Arthur Weasley vem de uma família bruxa de sangue puro conhecida mais por sua simplicidade e união do que por prestígio, tendo crescido em um ambiente acolhedor que incentivou sua curiosidade desde sempre. Desde cedo, desenvolveu um interesse incomum pelo mundo trouxa, fascinado por objetos e pelo modo como funcionam, o que o diferenciava de muitos ao seu redor. Aluno da Grifinória em Hogwarts, destacou-se não por talento bruto, mas por uma inteligência diferente - observadora e estratégica. Dedicado e constante, envolvia-se nas aulas com interesse genuíno, especialmente quando podia explorar aquilo que despertava seu real interesse. Sua personalidade é marcada por leveza, bom humor e uma curiosidade quase infinita. Arthur é amigável, empático e genuinamente interessado nas pessoas, além de guiado por um forte senso de justiça. Embora descontraído e até um pouco bobo em alguns momentos, carrega uma firmeza silenciosa e uma teimosia discreta que o mantêm fiel ao que acredita.
+ CONNECTIONS.
* GENERAL INFORMATIONS.
Nome: Arthur Weasley
Idade: 21
Casa: Grifinória
Ano escolar: Décimo
Status sanguíneo: Sangue puro
Extracurricular: Clube do Xadrez Bruxo; Clube de Inovação Mágica; Sociedade de Experimentação Mágica.
Varinha: Madeira - Freixo; Núcleo - Pelo de unicórnio; Flexibilidade - Levemente rígida; Comprimento - 31cm
Patrono: Doninha
FC: Leo Woodall
* BACKSTORY.
Arthur Weasley nasceu em uma família bruxa de sangue puro, conhecida mais por sua simplicidade e união do que por prestígio dentro da sociedade mágica. Os Weasley nunca foram uma família de grande influência política ou riqueza, mas sempre carregaram um forte senso de honestidade, trabalho e lealdade, tais valores que foram transmitidos a Arthur desde muito cedo. Crescendo nesse ambiente, Arthur desenvolveu uma relação próxima com seus pais, marcada por afeto genuíno e liberdade suficiente para explorar suas próprias inclinações.
Diferente de muitas famílias tradicionais, os Weasley não impunham rigidez excessiva sobre comportamento ou interesses, o que permitiu que Arthur se tornasse naturalmente curioso. Foi ainda na infância que Arthur começou a demonstrar interesse pelo mundo trouxa. Pequenos objetos encontrados por acaso despertaram sua atenção de forma incomum, levando-o a desmontar, observar e tentar compreender como funcionavam. O que começou como curiosidade infantil logo se transformou em um interesse consistente, ainda que visto com estranhamento por algumas pessoas ao seu redor.
Ao ingressar em Hogwarts e ser selecionado para a Grifinória, Arthur não se destacou de imediato pelos critérios mais tradicionais valorizados na escola. Não era visto como um prodígio, nem como um talento excepcional em feitiços ou duelos. Suas notas, de modo geral, eram estáveis — boas o suficiente para demonstrar dedicação, mas raramente impressionantes a ponto de colocá-lo entre os melhores da turma. Ainda assim, havia algo em Arthur que não passava despercebido por aqueles que prestavam mais atenção.
Sua inteligência se manifestava de forma diferente da maioria. Em vez de se sobressair pela memorização ou execução impecável de magia, Arthur demonstrava uma capacidade incomum de observar, questionar e estabelecer conexões. Essa característica era especialmente evidente em qualquer assunto que tangenciasse o mundo trouxa. Arthur demonstrava uma curiosidade atípica e quase inesgotável, envolvendo-se profundamente sempre que surgia a oportunidade de aprender algo novo sobre aquele universo. Enquanto outros alunos ignoravam ou desprezavam o tema, ele se inclinava para frente, atento, interessado e genuinamente fascinado.
Apesar disso, Arthur nunca pareceu interessado em provar seu próprio valor. Ele não competia por reconhecimento, nem se esforçava para ser visto como excepcional. Preferia a estabilidade de uma posição intermediária, onde pudesse existir sem pressão. Essa escolha, no entanto, não vinha de falta de capacidade. Em momentos específicos, sua inteligência se revelava de forma surpreendente. Arthur possuía uma habilidade notável para estratégia e raciocínio lógico, sendo, discretamente, um dos melhores jogadores de xadrez de bruxos entre seus colegas.
Ao longo dos anos em Hogwarts, Arthur não construiu uma reputação baseada em feitos grandiosos, mas sim em consistência. Tornou-se alguém reconhecido por sua honestidade, sua curiosidade e pela forma como tratava os outros com respeito, independentemente de status ou origem.
* PERSONALITY.
Definido por uma leveza natural que se manifesta, acima de tudo, em seu bom humor. Ele tem uma tendência quase constante de enxergar o lado curioso e, muitas vezes, divertido, das situações. Seu senso de humor é espontâneo, às vezes até um pouco bobo, marcado por comentários inesperados, perguntas fora de hora e observações que podem parecer ingênuas à primeira vista. Ainda assim, dificilmente são vazias; por trás dessa leveza, existe sempre uma lógica própria. Essa característica faz com que Arthur seja uma presença agradável e apaziguadora. Ele quebra tensões com facilidade, não por tentar controlar o ambiente, mas por simplesmente não se deixar consumir por ele.
Arthur é profundamente empático. Ele tem uma habilidade quase intuitiva de perceber o estado emocional das pessoas ao seu redor, mesmo quando elas não dizem nada. Sua primeira reação raramente é julgar; ele prefere entender. Essa empatia se traduz em atitudes simples, mas constantes: escutar com atenção, oferecer companhia sem invadir espaço e tratar todos com o mesmo nível de respeito, independentemente de quem sejam.
Seu senso de justiça é outro pilar importante. Arthur não tolera desigualdades ou atitudes preconceituosas, ainda que não seja alguém confrontativo por natureza. Quando necessário, sua postura muda de forma sutil, mas firme. Ele deixa de lado o tom leve e passa a se posicionar com clareza, sustentando suas convicções.
A lealdade, por sua vez, é uma de suas qualidades mais sólidas. Arthur não é alguém de muitas promessas, mas é extremamente consistente com aquilo que oferece. Quando cria vínculos, tende a mantê-los com firmeza, sendo alguém em quem se pode confiar sem hesitação. Ele dificilmente abandona alguém, mesmo em situações desconfortáveis.
Por fim, há sua teimosia, um aspecto que nem sempre é evidente de imediato. Arthur não costuma discutir ou impor suas opiniões de forma direta, mas uma vez que forma uma convicção, é extremamente difícil fazê-lo mudar de ideia. Sua resistência não é barulhenta, mas persistente. Ele pode até ouvir, considerar e refletir, mas dificilmente abandona aquilo que acredita ser certo.
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Embora o silêncio sepulcral que recebia em resposta fosse o suficiente por culpabilizá-lo por aquela confusão que, por sorte, não havia alcançado dimensões catastróficas, Molly se mostrou genuinamente chocada ao descobrir que o plano teria sido arquitetado pela mente engenhosa do melhor amigo. Sabia que o rapaz tinha a inteligência suficiente para conceber os detalhes de uma armadilha complexa, mas ela havia cometido o erro de menosprezar o alcance de seu atrevimento. Talvez existisse algo verdadeiramente raro brotando no âmago do rapaz para justificar suas atitudes recentes. Primeiro o beijo durante a festa e agora isso? Teria ele trocado de lugar com uma réplica exata que viera diretamente de um dos castelos-irmãos? Estavam mesmo começando a beirar a insanidade dentro daquela prisão temporal. Os dígitos da destra alcançaram a própria testa, massageando a região como se fisicamente quisesse reorganizar seus pensamentos para conseguir enxergar a situação com mais clareza e, com sorte, um pouco mais de paciência. Reconhecia que, por vezes, tendia a ser um pouco rígida com Arthur, mas isso se dava por querer seu bem acima de tudo. O olhar que lançava a ele transmitia um misto de decepção, rigor e hesitação. Não pensava em nada que pudesse dizer a ele, não por ora, pois queria ouvir cada detalhe do que tinha para confessar e se explicar. Sobressaltou-se com a palavra bradada de repente, encontrando o olhar confuso dos dois alunos que passavam por eles no exato momento. Ele aparentava estar realmente desesperado. As justificativas dadas em seguida pareceram frágeis demais aos olhos da bruxa para convencê-la a relevar o acontecido, mas tudo mudou no instante em que escutou o nome de Ronald Weasley. Engoliu seco, a expressão em seu rosto se transformando de imediato. Desde o encontro do colega de casa com a misteriosa figura que alegava vir do futuro, Molly havia demonstrado compaixão com Remus por ter que lidar com as ramificações daquele episódio, assim como havia demonstrado compaixão por Lílian depois de descobrir sobre sua suposta maternidade. Por qual motivo não agia com o mesmo acolhimento e compreensão em relação à notícia despejada sobre a cabeça de Arthur? Uma súbita onda de remorso surgiu em seu peito. Crispando os lábios, ela se limitou a assentir enquanto o escutava proferir os cenários que já haviam passado por sua cabeça, confabulações que também despertavam sua curiosidade e confusão. Do lado de fora, conseguia considerar alternativas que não colocavam o garoto como como um filho garantido do amigo ou algo igualmente estarrecedor, mas sabia que também assumiria as possibilidades mais trágicas para si mesma se estivesse no lugar dele.
Com um piscar de olhos o rosto de Arthur voltou enrubescer. Imaginou que a ideia da paternidade havia atiçado ainda mais o nervosismo crescente nele, mas logo veio a descobrir o motivo real para a reação. Seu cenho se franziu enquanto o observava apontar para os próprios lábios, levando alguns instantes para compreender o que tentava insinuar ali. ── O que?! ── Quando finalmente se deu conta do que dizia, seus olhos se arregalaram e as maças do rosto também foram invadidas por um tom carmesim. ── Credo, que horror! É claro que ele não encostou em mim. ── A simples ideia de ter Potter a beijando sob a identidade de Arthur despertava uma aversão descomunal dentro dela, do tipo que lançava arrepios por todo o corpo. A repulsa se estampou em seu rosto enquanto encolhia os braços rente ao tronco. Não nutria qualquer tipo de aversão pessoal contra o rapaz, mas tampouco sentia atração por ele. Embora fosse particularmente bonito, sua personalidade não se enquadrava em nada do que procurava em um homem. Weasley, por outro lado. Em meio a tormenta de emoções que a transtornavam durante a discussão, surgiu a revelação bombástica sobre o interesse do colega pela futura mãe de seus filhos. ── O James gosta da Lílian? ── Perguntou, momentaneamente distraída. Permaneceu boquiaberta enquanto vasculhava a memória à procura de qualquer indício que pudesse ter revelado tal sentimento no passado. ── Caramba, como eu nunca reparei nisso antes? ── Pareceu embasbacada com a própria falta de percepção. E se julgava tão observadora... Sem tempo para assimilar a última notícia a estampar a manchete principal do jornal de Hogwarts, um novo detalhe se ergueu diante dela, tão imponente que nada mais parecia ter relevância. Pestanejando, o fitou incrédula durante alguns segundos de silêncio. ── Espera, você andou flertando com outras pessoas por aí? ── Sem aviso, sem antecedentes e sem explicação, seu ciúme transbordou diante da ideia de Arthur usando seu charme com outras garotas do colégio. De onde vinha aquilo? Um simples beijo e ela já se considerava proprietária dele? Percebendo que revelava mais do que saberia explicar, Molly o distraiu com uma mudança brusca em seu humor, resgatando sua versão mais zangada para desferir um tapa contra o braço dele — um tapa tão leve que o toque de uma pluma causaria mais danos. ── Nunca mais faça isso de novo, Arthur Weasley! Além de me envolver nisso, ainda enganou a pobre da Lílian. ── Decerto usava a reprimenda como alienação, como um motivo para não precisar abordar sua possessividade tão cedo, mas realmente se preocupava com o impacto emocional que a manipulação sofrida pela garota poderia ter desencadeado. ── Pois saiba que, se não pedir desculpas para ela, eu ficarei incrivelmente desgostosa com você. ── Falou, gesticulando o indicador estendido na altura de seu próprio rosto. ── Onde já se viu ludibriar as pessoas desse jeito?! ── Continuou, despejando seu descontentamento.
