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David Bowie taking a bath
Act Two: The things that set you free
#LivTask10 : Part Two Listen
Ao acordar, Annabel percebeu, de imediato, que algo estava errado. Só… Parecia errado. Sua Criaturinha não estava em sua cama, e ela nunca levantava antes da mulher. Olhou ao redor, aquela definitivamente era sua casa… Por que, então, parecia tão errada? Ela se levantou, abrindo as janelas, e estranhando… O dia de Sol que via do lado de fora. A cadeira próxima tinha um vestido, um bilhete… E um coelho branco. Um coelho?! Pegou o pequeno peludo no colo, as sobrancelhas franzidas, de onde saíra aquele animal, ou melhor… Por onde entrara em seu quarto? - Elena? Sebastian? - Ela chamou, a voz ainda rouca de acordar. Aquilo não fazia sentido algum, eles sabiam seus horários. Ainda com o coelho em mãos, pegou o bilhete. “Se vista, está atrasada, e Vossa Majestade odeia atrasos.” Vossa Majestade? Que merda era aquela? O que… A Rainha? Os olhos de Annabel se arregalaram em pavor, e ela encarou o coelho, erguendo-o até a altura de seus olhos.
- Por um acaso eu estou deixando a Rainha Elizabeth… Esperando?! Merda. - Xingou, sim, não entendia o que estava acontecendo, ela não fora avisada que a mulher mais importante da porcaria de seu país queria vê-la? Aquele vestido, definitivamente não era o tipo de coisa que ela usaria, céus, não era nem mesmo moderno. Mas era o que estava indicado para vestir… Não. Annabel jamais usaria tal coisa. Estressada, colocou o animal que tinha em mãos de volta na cadeira e andou, passos largos, claramente desgostosa, até seu closet… Que estava trancado?
- Que merda, porra! - Já irada com a situação, ela encostou as costas na porta, ajeitando os cabelos, respirando fundo. Fechou os olhos, contou até 10. Estava tudo errado, por que ninguém vinha lhe ajudar? - Sebastian! Elena! Mas que inferno. - Só lhe restava a frustração, afinal, ninguém aparecera, exceto o coelho, que batia a patinha, impacientemente, no chão ao seu lado. - Eu sei, eu sei. Estou atrasada, saco.
A irritação controlada, Annabel se forçou a vestir todo o tecido que compunha aquela coisa horrenda que lhe restava. Era um vestido inspirado nos de época, diversas camadas de uma saia pesada, um corselet lhe apertando até a alma para fora do corpo, babados delicados pendendo de seus ombros, os seios prestes a explodir para fora daquele decote abusivo. A roupa ainda era de um tom claro de amarelo, quase um champanhe… Talvez lembrasse um pouco o clássico que Bela usara ao dançar com a Fera. Mas Annabel achava que o da princesa era mais bonito. Irritada, percebeu que, aos pés da cadeira, haviam sapatos de salto, que ao menos combinavam com sua roupa. Os vestiu, indo até o banheiro e fazendo uma maquiagem leve, rápida, estava, afinal, deixando a Rainha esperando. Penteou os cabelos, que deixou soltos mesmo, e olhou para o coelho, que parecia encará-la. - Eu não faço ideia de para onde devo ir. Não adianta me olhar assim. - Comentou, repreendendo o animal que a repreendia de volta, e céus, ela juraria que ele bufara antes de se virar e começar a pular em direção à porta. - … Nem fodendo que eu vou seguir um coelho. - Annabel comentou consigo mesma, mas o animal de fato parara na porta e batia a patinha como se dissesse “e a madame está esperando o quê?”. Inconformada, seguiu-o, pelos corredores, que pareciam mais longos e confusos, descendo as escadas para um hall de entrada estranhamente… Diferente, apesar de igual? Algo estava errado, principalmente por ela sentir o pé pisar em nada no momento em que abriu as portas de sua casa e deu o passo para fora. Caiu, uma queda rápida, como se tivesse tropeçado, apesar daquela horrível sensação de queda ter lhe tomado todo o corpo, e sentiu as mãos e joelhos apoiarem o corpo num… Gramado. Alto, florido. Estava em… Um parque? Olhou ao redor, sua casa não estava atrás de si. O coelho a encarava, à sua frente, e ao seu redor, realmente, nada, além de verde, flores, grama, o Sol acima de sua cabeça e árvores na orla do que parecia um bosque.
- … Me drogaram. É isso. Eu só posso estar drogada… Ou eu fiquei louca de vez. Talvez seja isso. Eu fiquei louca. É. Perdi a cabeça. - A bailarina sentiu a boca secar ao se sentar e questionar sozinha a própria sanidade.
- Ainda não, mas se continuar parada aí, as chances de que perca, de fato, a cabeça, são muito altas. - A voz veio de perto, e ela se assustou, a cabeça virando na direção do som e vendo um homem alto, que lhe parecia familiar mas ela não conseguia lembrar direito… Ele veio em sua direção, um sorriso no rosto, mas o olhar distante… Parecia, de fato, um louco. Estava vestido, assim como ela, com vestes formais, um chapéu alto na cabeça. Lhe estendeu a mão, e Annabel, confusa, a aceitou, sentindo o calor da vida que corria pelas veias alheias e silenciosamente agradecendo por não estar mais só.
