Arthur Weasley vem de uma família bruxa de sangue puro conhecida mais por sua simplicidade e união do que por prestígio, tendo crescido em um ambiente acolhedor que incentivou sua curiosidade desde sempre. Desde cedo, desenvolveu um interesse incomum pelo mundo trouxa, fascinado por objetos e pelo modo como funcionam, o que o diferenciava de muitos ao seu redor. Aluno da Grifinória em Hogwarts, destacou-se não por talento bruto, mas por uma inteligência diferente - observadora e estratégica. Dedicado e constante, envolvia-se nas aulas com interesse genuíno, especialmente quando podia explorar aquilo que despertava seu real interesse. Sua personalidade é marcada por leveza, bom humor e uma curiosidade quase infinita. Arthur é amigável, empático e genuinamente interessado nas pessoas, além de guiado por um forte senso de justiça. Embora descontraído e até um pouco bobo em alguns momentos, carrega uma firmeza silenciosa e uma teimosia discreta que o mantêm fiel ao que acredita.
+ CONNECTIONS.
* GENERAL INFORMATIONS.
Nome: Arthur Weasley
Idade: 21
Casa: Grifinória
Ano escolar: Décimo
Status sanguíneo: Sangue puro
Extracurricular: Clube do Xadrez Bruxo; Clube de Inovação Mágica; Sociedade de Experimentação Mágica.
Varinha: Madeira - Freixo; Núcleo - Pelo de unicórnio; Flexibilidade - Levemente rígida; Comprimento - 31cm
Patrono: Doninha
FC: Leo Woodall
* BACKSTORY.
Arthur Weasley nasceu em uma família bruxa de sangue puro, conhecida mais por sua simplicidade e união do que por prestígio dentro da sociedade mágica. Os Weasley nunca foram uma família de grande influência política ou riqueza, mas sempre carregaram um forte senso de honestidade, trabalho e lealdade, tais valores que foram transmitidos a Arthur desde muito cedo. Crescendo nesse ambiente, Arthur desenvolveu uma relação próxima com seus pais, marcada por afeto genuíno e liberdade suficiente para explorar suas próprias inclinações.
Diferente de muitas famílias tradicionais, os Weasley não impunham rigidez excessiva sobre comportamento ou interesses, o que permitiu que Arthur se tornasse naturalmente curioso. Foi ainda na infância que Arthur começou a demonstrar interesse pelo mundo trouxa. Pequenos objetos encontrados por acaso despertaram sua atenção de forma incomum, levando-o a desmontar, observar e tentar compreender como funcionavam. O que começou como curiosidade infantil logo se transformou em um interesse consistente, ainda que visto com estranhamento por algumas pessoas ao seu redor.
Ao ingressar em Hogwarts e ser selecionado para a Grifinória, Arthur não se destacou de imediato pelos critérios mais tradicionais valorizados na escola. Não era visto como um prodígio, nem como um talento excepcional em feitiços ou duelos. Suas notas, de modo geral, eram estáveis — boas o suficiente para demonstrar dedicação, mas raramente impressionantes a ponto de colocá-lo entre os melhores da turma. Ainda assim, havia algo em Arthur que não passava despercebido por aqueles que prestavam mais atenção.
Sua inteligência se manifestava de forma diferente da maioria. Em vez de se sobressair pela memorização ou execução impecável de magia, Arthur demonstrava uma capacidade incomum de observar, questionar e estabelecer conexões. Essa característica era especialmente evidente em qualquer assunto que tangenciasse o mundo trouxa. Arthur demonstrava uma curiosidade atípica e quase inesgotável, envolvendo-se profundamente sempre que surgia a oportunidade de aprender algo novo sobre aquele universo. Enquanto outros alunos ignoravam ou desprezavam o tema, ele se inclinava para frente, atento, interessado e genuinamente fascinado.
Apesar disso, Arthur nunca pareceu interessado em provar seu próprio valor. Ele não competia por reconhecimento, nem se esforçava para ser visto como excepcional. Preferia a estabilidade de uma posição intermediária, onde pudesse existir sem pressão. Essa escolha, no entanto, não vinha de falta de capacidade. Em momentos específicos, sua inteligência se revelava de forma surpreendente. Arthur possuía uma habilidade notável para estratégia e raciocínio lógico, sendo, discretamente, um dos melhores jogadores de xadrez de bruxos entre seus colegas.