Os rumos divergentes que aquela conversa tomava começavam a deixá-la um pouco sobrecarregada, e ambos pareceram buscar por um respiro no mesmo instante. Enquanto ele esfregava a nuca, Molly respirava fundo, reprimindo qualquer sentimento que não fosse útil ou adequado para a ocasião. O pedido de desculpas aconteceu sem que esperasse, a desarmando por completo e fazendo com o que remorso ressurgisse dentro do peito. Sentia-se egoísta por se atrever a roubar o foco, quando era ele quem estava diante de uma provável incógnita sobre sua vida. Qual era a importância de uma ideia inconsequente, que não havia causado nenhum estrago irreversível, quando Arthur podia estar lidando uma crise existencial? Desconcertada, ela apoiou as costas contra a parede, evitando o olhar do outro enquanto se recompunha. ── Isso... Isso não é sobre mim. ── Respondeu com a voz mais amena, finalmente recuperando a calma que a situação exigia. Seus olhos vagaram por pontos aleatórios que encontravam pelo ambiente, até chegar às palavras certas a serem ditas, com o tom igualmente apropriado. ── Mas você precisa me prometer que nunca mais vai cometer uma estupidez dessas. ── Voltou a mirá-lo, carregando no olhar o carinho imenso que sentia por ele e que nenhuma confusão seria capaz de abalar. ── Quem sabe o que poderia ter acontecido enquanto estavam transformados? Já imaginou que uma nova instabilidade temporal poderia ter deixado vocês permanentemente trocados? O que seria da sua vida assim? ── Argumentou com um pouco de sensatez. O cenário descrito soava um pouco absurdo, mas não impossível ao considerar tudo que vinha acontecendo pelas últimas semanas. Enquanto alinhava os fios acobreados que haviam se desalinhado ao longo da verdadeira montanha-russa emocional em que a conversa se transformara, reuniu coragem para enfim abordar a nuvem carregada que parecia pairar sobre a cabeça dele. ── Pelo menos o risco valeu à pena? Descobriu algo sobre o garoto que conversou com Remus? ── Pareceu hesitante ao perguntar, temendo engatilhar alguma emoção negativa no amigo.
O alívio foi tão grande quando Molly confirmou que James não tinha tentado nada com ela usando seu rosto que Arthur precisou encostar a cabeça na parede por um segundo, o suficiente para agradecer silenciosamente a todos os fundadores de Hogwarts, a Merlin e talvez até a algum santo trouxa que estivesse aceitando pedidos naquele dia porque ele já tinha imaginado cenários tão terríveis que faziam uma detenção vitalícia com McGonagall parecer um passeio agradável e saber que Potter não tinha arruinado sua vida romântica em potencial foi um conforto gigantesco. — Graças a Merlin. — Escapou dele em um sopro sofrido, levando uma mão ao peito. — Eu estava me preparando psicologicamente para ouvir uma coisa muito pior. — A simples ideia de Potter perto de Molly fazia alguma parte muito possessiva e muito inconveniente dentro dele se remexer desconfortavelmente. Então, a conversa sobre Lily e James conseguiu arrancá-lo daquele buraco por alguns instantes. O rosto do ruivo se iluminou imediatamente ao perceber que não era o único que não havia ligado os pontos antes. Quanto mais pensava no assunto, mais óbvio tudo parecia. Era como descobrir que água era molhada. Como ninguém tinha percebido antes? E, por mais errado que fosse admitir, parte dele sentia orgulho daquela descoberta, fazendo com que Arthur se sentisse um gênio ao invés de um criminoso em potencial por ter feito tudo aquilo. — Pois é, pois é... Eu descobri uma das maiores fofocas da história de Hogwarts! — Exclamou, quase ofendido pela falta de reconhecimento. — Admita que isso foi incrível! — Porém toda aquela confiança evaporou no instante seguinte quando Molly o questionou sobre se estava flertando com outras garotas. Um balaço na cabeça teria doído menos. O rosto dele literalmente congelou. O cérebro simplesmente parou de funcionar por alguns segundos porque aquela pergunta carregava exatamente o mesmo peso de uma namorada brava e desconfiada perguntando onde que ele estava ontem as dez horas da noite. O pior era que Molly nem era sua namorada. Ainda. Mas a culpa apareceu mesmo assim. — Não... não flertei com ninguém. — Respondeu rápido demais para parecer culpado. — Quer dizer... não intencionalmente. — O ruivo fechou os olhos por um instante. Aquilo certamente pareceria suspeito. — Eu só... estava tentando ajudar o James e a Lily parecia estar se divertindo. — O bruxo passou a mão pelos cabelos, completamente derrotado. A verdade era simples: Evans parecia mais leve naquele dia do que durante boa parte das últimas semanas. Ela estava rindo, correndo, esquecendo por alguns minutos dos problemas que consumiam Hogwarts inteira e Arthur não quis estragar aquilo. Era um crime? Esperava sinceramente que não. Porém, Arthur percebeu que uma coisa ela tinha razão, mais cedo ou mais tarde precisaria pedir desculpas para a amiga, porque, apesar das boas intenções, ela acreditava que estava falando com James e aquilo era injusto. A constatação arrancou um suspiro do ruivo. — Mas você tá certa... Eu vou pedir desculpas assim que a encontrar, Molly. — Aquilo não era negociável. Arthur certamente faria aquilo assim que tivesse a oportunidade.
Quando veio a exigência de que nunca mais fizesse algo daquele tipo, Arthur abriu a boca imediatamente, a intenção de prometer estava lá, o problema era que, quanto mais pensava, menos acreditava em si mesmo. Mas Hogwarts era o problema porque todo santo dia aquela escola inventava uma nova loucura e Arthur possuía a combinação mais perigosa possível para aquele ambiente: curiosidade demais e bom senso de menos. — Eu vou tentar muito não fazer outra estupidez dessas. — Era o mais honesto que conseguia ser porque prometer seria mentir e Molly merecia mais do que uma mentira confortável. — Mas você precisa admitir que este castelo não ajuda ninguém. — Arthur apontou para Molly como alguém tentando defender sua honra diante de um tribunal. — Tenho certeza que existe uma regra não escrita em Hogwarts que diz que grandes curiosidades exigem grandes estratégias questionáveis. — Era uma desculpa horrível, ele sabia, mas também era verdade — o que mais ele poderia dizer? E quando a bruxa sugeriu que algo poderia ter dado errado e os deixado presos para sempre nos corpos trocados, Arthur empalideceu visivelmente, a expressão dele mudou tão rápido que parecia ter acabado de ouvir uma profecia particularmente terrível. — NÃO FALA ISSO. — A reação foi instantânea. — Por Merlin, não fala isso nem brincando, Molly. — Se existisse uma poção de benzer, um amuleto de proteção ou um ritual anti-desgraça naquele momento, Arthur teria utilizado todos. — Eu teria que jogar quadribol voluntariamente, teria que ficar passando a mão no cabelo toda hora, teria que ser bonito o tempo todo e isso seria cansativo demais. — Aquilo claramente o esgotou mais só de pensar. — Se eu ficasse preso no corpo de James Potter, eu estaria morto em duas semanas ou talvez em três se me alimentassem direitinho. — Mas, aos poucos, a brincadeira perdeu força porque a conversa inevitavelmente retornou para o tal do Ron e, com ela, voltou aquele peso estranho, aquele aperto e aquela ansiedade que não sabia exatamente onde colocar.
Arthur desviou o olhar, passou a mão pela nuca e respirou fundo. — Eu só sei que ele existe e que é um garoto ruivo... um Weasley. — E aquilo já era informação suficiente para deixá-lo acordado por semanas. Ele apoiou as costas contra a parede e encarou o teto. — E que não estou nem um pouco preparado para a paternidade. — A confissão saiu antes que pudesse impedir. O sorriso que surgiu foi pequeno, nervoso e cansado. — Pensa, eu ainda esqueço trabalhos, esqueço horários, faço uma besteira atrás da outra... Como alguém assim cria uma criança? — Quanto mais falava, mais desesperado parecia ficar. — Crianças precisam de responsabilidade, Molly. Precisam de exemplo, precisam de alguém que saiba o que está fazendo... — Aquilo o assustava real. — E se ele me fizer perguntas difíceis? E se ele perguntar sobre a vida? Ou se ele não gostar de mim? — A frase saiu tão sincera que ele mesmo demorou para perceber o motivo de seu medo. Não era a responsabilidade, nem a falta de preparo, era de decepcionar alguém. Arthur engoliu em seco antes de continuar. — E se ele esperar que eu seja um pai incrível e eu acabar sendo só... eu? — O silêncio durou alguns segundos, então, ele olhou para Molly e ali estava o verdadeiro problema porque todas as teorias terminavam no mesmo lugar. — E eu nem sei quem é a mãe pra ajudar. — A voz saiu quase derrotada. — O fofoqueiro do Lupin não perguntou. — O horror daquela informação ainda parecia recente. Arthur fechou os olhos por um instante porque parte dele já tinha uma resposta favorita e tinha medo de descobrir que estava errado. Se não fosse Molly... O que isso significava? Que tinham brigado? Que nunca ficaram juntos? Que ele tinha seguido em frente? Que ela tinha seguido em frente? Que outra pessoa ocupava aquele lugar? Todas aquelas hipóteses se acumulavam dentro dele como livros caindo de uma estante, uma atrás da outra, sem piedade alguma. Arthur engoliu em seco e, então, olhou para ela mais uma vez. Era impossível não pensar nela e na forma como ela se preocupava com ele, em como brigava com ele e em como sempre aparecia quando precisava dela. Então, a imagem surgiu sem convite: Molly segurando um bebê ruivinho, rindo e em uma casa cheia. Molly sendo mãe. O coração dele apertou forte porque aquela era a única imagem que parecia certa e todas as outras pareciam erradas. — E eu também não sei se estou preparado para descobrir o resto da história. — A confissão veio quase num sussurro porque, pela primeira vez desde que tudo começou, a curiosidade e o medo estavam empatados. — Porque... e se não for você? — A pergunta escapou antes que ele percebesse e, então, congelou. Ele tinha falado em voz alta sem querer e, de repente, rosto ficou vermelho quase imediatamente. — Quer dizer... — Tentou reformular algo e quando voltou a encará-la, havia algo vulnerável em seu olhar. — Se você fosse a mãe, eu acho que as chances de sobrevivência de uma criança aumentariam consideravelmente, sabe? — Porque era verdade, Molly tinha aquele efeito, fazia tudo parecer mais seguro, mais organizado e mais possível — e Merlin sabia o quanto Arthur precisava acreditar que aquilo era possível. O silêncio que se seguiu foi curto, mas para Arthur pareceu durar aproximadamente sete anos e meio. Ele tinha acabado de dizer para Molly Prewett que esperava que ela fosse a mãe de um filho dele em alguma linha temporal maluca criada por uma anomalia mágica. Parabéns, Arthur Weasley! Aquilo provavelmente entrava no top cinco piores maneiras de demonstrar interesse romântico por alguém. — Porque você já tem experiência, né? — Continuou, tentando ajudar a si mesmo e piorando tudo. O cérebro dele levou dois segundos para alcançar a própria frase e os olhos arregalaram. — NÃO COM FILHOS! Eu quis dizer... com pessoas! — Era uma catástrofe e agora já não havia salvação. — Tá, o que eu quis dizer é que você seria uma ótima mãe independentemente de quem você decidir formar uma família.
Arthur encontrou Dorcas quase por acaso quando estava andando pelo castelo por quase vinte minutos sem rumo definido, carregando um nível de ansiedade que normalmente só aparecia na semana de provas. Seu cérebro simplesmente havia se recusado a pensar em qualquer outra coisa desde a conversa com Remus. Não era justo que o universo resolvesse entregar uma informação daquela magnitude pela metade. Um garoto ruivo chamado Ronald Weasley do outro lado da névoa. Pronto, era só isso. Nenhum detalhe útil, explicação ou informação complementar, apenas o suficiente para destruir completamente a paz de espírito de Arthur. — Eu não consigo acreditar que o Remus não perguntou o nome da mãe. — Declarou assim que alcançou Dorcas, sem sequer se preocupar em elaborar uma introdução apropriada. — De todas as perguntas possíveis, Dorcas, ele escolheu não fazer justamente a mais importante! Por Merlin, quem é a mãe daquele moleque? — O ruivo passou as mãos pelo rosto e começou a andar ao lado dela, claramente possuído pela energia caótica de alguém que estava pensando rápido demais para o próprio bem. — Espera... Você acha que dá pra perguntar discretamente quem foi minha esposa sem parecer completamente surtado?— Virou-se para a amiga com a expressão mais preocupada que alguém já dedicou a uma pergunta tão absurda. — Porque agora eu tenho duas opções: a primeira é descobrir que é alguém que eu gosto e a segunda é descobrir que não é... e eu não sei qual dessas que me assusta mais. — O bruxo passou as duas mãos pelo rosto e soltou um suspiro sofrido. Quanto mais pensava naquilo, pior ficava. — Me responde uma coisa com sinceridade, Dorquinhas. — Arthur então virou o rosto para ela com uma expressão de quem estava realmente buscando conselhos profissionais para sua crise existencial. — Você acha que dá pra sair perguntando de garota em garota se elas hipoteticamente teriam um filho comigo? — A pergunta saiu assustadoramente séria. — Aliás, aproveitando, você teria um filho comigo?