- Eu te conheço? - Não hesitou em perguntar, sem muita educação, a polidez era, afinal, para os sãos. O homem lhe sorriu, um sorriso tão estranhamente familiar…
- Sim. Ou não? Claro que conhece. Mas ninguém realmente conhece ninguém, não é mesmo, minha bela Annabel Lee? Afinal. Ninguém nunca chegou nem perto de querer tentar te entender.
Para aquilo, ela não teve resposta, apenas fechou a cara, como uma criança mimada faria. As palavras de fato bateram, doeram, por sua veracidade. O gelo com o qual ela se cerceava, a distância que ela colocava entre si mesma e o mundo, para proteger aos outros, mas também e talvez principalmente, a si mesma, era uma faca de dois gumes, que cortava fundo, cortava em sua fodida e amargamente solitária alma. O homem novamente lhe sorriu, dessa vez, parecia um sorriso mais doce, caloroso. Ele lhe deu o braço, e quando Annabel hesitantemente o aceitou, começou a caminhar, seguindo o impaciente coelho branco, rumo àrvores adentro. - Você entende, bem como poucos, que beleza física não é nada mais que um acessório datado, não entende, Annabel? Qual o propósito de seguir escondendo sua verdadeira beleza assim, então? E até quando… Vai arrumar uma desculpa para isso? Até quando vai permitir que o que fizeram com você te mantenha desconectada do mundo? Até sua data expirar, e você nem o físico mais ter? Sua dança também é datada, você sabe. Todo mundo sabe. - O homem de chapéu continuou sua crua descrição e despir do mais íntimo da alma da bailarina, que se perguntava quem ele era e como ele sabia aquelas coisas, aquelas coisas que ninguém mais sabia, que nem mesmo ela gostava de admitir saber. - A sua loucura está justamente em ignorar tamanhos conhecimentos em pró de não ter de lidar com a única coisa que realmente te faz tremer: Viver. Sentir. Sim… Talvez você seja a mais louca aqui. E, veja bem. Somos todos completamente malucos. Nesse momento, ele parou. E ao parar, Annabel percebeu que chegaram em uma clareira, que mais parecia um hall de dança, estavam em um… Baile? Mas era estranho, todos ali pareciam estranhamente familiares, porém, ela não reconhecia de fato absolutamente ninguém. E estavam vestidos com detalhes tão característicos… Era quase como se fosse… Uma apresentação.
As luzes se apagam. E quando voltam a acender, ela está no centro, a luz, exatamente nela, quente, familiar, quase reconfortante… Mas o olhar de todos ao seu redor é frio, eles estão julgando, estão a julgando, e absolutamente ninguém está sozinho… Apenas ela. Estão em pares, prontos para iniciar algo… - Você precisa estar pronta. Não erre. Não há espaço para erros em sua vida, principalmente agora. Ou irá, de fato, perder a cabeça… Essa voz ela reconhecia. Assim como essas palavras, palavras que ela ouvira a vida toda… Mas que marcaram-lhe por um motivo muito específico. Aquela era a voz de seu pai. Aquelas eram suas últimas palavras para ela. “Não há espaço para erros em sua vida.” Uma música começou. Um ritmo lento. Pausado. Annabel não hesitou. Os olhos fixos na única figura que não rodopiava ao seu redor, mas estava imóvel, parada, encarando-a também, o desafio era claro. Annabel sorriu, um sorriso de escárnio. Afinal. Ela nunca errava. Suas mãos formavam as mais belas formas, e ela chutou para longe os saltos ao fazer a ponta e erguer uma das pernas, rodopiar, saltar… Seu ritmo aumentava com o da música, seus movimentos, acompanhando sua batida, mas a letra, e as pessoas ao seu redor, pesavam, lhe prendiam, barravam. Afinal, estavam todos acompanhados. Todos tinham um parceiro de dança. E a luz nela sumia, apagava ao iluminar o que importava; Os sorrisos, as conversas, a companhia. A luz que brilhava nos outros destacava, acima de tudo, a solidão que a envolvia, cerceava e sufocava aos poucos. Seus movimentos foram parando, ela foi perdendo o ritmo - Annabel nunca perdia o ritmo. Mas o ar faltava, o peito doía, e ela se sentia febril, como se nada adiantasse. Impotente, e à beira de um ataque de pânico. Lágrimas escorreram por seus olhos, e ela tremeu ao ter todos apontando dedos acusatórios em sua direção, os sorrisos agora sádicos, se transformando em risadas maldosas, eles riam de sua desgraça, de sua queda. Afinal, Annabel nunca chorava na frente de ninguém, nunca errava, mas ali estava. Exposta, errada, e aos prantos, prantos desesperados por um ar que não vinha, não importando o quanto ela tentasse. O mundo girava ao seu redor e ela foi se encolhendo, buscando apoio em si mesma já que nada mais parecia lhe firmar, ela não tinha no que se firmar, em quem se apoiar. O mundo girou uma vez mais, e alguém de vermelho, a Rainha em questão, estava à sua frente, um sorriso mais cruel que o de todos ali, e ela só teve tempo de avistar e finalmente reconhecer o homem de chapéu, escorado num canto, sussurrando-lhe um “corra”, que nunca teria efeito, pois a Rainha lhe passara uma lâmina pelo pescoço. As mãos de Annabel se ergueram, buscaram o corte, sentiram sua profundidade, o que a teria feito gritar se não sufocasse no calor do próprio sangue. Seu sangue era quente. Fervente, talvez, parecia que queimava. Se seu sangue era tão quente, como ela podia agir como se seu coração fosse tão gelado? Que reflexão era aquela. Que vergonha. Ela estava morrendo. E morreria sozinha... Annabel acordou, se sentando de supetão, respirando profundamente o ar gélido da manhã, o coração disparado e o rosto, molhado.
