#LIV09 — HUNGRY. /self.
Ele se sentia extremamente desconfortável nos últimos dias. Não era por culpa da rotina, o Park nunca sofreu grandes alterações mesmo com os empates que estavam acontecendo, fosse no campeonato ou nos amistosos. Hooligans sempre tinham pretexto para beber ou se enfiar em algum conflito motivado pelo álcool.Os julgamentos nasciam de uma percepção aguçada e certamente mais séria do que o normal. Derek seria um dos beber ou ir brigar usando como motivação qualquer coisa. Entretanto, nem mesmo isso ele vinha fazendo, a monotonia era agradável e a rotina cômoda demais, começou a se tornar um vício. O problema é que isso o fazia abaixar a guarda, talvez abaixar demais. Em uma conversa recente, percebeu que ele tinha alcançado o auge dos seus negócios, não havia mais um policial no seu pé, acabou aquela fantasia de que se um dia desconfiassem seria pego, ele gastava uma boa grana com a corrupção de Liverpool. O que não era pago pelo dinheiro ou pelo medo, transava com bons acordos onde deixaria todos bem confortáveis com seu manto de poder. Annabel entretanto era uma das mudanças, por mais que conhecesse a moça há muitos anos, os negócios entre eles ou os encontros eram sempre feitos por motivações diferentes. O nome grande da família e o contato para que se juntasse a sua operação era um sinal de que ele tinha mesmo alcançado o topo. A reunião que marcou com ela aquela noite era para aquela finalidade, discutir termos, valores e padrões de negociação, ainda assim ao final do evento eles desfrutaram um pouco da companhia um do outro. A sequência de acontecimentos naquele momento ainda eram confusas para si, Derek sempre carregava sua arma, mas a guarda estava baixa naquela noite, se sentia seguro em um ambiente que ninguém com o mínimo de conhecimento teria capacidade ou coragem de invadir. Esqueceu-se que ninguém e intocável e sua arrogância foi paga com o disparo que veio em sua direção. Segundos foram precisos para assimilar, o movimento poderia sido rápido se o dela não fora ainda mais, Derek assistiu o corpo da britânica ir de encontro a bala que era para si, seus olhos se abriram em um reconhecimento confuso. O sangue estava quente e o instinto vingativo lhe tomou com a mesma rapidez que os corpos invadiram o local em que estava. Derek desarmado, avançou contra as mãos alheias, corpos em movimento mas ele sempre fora bom em brigas como aquela. Levou sim, no rosto, abdômen e até sentiu suas costas batendo contra prateleiras e as fazendo derrubar litros e mais litros no chão. Destruíram parte de seu bar, assim como levou algum tempo para se livrar de alguns deles. Os disparos lhe deu proteção, ele saltou o balcão para fugir das balas dela, para enfiar o taco nos olhos de um deles, atravessando e o deixando cair, assim como o corpo feminino. Derek correu, dizia coisas desconexas, dentre elas procurando o motivo por ela ser tão tola. Segurou o corpo ensanguentado, a mão direita do rapaz tirando os fios de seu rosto, limpando parte do sangue que não sabia a quem realmente pertencia enquanto a via chamar. — Quieta, dark angel. — Murmurou, abaixando os lábios para lhe beijar a testa antes de por fim voltar-se para o aparelho celular. Foram poucas palavras trocadas, um endereço dado e finalmente… a pressão em sua cabeça. A vista embaçou, a adrenalina lhe fez olhar a série de corpos, dentre eles um novo estava no cenário. A arma na mão, mas não efetuou qualquer disparo, apenas sentiu-se soltar o corpo de Annabel e quem quer que fosse, lhe arrastou para fora dali.
•••
Era contínuo: Um, dois, três, quatro… pingos sequentes. Sua cabeça doía, o latejar potente que lhe fez levar a mão até ela. Alisar o couro cabeludo para sentir os fios castanhos cobertos por uma camada de sangue seco que o deixavam naquela posição ao qual fora jogado. Havia mais de seu sangue no chão, mas a perda não parecia ser tão grande assim, Derek não quis procurar a ferida com medo de que a fizesse sangrar novamente, mas se sentou. Cinco, seis, sete…o som agonizantes das gotas naquela balde lhe fizeram forçar mais a visão, o embasar foi aos poucos se tornando mais nítido, ele viu tapete molhado e algun s baldes pelo que parecia um casebre. Chovia, conseguiu identificar o som de fora e entender o porque os pingos sequentes continuavam. O lugar era descuidado, úmido, sujo e escuro, olhou o pulso e o rolex ainda estava ali, a data, entretanto foi o que lhe surpreendeu. Três dias… três dias dormindo e ferido. Tocou os lábios, estavam inchados, cortados, assim como o supercílio.
Se levantou, com algum dificuldade. Oito, novo, dez… Ele não podia evitar prestar atenção naquele sonzinho infeliz de água tocando a superfície. Tateou os bolsos, mas claro que não haveria um celular. Ninguém seria tão burro duas vezes. Estava fraco, arrastou-se como podia. A mão esquerda abraçou a barriga, enquanto a direita estava tocando a parede e se arrastando pelo espaço estranho. Sentia sua barriga apertando por uma fome nunca antes provada, Derek não era dos que se alimentava muito bem, sequer se importava muito com esse ato. Entretanto, estava ali agora, dependendo de um arrastar-se doloroso, aquela forma apertando como se o gastro estivesse completamente corrompido. Estava faminto, a perda de sangue e o cansaço físico em nada ajudava, ele precisava de algo, precisava comer. Sua vida dependia disso, ele tinha certeza que sim.