Depois de dias ouvindo sobre linhas temporais, pessoas do futuro, visões misteriosas, alunos atravessando barreiras mágicas e descobrindo informações capazes de causar crises existenciais em tempo recorde, Arthur havia chegado a uma conclusão muito simples: precisava desesperadamente pensar em qualquer outra coisa. Foi assim que Marlene o encontrou ocupando metade de uma mesa da biblioteca com o que parecia ser uma coleção bastante suspeita de objetos trouxas. Havia uma lanterna que já não funciona mais, algumas pilhas e, ocupando a posição de maior destaque, um pequeno exército de patos de borracha alinhados em perfeita formação militar. Quando percebeu a aproximação de Pandora, o bruxo ergueu os olhos imediatamente. — Eu só estava tentando me distrair das catástrofes interdimensionais por alguns minutos. — Explicou com toda a seriedade possível, antes de levantar o pato de borracha na altura do rosto. — Mas aí percebi que talvez exista uma questão ainda mais importante. — Arthur estreitou os olhos para o objeto como se esperasse arrancar dele uma resposta. — Será que eles finalmente descobriram pra que serve um pato de borracha? — Ele apoiou o patinho novamente sobre a mesa, cruzando os braços enquanto analisava sua pequena tropa de borracha. — Eu consigo aceitar a existência de três castelos, consigo aceitar alunos encontrando pessoas do futuro, consigo até aceitar a possibilidade de que exista um Weasley do outro lado da névoa me obrigando a repensar todas as minhas escolhas de vida. — O ruivo apoiava o queixo sobre a mão enquanto observava os patinhos com uma concentração que normalmente deveria ser reservada para provas finais ou descobertas científicas revolucionárias. — Mas eu me recuso a acreditar que essa galera do futuro ainda não descobriu para que serve um pato de borracha. — Havia indignação estampada em seu rosto. — O que você acha, Srta. Moon? — Perguntou finalmente para Pandora, apontando o patinho na direção dela como se estivesse conduzindo uma investigação oficial. — Você põe fé na inteligência do futuro?
Arthur estava apoiado contra o parapeito de uma das janelas que davam vista para os terrenos de Hogwarts, observando os castelos distantes que pareciam desafiar toda lógica conhecida. Já fazia dias que eles estavam ali e, ainda assim, toda vez que o ruivo olhava naquela direção sentia a mesma sensação estranha de estar sonhando acordado. — O pior de tudo é que eu realmente acho isso a coisa mais incrível que já aconteceu em Hogwarts. — Soltou a frase sem tirar os olhos da paisagem, como alguém confessando um segredo do qual não tinha muito orgulho. Um sorriso pequeno surgiu em seguida, acompanhado de um suspiro bem-humorado. — Eu passei a vida inteira ouvindo coisas sobre acontecimentos históricos... guerras mágicas, grandes descobertas., bruxos famosos e eventos que mudaram o mundo. — Ele balançou a cabeça lentamente e apontou na direção da névoa. — Isso deveria ser incrível, não deveria? — Arthur suspirou, passando uma mão pelos cabelos ruivos, a expressão endurecendo um pouco. — Só que isso faz sentir um pouco insensível às vezes. — Admitiu, virando finalmente o rosto para Marlene. — Porque tem gente preocupada, gente machucada, gente tendo crises existenciais... e eu continuo olhando para tudo isso e pensando "uau, isso vai render um capítulo inteiro nos livros de História da Magia". — A risada carregada que escapou dele veio repleta daquela honestidade característica dos Weasley. — Na verdade, eu achava bem mais divertido quando eu só observava a loucura acontecer com os outros. — Confessou quase constrangido. — Eram só teorias e fofocas e, de repente, resolveram me informar da existência de outro Weasley do outro lado e a brincadeira ficou pessoal demais para o meu gosto. Achei ofensivo. — O bruxo apoiou a cabeça contra a pedra fria atrás de si e encarou o teto por alguns segundos, como se ainda estivesse tentando aceitar aquilo. Por fim, voltou os olhos para Marlene, agora com uma curiosidade que parecia surgir sempre que uma pergunta nova aparecia em sua cabeça. — E você? — Perguntou, inclinando levemente a cabeça. — Se tivesse a chance... você esperaria encontrar alguém do outro lado? Ou descobrir alguma coisa sobre o seu futuro?
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O salão comunal nem sempre era um lugar muito agradável de se ter uma conversa. Parecia que sempre havia gente demais. Burburinho o tempo inteiro e todo tipo de atividade paralela. Contudo, aquele parecia exatamente o ambiente ideal para o tipo de conversa que Remus pretendia ter. Não queria mais ninguém prestando atenção no que podia dizer. Ainda assim, esperou até que os mais novos se recolhessem, já que costumavam ser os primeiros e os mais barulhentos. Só depois disso se aproximou de Arthur. "Tenho informações que podem ser de seu interesse, envolvendo o nome da sua família." Imaginava que ele já soubesse do acontecido, mas ainda assim seu tom era cauteloso. "Mas odeio ser o Cavaleiro do Apocalipse, então só vou contar se quiser mesmo saber."
Arthur estava no meio de uma atividade extremamente importante quando Remus o abordou ou, pelo menos, era assim que ele descreveria. Outras pessoas talvez chamassem aquilo de estar deitado de barriga para baixo sobre uma poltrona da Sala Comunal da Grifinória enquanto tentava equilibrar uma pena no lábio superior. Tudo era questão de perspectiva. Então, o ruivo ergueu os olhos imediatamente quando ouviu seu nome e, por um breve momento, ficou genuinamente desconfiado porque Lupin não parecia procurar pessoas para espalhar fofocas. Por isso, quando o monitor se aproximou daquela forma, Arthur já abandonou a pena sobre a mesa e sentou direito na poltrona para recebê-lo. Informações envolvendo o nome da família Weasley? Aquilo foi suficiente para fazer o sorriso curioso do ruivo desaparecer porque existiam só dois tipos de notícias envolvendo os Weasley: as engraçadas e as preocupantes. Mas Remus não parecia alguém prestes a contar algo engraçado, ele parecia alguém prestes a entregar um testamento. — Cara, você não pode começar uma conversa assim, isso assusta. — Respondeu imediatamente, a voz saindo mais séria do que pretendia. Arthur apoiou os antebraços nos joelhos e os olhos dele permaneceram fixos no bruxo a sua frente. — O que aconteceu? Alguém explodiu alguma coisa? Foi preso? Invocou uma criatura proibida? — Naquele momento Arthur tinha absoluta certeza de que estava prestes a ouvir sobre algum parente cometendo uma calamidade histórica. Jamais passou pela cabeça dele que a informação envolveria algo muito pior. E Remus parecia tão cauteloso com a tal informação que aquilo começou a fazer o peito do ruivo apertar. — É meu pai? — A última pergunta saiu antes que pudesse impedir e foi ela que revelou a preocupação verdadeira vinda de Arthur. — Remus... — Disse mais baixo. — Seja lá o que for, só me diz logo antes que eu tenha um ataque cardíaco aqui mesmo.
quem: rita & @dadweasley
quando: 20 de setembro, tarde
onde: sala do jornal da escola
a sala do jornal da escola raramente ficava silenciosa de verdade. mesmo vazia, sempre parecia haver alguma coisa acontecendo ali, e rita gostava disso. gostava da sensação de que informações estavam sempre circulando, mesmo quando ninguém falava nada. naquela tarde, contudo, o silêncio era quase suspeito, quebrado apenas pelo arranhar rápido da sua pena verde sobre um pergaminho parcialmente escondido sob outros papéis. ela nem levantou a cabeça de imediato quando ouviu a porta abrir, apenas continuou escrevendo mais algumas palavras antes de finalmente erguer os olhos — e o sorriso surgiu instantaneamente ao reconhecer arthur weasley parado na entrada. ❝ — olá, arthur. que surpresa te ver por aqui...❞ — comentou com uma surpresa tão perfeitamente ensaiada que chegava perto de até parecer real... quase. rita apoiou a pena sobre a mesa com calma excessiva, recostando-se um pouco na cadeira enquanto o observava atravessar a sala. claro, não era difícil imaginar o motivo da visita. depois da história envolvendo remus, ronald weasley e o sobrenome compartilhado, o castelo inteiro parecia funcionar à base de especulação. e rita? bem, rita estava absolutamente radiante. ❝ — então… isso é uma visita social inesperada ou você veio impedir uma pobre jornalista de exercer seu trabalho de forma totalmente honesta?❞
Arthur já havia enfrentado algumas situações assustadoras em Hogwarts mas nada chegava perto do terror absoluto de entrar voluntariamente na sala do jornal da escola quando Rita Skeeter estava sorrindo. O ruivo permaneceu parado na porta por alguns segundos, observando a cena com a mesma cautela de quem encontra uma criatura perigosa na Floresta Proibida e tenta decidir se corre ou se finge estar morto. O problema ali era que ela parecia feliz demais e Rita feliz quase sempre significava que outra pessoa estava prestes a ficar infeliz que, naquele caso, provavelmente seria ele. — Oi, Rita... — Cumprimentou e começou a caminhar até a mesa dela com toda a energia de alguém indo para a forca. Quando ela perguntou se ele estava ali para impedir seu trabalho jornalístico, Arthur precisou fazer um grande esforço para não olhar para as penas espalhadas sobre a mesa como alguém observando possíveis reféns e, por um breve segundo, ele imaginou o seguinte cenário: entrar correndo, agarrar os pergaminhos, sair disparado pelos corredores, talvez pular uma escada e desaparecer para sempre. Mas, então, Arthur respirou fundo e escolheu o caminho diplomático. — Nah. Claro que não. Eu sei que os últimos acontecimentos devem estar sendo ótimos para você... — Comentou, sentando-se na cadeira à frente dela sem ser convidado. — É praticamente o Natal dos jornalistas, não é? — O olhar dele percorreu casualmente sobre os pergaminhos, tentando identificar qualquer palavra, qualquer título, qualquer coisa sobre o acontecimento no ponto de convergência. Será que ela já tinha escrito? Será que ela já tinha publicado? Arthur sentiu um arrepio, porque uma coisa era existir um Weasley misterioso do outro lado da névoa, outra completamente diferente era Hogwarts inteira começar a especular quem exatamente teria sido irresponsável o suficiente para colocar um Ronald no mundo... O problema era que todo mundo parecia olhar para ele quando o sobrenome surgia quando ele próprio mal conseguia cuidar de si mesmo, quem dirá de um filho. — Até aposto que você já escreveu umas três edições inteiras. — Os olhos dele discretamente escorregaram outra vez para os pergaminhos ou, pelo menos, ele acreditava que estava sendo discreto quando, na realidade, parecia um gato tentando roubar comida da mesa. — Quatro talvez. — Ele franziu o cenho, tentando enxergar alguma coisa. — Aliás, você já deu título pra nova matéria? — Perguntou com uma inocência falsa. — Algo tipo... "O Mistério dos Três Castelos"? "A Crise Existencial de Hogwarts"? Ou "Ronald Weasley Existe e Arthur Está Muito Confuso, Desesperado e em Completo Pânico"? — A última escapou e ele imediatamente fechou os olhos como se tivesse arrependido. — Ah, por Merlin... — Arthur apoiou o cotovelo na mesa e passou a mão pelo rosto e os olhos estreitaram sobre a garota. — Olha, vou perguntar diretamente: o que você já escreveu sobre o tal Ron Weasley que Remus encontrou?
A biblioteca de Hogwarts era um dos poucos lugares do castelo que ainda parecia resistir ao caos mas Arthur estava completamente incapaz de se concentrar. O pergaminho aberto à sua frente permanecia praticamente intocado havia quase vinte minutos e, então, soltou um suspiro tão longo e tão alto que conseguiu chamar atenção de quem estava ao seu lado. — Eu não consigo estudar. — A confissão veio em tom derrotado e Arthur apoiou a cabeça na palma da mão. A cabeça definitivamente estava em outro lugar, talvez em outro castelo ou talvez até em outra linha temporal. Como deveria reagir à possibilidade de estar encarando sua própria linhagem familiar através de uma rachadura temporal? — Eu não estou preparado para ser pai de ninguém. — Murmurou para si mesmo. A frase parecia absurda até para ele, mas era verdade. Arthur mal estava preparado para entregar um trabalho de Herbologia no prazo, imagine moldar o futuro ou, pior, imagine descobrir que há possibilidade de ter um filho chamado Ronald. O ruivo estremeceu. Aquilo era, de longe, a parte mais perturbadora. Aquele nome parecia ter criado residência permanente dentro da cabeça dele. Então, Arthur levou a pena até a boca, pensativo. — Hestia... eu preciso da sua opinião numa questão extremamente importante. — O tom era grave, solene e quase profissional, e esta máscara durou aproximadamente dois segundos porque logo depois Arthur passou a mão pelos cabelos e se desesperou. — Quando você imagina o futuro... — Começou. — Você imagina riqueza, sucesso, estabilidade emocional, uma carreira brilhante... — Arthur fez uma pausa dramática. — Ou um filho chamado Ronald? — Então, encarou o vazio. — Ronald. — Repetiu como se estivesse testando o peso daquela palavra. Apoiou os cotovelos na mesa, muito concentrado, gastando todos os seus neurônios em seu mais novo problema. — De repente a verdadeira tragédia aqui nem são os castelos mais, é alguém olhar pra um bebê e pensar: ‘Ronald parece perfeito’. — O silêncio que se seguiu foi absoluto e Arthur passou a encarar o vazio, processando aquilo. E, após alguns segundos , ele ergueu os olhos e encarou a Jones. — Hestia, pelo amor de Merlin, como será que isso aconteceu? — Perguntou, horrorizado. — Quem será que permitiu essa loucura?
