipo o fato de que você reparou que eu estou de cílios postiços e lembrou que eu uso eles quando quero flertar.
— Ué, é uma afirmação, uma verdade. Você, de fato, está de cílios postiços. E você, de fato, usa eles quando quer flertar.
— Eu sei, mas por que você acha que você reparou nisso? Ou por que você acha que ainda se lembra de como eu gosto de flertar, se estamos nos divorciando? — Ela o encurrala com suas perguntas certeiras. — Porque você se importa.
— É claro que eu me importo. Você fez parte da minha vida. Você foi importante.
— Não. Quem foi importante, a gente lembra das memórias. A gente não pede pão de queijo no café da tarde, fala dos cílios postiços e tampouco fica olhando o jeito que ela se veste. Isso a gente faz com quem é importante. Isso a gente faz com quem a gente ama.
— Eu não fiquei olhando o jeito que você se veste.
— Os olhos não mentem, querido.
Ele respira fundo.
— Se você está dizendo que tudo isso é verdade, que eu realmente ainda amo você por fazer tudo isso... Por que você diz que eu só falo que te amo? Que não demonstro meu amor, se você está “pescando no ar”?
— Porque é o que eu sinto... sobre como eu acho que você se sente. — Ela afirma, limpando as mãos com o guardanapo. — Eu quero que você me ame, então sinto que você faz esse tipo de coisa porque me ama. Mas, você não me dá a certeza. Porque você está ocupado demais querendo achar lógica em tudo... e não aceita que o amor não tem lógica.
— O amor tem lógica, sim.
— Pois bem: me explique a lógica do amor, Einstein.
— Eu amo quando você usa o apelido que eu te disse que gostava. Amo quando você faz biquinho quando é contrariada e amo como você simplesmente não consegue ficar fisicamente parada enquanto estamos discutindo. Eu amo vários detalhes sobre você, então nada mais lógico que o tanto de detalhes que eu amo em você, façam com que eu ame você por inteira.
Ela cora e, dessa vez, os dois entram no consenso de que foi por paixão.
— Mas, por que você gosta desses pequenos detalhes em mim, e não em outras pessoas? Já parou pra pensar nisso?
Terminado o café, os dois se erguem. Embora não faça lógica, ele insiste em levar a bolsa dela, por mais que ela tenha toda a capacidade de segurar. Não faz muito sentido, mas, quando eles vão se afastando da mesa, em direção ao caixa, ela faz questão de ajeitar a cadeira por ele, que por vezes esquece de o fazer.
— Porque é você.
— E por que sou eu?
Os dois ficam em silêncio. É lógico que ele pague por ela, porque o salário dele é maior que o dela e tem razão por trás dele gastar aquele dinheiro. Assim como faz sentido que ela se apoie nele para abaixar e amarrar o cadarço da bota, simplesmente por querer tocá-lo e sentir que o tem mais perto de si.
— Não sei dizer.
— Está vendo? — Ela se ergue novamente, aproveitando para apanhar a chave do carro. — Não tem lógica... Mas, faz sentido.
— Mas, você admite que eu amar os pequenos detalhes em você fazer com que eu ame você, tem muito mais lógica do que sentido, não admite?
— Sim, eu admito.
Os dois se olham por alguns segundos, em silêncio, na porta da cafeteria.
— Você quer carona? — Ela quebra o silêncio.
— Qual o sentido por trás dessa carona?
Ela abre um sorriso.
— Me diz a lógica, primeiro.
— Bom... É lógico que você queira me dar carona. Porque minha casa fica no caminho entre a cafeteria e a sua casa. E está frio, se você não me der carona eu vou pegar metrô e posso resfriar.
— Sim, você tem razão. É o mais lógico a se fazer... — Ela se vira em direção ao carro, seguindo até o celta prateado. — O sentido está em eu me importar com você. Eu me importo que você se resfrie. E também gostaria de passar mais tempo com você.
Ele abre a porta de trás. Deixa a bolsa dela e ela aproveita para deixar sua ecobag. Ela está escorada, de lado, o olhando conforme ele fecha a porta e se escora igualmente. Ele com as mãos nos bolsos, ela com os braços cruzados. Ela o olha como se fosse seu tudo, mas ele não consegue perceber isso tão bem. E ele não vê lógica na sua vida sem ela, mas ela não consegue compreender isso por completo.
— Sabe o que eu acho que faz sentido e lógica, querida?
— Hm?
— Se nós desistíssemos dessa ideia imbecil de divórcio. Porque não faz sentido. E não tem a menor lógica.
— É, acho que você tem um ponto... — Ela abre um sorriso, se aproximando. — Além disso, nós não podemos simplesmente ficar levando o Ego de lá pra cá. O gato vai ficar maluco se tiver que se mudar mais uma vez, sabe?
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Toque para mim.
Toque a canção
que toca em seu coração,
que ecoa em sua mente,
que transparece em teus dedos,
que faz com que feches os olhos
e murmure, baixinho,
o ritmo.