Ao longo dos anos em Hogwarts, Arthur não construiu uma reputação baseada em feitos grandiosos, mas sim em consistência. Tornou-se alguém reconhecido por sua honestidade, sua curiosidade e pela forma como tratava os outros com respeito, independentemente de status ou origem.
* PERSONALITY.
Definido por uma leveza natural que se manifesta, acima de tudo, em seu bom humor. Ele tem uma tendência quase constante de enxergar o lado curioso e, muitas vezes, divertido, das situações. Seu senso de humor é espontâneo, às vezes até um pouco bobo, marcado por comentários inesperados, perguntas fora de hora e observações que podem parecer ingênuas à primeira vista. Ainda assim, dificilmente são vazias; por trás dessa leveza, existe sempre uma lógica própria. Essa característica faz com que Arthur seja uma presença agradável e apaziguadora. Ele quebra tensões com facilidade, não por tentar controlar o ambiente, mas por simplesmente não se deixar consumir por ele.
Arthur é profundamente empático. Ele tem uma habilidade quase intuitiva de perceber o estado emocional das pessoas ao seu redor, mesmo quando elas não dizem nada. Sua primeira reação raramente é julgar; ele prefere entender. Essa empatia se traduz em atitudes simples, mas constantes: escutar com atenção, oferecer companhia sem invadir espaço e tratar todos com o mesmo nível de respeito, independentemente de quem sejam.
Seu senso de justiça é outro pilar importante. Arthur não tolera desigualdades ou atitudes preconceituosas, ainda que não seja alguém confrontativo por natureza. Quando necessário, sua postura muda de forma sutil, mas firme. Ele deixa de lado o tom leve e passa a se posicionar com clareza, sustentando suas convicções.
A lealdade, por sua vez, é uma de suas qualidades mais sólidas. Arthur não é alguém de muitas promessas, mas é extremamente consistente com aquilo que oferece. Quando cria vínculos, tende a mantê-los com firmeza, sendo alguém em quem se pode confiar sem hesitação. Ele dificilmente abandona alguém, mesmo em situações desconfortáveis.
Por fim, há sua teimosia, um aspecto que nem sempre é evidente de imediato. Arthur não costuma discutir ou impor suas opiniões de forma direta, mas uma vez que forma uma convicção, é extremamente difícil fazê-lo mudar de ideia. Sua resistência não é barulhenta, mas persistente. Ele pode até ouvir, considerar e refletir, mas dificilmente abandona aquilo que acredita ser certo.
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Enquanto subia os degraus da escada em espiral que os levaria até o dormitório feminino, Molly secretamente agradecia por ter assumido a dianteira e proposto guiar o rapaz durante o trajeto, pois assim era possível ocultar a expressão de puro pânico que surgiu em seu semblante ao se deparar com a realidade do que havia acabado de fazer — uma comoção que se tornava mais intensa a cada passo que os aproximava do destino. Não existia qualquer resquício de arrependimento ameaçando surgir pelo convite, pois era incontestável seu desejo de explorar aqueles sentimentos com um pouco mais de privacidade e, consequentemente, liberdade. Até o momento presente, os beijos compartilhados entre os dois haviam tido como cenário ambientes comunitários, como corredores movimentados e uma sala de troféus abarrotada de alunos festejando em segredo. Embora o mundo ao redor deles parecesse se reduzir a nada quando estavam juntos, ainda precisavam considerar a maneira como agiam em público. Não apenas para evitar os comentários maldosos, que inevitavelmente surgiriam enquanto davam os primeiros passos rumo àquilo que começava a florescer entre eles, mas também para não cruzarem, por descuido, algum limite de decoro que pudesse lhes custar uma expulsão sem direito a retorno. E um dormitório perfeitamente arrumado, vago e isolado no topo de uma torre — convenientemente sugerido por uma varinha deixada para trás sobre sua cama — parecia como uma alternativa interessante para driblar aquele pequeno empecilho. Estava longe de ser o ideal, mas era a única opção ao alcance enquanto continuassem presos dentro daquele território, cujos limites eram impostos pela enigmática barreira. Contudo, nem mesmo o alívio por não ter sido rejeitada por Arthur diante daquela oportunidade especial, parecia ser suficiente para silenciar o nervosismo crescente que pulsava em seu peito. Estava exatamente onde desejava estar e com quem desejava estar, mas agora não sabia como agir com algo tão precioso em suas mãos. O medo de estragar sua chance com ele era como uma nuvem carregada que pairava sobre sua cabeça a todo instante, mas não podia permitir que a insegurança e o receio colocasse tudo a perder.