Arthur praticamente invadiu a Sala Comunal da Grifinória. A porta mal teve tempo de fechar atrás dele antes do ruivo atravessar a sala como alguém que tinha acabado de descobrir um segredo capaz de derrubar o Ministério da Magia ou, no mínimo, provocar uma crise diplomática entre gerações inteiras de Hogwarts. O bruxo encontrou James quase por acaso e apontou imediatamente para ele como se tivesse acabado de localizar a única pessoa capaz de impedir uma catástrofe. — James, eu preciso que você me diga que eu estou enlouquecendo. — Arthur aproximou-se mais alguns passos e parou na frente do amigo. Passou as duas mãos pelos cabelos e voltou a andar, depois retornou para onde estava, ele mais parecia uma daquelas bolas de pinball trouxas que ele tinha visto certa vez em um catálogo velho. — Tá, escuta só. — Ele ergueu um dedo. — Primeiro apareceu aquele menino ruivo do outro lado da névoa. — Outro dedo para cima. — Chamado Ron Weasley. — Terceiro dedo agora. — Weasley. — Quarto dedo. — RUI-VO. — O quinto dedo apareceu também. — E aparentemente vivo e saudável. — Arthur parou, respirando fundo e tentando manter a sua linha de raciocínio mas, então, o bruxo parou de contar e encarou o vazio como se esperasse que as respostas aparecessem escritas numa parede. — Merlin, existe um Weasley do futuro. — Murmurou para si mesmo praticamente mergulhado em um transe. A frase parecia diferente toda vez que ele repetia. — E ele não deve ter nascido de chocadeira, né? — Era ali que os neurônios começaram a correr. — Tá bom... ter filho é maravilhoso, família é maravilhosa e continuidade familiar é maravilhosa, legal, show de bola. — Dizia para si mesmo enquanto gesticulava. — Mas ninguém tá fazendo as perguntas importantes! — O ruivo apontou para o vazio como se estivesse discursando para uma multidão invisível. — Quantos Weasley existem? Quantos?! — O ruivo parecia genuinamente perturbado. — Porque filhos custam dinheiro. — Aquilo saiu num tom quase fúnebre. Então, o bruxo apontou para as próprias vestes. — Potter, eu uso roupas remendadas desde que nasci! — Arthur voltou a encarar James. — Como alguém cria uma criança nessas condições? — A pergunta era legítima e aterrorizante ao mesmo tempo. — Agora eu preciso saber urgentemente se os Weasley do futuro são ricos ou se continuamos vivendo de esperança e sopa.
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Regressando ao período de sua vida em que a jovem Molly experienciava uma paixonite pela primeira vez, ela percebeu o coração palpitar dentro do peito e as pernas vacilarem um pouco diante do sorriso caloroso que nasceu nos lábios do rapaz, abrilhantando um semblante que sempre considerara cálido. Talvez não houvesse nada de diferente na qualidade daquele sorriso, mas isso pouco importava quando algo dentro dela havia mudado, quando sua percepção sobre o amigo havia se transformado de uma maneira — pelo que acreditava — irreversível e avassaladora. Para seu alívio pessoal, entretanto, descobria ser uma pessoa capaz de desfrutar das aprazíveis sensações que o florescimento daquele novo sentimento causava, sem precisar sacrificar o senso crítico para isso. Na pausa longa e inesperada entre sua indagação e a resposta que esperava de Arthur, seu olhar atento transpassava o véu da suposta paixão que se erguia em frente aos olhos, captando o nervosismo que ele demonstrava diante daquele assunto. Mas não aparentava ser o mero nervosismo de alguém alarmado pela existência de uma réplica sua causando um pandemônio pelo castelo. Havia algo diferente em sua expressão, algo que se assemelhava perigosamente à culpa. Talvez estivesse prestes a descobrir algo além das respostas que pretendia buscar com o amigo. Tão vermelhas quanto a própria fruta, as maçãs do rosto do rapaz quase pareciam produzir calor em sua direção, assim como a tensão que subitamente se instalava na postura dele. E o silêncio arrastado? Era tão espesso que, se tivesse uma lâmina ao alcance das mãos, provavelmente seria capaz de cortá-lo. Involuntariamente, seus braços se ergueram vagarosamente, os cruzando diante do corpo enquanto os olhos se estreitavam, como se já esperasse por uma revelação que a deixaria descontente. Poucas vezes Weasley demonstrara remorso em sua presença e, sempre que isso acontecia, ela acabava confrontada por algum ato que violava aquilo que considerava aceitável. Era quase encantador perceber o quanto ele se importava em não decepcioná-la, embora, aparentemente, isso ainda não fosse suficiente para fazê-lo abandonar seus planos inconsequentes e transgressores. Embora admirasse e incentivasse a criatividade e engenosidade alheia, não se sentia confortável com pessoas que faziam dos limites algo facilmente descartável. Então, o riso nervoso finalmente rompeu o silêncio, quase como uma confissão da culpa que o outro carregava em segredo.
A cabeça pendeu para o lado, demonstrando-se incrédula quando quase o viu desesperadamente recorrer ao argumento de nunca ter conhecido James Potter em toda sua vida. A bruxa se via cada vez mais intrigada e interessada em descobrir os detalhes daquele buraco que se tornava mais profundo a cada instante, pois era impressionante a relutância dele em simplesmente revelar os detalhes daquela situação inusitada. O canto de seus lábios se repuxou em um quase sorriso ladino depois de ser questionada sobre o comportamento do outro sob a alcunha de Weasley. O medo e, possivelmente, o remorso tardio existia, palpável como o nervosismo crescente no rapaz que se emaranhava nos fios dos próprios segredos. ── Eu só posso te contar o que ele fez comigo, mas ainda não tenho ideia do que mais aprontou com as outras pessoas pelo castelo. Vai saber o que pode chegar aos nossos ouvidos pelos próximos dias... ── Deu levemente de ombros. Talvez revelasse um traço cruel de sua personalidade, mas proprositalmente se recusava a conceder as respostas que ele buscava, assim alimentando ainda mais o nervosismo que já o acometia. Não agia assim por encontrar satisfação em vê-lo tropeçar nas próprias palavras ou por um sadismo que preservava oculto, mas pelo hábito. Como monitora, estava acostumada a usar aquela estratégia de modo a encurralar os alunos que infringiram as regras mas resistiam fortemente, nunca admitindo as próprias ações ou aceitando as consequências destas. Era um dos caminhos mais eficazes para coagí-los a se entregar. Contudo, diferente das figuras com lugar cativo nas detenções, tinha plena confiança de que não seria necessário muita pressão sobre Weasley para fazê-lo ceder. Por fim, quando finalmente observou o vislumbre da verdade transpassar as fendas que surgiam nas tentativas falhas feitas por ele, soltou um suspiro pesado, se sentindo um pouco mais aliviada por sua paciência não ser testada pelo amigo naquela ocasião.
Suas sobrancelhas se arquearam ligeiramente com a confirmação de que o rapaz estava ciente do que havia acontecido, mesmo que não fosse uma revelação. Arthur era péssimo em esconder mentiras. Enxergava esse traço como uma qualidade, mas também reconhecia que aquilo o tornava um pouco mais vulnerável em certas situações. A verdade irrefutável era que Molly apenas repudiava quando mentiam para ela, mas não se importava quando era usado como um artifício para a autopreservação. Mordia o interior da boca para manter-se calada, enquanto impacientemente esperava até que mais detalhes fossem revelados. O pé direito não tardou a começar a bater repetidamente contra o chão, expondo sua irritação com desculpas frágeis e respostas que insistiam em contornar o ponto principal. Esse movimento apenas cessou no momento em que descobriu ter sido uma peça naquele plano. Uma peça que, pelo que escutava, deveria ser mantida alheia ao que acontecia. Assim como os dele, seus olhos se arregalaram minimamente. Suas perguntas agora se multiplicavam. Por mais que o foco de seu interesse se voltasse para a declaração que a envolvia, não ignoraria tudo que havia descoberto ali. ── Suspeito, Arthur? Isso foi uma confissão com todas as letras, só faltou um documento formalizado com seu testemunho. ── As palavras soavam um pouco ríspidas, mas ela não alterava o tom de voz. Estava incontestavelmente irritada e um tanto confusa, mas ainda era ele com quem falava, afinal. ── Você permitiu que ele assumisse a sua identidade? E por quê, exatamente? Do que ele estava tentando escapar ou o que pretendia aprontar desta vez? ── Presumia ter sido uma ideia concebida por Potter, já que seguia o padrão do comportamento irresponsável do rapaz. Agora faltava descobrir o motivo que convenceu o ruivo a ignorar os riscos e se envolver naquela mentira complexa. ── E, mais importante, por que ele não podia falar especificamente comigo? ── Seu olhar voltou a se estreitar. Aquele era um detalhe suspeito, muito suspeito. ── Você sabia que eu logo descobriria sobre esse plano, não sabia? ── Fazia um novo prognóstico com base nas informações que tinha em mãos. Era inteligente que evitasse os monitores enquanto estivesse sob o efeito da poção, pois nunca saberiam o momento em que os efeitos findariam. Então, ela meneou a cabeça em negativa, manifestando sua decepção e incredulidade mais uma vez. ── Honestamente, Arthur, o que passou na sua cabeça para permitir que logo James Potter se passasse por você? Você tem noção do estrago que ele poderia causar à sua reputação e carreira acadêmica? ── Tentava compreender o que o levara a se comprometer com algo tão imprudente.
Arthur sentiu o próprio espírito começar a deixar o corpo lentamente conforme Molly falava. Cada palavra dela parecia uma nova pá de terra sendo jogada sobre o túmulo da dignidade dele. Mulheres irritadas eram assustadoras em um nível que nenhum livro de Defesa Contra as Artes das Trevas jamais preparou adequadamente os homens para enfrentar. O problema era que ela ficava linda até irritada e isso definitivamente era um problema psicológico sério. Então, Arthur percebeu que talvez sobreviver a um basilisco fosse mais fácil do que sobreviver àquela conversa, porque ela estava certa. Em tudo. Aquilo tinha sido irresponsável. Idiota. Perigosíssimo. Arthur sentia algo queimando dentro dele enquanto tentava desesperadamente encontrar uma maneira minimamente inteligente de explicar que, tecnicamente, trocar de identidade com James usando uma poção ilegal para investigar uma possível fofoca interdimensional parecia uma ideia excelente há poucas horas atrás. Ele tinha conseguido trocar de corpo sem morrer intoxicado, sem explodir Hogwarts e sem ser descoberto imediatamente. Um sucesso histórico. E, o mais importante, Arthur tinha conseguido duas fofocas pelo preço de uma. Descobrira que James Potter era apaixonado por Lily Evans e o que realmente aconteceu com Sirius. E agora tudo parecia conectado. Tudo. A experiência na Sala Precisa. O ponto de convergência. Os possíveis alunos ou filhos de outras gerações. O tal garoto ruivo chamado Ron Weasley encontrado do outro lado por Remus. Ron. Weasley. Ruivo. WEASLEY. Como alguém abordava isso sem soar completamente insano? Aquilo era papo de Internação imediata em St. Mungus. O problema era que Molly estava ali, olhando para ele como se estivesse avaliando friamente se o afogava no Lago Negro ou se preferia algo mais lento e educativo como punição por todas aquelas barbaridades. Arthur abriu a boca e fechou. Abriu de novo. Nenhuma frase completa saiu porque o problema não era só explicar a polissuco. O problema era explicar tudo. Ele preferia enfrentar McGonagall armada com três pergaminhos de detenções do que aquela expressão decepcionada dela. Quando a bruxa perguntou por que ele tinha permitido aquilo, o cérebro do ruivo imediatamente cogitou a possibilidade de simplesmente culpar James Potter e resolver aquilo depois. Seria muito mais fácil. “Ah, sim, ideia dele. Terrível, inclusive. Fui manipulado.” James provavelmente até aceitaria a culpa depois com um sorriso no rosto e uma piada horrível. Mas Arthur não conseguiu. Porque ele era tragicamente honesto em momentos importantes e porque mentir olhando para Molly parecia fisicamente impossível.