Alcançou a pia do que era uma pequena cozinha tentou abrir a torneira, mas nada desceu por ela, apenas o som rústico de encanamento velho e uma expulsão de um líquido barrento. Não era usada, o rapaz acabou fechando, com o cotovelo ele se apoiou no tampo, a mão direita e suja pelo arrastar das paredes tocou o olho que estava fechado e colado pelo sangue do supercílio, esfregou até que a crosta acumulada libertasse também aquela pálpebra e ele pudesse enxergar melhor. Abriu um armário após o outro e achou uma algumas embalagens. Puxou para baixo como podia, vendo os bombons que um dia pertenceram a uma caixa caindo na pia suja. As mãos lutaram para abrir a embalagem e tirou um charge para a primeira e generosa mordida. Derek odiava chocolates, doces de modo geral, mas era o que precisava, seu corpo tinha expectativa e o paladar estava ansioso.
O doce pareceu explodir em sua boca, ele sentiu ele mexendo… o problema era que mexia… mexia demais.
Os olhos que nem lembrou fechar se abriram, e olhou para a metade ainda segura em sua mão. As larvas se moviam dentro do doce, e ele entendeu porque sua boca estava naquele movimento horrível. Cuspiu para dentro da pía, vendo o chocolate derretido e alguns dos bichos vivos que anteriormente mastigava.
— Não… não…. não… — Disse desesperado, cuspindo um pouco mais, soltando o cholate para levar as mãos para dentro da boca, tentando limpar o máximo que podia. Era horrível, seu cérebro já havia assimilado e o homem acabou cuspindo mais e mais. A fome continuava, e o estômago pedia por aquilo que anteriormente mastigou. Derek estava faminto. — NÃO. — Bateu na pia, parte dos bombons caíram no chão e ele se arrastou pelo casebre, as portas estavam lacradas, não tinha como seguir o que parecia um corredor, as janelas fechadas por placas de ferro, ele entrou na única que ainda estava aberta para lidar com um banheiro tão sujo quanto. A mão tateou as partes do armário que um dia pareceu ter um espelho, agora era algo meio cinzento e raspado que até refletia parte de sua imagem. Derek estava um caco, por sinal. Abriu a procura de uma pasta de dente, mas ele estava sendo otimista demais mesmo né? A barriga roncou, a fraqueza lhe fez precisar sentar no tampo da privada ao lado enquanto a mão girava a torneira para mais um barulho de correnteza que não veio, ali nem sequer sinal dela. Derek passou as costas da mão na boca e voltou para a cozinha, aquela sensação estranha dos bichos andando por todo seu lábio era mais do que ele podia lidar.
Sentou-se no chão novamente, a fome parecia que ia lhe matar. Derek olhou as coisas caídas, alguns bombons e bolachinhas, abriu pacotinho por pacotinho, mas dessa vez partindo os chocolates no meio e a cada vez mais larvas ou mofo. — Super funcional. Ta acabando com minha vontade de comer. — Disse para si mesmo com um riso baixo. Levantou o pulso para ver o espaço que tinha que ter tido da pulseira que o namorado tinha lhe dado meio que para “tomar conta” de em que condições de saúde ele se encontrava. — Ótimo, se eu não morrer o Luke me mata. — Comentou ao se dar conta estar sem ela. Seu suspiro soou baixo e o rapaz então abriu o último pacotinho, dessa vez era de bolacha de água e sal. Olhou para ela, parecia boa, nenhuma larva, nenhum mofo. Então ele mastigou, estava murcha demais, o gosto também estava bem estranho e o hooligan cuspiu ao bater a cabeça na porta atrás de si algumas vezes.
Dito e feito, ela estourou e de dentro dela o cheiro de podre com algum alimento que ele não pôde reconhecer, mas baratas e outros insetos rastejantes saíam dali, fazendo ir engatinhando até a parte da sala onde a chuva ainda caía.
As gotinhas no balde limpo lhe chamaram a atenção. Era a coisa mais decente que ele via, e a mão adentrou o balde de água da chuva, pegando um pouco e levando a boca para fazer gargarejo e cuspir, repetindo o processo algumas vezes antes de lavar o rosto.
“ — E aí está ele...o namoradinho do Hemmings.” — O sotaque australiano era carregado, Derek sorriu, afastando o rosto molhado, embora o sangue nem sequer estava perto de ser limpo, do balde para fitar o homem em pé. — Vocês mataram muitos dos meus aquela noite.” — O hooligan sorriu.
— Imagina quantos mais não irão morrer em breve, não é mesmo? — “Não está numa posição muito favorável.”
— Não é a primeira vez. — Suspirou cansado, a barriga roncou. O homem parecia carregar um sanduíche bem fechado por papel. Jogou em sua direção, e ele queria não ter pego com tanto desespero para comer de modo faminto. —Se fosse pra me matar, não se daria ao trabalho… e olha, se quer um conselho, é um grande erro não fazer. — Comentou enquanto tirava o papel do lanche e levava aos lábios, mordendo pedaços e suspirando contente com o gosto daquilo. Era incrível e sem nenhum bicho, nenhunzinho.
— Namorar dono de bar. Lamentável. Peguem ele.
O homem disse, e nem mesmo uma segunda mordida foi dada, a fome não foi saciada e ele sentiu o som do tiro e o dardo em seu pescoço, os olhos foram fechando e apagando ele sentiu pessoas lhe segurarem. Ah céus, seja lá quem fosse era algo com Luke, e não era nenhuma novidade desde que há dias o namorado falava sobre algo ou alguém lhe caçando. Derek só não esperava que fosse escorrer até si.
“Eu dou conta, pode deixar.”, se perguntou como o mais novo estava e se arrependeu de não ter agido antes, mas de uma coisa ele sabia. Não o matariam por agora, e se saísse vivo dali, Luke não teria mais com o que se preocupar.