Era um sonho. Um sonho. Só um sonho… Mas ela chorou. Se encolheu, para controlar a tremedeira e abafar o som de seu torturado choro. Soluçava, talvez ainda sentindo o calor de seu sangue nas mãos, no peito, a dor da solidão, o frio da morte. De seu triste, amargo fim. Não era isso que ela queria. Não era assim que ela queria seguir. Após algum tempo, ela não saberia dizer quanto, Annabel se acalmou. As lágrimas aos poucos secaram, o corpo parou de tremer. Eventualmente, ela só estava largada na cama, abraçada à sua Criaturinha, encarando a janela, a paisagem do lado de fora, deixando que o cinza de sua cidade lhe acalentasse - ela não via conforto algum no brilho do Sol, aquele brilho imitado pelos holofotes sob os quais vivera toda sua vida. Não, seu conforto era o clima scouser, os dias nublados, o frio das gotas de chuva que lhe molhavam a pele, descongelavam a alma. Annabel olhou para seu relógio. Era dia 17. O dia do Baile Real. Sentiu um arrepio horripilante lhe congelar a espinha ao pensar em seu sonho, em um baile. Mas se sentou. Com a cachorrinha em seu encalço - ela já estava grandinha em demasia para ser carregada por aí - seguiu até seu closet. estava destrancado, não havia vestido amarelo e antiquado em lugar algum. Um suspiro de alívio a deixou, e ela escolheu o que iria vestir, suas roupas, suas cores. Tomou um banho longo, quase terapêutico. Se cuidou, deu um pouco de amor, fora do padrão automático de sua rotina matinal. E, após estar devidamente vestida, seguiu para sua moto - Poucos sabiam que ela a tinha, e preferia assim. A regra era clara: Quando estava de moto, não deveria ser incomodada, seguida, protegida. Ela sumia, deixava de ser Annabel Lee Grosvenor… Era apenas ela. Se despediu de sua filhotinha, e seguiu rumo ao seu destino - Ela tinha algo importante a fazer antes do maldito baile.
Precisava ir atrás do homem do chapéu. Posfácio: Devidamente vestida, Annabel se olhou no espelho uma última vez. Seu vestido era escandaloso, mas talvez sua maquiagem fosse mais; Ela estava completamente Annabel. E ela não envergonharia a família, não. Aquela noite, Annabel daria um belo chute no balde imundo e pútrido que era seu nome. E aquele não era um erro. Mas talvez o seu maior acerto. Encaixou sua coroa na cabeça. Sim. Uma coroa. Era um Baile Real, afinal. E ela era a própria realeza, sua própria Rainha. Sentia-se leve, livre. Sorriu. - Hora de mostrar como chutar algumas bundas reais, Criaturinha. Comentou com a cachorrinha que observava atentamente. E, piscando para si mesma uma última vez, borrifou seu perfume favorito, e seguiu para o local da “festividade” que a aguardava. E que noite aquela seria.

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Act One: The things that bind us
#livtask10
Annabel voltava em casa após um dia um tanto quanto exaustivo. A readaptação à rotina e o planejamento do próximo ano da empresa de sua família, sem falar nas negociações que tinha em andamento, estavam tomando mais tempo e demandando mais esforço do que o costume. Hoje, em particular, ela só queria chegar em casa e tomar um longo banho, talvez nadar um pouco e deitar para ler algo com sua Criaturinha. Mas, se tinha algo que Annabel estava percebendo, era que paz não faria parte de sua vida tão cedo novamente. Ao chegar, ela percebeu de imediato. Um carro que conhecia bem, revirou os olhos, respirando fundo e se preparando para o encontro desagradável e desavisado que estava por vir. Desceu de seu veículo com a cachorrinha em seu encalço, hoje a coleira dela era vermelha como a blusa que a bailarina escolhera, uma de gola alta que desenhava bem seu corpo e se perdia por baixo da cintura alta da calça pantalone preta.
- Eu não me lembro de tê-lo convidado para uma visita, irmão. - Ela comentou no segundo que entrou em sua residência, e seu tom deixava claro o desagrado pela presença que realmente surgiu de sua sala de estar;
- É uma bela residência, Annabel. Combina com você. Confesso que cansei de esperar por seu convite... É assim que recepciona o Duque de Westminster, e seu irmão mais velho? - O loiro disse, naquele tom de cinismo que tinha de ser de família.
- É assim que eu recepciono quem aparece sem aviso, sendo um Grosvenor. Caso fosse um estranho, seria recepcionado de uma forma bem menos educada. - Não pestanejou ao retrucar, vendo o olhar maldoso do mais velho cair sobre sua cachorrinha e sentindo o estômago virar. - Sebastian. Leve-a para meu quarto e fique lá com ela. Não a perca de vista. - Comandou seu mordomo, sem tirar os olhos do irmão, que agora a encarava com um sorriso tão maldoso quanto seu olhar.