O ruivo soltou uma espécie de ruído desesperado antes de apoiar as duas mãos na cintura, andando dois passos para trás como alguém tentando fugir da própria execução. — Eu tinha uma boa explicação! — Disparou rápido demais. — Quer dizer… eu ainda tenho. A explicação continua muito boa na minha cabeça, o problema é que falando em voz alta ela talvez pareça completamente absurda e criminosa. — Arthur respirou fundo. — Tá, primeiro: a ideia foi minha. — Confessou finalmente, fechando os olhos por um segundo como quem aceitava o próprio destino. — Não do James. — Pronto e morreu. O silêncio depois daquilo pareceu gigantesco. Arthur até imaginou ouvir sinos fúnebres tocando em algum lugar de Hogwarts. Ele abriu um olho devagar para observar Molly e imediatamente se arrependeu porque ela continuava encarando-o daquele jeito quieto. — Antes que você me mate… — Começou rápido outra vez. — Eu juro que consigo explicar! — O ruivo apontou para ela dramaticamente. — Existia um MOTIVO. — A palavra saiu alta demais. Dois alunos do segundo ano passando pelo corredor olharam assustados para ele antes de irem embora rápido e Arthur ignorou completamente porque agora já estava afundado demais. — Era sobre a Sala Precisa! — Explicou, gesticulando tanto que quase acertou uma armadura ao lado. — E Sirius! E umas pessoas estranhas! E olhos da Lily! E aí teve o ponto de convergência e aquele tal de Ron Weasley ruivo aparecendo do outro lado e- — Arthur parou abruptamente porque sem querer tinha pensado em Ron e automaticamente pensou em Molly, e mais automaticamente pensou na possibilidade absurdamente esperançosa de que aquele garoto pudesse ter alguma ligação com os dois. O rosto dele ficou vermelho outra vez. Que Merlin ajudasse Arthur Weasley porque ele queria desesperadamente que qualquer futuro envolvendo ele tivesse Molly nele também. — Você... você entende a gravidade disso? — A voz saiu num sussurro desesperado. Arthur parecia alguém tentando explicar aritmância depois de tomar cinco cafés seguidos. — Porque existem QUATROCENTOS sobrenomes no mundo bruxo e justamente aparece um ruivo chamado Weasley?! Isso não é coincidência! Isso é o universo me jogando uma frigideira na cara! — O bruxo puxou os próprios cabelos rapidamente. — E se forem filhos? E se forem versões futuras? E se Hogwarts estiver misturando gerações? E se Sirius viu ecos temporais? E se aquela sala estiver mostrando possibilidades? E se- — Ele parou de novo e respirou fundo, recuperando o próprio fôlego. — Tá vendo porque eu precisava investigar?! — Arthur parecia sinceramente ofendido pelo fato de ela ainda não compreender a urgência acadêmica da fofoca. — O plano era simples! — Continuou imediatamente. — James virava eu, eu virava James, eu descobria tudo, ninguém percebia nada e eu voltava triunfante como um pesquisador brilhante da desgraça coletiva.
Então, veio a pior pergunta: por que James não podia falar especificamente com ela? Arthur travou. Completamente. O rosto dele ficou vermelho em uma velocidade impressionante. O cérebro dele simplesmente entrou em colapso porque agora não existia uma resposta segura. A verdade? A verdade era horrível. A verdade era que Arthur não queria Potter perto dela usando o rosto dele porque aquilo parecia errado em um nível quase territorial. Porque o beijo na Sala dos Troféus ainda existia inteiro dentro dele. Porque pensar em James talvez sorrindo para ela usando a cara dele fazia algo extremamente desagradável acontecer no estômago do ruivo. E, então, um pensamento muito pior atravessou a cabeça dele. E se James tivesse beijado ela? Arthur literalmente sentiu a pressão cair. A mão dele foi imediatamente para a parede ao lado para se apoiar enquanto a expressão mudava de nervosa para genuinamente alarmada. — Espera! Ele encostou em você?! — Perguntou rápido demais. O ciúme escapou tão puro e imediato que nem deu tempo de esconder. Os olhos dele procuraram os dela instantaneamente. — Quer dizer… ele não… tipo… tentou… você sabe… — Arthur gesticulou inutilmente perto da própria boca antes de desistir da frase no meio. Aquilo estava indo horrivelmente mal. O ruivo respirou fundo várias vezes tentando reorganizar o cérebro enquanto os pensamentos se atropelavam. — A verdade é que eu não achei que você descobriria tão cedo. — Admitiu enfim num desespero honestíssimo. — Eu ia te contar depois! Só que Hogwarts decidiu enlouquecer antes. — Ele parou para respirar, então, apontou dramaticamente para ela outra vez. — E EU SEI QUE ISSO FOI ERRADO! — Confessou finalmente. — Eu sei! Foi irresponsável! Idiota! A McGonagall provavelmente sentiria uma dor misteriosa no peito só de ouvir metade dessa história! — A frase saiu mais baixa e mais sincera. — Além disso, você faz ideia da dificuldade que é FINGIR ser JAMES POTTER?! — Ele levantou as mãos dramaticamente. — Eu tive que andar igual ele! Falar igual ele! Jogar o cabelo igual ele! Flertar igual ele! — A expressão dele mudou imediatamente para puro horror. — MOLLY, EU QUASE TIVE UM TRECO QUANDO PERCEBI QUE JAMES GOSTA DA LILY. — Arthur apontou para o vazio como alguém traumatizado. — Tipo… tudo fez sentido de repente! Os olhares! O cabelo! O jeito de pavão dele! Eu me senti um idiota por nunca perceber! — O ruivo então olhou diretamente para ela outra vez completamente vermelho e completamente surtado. — E sabe o que é mais inacreditável? — Perguntou num tom quase emocionado. — Lily aparentemente não descobriu que eu era eu naquela noite. — Ele apontou para o próprio peito com orgulho absolutamente indevido. Mas, em seguida, Arthur passou a mão pela nuca lentamente, visivelmente constrangido agora que a adrenalina começava a diminuir e deixava espaço para algo pior: vergonha. — Mas… independentemente disso… — Começou mais devagar. — Eu devia ter pensado melhor. Principalmente em você. — Os olhos dele finalmente sustentaram os dela sem escapar. — Porque você não merecia ficar confusa ou achar que alguém tava brincando com você. Muito menos depois do que aconteceu... entre a gente. — Só de mencionar aquilo, o coração dele voltou a tropeçar dentro do peito igual uma pilha de livros despencando de uma estante. Arthur engoliu seco. — Então… — Começou outra vez, meio sem jeito. — Desculpa, Mol. Mesmo. Pela loucura toda. Pelo polissuco. Pelo segredo. Pela ideia idiota. Pelo surto. Por… tudo isso aqui.
Aquele era um dia estranho sem dúvidas alguma. Ele encarava James, e após o beijo na testa não conseguia estranhar se duas cabeças explodissem do outro como se estivesse se transformando em algum tipo de criatura, pois James era afetuoso com Sirius. Os dois agiam, eram, como irmãos. Após ter fugido para sua casa não foi apenas uma noite em que Sirius chorou durante a noite, e James o acudiu. Só que eles não eram assim. Pelo menos, nunca haviam sido, mas o que dizer daquele dia estranho? Todos estavam agindo de maneira esquisita, e ele mesmo não sentia-se muito à vontade. Só que como ele conseguiria explicar que todas as sensações que ele havia passado foram de interpretações que havia feito? Ele sempre foi alguém descolado, e divertido. Sempre rindo com seus colegas e agindo como se nada pudesse alcançá-lo, mas havia algo hoje na forma com aqueles meninos olharam para ele que fazia com que tudo dentro dele revirasse. Como se de alguma forma ele não fosse digno de tais sentimentos.
Era engraçado James mencionar filhos, pois havia tido aquela conversa com Remus mais cedo. Ele não queria ter filhos. Ou ao menos, não se achava digno o suficiente de ser pai. Não gostaria de arrastar ninguém para sua bagunça, e que mulher gostaria de ter um herdeiro Black com tudo que acontecia relacionado a família? Ele não saberia ser um bom pai. Não tinha bons exemplos de família, e se ao menos tentasse isso saberia que estaria sendo irresponsável, mas como o outro disse e como pensou mais cedo. Ele seria um bom tio. Um bom padrinho. As crianças de James, Remus e Peter teriam tudo que ele pudesse dar. Carinho, amor, afeto e diversão. Os levaria para cometer loucuras que enloqueceriam os pais, e ele de alguma forma se sentiria completo. "Acho que é só o cansaço que está me pegando. Depois da festa e a briga com Regulus. Tive uma conversa bem coração a coração com Lily. Então teve toda essa situação e esses sentimentos que não sei lidar. Até agora. O mais engraçado, ou trágico, de tudo isso é que mesmo lembrando agora, me sinto mal. Sinto que não sou digno da forma que olharam para mim." A confissão veio, pois James era alguém que amava e ele não escondia sua personalidade de forma alguma. "E se de alguma forma, eles esperam algo de mim? Ou me conhecem por alguma razão? Sei que é loucura, mas tenho medo de desapontar pessoas que nem conheço." Fechou os punhos fazendo força para segurar as lágrimas. "Não consigo nem me comunicar com meu irmão ou tomar uma decisão correta. Não sou um bom exemplo, tenho uma lista de detenção maior que meus fios de cabelo, e olha que estão bem cumpridos. Não ligo pelas regras, fugi de casa. Então por que o brilho no olhar? A dor?" A forma como o outro melhorou o assunto fez com que ele abrisse um sorriso ainda mais largo. "Eu vejo isso acontecendo em todas as realidades. Você é incrível, Lils é incrível. Alguma hora ela vai entender isso, bro. Acho que tudo isso está me afetando demais. Podemos conversar amanhã? Acho que preciso dormir para fazer juízo da mente, e estou começando a ter uma dor de cabeça enorme."
Arthur precisou fazer um esforço quase sobrenatural para continuar sendo James Potter enquanto escutava Sirius falar daquela forma porque, de verdade, aquilo deixava um nó no peito. Ele permanecia sentado ao lado dele, o corpo inclinado levemente para frente, os braços apoiados sobre as próprias pernas enquanto absorvia cada palavra como alguém tentando guardar peças frágeis demais dentro da cabeça. Observava o colega, cansado, emocionalmente esgotado, parecendo carregar mais peso do que alguém daquela idade deveria suportar e, pela primeira vez, desde que começara toda aquela loucura da poção polissuco, Arthur quase esqueceu o verdadeiro motivo para estar ali, porque naquele instante não parecia uma brincadeira, não parecia espionagem infantil e nem aventura impulsiva, Sirius estava genuinamente abalado e Arthur finalmente tinha entendido tudo. Quer dizer, não completamente, porque aquilo era impossível, mas o suficiente. Ele sentiu mais um aperto estranho enquanto Sirius descrevia aquelas pessoas, o jeito como falou sobre sentir vontade de chorar sem sequer entendê-las. Era como se tivesse visto ecos de um futuro. Ou possibilidades dele. Pessoas que o conheciam. Que o amavam. E que talvez carregassem dor por ele também. Aquilo era bonito de um jeito devastador. O não-mais-ruivo percebeu, horrorizado, que estava ficando emocionado também. Por Merlin, ele precisava urgentemente parar de absorver sentimentos dos outros daquele jeito. Então, Arthur quase levou a mão ao ombro de Sirius outra vez e quase deu outro beijo na testa dele impulsivamente como se afeto resolvesse catástrofes mágicas interdimensionais, mas até ele percebeu que talvez dois beijos na testa em menos de vinte minutos começassem a levantar suspeitas sobre James Potter ter sido substituído por uma avó emocionalmente abalada.
Quando o escutou falar sobre não se sentir digno daqueles olhares, sentiu alguma coisa dentro dele se angustiar de verdade, porque era estranho ouvir aquilo vindo justamente de Sirius Black, alguém que parecia caminhar pelo castelo como se desafiasse o mundo inteiro a ousar julgá-lo e, então, sentiu vontade de balançar aquele garoto pelos ombros até ele entender que obviamente alguém olharia para ele daquele jeito. O problema era que Arthur já tinha ultrapassado perigosamente o limite de um Potter muito emocionalmente disponível naquela conversa e preferiu apenas escolher escutá-lo com toda atenção do mundo. Os olhos dele voltaram para Sirius, mais suaves agora, mais sinceros. — Sabe o que eu acho? — Hesitou por um segundo antes de continuar. — Acho que você tá olhando para as coisas de maneira errada. — A frase saiu antes que pudesse filtrar. — Você fala das detenções, de não ser um bom exemplo, de todos os problemas, mas nenhuma dessas pessoas teria olhado pra você daquele jeito se enxergassem alguém ruim. — A voz dele saiu mais firme e tranquila agora. — Pessoas não olham com carinho para monstros, Sirius. — O canto da boca dele subiu em um sorriso afetuoso. Quando Sirius comentou sobre conversar amanhã, dizendo que precisava dormir antes de perder o juízo completamente, o bruxo apenas assentiu devagar e, pela primeira vez naquela noite, decidiu não insistir. A curiosidade dentro dele ainda estava enlouquecida. Queria perguntar mais cem coisas. Queria montar teorias até amanhecer. Queria entender cada detalhe daquela visão. Mas Sirius parecia cansado de um jeito intenso, Arthur apenas se levantou devagar. — Dorme um pouco, então. — Disse com naturalidade. — Sua cabeça já sofreu trauma suficiente por uma noite. — Ele deu dois passos para trás, preparando-se para ir embora mas antes de sair completamente, virou parcialmente o rosto outra vez e, depois de muito tempo desde o começo daquela conversa, Arthur deixou James Potter assumir totalmente o controle da expressão com um sorriso convencido. — E se realmente tinha alguém parecido comigo com os olhos da Evans… — Arthur levou a mão ao peito dramaticamente. — Então, isso só prova que meu charme transcende espaço, tempo e dimensões. Ponto para James Potter. — Ele assentiu sozinho de um jeito muito sério e, então, saiu andando antes que Sirius tivesse tempo de perceber que James Potter, naquela noite, estava estranhamente suspeito naquela noite. — Se cuida, maninho.