Abriu a porta com toda a cautela que conseguiu reunir. Antes de entrar de vez, projetou apenas a cabeça para dentro do quarto, certificando-se de que não havia ninguém ali e, só então, deu passagem ao restante do corpo, permitindo que o rapaz a acompanhasse. Como se o tamborilar desenfreado do próprio coração não fosse suficiente para denunciar sua presença a qualquer pessoa em um raio de cinquenta metros. Enquanto concedia a Arthur o tempo necessário para sanar a curiosidade e observar o ambiente, ela aproveitava a pausa para assentar a inquietação dentro do peito. Com passos firmes sobre o assoalho, ancorou-se. Estava em um lugar seguro, ao lado da pessoa que mais a fazia sentir-se segura em todo o mundo. Nesse momento, seu olhar repousou sobre a varinha que descansava sobre a cama impecavelmente arrumada e um sorriso cúmplice aflorou em seus lábios. Tudo ficaria bem. As coisas encontravam o seu devido lugar, acontecendo no tempo certo, exatamente como deveria. Suspirava com um pouco mais de tranquilidade quando o comentário divertido a tirou daquele estado de contemplação, arrancando de Molly uma risada baixa para não ferir a intimidade que se instaurava dentro do dormitório. Sempre podia contar com o bom humor do rapaz para lembrá-la de que não havia o que temer e de que valia a pena correr riscos por alguém de alma tão pura. ── Normalmente é assim. ── Disse em um falso tom de advertência, lançando-lhe um breve olhar de esguelha enquanto sorria. Naquela brincadeira mesclava-se o instinto da monitora, que definitivamente não queria mais nenhum garoto invadindo o dormitório feminino, e uma ponta de ciúmes contido, que não queria imaginar Arthur atravessando aqueles mesmos limites por outra garota. ── Mas o dragão, as armaduras e McGonagall recuaram quando perceberam o quanto eu te quero aqui. ── Gracejou com a voz contida. Uma evidência do quão confiante estava de querer explorar aqueles sentimentos pelo amigo, era a facilidade com que senteças como aquela escapavam de sua boca, chegando a surpreendê-la com a honestidade crua que carregavam. Gostaria de ser o tipo de pessoa que deixava o interesse transparecer apenas em gestos e sutilezas, mas havia dúvidas que somente palavras diretas eram capazes de dissipar.
No silêncio frágil que sucedeu sua declaração, Molly se viu diante de um impasse. Não por questionar sua decisão, mas por não saber qual passo dar em seguida. Jogar-se nos braços dele e puxá-lo para um beijo ardente era uma possibilidade tentadora, mas que em nada se adequava com o que ambos haviam demonstrado e construído até o momento. Despir-se sem qualquer aviso parecia ainda pior, o tipo de atitude que certamente faria Arthur dar meia volta e fugir para o lugar mais distante que a barreira o permitisse. Seus olhos se voltaram para o baú aos pés de sua cama, pensando que talvez seria uma boa ideia apresentar outras opções de vestido na busca pela opinião alheia, mas isso parecia seguro até demais. Havia uma tensão instigante entre os dois e não queria estingui-la por ser cautelosa demais. Às vezes o melhor a se fazer era se arriscar um pouco mais e deixar a cautela de lado. Antes que precisasse tomar uma decisão, porém, o viu se aproximar e sentiu o coração voltar a palpitar um pouco mais agitado. Quando as mãos se ergueram às suas costas, ela inconscientemente prendeu a respiração, imaginando que havia chegado o momento de desfazer o zíper que mantinha a peça danificada no lugar. Sua surpresa foi perceber que, na verdade, o primeiro impulso do rapaz foi afastar as mechas que o cobriam. Resvalando com graciosidade sobre as costas, os fios acobreados despertaram arrepios por onde passaram, delatando o quão sensível estava a sua pele para o toque, o que a fez suspirar em silêncio. O cuidado que ele demonstrava nos pequenos gestos a comovia, a levando a perguntar a si mesma o motivo por ter passado tanto tempo com os olhos vendados para um sentimento que parecia cada vez mais óbvio. Um calafrio se espalhou por seu corpo quando a voz rouca repentinamente rompeu o silêncio delicado que os rodeava, e fez questão de gravá-la em sua memória para revisitá-lo junto aos momentos que compartilhavam e as sensações despertadas ali. ── Obrigada. ── Sussurrou em agradecimento, com um sorriso sutil nos lábios. Mais uma vez, uma de suas brincadeiras lhe roubou uma risada espontânea e já preparava uma resposta quando se deu conta de que ele havia encurtado ainda mais a distância entre os dois. Preferiu continuar em silêncio, em antecipação pelo que o amigo diria e faria em seguida.