Sente-se ao pé do piano
e apenas saia daí
quando eu me derramar em lágrimas;
se canse apenas quando a emoção
encostar em meus dedos,
ecoar em minha mente,
tocar meu coração
e se fixar em minha alma.
Do contrário, não pare.
Continue assim.
Com os olhos fechados,
os lábios entreabertos,
os dedos deslizando,
por entre o branco e preto,
e o pé, vez ou outra,
tamborilando no chão.
Mantenha-se focado na música,
assim não perceberás
que já me emocionei muito antes da primeira nota.
Continuarás tocando,
sem parar,
enquanto choro baixinho,
com minha própria trilha sonora,
para minhas próprias lágrimas.
Toque para meu coração.
Permita-me sentar ao seu lado
e admirar de perto tua música.
Deixe que eu acompanhe com os olhos,
que morda meus lábios para evitar soluços,
que me cegue com minhas lágrimas incessantes.
Continue assim.
Tocando minha alma como se fosse seu piano,
fazendo com que cada nota seja uma batida de meu coração,
cada murmúrio minha respiração,
e cada movimento com o pé, uma piscada.
Faça-me, meu amor.
Transforma-me em uma música que nunca termine,
que seja frenética ou lenta,
com um som único,
um ritmo perfeito.
Pois, sua já sou;
só basta tocar.
Tê-la em meu jardim
é como ter um anel de diamante
em meio a outros mil anéis.
Tê-la em minha vida
é como uma brisa de verão,
que lhe dá uma sensação de conforto
e te abraça,
livrando-te do incômodo
que o calor pode trazer.
Apenas não sei como é,
para ela,
ter-se em meu jardim,
lá no centro,
seguindo o Sol como
o belo girassol que ela é.
Independentemente disso,
ela permanece.
Por obrigação?
Não tenho ideia.
Mas ela permanece,
mesmo que tenha a chance de ir.
Continua ali nos dias que esqueço de regá-la,
continua ali nos dias que não apareço
para caminhar pelo jardim.
Ela continua ali,
disposta para seguir o Sol
e se mostrar radiante para mim.
Ela cuida de mim
mais do que eu cuido dela.
E não é por ausência de tentativas,
é apenas porque sou
mais dependente dela
do que ela é dependente de mim.
Tê-la aqui é como ter um abraço de mãe
num dia frio de inverno,
após cair e ralar o joelho,
brincando de pega-pega com os colegas.
Tê-la aqui é como ter uma rede na praia,
onde eu possa descansar
e encontrar um momento de paz
frente à maresia.
Apenas não sei se ela,
um dia,
irá me perdoar
por cada gota que esqueci de derramar,
cada passo que preferi não dar,
cada sorriso que em meus lábios não apareceu.
Independentemente disso, eu a amo.
E tê-la aqui, é saber que ela também.
"Com quantas garrafas de vidro eu consigo fazer uma escada que me leve até você?"
Uma vez, eu soube que você amava garrafas de vidro. Daquelas gordinhas, as pouco maiores que uma mão, com o vidro cristalino e bem limpinhas, tendo uma tampa prateada de rosquear como fechadura. Pensei em lhe comprar uma, então. E eu comprei, mas nunca tive coragem de lhe entregar, já que eu nunca pude te entregar.
Aos poucos fui esquecendo. Esquecendo que aquele pequeno símbolo da minha fraqueza estava protegido atrás das portas de madeira de um armário velho da cozinha. Mas me lembrei: você gosta de garrafas de vidro. Comprei uma garrafa de vidro para você, mas eu já tinha comprado outra antes. Agora, eu tinha uma somatória de duas garrafas de vidro para você. E isso foi se sucedendo. Duas, três, quatro, vinte.
Eram tantas garrafas. Eu completei as duas estantes do armário que só sabia ranger, alinhando-as todas. Com o tempo, eu percebi que eu não me esquecia. Eu queria te comprar todas as garrafas de vidro existentes no mundo, lhe entregar todas e receber um sorriso. Eu queria apenas isso. As garrafas prendiam-se em meu coração conforme os dias passavam. Já não cabiam mais. Depois de um mês as colecionando, eu apenas me sentia cada vez mais vazio e culpado. Eu queria tanto...
Olhá-las, vazias, era como olhar para mim mesmo. Era perda de tempo, não adiantava de nada, e apenas me frustrava cada vez mais. Vinte garrafas de vidro vazias.
Decidi que iria enchê-las com o que me desse na telha. Enchê-las de sentimentos, assim como eu mesmo me sentia repleto deles. Uma delas enchi de conchinhas. A outra joguei terra fresca. Mais uma, enchi de folhas laranjas de um outono solitário. Eram tantas coisas diferentes, tantos sentimentos diferentes em meu peito. Eu as enchi todas, deixando-as todas coloridas e bem cuidadas, limpas e cheirosas.
Mas faltava uma.
Claro que me tomou muito tempo colher pétalas de flores para encher 750ml de vazio das garrafas. Entretanto, nenhuma demorou tanto quanto a última. A última, eu enchi de lágrimas. Das mais felizes até as mais tristes. As enchi com cada gota que escorreu de meus olhos, seja qual fosse a razão, deixando que aquela se tornasse a mistura de todas, de todos os sentimentos presos no meu peito.