* STARTER CALL — O PONTO DE CONVERGÊNCIA (@ttstarters)
ARTHUR WEASLEY (1976) - um por player -
A + 01 : "A pergunta é: eles finalmente descobriram pra que serve um pato de borracha?”
A + 02 : “Agora eu preciso saber urgentemente se os Weasley do futuro são ricos ou se continuamos vivendo de esperança e sopa.”
A + 03 : “A verdadeira tragédia aqui nem são os castelos, é alguém olhar pra um bebê e pensar: ‘Ronald parece perfeito.’ ”
A + 04 : “O pior de tudo é que eu realmente acho isso a coisa mais incrível que já aconteceu em Hogwarts.”
A + 05 : “Você acha que dá pra perguntar discretamente quem foi minha esposa sem parecer completamente surtado?”
CALLUM DIGGORY (2026) - um por player -
C + 01 : “Parte de mim quer respostas, a outra parte quer muito fingir que isso tudo não tá acontecendo.”
C+ 02 : “Eu só quero deixar registrado que atravessar dimensões claramente viola pelo menos uns quinze regulamentos escolares.”
C + 03 : “Todo mundo parece assustadoramente confortável com a ideia de conversar com pessoas de cinquenta anos atrás.”
C + 04 : “O problema de Hogwarts é que toda vez que aparece algo proibido, parece que fica cem vezes mais interessante.”
C + 05 : “Se isso for real mesmo… então existe um Hogwarts onde Cedrico pode estar vivo ainda?"
Molly se julgava extremamente estranha ao fazer aquilo. Ou inadequada seria a palavra certa para descrever como se sentia a respeito do próprio comportamento. Observando o rapaz com atenção, ela estudava os maneirismos de Arthur à uma distância segura, garantindo que não seria flagrada por ele em uma posição tão degradante. Mais parecia uma perseguidora obcecada fazendo aquilo, principalmente após o tenro e intenso beijo compartilhado na sala de troféus. Bastava o mínimo de concentração para sentir o toque macio dos lábios dele contra o seu novamente, com uma saudade desmedida, que despertava a mesma comoção em seu peito quase que instantaneamente. Por Merlin, só de reviver aquele momento já sentia sua temperatura corporal aumentar alguns graus! Balançando a cabeça, afastava aqueles pensamentos inapropriados para o momento, focando sua atenção na investigação indispensável que fazia ali. Precisava garantir que era o Arthur Weasley genuíno parado a poucos metros de onde se escondia, e não apenas uma imitação barata tentando ludibriar os outros alunos. Seu sangue fervia só de pensar que quase havia sido enganada por Potter. Ora, quão humilhante seria ter o primeiro encontro — aquele que marcaria o parágrafo inicial de seu novo capítulo com o melhor amigo — marcado por um mero figurante na história? E lá estava ela colocando expectativas irreais em um único beijo. Inspirou profundamente, reorganizando os pensamentos.
Como uma ajuda repentina para sua missão, uma garota — que mais parecia um unicórnio a abrilhantar seu caminho em direção à verdade — passou diante de Arthur e o cumprimentou naquele instante, sendo retribuída com a afabilidade habitual que apenas ele era capaz de transmitir. Com isso, um sorriso brotou em seus lábios. Molly respirou um pouco mais aliviada ao obter a resposta procurada, mas logo sentiu uma espécie diferente de nervosismo nascer no peito. Nunca havia sentido aquele frio na barriga ao se preparar para cumprimentá-lo antes, mas as coisas pareciam diferentes agora. Ainda assim, ela estava decidida a não permitir que o desconforto se colocasse entre os dois. Sem calcular demais os próximos movimentos, convencida de que aquilo apenas geraria erros, ela caminhou a passos firmes na direção do ruivo. ── Erm... ── O som se projetou de sua boca antes que o cérebro avaliasse o que fazia, um pouco incerto, mas alto o suficiente para chamar a atenção dele para si. Engoliu seco, controlando as pequenas fadinhas que se agitavam dentro do peito. ── Boa tarde, Artie. ── Seu sorriso se alargou e a voz transparecia o carinho que nutria pelo rapaz, mas agora soando um pouco mais aveludada que o normal. Era impressionante o que um simples beijo era capaz de causar. ── Por acaso você tá sabendo que tem um impostor se passando por você no castelo? ── Sem perder tempo, introduziu o tópico importante que precisava abordar com ele, mesmo que aquela não fosse a conversa que esperava ter depois do ocorrido. Era um pouco frustrante, sim, mas talvez a ajudasse a quebrar um pouco o gelo. ── Mais especificamente, você está ciente de que James Potter tem tomado polissuco e assumindo sua identidade por aí? Isso é gravíssimo! ── Revelou, por fim, se mostrando alarmada com a situação.
Arthur Weasley estava começando a considerar seriamente que talvez tivesse sofrido algum tipo de dano cerebral permanente depois daquela noite na Sala dos Troféus. Porque simplesmente não era normal uma pessoa passar tanto tempo pensando em um beijo. E, pior ainda, revivendo-o. O ruivo já tinha tentado de tudo nas últimas horas. Tentou estudar. Não funcionou. Tentou ajudar outros alunos a especularem sobre os castelos. Piorou. Tentou desmontar e remontar uma torradeira trouxa encontrada no Achados & Perdidos só para distrair a mente. Acabou pensando que Molly provavelmente acharia engraçado ele quase eletrocutar a própria sobrancelha tentando entender como aquilo aquecia pão sem magia. Tudo levava nela. Sempre nela. Nos olhos dela fechando devagar enquanto dançavam. No calor do corpo dela contra o dele. Na maneira como Molly parecia caber perfeitamente em seus braços, como se aquilo tivesse sido descoberto tarde demais depois de existir a vida inteira bem debaixo do nariz dele. E, por Merlin, os lábios dela. O ruivo estava andando pelos corredores de Hogwarts como alguém amaldiçoado por um feitiço particularmente cruel. Bastava ouvir uma risada parecida com a dela para o coração acelerar. Bastava pensar na maneira como Molly o olhou depois do beijo para o estômago dele virar uma coleção inteira de diabretes da Cornualha. Ele já tinha revivido aquela cena tantas vezes na cabeça que começava a suspeitar que estava enlouquecendo. Os dedos dela na nuca dele. O calor do corpo dela dançando tão perto. O instante em que os lábios se tocaram de verdade. O jeito que Molly parecia ter parado de respirar por um segundo junto com ele. Às vezes, o bruxo se pegava sorrindo sozinho igual um idiota no meio dos corredores. Outras vezes, queria voluntariamente entrar dentro do Lago Negro e permanecer lá até os próprios sentimentos evaporarem porque também existia o medo terrível de estragar tudo. Desde então, o bruxo vinha tentando decidir o que faria quando encontrasse Molly de novo. Fingiria naturalidade? Falaria algo como “Boa tarde, Molly, tudo bem? Ignore completamente o fato de que eu quase morri emocionalmente depois de te beijar.” Não. Impossível. Talvez fosse melhor agir normalmente. Continuar sendo amigos. Não pressioná-la. Dar espaço. Esperar ela decidir se aquilo tinha significado algo ou se tinha sido apenas um momento confuso causado por música lenta, cerveja amanteigada e o caos emocional coletivo que Hogwarts vinha vivendo. Arthur prometera aquilo para si mesmo desde o instante em que percebeu o quanto ela parecia nervosa depois do beijo. A amizade vinha primeiro. Mesmo que isso arrancasse um pedaço dele. Mesmo que pensar nela daquele jeito agora fosse inevitável. Porque a verdade era simples e assustadora: Arthur não conseguia mais olhar para Molly como antes. Ela ainda era sua melhor amiga. Mas agora também era a garota cujo rosto surgia na cabeça dele em horários inconvenientes. A garota cuja lembrança fazia o coração disparar sem autorização. A garota que ele queria beijar outra vez com uma intensidade quase ofensiva. E aquilo complicava tudo. O ruivo suspirou enquanto virava outro corredor, distraído demais nos próprios pensamentos para perceber imediatamente o movimento ao redor. Uma garota do terceiro ano passou por ele sorrindo timidamente e o cumprimentou. O bruxo respondeu automaticamente com aquele sorriso caloroso que parecia existir naturalmente nele. — Ei! Cuidado com aquelas escadas do quinto andar, elas tão tentando matar estudantes hoje. — A menina riu antes de continuar andando e foi exatamente nesse momento que Arthur a viu, quando retomou o seu caminho, do outro lado do corredor. Molly. Arthur sentiu o coração parar. Não poeticamente falando e, sim, literalmente. Por um segundo inteiro, ele teve certeza de que o órgão simplesmente desistiu de funcionar.
Ela estava vindo na direção dele. O coração do ruivo resolveu voltar a funcionar, porém, começou a bater em um ritmo completamente irresponsável. Não parecia mais um órgão humano funcional. Parecia um baterista de banda de rock tendo um colapso nervoso dentro do peito dele. Arthur sentiu calor subir pela nuca instantaneamente. As mãos ficaram estranhamente inquietas. E, pior de tudo, o próprio corpo reagiu como se tivesse acabado de encontrar um dragão de perto ou talvez algo mais perigoso. A paixão provavelmente matava mais lentamente. O bruxo engoliu seco enquanto observava Molly se aproximar. Cada passo dela parecia durar tempo demais. Arthur percebeu, horrorizado, que estava literalmente contando mentalmente a distância entre eles. Cinco passos. Quatro. Merlin, ela estava bonita demais. Três. Talvez ele devesse fingir distração. Dois. Olhar para outro lado. Agir casualmente. Naturalmente. Como alguém completamente equilibrado emocionalmente. Arthur virou o rosto rápido demais para uma armadura velha no canto do corredor como se tivesse desenvolvido um interesse súbito e profundo em metal medieval. Então, ouviu a voz dela. O ruivo virou imediatamente outra vez e encontrou Molly sorrindo para ele daquele jeito específico que fazia tudo dentro dele esquecer como funcionava. Arthur teve absoluta certeza de que ela nunca tinha falado o nome dele daquele jeito antes. Havia alguma coisa diferente ali. Mais suave. Mais quente. Ou talvez ele estivesse enlouquecendo completamente. Possibilidade fortíssima também. O sorriso surgiu nele quase involuntariamente, sincero, aberto, luminoso daquele jeito tipicamente Weasley que sempre parecia carregar calor suficiente para aquecer corredores frios de Hogwarts. — Oi, Molly… — A resposta saiu mais baixa do que pretendia porque o cérebro dele ainda estava ocupado tentando sobreviver à existência dela naquele corredor. Mas, então, veio a palavra: impostor. Arthur piscou. Uma vez... Duas. E, de repente, Molly mencionou James Potter, polissuco, assumindo sua identidade, tudo na mesma frase. O rosto do ruivo ficou tão vermelho que naquele instante provavelmente seria impossível diferenciar pele de cabelo sem ajuda especializada. Repentinamente havia problemas demais acontecendo simultaneamente dentro da cabeça dele. Primeiro: James claramente não o obedeceu. Segundo: Molly sabia. Terceiro: Molly sabia. Quarto: MOLLY SABIA. O coração, que já estava descontrolado, entrou em estado crítico. Arthur quase teve um troço. Literalmente. Porque imediatamente uma única pergunta surgiu na cabeça dele: O QUE JAMES FEZ? O bruxo sentiu o corpo inteiro entrar em alerta absoluto. O estômago despencou violentamente. A garganta secou. O cérebro começou a correr em círculos iguais a um trasgo em pânico. James tinha falado com Molly. James falou com Molly usando o rosto dele. James Potter. Usando o rosto dele. Merlin santíssimo. Arthur quase teve uma visão da própria alma abandonando o corpo ali mesmo no corredor. Porque agora existiam possibilidades demais. Aliás, possibilidades horríveis.