E quando a rouquidão da voz alheia tocou novamente seus ouvidos, seus olhos involuntariamente se fecharam, sentindo uma nova onda de arrepios se dispersar pelo corpo. Se a simples vibração da voz dele já era capaz de provocar tudo aquilo, o que seria dela quando, enfim, ele a tocasse da maneira como desejava? A expectativa crescia dentro de seu peito a cada segundo. Sorrindo com o elogio que recebia — e que significava muito para ela — Molly agradeceu aos céus por ter mantido os olhos cerrados, pois pôde desfrutar cada nuance do beijo delicadamente depositado em seu rosto no instante seguinte. Ser tratada como algo precioso, perceber o respeito que ele depositava em cada pequena demonstração e a importância que atribuía a cada instante compartilhado eram suficientes para fazê-la querer chorar. Mas ela não o faria, retribuindo esse respeito. Por Merlin, dedicaria cada segundo de sua existência para retribuir a felicidade que ele representava em sua vida! Arthur possuía o extraordinário talento de levá-la às lágrimas pelos motivos mais belos. Bastava um gesto, uma palavra ou um sorriso para que a felicidade transbordasse dentro dela. Às vezes, ainda lhe parecia inacreditável que alguém como ele tivesse cruzado seu caminho. Não por acreditar que fosse incapaz de merecer um amor assim, mas porque a vida já lhe ensinara que o merecimento nunca foi garantia de conquista. Ainda presa ao fantasma daquele beijo que continuava gravado em seu rosto, tentou encontrar as palavras certas a dizer, embora tudo lhe parecesse insuficiente e irrelevante naquele momento. Mas sabia que seu silêncio poderia ser mal interpretado. ── Ainda não me decidi, mas estou pensando em outro vestido vermelho que eu tenho. É um pouco mais pesado, melhor estruturado e um dos meus favoritos. ── Como se temesse ferir algo delicado demais, sua voz quase mal se projetava, tocando o ar com o mesmo cuidado presente em cada detalhe do que construíam. ── Pelo menos é mais resiste a qualquer leãozinho que se atreva a se meter no meu caminho. ── Riu baixinho, então lançando um olhar rápido para trás. ── Adoraria saber sua opinião quando prová-lo. ── Estar bem vestida para Arthur bastava para que a decisão quanto a peça fosse firmada.