- Desde quando você tem pets, Annabel? Achava que já havia aprendido… A não se apegar a nada. Pois não há nada que eu não possa tirar de você. - Ele comentou ao se aproximar, pegando em uma mecha dos longos fios da bailarina e a levando ao rosto, cheirando-a e fazendo com que Annabel tivesse de conter a vontade de se encolher de nojo. Ela virou o rosto para longe do dele, olhando a escada pela qual o mordomo levara sua filhotinha, e sentindo o gelo de sua raiva se espalhar por seu peito.
- O que faz aqui, Hugh? Seja breve. Eu não te convidarei para jantar. - Seu tom, cortante como o frio que a dominava, e a voz estável, apesar do arrepio de descontento que percorreu sua espinha ao sentir a mão do Duque deslizar por seu braço. Cerrou os punhos, sentindo as unhas afundarem na própria palma. Percebia, com o canto do olhar, seus funcionários todos se aproximando pouco a pouco, discretos, mas a um comando de distância de fazer o que queriam com o sucessor dos títulos dos Grosvenor. Mas não se moveu. Permaneceu ali, parada, a postura impecável e o rosto, impassível.
Hugh Grosvenor aproximou os lábios da orelha de Annabel, deixando-os tocar-lhe por tempo suficiente para ser incômodo, o que, quando se tratava dele, não era mais que um segundo. Sorriu, ali, os dentes roçando a pele alva da irmã, e a mão apertando-lhe o pulso, com força, força suficiente para deixar ali uma marca que ela veria por dias, uma lembrança dele, sim. Ele gostava disso, de tentar enlouquecê-la aos poucos. Hugh nunca superara o favoritismo dos pais, nunca esquecera que se não fosse pelo machismo implícito na realeza, o título que carregava e o posto ao qual fora encarregado seriam da mais nova. Annabel o lembrava de sua irrelevância. Então, ele a lembrava de sua “superioridade”, essa sendo algo existente unicamente em sua cabeça. O fizera a vida dela toda, com pequenas maldades, crueldades. Tirando dela, de fato, tudo o que Annabel demonstrasse qualquer apego à, inclusive, sua paz, a encurralando e deixando desconfortável de toda forma que conseguisse.
Não que Annabel não desse o troco. Não, ela dava, a tortura dele era pior, pois ela não precisava fazer nada; O testamento do pai deixara claro, que tudo ficava no nome dele, mas pertencia à ela. Ele era apenas a cortina, e ela, a atração principal. E isso acabava com o segundo filho, o único homem. A “obrigação”, não o “querido”. Hugh soltou o braço da morena após erguê-lo e admirar o roxo que ali se formava. Sorriu, satisfeito, e então, tirou do próprio casaco um envelope decorado, um que estendeu à ela.
- Você foi convidada para o Baile Real. Claro que foi você a única a receber o convite. Representante da família, ou melhor dizendo, a puta Grosvenor.
- Conheço putas melhores que você jamais vai ser em qualquer coisa nessa sua vidinha miserável, irmão. Se é isso que sou, me orgulho de o ser. Pois até assim, sou superior a você. - Annabel cuspiu as palavras na cara do mais velho, e observou o olhar dele mudar, seu rosto avermelhar de raiva e o punho se erguer para ela. Mas estava pronta, a arma que sempre carregava consigo encostando nas costelas dele levemente, mas o suficiente para que ele a sentisse, e seu olhar se voltasse para o brilho metálico e que a mão abaixasse vagarosamente. Um sorriso incrédulo tomou-lhe o rosto, e ele se afastou, largando o convite aos pés da bailarina e se virando em direção à porta.
- Boa sorte com a realeza. Se cuide, irmãzinha. - Era claro, aquilo era uma ameaça, não uma sugestão. Hugh sabia o quanto Annabel detestava a realeza, o quanto abominava aqueles que era “obrigada” a respeitar.
Ela assistiu o mais velho se distanciar e entrar em seu carro, sumindo de vista. E ficou ali, congelada, os olhos acompanhando o nada e imaginando-o indo embora, imaginando a violência de sua ira e como ele a expressaria, provavelmente, se afogando em bebida, ou batendo em algo, ela esperava que não alguém. Hugh enganava a todos, com sua simpatia, sua amorosidade inexistente.
Na verdade, ele era um grandessíssimo filho da puta. Sentiu os braços de seu cavalariço lhe envolvendo, os olhos dele, doces, e ele nada disse, apenas a segurou quando suas pernas lhe falharam e Annabel desabou, não de dor ou medo, mas de ódio, o mais puro e doloroso ódio à família idiota a qual pertencia, pois sim, ela era apenas uma posse de seu nome, um objeto, obrigada a fazer o que fosse, suportar o que precisasse, para manter o poder. Desabou, sim, e não saberia dizer quanto tempo ali ficou, até sentir as lambidinhas suaves de uma preocupada Criaturinha que surgia junto de seu mordomo e governanta. Respirou fundo, algumas vezes, pegando a peludinha no colo e o envelope na mão ao retomar a calma, a postura, se erguendo e batendo os saltos no chão ao bater também as portas, trancando-as e fechando os olhos, levando a mão que não carregava a filhote aos cabelos negros e sentindo o fantasma do toque daquele a quem ela tanto odiava.