Mesclei as bolinhas de gude com os pedaços de papel rasgado e transformei tudo em lágrimas, fiz com que cada uma delas se tornasse uma gota de sangue e aquele armário gasto virasse meu coração tão gasto ainda.
Eu realmente não me importaria caso você resolvesse abrir cada uma delas. Libertar o algodão sujo de corante, ou deixar que as plumas brancas voassem pelo ar. Mas, por favor, eu te imploro... Jamais beba minhas lágrimas.
Hoje lhe endereço um buquê.
Repleto das flores que você gosta,
mas com outras que te faça
sentir vontade de gostar.
Amanhã lhe endereço outro.
Colorido, com o objetivo de te fazer sorrir.
Perfumado o suficiente
para que faça com que você cheire,
diariamente, as flores.
Depois de amanhã, lhe endereço mais um!
Não importa como esse chegará a você.
Ele vai chegar,
eu prometo que vai.
E com eles,
mandarei meus mais profundos sentimentos.
Para sempre, lhe endereço meu amor.
Sendo assim, no dia seguinte
ao meu último buquê,
abra a porta e olhe bem
ao pé do tapete da entrada;
os sentimentos são abstratos,
mas estarão extremamente palpáveis lá,
ao pé do tapete da entrada,
assim como as flores que,
diariamente,
lhe enderecei.
Abandonei-me.
Hoje, abandonei meu corpo,
minha mente, meus olhos,
minha boca, meu nariz
e minhas orelhas.
Abandonei-me
e apenas foquei em meu coração.
Foquei-me.
Hoje, foquei-me em meu coração,
meus sentimentos,
minhas batidas cardíacas,
meu sangue, minhas veias
e artérias.
Abandonei-me e foquei-me
em meus sentimentos.
Necessitei-me.
Hoje, necessitei de mim,
logo após abandonar-me.
Meu corpo, minha mente,
meus olhos, minha boca,
meu nariz, minhas orelhas,
meu coração, meus sentimentos,
minhas batidas cardíacas, meu sangue,
minhas veias, minhas artérias
e minha alma.
Abandonei-me, foquei-me
e necessitei de você.
Pedi-lo.
Hoje, pedi com todas as forças por ti.
O que eu abandonei,
o que eu foquei,
o que eu necessitei...
Tudo pediu por ti,
trabalhando em um conjunto falho,
para que lhe trouxesse para mim.
Chorei.
Hoje, permiti que lágrimas
escorressem após pedir-lhe.
Elas escorreram de meus olhos
abandonados,
por minhas bochechas
abandonadas,
até alcançar meu peito
e fazer meu coração
focado
doer até, finalmente,
ferir minha alma.
Feri-me.
Hoje, após abandonar-me,
focar-me, necessitar-me,
pedir-lhe e chorar,
percebi que eu apenas feria
a mim mesma e à minha alma.
Abandonar-me-ei.
Amanhã, após o que passei hoje,
ei de abandonar meu coração
e minha mente mais uma vez.
Ademais, não ouvirei
meu peito oco
e minha cabeça vazia
chorando para que fiquem completos;
chorando por ti.
Roguei-lhe:
Não me abandones.
Foques em mim.
Necessite-me.
Peça por mim.
Seque minhas lágrimas.
Cure-me.
Não me deixes.
Amo-te.
Por fim, lembrei-me de que lhe amo.
Após abandonar-me,
focar-me, necessitar-me,
pedir por ti, chorar,
ferir-me e abandonar-me outra vez.
Hoje, eu me descontrolei,
mais uma vez.
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Às vezes, em tardes assim,
eu me pergunto como seria
se as gotas gentis conhecessem as amargas,
se o cristalino se fundisse ao preto.
Pela janela, a chuva escorre
como lágrimas tímidas
em uma bochecha avermelhada.
Por entre meus dedos,
cobertos pela blusa de lã,
o café se remexe como um terremoto
toda vez que o ponho sobre a mesa.
A fumaça sobe linda,
e some no ar como
lágrimas desaparecem da face de alguém.
Chove frio.
E aqui dentro está quente,
meu café está quente,
minhas mãos estão quentes.
E sempre que encosto as pontas dos dedos
no vidro sutilmente embaçado,
eu sinto o choque térmico atingindo-me.
O gentil é tão frio, e o rude tão quente.
Talvez, se os líquidos se misturassem,
ocorresse uma reação harmoniosa.
Ficaria nem frio nem quente,
nem gentil nem rude.
Por enquanto, fico a me perguntar:
será que algum dia
a tua chuva vai respingar
na espuma do meu café?
Quando eu te dei meu coração,
você não soube o que fazer.
Só sabia que era precioso
e, por ser precioso,
você pensou em esconder.
Então, você engoliu meu coração;
me triturou com seus dentes,
me engoliu em seco,
me deixou afogar no suco gástrico.
Deixou seu corpo se aproveitar
de todos os nutrientes
só para depois descartar o que sobrou,
porque você não viu mais nenhum
valor energético nas minhas calorias.