Guiada pelo toque suave que despertava a pele de seu braço e ancorada pelo entrelaçar de seus dedos — símbolo da cumplicidade inabalável que haviam construído — Molly girou sobre os saltos até ficar de frente para o rapaz. No instante em que seus olhares se encontraram, tudo pareceu se encaixar novamente. Era como voltar para o único lugar onde seu coração compreendia o significado da palavra lar e um sorriso aflorou espontaneamente em seus lábios. Em busca do brilho que sempre habitara os olhos de Arthur, deparou-se com uma centelha ainda mais intensa nas íris claras que a contemplavam com um carinho inigualável. Por um breve segundo, permitiu-se acreditar que talvez fosse ela a responsável por acender aquela felicidade tão calorosa. Gostaria de ser essa pessoa, aquela capaz de despertar seus melhores sorrisos e de fazê-lo sentir-se tão feliz quanto ele a fazia sentir. O fato de conseguirem permanecer assim, simplesmente sustentando o olhar um do outro, envoltos em um silêncio que comunicava mais do que qualquer palavra jamais seria capaz de traduzir e que nunca se tornava constrangedor, era a prova mais evidente da sintonia excepcional que compartilhavam. Era algo raro e de um valor incalculável. O delicado encontro de seus lábios carregou consigo uma promessa que jamais precisou ser pronunciada, que não acrescentava nada ao que já sabiam, apenas fortalecia a confiança que haviam depositado um no outro, dissipando os últimos vestígios de insegurança e nervosismo que pudessem resistir. Estavam prestes a atravessar juntos um caminho completamente novo, desconhecido para ambos, mas não havia o que temer. Enquanto permanecessem lado a lado, nenhum gesto seria capaz de ferí-los. Pelo contrário, descobrir aquele novo mundo juntos parecia como uma viagem com destino ao extraordinário. Quando se afastaram, com as mãos ainda unidas, a curva que adornava seus lábios era quase como uma réplica perfeita do sorriso rendido que estampava o dele. Eram dois tolos apaixonados, prestes a viver uma noite que carregava todas as promessas de se tornar inesquecível e ela não podia estar mais realizada. Retribuindo o carinho dos dedos apertados, resvalou o polegar sobre as costas da mão dele em uma carícia enquanto o assistia alcançar a alça que permanecia firme em seu ombro. Novamente, Molly inconscientemente prendeu a respiração, mas dessa vez pela ansiedade de capturar a reação do rapaz enquanto a admirava. O sorriso natural e tranquilo continuava presente, garantindo que tudo estava bem. Embora nunca tivesse sido especialmente vaidosa, nem depositasse grande confiança na própria aparência, percebeu que o receio de ser vista despida por ele se desfazia lentamente, junto à alça que deslizava para baixo e revelava um pouco mais de seu colo. Se existia alguém capaz de fazê-la se sentir como a mulher mais deslumbrante do mundo, esse alguém certamente era Arthur.
A confiança que se erguia dentro dela ameaçou traí-la quando, por acidente, uma informação inesperadamente impactante irrompeu em meio à intimidade que compartilhavam. Metade da minha vida. Metade da minha vida. Aquilo era tempo demais. E com o sorriso comovente que ele exibia, Molly teve a certeza de que aquelas palavras não eram uma mera hipérbole. O olhava um pouco atônita, sem saber como ou se deveria reagir. Há quanto tempo, exatamente, ele carregava aqueles sentimentos em silêncio? E por quanto tempo ela própria estivera distraída demais para enxergar os sinais? Ou seria ainda pior? Talvez tivesse reprimido os mesmos sentimentos durante todo esse tempo, enganando a si mesma. Quantos dias, quantas oportunidades e quantos instantes haviam desperdiçado antes de descobrir a beleza do que agora começavam, enfim, a explorar? Começava a se afogar em todas aquelas questões quando foi subitamente resgatada por Arthur, com a mão que repousava em sua cintura a puxando de volta para o presente. Seu olhar encontrou o dele e sua expressão voltou a suavizar, enquanto o corpo parecia aquecer sob a mão que a sustentava pelas costas. Não havia sentido em se prender ao passado quando um futuro tão bonito os aguardava. Talvez apenas o alicerce de uma amizade construída com tanto cuidado ao longo dos anos fosse capaz de sustentar algo tão belo quanto aquilo que agora começava a florescer no jardim que cultivavam juntos havia tanto tempo. Restava a ela apenas fazer com que a caminhada até aquele momento valesse à pena. Retribuiu-lhe o sorriso com um brilho renovado nos lábios, mais firme e infinitamente mais seguro do que qualquer outro que já lhe surgira antes. No beijo que veio em seguida, cabia tudo o que haviam esperado em silêncio, reunindo tudo o que haviam deixado por dizer ao longo dos anos. Também traduzia a promessa de que todo o tempo de espera finalmente encontrava recompensa. Era um prelúdio sensível e intenso da nova etapa que se abria diante deles, agora que já não precisavam esconder o que sentiam e se permitiam. O abraço apertado, que eliminava de vez a distância que ainda os separava, arrancou um suspiro satisfeito que vibrou contra os lábios do rapaz. Seus dedos repousaram suavemente em sua nuca, ao mesmo tempo em que o outro braço o enlaçava em retorno, o puxando em sua direção. Parecia não haver proximidade suficiente que saciasse seu desejo de tê-lo para si. Logo comprovava as vantagens de terem fugido para um local mais reservado, pois não precisavam se preocupar com uma possível interrupção e podiam desfrutar daquele beijo profundo sem qualquer reserva. Mas até a bruxa mais desejosa precisava de uma pausa para respirar, foi o que descobriu quando se afastaram minimamente e percebeu o quão ofegante estava. Quando a pergunta surgiu, uma risada curta escapou enquanto assentia contra a testa dele. ── Deve. ── Foi tudo que conseguiu dizer em resposta com o fôlego tão limitado, acompanhado por uma risada baixa.