- Seu banho está pronto. - Elena disse, com sabedoria no olhar e voz.
Annabel assentiu, entregando-lhe o envelope e subindo as escadas, um passo de cada vez, ansiosa, mais que nunca, por um banho que queimasse de si o degradante toque de seu familiar, e sua dança, para que esquecesse, para que exaurisse o sentir, para que se fortalecesse, se murasse.
Afinal, eles só estavam começando aquela nova batalha de sua infindável guerra.
E ela tinha um Baile Real a se preparar para.
Gone.
Listen Annabel respirou profundamente. Sentiu, a frieza do ar que enchia-lhe os pulmões de vitalidade adentrar suas narinas, e suspirou-o quente, uma pequena nuvem se formando à frente de seu rosto. Não gostou daquilo. Não queria ser quente. Não queria o que calor representava, ao que o associava. Não queria calor. Voltou a inspirar profundamente, e dessa vez, focou na frieza. Imaginou-a se espalhando por seu interior, lhe tomando, congelando. Como sangue, precisava correr por suas veias. Se levantou, ficando em ponta, e isso, sim, a satisfez. Suas sapatilhas favoritas, um par batido, de tom azulado, cujo laço subia por seu tornozelo e se amarrava delicadamente em suas pernas. Ela usava um vestido de tecido que parecia fluído como as águas do mar, e como essas mesmas, se ondulava com o menor dos ventos. Os longos fios negros estavam soltos, caíam em uma cascata escura que contrastava diretamente com o branco do vestido. Estava nas docas de Liverpool, no píer, próxima ao rio e ao céu. Seu olhar vagou pelas águas quando seus braços se esticaram e ergueram, as costas seguindo-os ao erguer e ajustar a postura. A perna esquerda subiu, a ponta da sapatilha apontando diretamente para as nuvens nubladas acima de sua cabeça, e as mãos desceram junto ao tronco que para frente se inclinou, como se no mar à sua frente avistasse aquilo que mais almejava, como se tentasse buscá-lo. E nessa busca, ela iniciou sua dança. Annabel deixou que o vento lhe guiasse, seu corpo seguia o toque gélido em sua alva pele, a forma como o tecido da longa vestimenta se espalhava pelo nada com cada giro, como tremia, vibrava e ondulava com seus saltos ou como batia contra sua pele em suas pausas. Os cabelos que lhe enegreciam a vista ao cobrir-lhe o rosto quando ela se inclinava para frente, em agonia por aquilo que parecia ficar cada vez mais distante no rio que eventualmente levava ao mar. E ela girou, e deixou que o cheiro de água se tornasse seu perfume, seu entorpecente, seu remédio tanto quanto seu veneno. E talvez os anjos partilhassem de sua dor, pois choraram, e suas lágrimas caíram dos céus, lhe lavando a alma, esfriando o corpo, abraçando-lhe como uma irmandade. A leveza se foi com o pesar da água, seu vestido agora grudava contra seu corpo, lhe prendia, não mais formava independentes formas, mas seguia apenas aquelas que ela conduzia. Seus cabelos pesavam e lhe agrediam ao bater violentamente contra sua pele. Mas o ar que lhe escapava os lábios seguia quente, apesar de sentir o corpo começar a doer e tremer de frio. Annabel parou. Parou e encarou o Mersey uma vez mais. Ergueu o rosto aos céus, encarou-o também. E como se ali oferecesse seu mais sincero desafio aos deuses, sorriu, e girou. Seguiu sua dança, forçou as pernas a acelerarem, os pés a baterem contra as poças de água que se formavam nas pedras irregulares que lhe sustentavam. As mãos cortavam o ar, interrompiam a queda da água, em movimentos certeiros, afiados, aguçados. O abdômen doía, mas ela não se importava, pelo contrário. Usava daquela dor para lhe impulsionar, para ajudar o gelo a se espalhar. E ela dançou, e dançou, seus movimentos impecáveis apesar de toda a dor. As horas passaram, e Annabel só parou quando suas pernas desistiram, quando lhe levaram ao chão. E ela caiu de joelhos, encarando, justamente, o rio. Se deixou deitar ali mesmo, já nem sentia mais as gotículas de água que lhe acariciavam a pele. E suspirou, exausta, dos lábios já azulados de frio, o ar também gelou. O calor não escapara. Não aguentara. Nunca aguentava. Pois nada sobrevivia ao gelo de sua alma.
Mas sabia estar errada, pois o próximo suspiro trouxera de volta aquele calor, que agora lhe cobrava. Fazia falta, o corpo todo dizia, gritava. Afinal, a realidade era que era seu gelo que não andava sobrevivendo ao ardor das chamas que domavam-lhe o peito, vermelhas como essa cidade. Annabel encarou uma vez mais os céus, e o rio. E, fracamente, se ergueu. Tirou as sapatilhas, pendurou-as sobre os ombros, e descalça, caminhou noite adentro. Perdida na satisfação da dança, na poesia da dor, no afogar dos sentimentos. Sorriu, um sorriso que não transparecia felicidade, nem tristeza. Um sorriso enigmático como ela mesma.
E na escuridão,
Sumiu.
Running Up That Hill
#livtask09 Um dos segredos de se manter fora do interesse dos noticiários, além de viver exatamente como esperam que se viva, é dar ao povo o que eles querem.