O que será que James tinha feito? O que ele tinha falado? Ele chamou ela pra sair?! Flertou?! Disse alguma barbaridade? PEDIU ELA EM CASAMENTO?! Arthur sentiu o estômago despencar violentamente. E o pior de tudo era que Molly claramente ainda não sabia que ele estava envolvido por livre e espontânea vontade naquilo. O ruivo engoliu seco. Mentir para Molly parecia errado em níveis espirituais mas contar a verdade parecia igualmente suicida. Arthur percebeu tarde demais que estava encarando Molly por tempo demais sem responder absolutamente nada. Então, soltou uma risada curta, nervosa, completamente quebrada no meio. — Potter…? — Repetiu, numa tentativa miserável de soar casual. — Haha. O James Potter? — Talvez a próxima estratégia fosse fingir que não sabia quem era James Potter. Arthur piscou algumas vezes rápido demais, tentando ganhar tempo enquanto o cérebro trabalhava igual um trasgo desesperado batendo panelas. — E-ele fez o quê exatamente…? — Perguntou por fim, numa voz ligeiramente esganiçada demais para alguém inocente. Desde então, Arthur vinha vivendo numa mistura horrível de felicidade absoluta e pânico existencial. Parte dele queria fingir que nada aconteceu para preservar a amizade, a outra parte queria beijá-la de novo até esquecer o próprio nome e agora existia a possibilidade real de James Potter ter estragado completamente a segunda possibilidade de acontecer novamente. Os olhos do ruivo finalmente encontraram os dela outra vez e, por um instante, toda a confusão diminuiu só um pouco porque Molly ainda estava ali, linda, nervosa, preocupada e real. Arthur soltou lentamente o ar pelo nariz antes de coçar a nuca outra vez. — Tá… — Começou devagar, quase derrotado pela própria consciência pesada. — Antes que você conclua que eu tô tendo um AVC porque fiquei vermelho igual um tomate radioativo… eu consigo explicar parte disso. — Ele tentou sorrir. Não funcionou muito bem. Saiu mais como a expressão de alguém prestes a ser condenado publicamente. — Eu… hm… sabia da existência da polissuco. — Admitiu cuidadosamente, sentindo a própria coragem evaporar frase após frase. — Mas a situação ficou um pouquinho… fora de controle. — Aquela era provavelmente a mentira mais descarada que Arthur Weasley já contou na vida inteira. O corredor de repente pareceu pequeno demais de repente. Principalmente porque agora o ruivo conseguia reparar em detalhes insuportavelmente específicos. A maneira como a luz batia nos cabelos de Molly, o jeito que ela franzia minimamente o nariz quando estava contrariada e o perfume suave que ele jurava conseguir sentir mesmo daquele jeito caótico. — Mas eu juro solenemente que não fazia ideia do que o James ia aprontar usando meu rosto. — Continuou rapidamente, quase atropelando as palavras numa tentativa desesperada de evitar o pior cenário possível. — Na verdade, eu disse especificamente pra ele NÃO falar com você. — Arthur congelou no segundo em que percebeu o que acabou de admitir. Os olhos dele arregalaram minimamente porque aquilo levantava aproximadamente oitocentas perguntas novas. O ruivo fechou os olhos por um instante curtíssimo, como quem aceita espiritualmente a própria morte iminente. — Isso soou incrivelmente suspeito, não soou? — Murmurou, derrotado.
Regulus observou toda a sequência em silêncio, desde o momento assustadoramente sério até o retorno abrupto da energia caótica habitual de Arthur. Por um instante, um muito breve, o canto da boca dele ameaçou se mover, quase um reflexo involuntário diante daquilo. “ Isso foi perturbadoramente estranho de assistir, não faça de novo. ” comentou, seco, mas sem a frieza habitual por completo. O comentário sobre “se importar” não recebeu resposta imediata. O olhar dele apenas desviou para Arthur por um segundo, longo o suficiente para confirmar que responder seria inútil, o que, considerando o sorriso satisfeito do ruivo, provavelmente já era resposta suficiente. Quando Arthur sugeriu Bombarda, porém, a expressão dele mudou na mesma hora. “ Definitivamente não Bombarda. ” respondeu rápido demais. Os olhos voltaram para a barreira imediatamente. “ Se isso reage à intensidade mágica, lançar uma explosão diretamente nela pode acabar causando exatamente o tipo de problema que estamos tentando evitar. ” A pausa veio curta enquanto ele analisava a superfície invisível à frente deles. “ Diffindo também é agressivo demais, precisamos de algo que force reação sem impacto destrutivo imediato. ” Regulus ergueu um pouco mais a varinha, pensativo. “ Revelio talvez seja inútil aqui, mas pode indicar presença ou alteração de assinatura mágica entre os pontos da barreira. ” murmurou mais para si mesmo antes de voltar a Arthur. “ Ou um Revelio conjunto. ” Ele virou ligeiramente o rosto na direção do ruivo. “ Menos força. Mais precisão. ” A frase veio firme, mas não ríspida. Os olhos dele estreitaram levemente ao encarar a distorção invisível no ar. “ E eu prefiro descobrir como ela funciona antes de descobrir como ela tenta nos matar. ”
Arthur fez uma expressão genuinamente ofendida quando Regulus descartou Bombarda daquela maneira rápida demais. Como se o outro já estivesse preparado psicologicamente para impedir exatamente aquele tipo de ideia saindo da boca dele. O ruivo cruzou os braços imediatamente, olhando para Black com a mesma indignação dramática de alguém cuja obra-prima acabara de ser cruelmente rejeitada por uma comissão avaliadora extremamente rígida. Arthur soltou um pequeno suspiro teatral antes de voltar a encarar a barreira invisível diante deles. O ar naquela parte do castelo parecia diferente. Mais pesado. Distorcido. Às vezes o bruxo jurava enxergar pequenas ondulações no vazio, como calor subindo de pedras quentes, mas desapareciam rápido demais para ter certeza. Uma parte dele ainda queria testar Bombarda porque havia algo profundamente irritante naquela barreira. Algo que provocava diretamente o instinto mais impulsivo de Arthur Weasley: a necessidade absoluta de descobrir como quebrar aquilo. Se existia magia ali, ela devia ter limite. Tudo tinha. Mesmo Hogwarts. Mesmo feitiços antigos. Mesmo maldições. O problema era que Regulus tinha razão e isso era extremamente inconveniente. Arthur odiava quando pessoas excessivamente sensatas estavam certas porque, no fundo, ele sabia exatamente o que estava tentando fazer: colocar a carroça na frente dos hipogrifos, dos burros, dos trasgos e provavelmente de qualquer outra criatura disponível no mundo mágico. Eles nem sabiam o que aquela coisa era. Não entendiam a natureza da barreira, sua origem, sua lógica ou sequer se ela realmente funcionava como magia comum. E Arthur já estava pensando em explodir tudo esperando que alguma rachadura aparecesse no processo. O comentário de Regulus sobre “descobrir como ela tenta nos matar” arrancou um pequeno sopro de risada desacreditada do ruivo porque parecia exatamente o tipo de coisa que aconteceria com eles. Arthur imaginou Madame Pomfrey recebendo os dois na enfermaria carbonizados magicamente enquanto tentavam explicar que estavam “fazendo ciência”. Ela provavelmente os mataria dessa vez. O bruxo suspirou outra vez antes de finalmente descruzar os braços. — Tá bom. — Admitiu com relutância. — Talvez... talvez eu esteja tentando explodir a porta antes de testar a maçaneta. — A frase veio acompanhada de uma pequena careta contrariada. — Mas só porque você falou de um jeito absurdamente sensato e isso infelizmente fez sentido. — Arthur aproximou-se um pouco mais da barreira agora, observando-a com mais atenção. O silêncio entre os dois ficou mais concentrado naquele momento. Então, ele assentiu devagar. — Revelio conjunto. — Repetiu, experimentando a ideia. — Menos força. Mais precisão. — Os dedos dele giraram a varinha lentamente. A verdade era que Arthur começava a enxergar lógica naquilo. Se a barreira reagia à magia, então, observar primeiro talvez realmente fosse o melhor caminho. Descobrir padrões. Oscilações. Diferenças entre pontos específicos. Talvez existisse alguma fraqueza ali. — Mas fique sabendo que... — Comentou baixinho enquanto posicionava a varinha. — Se isso der errado e a gente explodir metade do viaduto, eu vou deixar muito claro no meu fantasma futuro que a ideia inteligente foi sua. — O canto da boca dele subiu minimamente. Arthur ajustou a posição dos pés no chão de pedra, alinhando a própria postura com a de Regulus quase instintivamente. O coração dele batia rápido outra vez, mas não por medo exatamente. Era expectativa. Aquela sensação elétrica que sempre vinha antes de algo desconhecido acontecer. — Vamos lá… — Murmurou. — No três, lançamos o feitiço. Juntos. — O silêncio pareceu crescer ao redor dos dois. — Um. — Arthur estreitou os olhos para a barreira. — Dois. — As distorções no ar pareceram vibrar levemente sob a expectativa mágica e, então, ele virou minimamente o rosto para Regulus. — Três. — A voz saiu firme enquanto os dois lançavam juntos. — Revelio!
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Será que estavam acontecendo outras coisas? Apagões de memórias? Pessoas voltando no tempo? James sempre o escutava até mesmo na calada da noite quando o outro desejava dormir, e Peter (que geralmente era seu confidente noturno - ele adorava o perturbá-lo para sair da cama junto a ele) já estava aos roncos, James nunca havia sequer fingido não escutar. Sem contar que o que ele falou era extremamente sério e fez com que James prestasse muita atenção, mas ele não tinha como discutir já que coisas estranhas estavam acontecendo. Não faria mal contar novamente, quem sabe, James estivesse só tentando associar e entender o que ele estava falando? Não imaginava o melhor amigo o testando para ver se ele estava mentindo ou não. Mordeu os lábios, e soltou um suspiro. "Como eu lhe disse. A sala estava toda branca, vazia. Então apareceram mais duas pessoas. Um que eu jurava que era você, e outro que parecia um primo distante ou algo assim." Explicou igual da primeira vez que havia feito aquela conversa e tentando pegar os detalhes para ver se havia perdido mais algum.
"Não tinha entendido como ele era diferente além de poucos detalhes, mas depois quando conversei com Evans notei que eram os olhos dela. Não só a cor, mas o jeito como ela olha. O amor e carinho. Estavam lá, e além disso parecia que eles me conheciam. Não sei se são versões diferentes nossas, ou nossos filhos, ou somente pessoas estranhas que me fizeram querer chorar só pelo jeito que olharam para mim." Provavelmente, Sirius ainda estava muito emocionado pela montanha russa de coisas que estava acontecendo com ele em casa e agora em Hogwarts, mas tentou explicar para o outro. "O que você andou pensando? Surgiu algo diferente na sua cabeça e por isso você quis ouvir de novo? Ou quis confirmar? Você não quer mesmo ir na enfermaria ou ir até a direção?" O outro estava estranho. Não sabia dizer o que, mas era um conjunto de ações e posturas, mas aquele estava sendo um dia difícil para ele de qualquer jeito, deveria estar só inventando as coisas na sua cabeça.
Arthur escutava tudo como alguém tentando impedir a própria mente de explodir. O não-ruivo permanecia ao lado de Sirius com atenção absoluta, tão focado nas palavras dele que quase esqueceu completamente de continuar fingindo ser James Potter. Cada detalhe parecia importante demais. O jeito como Sirius descrevia a sala branca. As duas figuras. O olhar. Os olhos de Lily. O reconhecimento. Tudo. O bruxo absorvia cada informação como se estivesse montando um quebra-cabeça impossível enquanto o coração batia rápido demais dentro do peito. Porque aquilo não fazia sentido, ao mesmo tempo que também fazia e isso era o problema. Arthur passou a mão lentamente pelo rosto ainda usando os traços de James, os dedos deslizando pelo maxilar mais fino enquanto tentava organizar o caos de teorias surgindo dentro da cabeça. Parecia que quanto mais Sirius explicava, menos lógica Hogwarts possuía. Outras versões? Filhos? Ecos? Memórias? Linhas temporais? O ruivo sentia o cérebro funcionando rápido demais. Quando Sirius falou dos olhos de Lily, Arthur arregalou minimamente os olhos antes de desviar o olhar para o corredor vazio por um instante, como se precisasse fisicamente encarar outra coisa para não começar a surtar na frente dele. Os olhos dela. Não só a cor deles, mas, o jeito de olhar. Aquilo ficou reverberando dentro da cabeça do bruxo igual um feitiço mal lançado. — Espera… — Murmurou baixo demais, quase pensando em voz alta. Se aquelas pessoas tinham os olhos de Lily e pareciam James… Então… O ruivo quase tropeçou na própria linha de raciocínio. Por Merlin, aquilo parecia fofoca proibida do mais alto nível mágico. E se fossem filhos? Filhos de quem? James e Lily? Lily e algum primo distante do Potter? Mas como Sirius saberia reconhecer aquilo tão rápido? E por que teria sentido aquele apego instantâneo? E se não fossem filhos? E se fossem versões alternativas? Pessoas de outro tempo? Outra linha? Arthur sentiu a cabeça latejar porque então outra ideia horrível apareceu: e se Hogwarts estivesse quebrando o tempo? O bruxo engoliu seco devagar. Será que outras coisas estavam acontecendo e ninguém tinha percebido ainda? Porque Sirius Black estava simplesmente estava ao seu lado dizendo que talvez tivesse visto pessoas que não deveriam existir. Arthur passou a mão lentamente pela boca, completamente perdido dentro da própria cabeça. — Tá, espera… espera… — Murmurou novamente, levantando as mãos enquanto o cérebro dele praticamente explodia de possibilidades. — Então eles pareciam… familiares? Não familiar tipo “eu conheço eles”. Familiar tipo… — Ele tentava encontrar palavras, alguma forma de explicar o que passava em sua cabeça. — Tipo laço sanguíneo de verdade. — Arthur sentiu um arrepio subir pelos braços. Passou as duas mãos pelos cabelos escuros de Potter, bagunçando-os completamente sem perceber. E, então, veio a avalanche. — E se não forem filhos? — Perguntou rápido demais. — E se forem… sei lá… ecos? Ou linhas temporais? Ou… — Arthur quase sentiu vontade de agarrar Sirius pelos ombros e começar um interrogatório completo de oito horas seguidas. Mas precisava continuar sendo James.