Sem romper a proximidade entre os dois, Molly sentiu a mão que pinçava o zíper deslizar lentamente pelo centro de suas costas, laceando o tecido que a cobria e, em resposta, afundou um pouco os dedos nos fios acobreados e depositou um beijo lento no canto de seus lábios. Sem pressa, deixou que o toque de sua boca desenhasse um caminho delicado por sua pele até alcançar sua face, onde deixou um novo beijo cálido. Durante todo o percurso, porém, seus olhos jamais abandonaram os dele e um sorriso se perpetuava em seu semblante. Era através daquela expressão que procurava transmitir que continuava exatamente onde desejava estar, tornando desnecessário qualquer pedido de autorização para despí-la por completo. Mesmo após o zíper ter sido completamente desfeito — facilitando um pouco mais a entrada do ar em seus pulmões — seu vestido permaneceu exatamente no mesmo lugar, pois o beijo retomado não deixava espaço para que ele se movesse. Isso não foi um incômodo para a bruxa. Afinal, poderia passar o restante dos seus dias perdida nos lábios de Arthur, tão macios e graciosos que alimentavam o calor que começava a arder dentro dela. Essa brasa emanava de sua pele tórrida, refletindo-se no beijo que era cada vez mais aprofundado por ela, mas sem perder a delicadeza que parecia ser uma característica invariável no relacionamento com outro. Suas línguas se exploravam com uma curiosidade ávida, em uma dança harmônica que envolvia todos os seus sentidos e incitava o anseio por provar o sabor da pele dele. Ameaçando atingir um grau sufocante, a temperatura crescente em seu interior fazia com que o tecido de seu vestido começasse a constringir sua respiração, a impelindo a afastar-se minimamente para, finalmente, deixar que a peça deslizasse até encontrar o chão. Sem a necessidade de sustentação na parte superior para montar a silhueta, assim, Molly impulsionou o corpo vestindo apenas uma calcinha de volta contra ele. O alívio imediato causou um suspiro que se arrastou pelos lábios entreabertos, ágeis o suficiente para aproveitarem a oportunidade para avançarem no pescoço do rapaz, deixando ali um beijo apaixonado enquanto a mão voltava a invadir os cabelos macios que se acomodavam por entre os dedos. Inspirando profundamente na tentativa de regular a mente já inebriada, inspirou o perfume fresco e envolvente de Arthur, arrancando dela um som rouco que vibrava na sua garganta. Nunca havia experienciado um desejo tão intenso como sentia agora.