Se Annabel tivesse se recusado a explicar seu retorno da Rússia e abandono da carreira estelar no Bolshoi, teria tido de lidar com faíscas de interesse a seu respeito, jornalistas enxeridos, metendo o nariz onde definitivamente não eram chamados. Mas ela justificou suas escolhas com “saudades de casa e da família, e uma necessidade de se manter próxima de seus irmãos e mãe após a morte de seu pai”. Pronto. Como sempre, a bela e graciosa Annabel tinha os mais puros motivos para abandonar uma carreira que muitos morreriam para ter, ainda mais tão jovem. Morar em Liverpool também levantara algumas perguntas, respondidas simplesmente com uma “nostalgia pela cidade na qual morara com seu pai por anos durante a construção do One Shopping”.
Sim, a morte de seu pai lhe rendera desculpas para quase tudo, ainda mais pela proximidade entre os dois desde que era pequena. Mas a base de uma boa mentira, era justamente não ser inteiramente falsa. De fato, a cidade lhe trazia as mais diversas lembranças, de momentos que ninguém mais saberia sobre, de sentimentos que ela ignorava. Annabel mantinha uma pose intocável, inatingível. Sentimentos não faziam parte de sua cronometrada rotina, muito menos de seus calculados negócios. E em um dia atipicamente reservado apenas a negócios, a bailarina se via encerrando o dia num pub de esquina em frente ao estádio do time da cidade.
O The Park estava pouco movimentado, mas o suficiente para que ela tivesse de desviar de um garçom ou outro que passava apressadamente com copos cheios de bebida. O motivo que a levara até ali fora o mesmo que a mantivera trancada em seu escritório, batendo impacientemente o salto agulha no chão toda vez que precisara se repetir com um membro da diretoria do Grupo Grosvenor: Negócios. Esses, entretanto, completamente diferentes dos do dia, e ela sabia que sua reunião da noite deveria ser tranquila. Acabou por não trocar as vestes diurnas por outras noturnas. Usava o mesmo terno de calças sociais skinny pérola, em conjunto com um colete de efeito aveludado preto e blazer da mesma cor e tecido da calça. O colete era decotado, e curto, mostrava um pouco da pele alva, mas não importava - era, afinal, noite. Saltos finos como se pudessem quebrar com um bater de dedos e altos, imponentes como todo o visual. Os cabelos negros estavam soltos, um tanto ondulados após o dia amarrados num coque firme. Chamava atenção, sim, pois sua fria beleza destoava do calor das cores e pessoas ali, e chegou a acenar brevemente para um ou dois rostos que reconhecia - Natalie e Luke, se ela bem se lembrava. Um copo de água tônica com limão, sem gelo, pedido incomum para um pub cervejeiro, e uma mão em suas costas que teria sofrido reprimendas, se não pertencesse ao seu dono - e do local. O homem com o qual se reuniria aquela noite para ao seu lado, alto e com vestes semi-formais, escuras. Derek lhe cumprimentou e guiou para sua sala.
Annabel admirou o escritório silenciosamente. Era a primeira reunião que tinham pessoalmente, e haviam muitas informações a serem trocadas, discutidas, alinhadas. Não seria breve, mas a noite era longa, então poderiam trabalhar em paz - A primeira reunião do dia em que ela não era a única cabeça pensante.
* * * * *
- Eu não acho que já tenha lavado um copo em minha vida, Stymest.
- Bom, é passada a hora de o fazer, então. A reunião acabara a pouco mais de meia hora. Estava tudo encaminhado e havia muito a ser feito, mas se permitiram uma dose enquanto os funcionários se despediam e o pub fechava. Estavam em um raro momento de descontração e por algum motivo, se encontravam atrás do balcão do bar, com Derek lhe fazendo experimentar a sensação de lavar o próprio copo, muito provavelmente apenas por um certo divertimento pessoal no qual ela o deixaria indulgir - por hora.
Estava focada, determinada a ser excelente na simples tarefa de lavar um copo como era em todos os demais aspectos de sua vida, quando ouviu as portas do pub se abrindo novamente; Não deveria acontecer, restavam apenas os dois ali. Antes mesmo de seu cérebro processar a ideia de que talvez alguém tivesse esquecido alguma coisa, o brilho metálico de um objeto que ela conhecia mais do que bem se fez presente.
Annabel poderia dizer que aquele momento a definiria para sempre.
Pela primeira vez em sua vida, não sentiu a frieza de seus cálculos, mas o ardor de um zelo anteriormente desconhecido pela bailarina, que impulsiva e impensadamente, se colocou na frente do hooligan.
Ao mesmo tempo em que o copo que largou se despedaçou ao chão, a dor da bala que atravessava seu corpo se fez presente, quente, destrutiva.