Então, respirou fundo. Só que, honestamente, James Potter provavelmente não estaria ouvindo tudo aquilo com aquela concentração quase acadêmica de quem queria catalogar cada detalhe emocional da situação. Arthur percebeu tarde demais porque quando voltou a olhar para Sirius, notou o jeito como o amigo o encarava. Então, reagiu rápido demais no puro desespero social típico dos Weasley. — Não, não, eu só… — Começou atropelado. — Eu tava tentando entender direito porque isso tudo parece completamente insano e ao mesmo tempo estranhamente possível. — Ele gesticulou enquanto falava, rápido demais. — Eu acho que… — Pigarreou, tentando diminuir a intensidade. — Faz sentido eu querer ouvir de novo e tentar entender o que aconteceu. — O bruxo olhou o outro por um momento mais longo desta vez. Sirius Black parecia genuinamente emocionado com o que aconteceu na Sala Precisa. Vulnerável até. O tipo de vulnerabilidade rara que fazia alguém parecer mais jovem por alguns segundos. O instinto natural de Arthur apareceu imediatamente, antes mesmo de pensar e antes mesmo de lembrar que tecnicamente estava usando o corpo de James Potter. Então, ele simplesmente se aproximou mais, os dedos apertaram o ombro de Black primeiro num gesto firme, reconfortante. Depois, impulsivamente, Arthur inclinou-se um pouco e deixou um beijo rápido na testa do amigo. Foi automático. Um gesto absurdamente Weasley. Afetuoso demais. Caloroso demais. Quando percebeu o que fez, o cérebro dele entrou em pane por meio segundo. Mas já era tarde. Então, Weasley apenas sustentou a aproximação, o aperto leve no ombro permanecendo enquanto falava mais baixo dessa vez. — Ei. — Murmurou. — Você tá bem. — O tom perdeu completamente a teatralidade de Potter por um instante e saiu sincero. — Quer dizer… surtado, emocionalmente abalado e provavelmente precisando dormir umas quinze horas seguidas? Sim. — Corrigiu com uma tentativa rápida de humor. — Mas tá bem. — O não-ruivo deu um pequeno sorriso de canto. — Eu só fiquei preocupado com você. — E aquilo também era uma verdade. Arthur observou Sirius por um instante antes de completar. — Porque dá pra perceber que isso mexeu contigo de verdade. — O olhar dele suavizou minimamente. — E, sinceramente, se essa reação toda foi causada por duas pessoas olhando pra você com carinho… então, você vai ser um babão completo como pai um dia. — Uma pausa curta. — Ou tio. — O sorriso aumentou um pouco. — Tipo aqueles adultos insuportáveis que mostram foto das crianças pra qualquer pessoa aleatória no corredor. — Arthur apontou para ele e mesmo brincando, o cérebro do ruivo continuava funcionando perigosamente rápido por trás da conversa. Porque as peças ainda se moviam dentro da cabeça dele. Os olhos de Lily. As versões de James. A Sala Precisa. O jeito como Sirius falou “eles me conheciam”. Aquilo não parecia alucinação. Parecia memória. Ou destino. Então, o bruxo respirou fundo outra vez, tentando finalmente organizar o furacão dentro da própria cabeça. Porque no fundo, apesar do medo, apesar das teorias absurdas e da sensação constante de que Hogwarts estava prestes a explodir magicamente, Arthur sentia uma coisa muito específica crescendo ali: convicção. A sensação de que aquilo não ficaria escondido por muito tempo. Ele olhou diretamente para Sirius então, mais calmo agora. — A gente vai descobrir logo o que tá acontecendo. — Disse com firmeza. — Independente do que seja. — E, então, o canto da boca dele subiu devagar porque existia uma parte da história que Arthur estava começando a achar extremamente engraçada. — Além disso… — Continuou, tentando soar casual apesar do sorriso cada vez maior. — Se você viu alguém parecido comigo com os olhos da Evans… — Ele assentiu sozinho, como quem chegava a uma conclusão científica muito séria. — Quer dizer que demorou, mas aconteceu. Evans claramente cedeu em algum universo. Eu sabia que era questão de tempo.
lily encarou james por alguns segundos depois do comentário sobre existirem vários dele andando por aí. a simples ideia já lhe dava arrepios; lidar com um era o bastante. ❝ — suspeito que o mundo, mas principalmente a professora mcgonagall provavelmente não sobreviveria a dois james potter. acho que ela finalmente pediria as contas e iria pra bem longe daqui.❞ — e eu também, poderia ter adicionado, mas potter estava sendo agradável até então, por isso decidiu não destruir o clima. ainda assim, a parte sobre sirius mexeu com ela. porque james estava certo em uma coisa: sirius não ficava assustado fácil. e desde que ele tinha contado sobre a sala precisa, alguma coisa estava martelando no fundo da cabeça de lily de um jeito irritante. como se a teoria mais absurda estivesse começando a parecer plausível demais.
mas ela não teve muito tempo pra mergulhar nisso, porque, claro, potter imediatamente voltou a agir como potter. o comentário sobre “declaração de amor” arrancou um revirar de olhos automático dela. ❝ — you're ruining it, idiot...❞ — respondeu, mas não tinha a raiva habitual estampada na face, mas sim um pequeno sorriso. ❝ — não vá comprando as alianças ainda, potter, tenho certeza que você ainda pode fazer algo pra me tirar do sério antes da noite acabar.❞ — precisou adicionar, até porque a dinâmica gato-e-rato deles era tão natural que as falas saíam automaticamente, como se ensaiadas. mesmo assim, o sorriso continuou ali, pequeno, traindo completamente a tentativa de manter a pose.
e então ela percebeu o olhar. aquele olhar específico. lily estreitou os olhos imediatamente. ❝ — potter, nem pen— ❞ — começou, mas era tarde demais. quando ele saiu correndo pelo corredor, ela simplesmente ficou parada por um segundo, encarando o espaço vazio com absoluta incredulidade antes de soltar uma gargalhada honesta. ❝ — você é ridículo!❞ — gritou atrás dele, já começando a andar mais rápido. o pior era que ele claramente não estava correndo de verdade. aquilo deixava tudo ainda mais irritante porque ela conseguia alcançar. ele queria que ela alcançasse. e talvez fosse exatamente isso que fez lily começar a correr também. o som dos passos ecoava pelo corredor enquanto ela finalmente diminuía a distância entre os dois, ainda rindo apesar de si mesma. era ridículo. completamente ridículo. o castelo estava preso em uma espécie de pesadelo temporal impossível, ninguém sabia o que estava acontecendo, e ela estava correndo atrás de james potter no meio da ronda como uma criança. mas, por merlin, fazia dias que ela não se sentia tão… leve. ❝ — james potter, eu juro por merlin que se a gente cruzar com algum professor agora eu vou fingir que nunca te vi na vida! ❞ — mas o riso ainda escapava entre as palavras. e isso era o pior de tudo.
A risada de Lily ecoava pelos corredores de Hogwarts como alguma espécie de feitiço antiapocalipse, afastando por alguns minutos toda a tensão sufocante que vinha tomando conta do castelo desde o surgimento dos outros Hogwarts do lado de fora das janelas. O som era diferente do que o ruivo estava acostumado a ouvir dela. Não era aquele riso curto, irônico, que normalmente vinha acompanhado de um revirar de olhos quando James fazia alguma idiotice particularmente impressionante. Aquilo era uma gargalhada de verdade, era leve, solta e até quase infantil. E Arthur não conseguiu evitar o pensamento imediato de que Lily Evans merecia aquilo mais vezes. Merecia correr pelos corredores igual uma maluca atrás de alguém sem estar pensando em monitoria, regras, distorções temporais ou possíveis colapsos mágicos. Merecia rir até perder o fôlego em vez de carregar o peso do mundo nas costas como fazia desde sempre. Então, o bruxo continuou correndo. Olhando para trás só o suficiente para manter a distância perfeita onde ela conseguia alcançá-lo, mas ainda precisava tentar um pouco mais. — Ah, então agora você tá me ameaçando?! — Gritou pelo corredor, rindo. — Isso é abuso de poder, Evans! — Os passos ecoavam altos pelas pedras antigas enquanto as vestes esvoaçavam atrás dele. As tochas tremeluziam conforme passavam correndo pelos corredores, projetando sombras rápidas pelas paredes. Arthur quase podia esquecer por alguns segundos que estava usando o rosto de outra pessoa. Quase. Porque então algo começou a ficar estranho. Primeiro veio uma fisgada no estômago. Arthur diminuiu minimamente a velocidade sem perceber, a mão indo instintivamente até a barriga enquanto uma sensação horrível parecia se espalhar pelo corpo inteiro. Não, não, não. O ruivo sentiu o sangue gelar. Talvez tivesse corrido demais. Talvez a poção polissuco fosse mais sensível ao esforço físico. Mas, então, veio outra pontada. Mais forte. E, dessa vez, Arthur sentiu algo pior. As pernas não pareciam mais as pernas de James. Foi sutil no começo, uma sensação horrível de desalinhamento, como se o corpo tivesse esquecido momentaneamente qual formato deveria manter. Arthur tropeçou de leve no próprio passo enquanto corria, arregalando os olhos. O desespero bateu tão rápido que quase tirou o ar dele. Arthur levou a mão ao rosto em pleno movimento enquanto corria e sentiu, em absoluto horror, o contorno familiar voltando devagar. O nariz mais característico dos Weasley retornando centímetro por centímetro como argila sendo remodelada. — Não, não, não… — Murmurou ofegante. Atrás dele, Lily ainda vinha correndo e ela não podia ver aquilo. Porque se Lily descobrisse… Merlin, aquilo seria um desastre absoluto. Evans não podia descobrir, não daquele jeito, não depois daquela noite inteira, não depois de ter rido com “James”, não depois de ter relaxado daquele jeito perto dele, não depois de Arthur acidentalmente tentar consertar anos de tensão entre Potter e Evans usando gentileza improvisada. Ela ia matar os dois. Talvez primeiro Arthur. Depois James. Depois Arthur de novo só por garantia. Aquilo parecia errado de um jeito que fez o estômago dele afundar ainda mais, então, o medo entrou de verdade. Arthur começou a correr rápido. Não mais naquele ritmo provocativo que permitia que Lily o alcançasse. Agora parecia alguém fugindo de alguma coisa de verdade. O corpo inteiro começou a formigar. Os dedos alongaram e encurtaram estranhamente enquanto a magia falhava dentro dele. A pele parecia quente demais. O suor escorria pela nuca enquanto os fios escuros de Potter começavam lentamente a clarear. — Merda. Merdinha. Merdão. — As palavras escapavam baixinho entre a respiração ofegante. Ele precisava sumir imediatamente.
Arthur virou abruptamente o primeiro corredor disponível e praticamente se jogou dentro da primeira sala aberta que encontrou. Ele se curvou imediatamente, apoiando as mãos nos joelhos enquanto o corpo inteiro parecia desmontar e remontar ao mesmo tempo. A transformação reversa veio mais agressiva do que a primeira. O calor subiu violentamente pela pele. Os ossos do rosto mudaram outra vez. O nariz voltou completamente ao formato acostumado. O cabelo escuro desapareceu como tinta sendo lavada, substituído pelo laranja familiar. Ele tossiu e sentiu o estômago revirar como se tivesse ingerido cimento líquido. Suava igual alguém que tinha acabado de sobreviver a um ataque de dragão. As mãos tremiam enquanto ele se encarava desesperadamente num reflexo empoeirado perto da parede. Ruivo outra vez. Nariz Weasley. Rosto Weasley. Merlin seja louvado. O bruxo respirou fundo várias vezes tentando não desmaiar ali mesmo. Então arrumou rapidamente os cabelos com as mãos, ajeitando-os daquele jeito tipicamente bagunçado de Arthur enquanto tentava parecer alguém minimamente normal e não um criminoso mágico em colapso. Precisava sair dali, voltar para a sala comunal assim como combinou com James caso sentisse alguma coisa estranha. Precisava agir naturalmente. Precisava mentir, o que era horrível, porque Arthur Weasley tinha aproximadamente o talento de uma colher para mentiras. Mesmo assim abriu a porta e quase morreu do coração porque Lily estava bem ali. O olhar dele encontrou o dela imediatamente no corredor e o ruivo congelou por meio segundo antes do instinto assumir. — Lily! — Soltou rápido demais. — Eu… não sei quem está procurando, mas, eu ouvi passos apressados para aquela direção. — A frase saiu atropelada, apontando imediatamente para o corredor oposto. Então, tentou piorar menos a situação. — Parecia que estava… fugindo. — Ajeitou rapidamente o próprio cabelo, tentando parecer o mais normal possível enquanto evitava contato visual prolongado. — Isso parece ser um trabalho para a nossa super monitora da Grifinória. Go, Lily! — Acrescentou com uma risada nervosa completamente artificial. E, antes que Lily pudesse conectar qualquer coisa, Arthur já começou a andar apressadamente para trás, apontando novamente para o corredor oposto. — É... e eu tava justamente indo pra sala comunal então… hum… boa sorte com isso! — E saiu quase imediatamente, rápido demais para alguém inocente.