A dor se alastrou por seu corpo como o sangue do ferimento se espalhava por suas roupas. Annabel sentiu os braços de Derek ao seu redor, mas não realmente ouviu o que ele possivelmente gritava, o choque a tomando por completo. Suas mãos estavam em sua ferida, sentindo o calor do líquido vermelho que a mantinha viva - e era tão bonito, mas… Ela não podia perder tanto assim, tinha certeza. Seu corpo foi de doloroso encontro ao chão quando uma movimentação maior se iniciou; Alguém pulara para dentro do balcão? Vidro, vidro se espalhava por todos os lados, batia em sua pele, cobria seu cabelo, mais sangue…
“Pense, Annabel. Fria e calculista. Como deveria ser, sempre.” Sua própria voz lhe disse, em algum lugar do fundo de sua mente, e ela respirou fundo - péssima ideia - tentando se fazer pensar, agir. Os olhos buscaram por Derek, e as mãos, pelo pequeno revolver que mantinha consigo. Ninguém prestava atenção nela, e essa era sua vantagem. Sua desvantagem era, bem, como tremia, a dor absurda que sentia. Cuspindo o sangue que se acumulava em sua boca e mordendo um pedaço de seu colete (o blazer perdido em algum lugar distante), se sentou com dificuldade, sem fazer barulho. Mirou. As duas mãos, procurando um nível seguro de estabilidade, os alvos estavam em movimento e ela não podia errar, não com Derek ali no meio. Atirou três vezes, acertou os três, corpos que foram ao chão com tiros limpos, certeiros - esperava que não mortais, afinal, imaginava que precisariam tirar respostas de quem quer que fossem. Em sua rápida matemática, eram cinco contra dois, pelo menos, desde que se fizera útil, ela não fazia ideia de quantos haviam caído para seu parceiro de negócios antes. Buscava uma mira estável para mais um, quando sentiu uma aproximação ao seu lado; Tarde demais, ela até desviou do primeiro golpe, um soco que teria sido certeiro em seu rosto, mas fugir deste lhe custara uma dor avassaladora em seu abdômen, e, droga, como essa merda lhe atrasava. Annabel tinha anos de experiência com artes marciais e defesa pessoal, algo que não era de conhecimento público, mas nenhuma aula de fato a prepara para a inutilidade que a tomaria ao levar um tiro. Não teve tanta sorte na próxima, o homem a agarrou pelo pescoço, levou sua cabeça numa batida forte e direta contra o balcão, a jogando em seguida nas prateleiras de copos que se despedaçaram contra seu corpo que caía ao chão com os cacos de vidro. A bailarina ofegou de dor, estava zonza, fraca, suja, de sangue e muito provavelmente álcool e mais, e, desorientada, nada pôde fazer quando a figura alta e forte de seu atacante se aproximou… Nada, além de deixá-lo envolver-lhe o pescoço novamente, ao passo em que sua mão se fechou ao redor de um caco de vidro grande e afiado que estava ao seu lado. Mais uma vez naquela noite, duas coisas aconteceram ao mesmo tempo: Um tiro, e um golpe.
Ela viu o líquido rubro jorrar da ferida aberta no pescoço do homem pelo seu ataque, ao mesmo tempo em que sentiu o sangue alheio lhe atingir, e o corpo de seu agressor amolecer e cair para o lado, morto, uma bala na lateral da cabeça. E Derek correndo para seu lado.
Acabou.
Estava praticamente desacordada, sabia que quaisquer resquícios de energia que tivera foram um surto de adrenalina, o mais puro e básico instinto de sobrevivência, e no momento em que seu corpo percebeu que não havia mais ameaça, começou a desligar - talvez em proteção aos danos que sofrera, talvez em consequência deles, ou mesmo ambos. Não sabia, e não se importava, a escuridão que a tomava era mais que bem vinda.
“Pense, Annabel. Mais um pouco.” Sua própria voz cobrou novamente, e, tossindo, tateou cega e molemente o próprio corpo antes e achar o bolso com o celular, provavelmente destruído, mas felizmente, com um sistema de assistência por voz ainda funcional.
- Siri, mostre o contato… Do Doutor Stephen.
Sussurrou, fraca, rouca, engasgada e com muita dificuldade. Os olhos buscaram pelo rosto de Derek uma vez mais, sabiam se entender e ela esperava que ele entendesse o recado: Nada de hospital. A regra era clara, viver como esperavam que vivesse; Ninguém deveria saber do que lhe acontecera, muito menos ter como especular sobre. Mas não poderia se certificar disso. Pela primeira vez, Annabel teria apenas de confiar em alguém. Pois momentos depois, tudo ficou escuro, e sua consciência se esvaiu, simples como o fim de um ato de dança. E, talvez, ela pensou antes de apagar, talvez aquele fosse seu último.
The Dance of The Courtesan
Listen Essa é a história de uma mulher proibida de amar.
Essa mulher, abaixada no centro do palco, era proibida de sentir. Seus sentimentos, ela colocou em uma caixa de jóias, uma caixa de vidro, com adornos dourados que se encontrava à sua frente, para que pudesse olhar para eles e admirar seu valor. Se erguendo, lentamente, a encarou, trouxe ao peito, saudosa. Mas passou nessa caixa a chave, trancou-a. Alguém lhe toma a caixa das mãos, e lhe entrega um envelope, no qual guardou a chave. Esse envelope ela pediu para um estranho endereçar, tímida, entristecida. E para outro, pediu para enviar, assim não saberia para onde foi. Junto com a chave, apenas um bilhete, escrito à mão, com as últimas lágrimas que derramou.
"Eu sou uma criatura do submundo. À mim, não é de direito amar. Você tem a chave dos meus sentimentos. Guarde-a bem."
A mulher sentiu a carta partir, se encolhendo ao chão, em dor, angústia. Sentiu o peso da chave lhe deixar, e então, deixou de sentir. Suas roupas, lentamente, passaram de cores vivas para um branco glacial. Um frio lhe queimou, a pele, os lábios, o coração.
E no dia seguinte, a mulher proibida de amar se levantou outra pessoa.
Calçou suas sapatilhas, e, em ponta, se ergueu. E ela dançou, uma dança sensual, intensa, cativante, mas absolutamente dolorosa. Entre saltos e giros, conquistou e manipulou todos que precisou. Foi a amiga, a irmã, a amante. E um por um, seus objetivos dominou. Era um diamante, pedra mais preciosa, lapidada, no ápice de seu brilho…
...E absolutamente vazia.
E vazia, ela dançou e cantou noite adentro por sua vida proibida de afeto, até que, em uma noite de lua brilhante, seus passos lhe levaram a cair nos braços de um cativante boêmio. Cabelos escuros, olhos claros, coração quente, corpo fervente. Ele lhe cantou e encantou, e ela precisou negar. Uma vez, negou e se afastou. Na segunda, seu charme, seu calor, já a derretiam, a queda começou. E ela dançou para longe dele, mas ele a acompanhou, seus passos talvez não refinados, mas tão apaixonados, ninguém mais jamais a acompanhara. E através do palco eles dançaram, ele a alcançou, olhou-a nos olhos e tocou-lhe o coração. Segurando-a em seus braços, lhe entregou um envelope aberto, um envelope contendo apenas um bilhete e uma chave. O rapaz lhe devolvia suas emoções, lhe inspirava a abri-las, vivê-las… E a primeira que lhe retornou foi o medo. Dançando para o fundo do palco, para o escuro, ela tremeu, tentou fugir, afinal, a emoção que mais a queria era a que não deveria libertar. Mas ele… Lhe devolveu a felicidade, a inspiração…Sua dança se tornou mais leve, brilhante, natural. Ele a erguia, arremessava para os braços da vida, e era bom, era eletrizante… O amor a alcançou sem que nada pudesse fazer a respeito. Quando viu, se perdia nos olhos claros de seu amado, e lhe retribuía, a canção, o calor. Mas essa não é a história de uma mulher que vivia de sentimentos. Essa é a história de uma mulher proibida de amar. E a felicidade nunca vêm sozinha, mas acompanhada de sua tristeza. O amor, sempre é acompanhado da dor, dor essa que se fez presente ao se ver tendo de negociar seu próprio coração para um homem que desconhecia qualquer sentimento além do querer. E ele a queria, ele a teria. Ele a via como o mais valioso troféu, e a teria em sua estante, para a todo o mundo exibir. Ele a tomou numa dança violenta, uma dança obscura, um tango cheio de desejo unilateral, de refusa, de um poder que ela sabia que não poderia vencer. Era proibida de amar, pois deveria sempre dançar o que a vida demandasse dela. E a vida demandou que seu boêmio amor, o coração partisse. Chorou uma vez mais, ao nos olhos claros mentir descaradamente. Dançaram, uma última vez, num ritmo irritado, passos magoados, corações partidos clamando pela verdade que não seria vivida. A bailarina se viu uma vez mais caída no centro do palco, encarando sua caixa de jóias, aberta, escancarada. Com ela, esbravejou, amaldiçoou sua vida, suas emoções. E, aos prantos pela primeira vez em anos, trancou-a novamente. Trancou suas emoções, e não apenas jogou a chave longe, mas a caixa também. Uma última dança, ela dançou. Uma dança amarga, solitária, amaldiçoada. Suas vestes eram negras como a morte que lhe assolava, pois morria, ninguém vivia sem a chance de sentir. Seus saltos lhe aproximavam do fim, seus giros lhe entorpeciam os sentidos. E girou, e girou, descendo lentamente até o chão, que a consumiu. As luzes se apagaram, tudo ficou escuro. A história da mulher proibida de amar acabou tão triste quanto começou.
E o povo aplaudiu, pois a dor não era deles. Annabel se ergueu, correndo para detrás das cortinas. Secou o rosto, e sentiu as luzes se acenderem para os colegas que, um a um, recebiam a calorosa saudação do público por uma apresentação perfeita. Sua entrada, como personagem principal, fora a última, a mais aplaudida, lhe jogavam flores, berravam-lhe em êxtase. Sorriu, triunfante, mas o sorriso falhou por um breve momento. Quando lhe pediram para interpretar Satine, para criar uma apresentação que capturasse a essência de Moulin Rouge em apenas três breves atos, Annabel não imaginara que sentiria tanto. Mas assim como sua interpretação da cortesã, trancou seus sentimentos novamente, e o sorriso voltou a brilhar.
As cortinas se fecharam. E Annabel, assim como Satine, se viu sozinha.

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Character Profile:
Nome Completo: Annabel Lee Grosvenor
Título(s): Vossa Graça, Lady Annabel de Eaton, herdeira do Grupo Grosvenor de investimentos imobiliários
Profissão: Bailarina Contemporânea
Data de Nascimento: 28 de Novembro de 1995
Altura: 1,77m
Orientação Sexual: Bissexual
Cor dos olhos: Âmbar
Cor natural do cabelo: Loiro
Origem: Cheshire, Inglaterra
Localização Atual: Liverpool, Inglaterra