Deslizando ambas as mãos até alcançarem a cintura dele, apertou-a com delicadeza, guiando-o lentamente em direção à cama antes que as próprias pernas resolvessem traí-la. Contudo, já estava tão extasiada que não percebeu quando o salto da sandália se enroscou no vestido abandonado sobre o chão. Bastou tentar dar mais um passo para perder o equilíbrio e acabar trombando de leve contra o outro. Ao erguer o rosto, encontrou imediatamente o seu olhar e um riso deslumbrado escapou de seus lábios, espontâneo e leve, enquanto se afastava apenas o suficiente para libertar o salto da pequena armadilha criada pela própria peça de roupa. ── Desculpa. ── A palavra sibilada se infiltrou na risada. Ainda que estivesse incrivelmente ofegante e um pouco desconcertada, não parecia nem um pouco envergonhada pelo erro cometido. Afinal, que tipo de encontro seria com Arthur se o riso não estivesse envolvido? Por outro lado, o pequeno afastamento provocado pelo ocorrido foi suficiente para expor seu corpo quase nu ao olhar dele e a compreensão repentina daquilo a fez estremecer. Por um instante rápido demais, conduzida por um impulso inconsciente, Molly ameaçou se encolher no lugar. Mas, bastou um vislumbre rápido no brilho que ele sempre carregou no olhar ao mirá-la, para decidir ajustar a postura e devolver o sorriso nos lábios. Ter a própria silhueta reverenciada por ele seria um privilégio, um novo passo importante que tinha segurança em dar e desfrutaria de cada nuance que conseguisse capturar em seu semblante. Durante os momentos seguintes, a ruiva apenas permaneceu como estava, permitindo que o rapaz a observasse pelo tempo que desejasse. O peito subia ao ritmo da respiração pesada e os lábios corados já refletiam a saudade do toque do beijo aliciante que deixara sua marca para trás. Não fazia isso por alguma satisfação exibicionista descoberta de repente, mas para introduzir-se naquela nova forma, a qual ele nunca havia tido acesso antes. Existia algo incrivelmente libertador ao se ver naquela posição, completamente livre de pudores e amarras que apenas a privavam de viver algo fantástico. Sem saber, seu melhor amigo lhe revelava uma versão de si mesma que a enchia de orgulho e despertava nela o desejo de, a partir daquele instante, tornar-se sua melhor versão. E era por isso que o amava.
Livre da armadilha que quase a fizera ir ao chão, Molly avançou um passo vagaroso em sua direção. Então, inclinou-se para depositar um beijo longo e afetuoso em seus lábios, enquanto seus braços o envolviam com delicadeza. O encaixe entre os dois era tão natural que parecia ter sido cuidadosamente moldado para existir daquela forma, sem que houvesse espaço algum entre seus corpos. Suas mãos passaram a deslizar lentamente por suas costas, percorrendo-lhe a extensão em carícias suaves, alimentando-se do calor que ainda atravessava o tecido lavanda da camisa. Era uma bela peça, mas transformava-se em um obstáculo inconveniente, impedindo-a de alcançar aquilo que tanto desejava. Carregando um pouco mais de malícia, seu sorriso se alargou, antecedendo o toque suave de seus lábios sobre o queixo de Arthur. ── Não quer tirar essa camisa e ficar mais confortável? ── O convite ardiloso veio acompanhado do movimento de suas mãos, que alcançaram a barra da camisa, erguendo-a apenas o suficiente para a invadir em seguida. Mesmo que não precisasse se preocupar com um possível toque gélido — pois suas mãos também emanavam o calor que se acumulava em seu corpo — comedidamente descansou os dedos sobre as costas nuas dele. Um suspiro espontaneamente escapou de seus lábios ao tocar a pele quente, tão convidativa que atiçava ainda mais suas fantasias. Como queria descobrir a sensação de abraçar seu corpo completamente nu. Os dígitos começaram a deslizar lentamente, estimulando a superfície onde resvalavam. Seus lábios deslizaram um pouco mais abaixo, encontrando a pequena faixa de pele revelada pelo decote da camisa, depositando ali um beijo delicado. Fora justamente aquele vislumbre o estopim que os conduzira até aquele momento. ── Ambos sabemos que não quero vê-la amassada. ── O comentário veio carregado de humor, acompanhado por uma nova risada baixa. Afinal, ele conhecia bem seu lado meticulosamente organizado, o que tornava a provocação tão verdadeira quanto maliciosa.
Arthur mal teve tempo de responder. O beijo de Molly voltou aos seus lábios com a mesma delicadeza que sempre existira entre eles, mas, agora, havia algo novo dissolvido naquela suavidade — a confiança de quem já não escondia mais o próprio coração. A ruiva o beijava como quem conhecia cada versão dele: do garoto distraído de Hogwarts ao homem que agora dividia com ela planos, medos e um futuro incerto. O grifano correspondeu de imediato, sentindo o sorriso nascer contra os lábios dela antes mesmo de perceber que sorria também. Era inevitável. Tudo aquilo parecia improvável demais para ser real e, ainda assim, era. Durante anos, Arthur imaginara incontáveis versões daquele momento. Às vezes, caminhando sozinho pelos jardins da Toca; outras, enquanto se perdia em objetos trouxas apenas para silenciar a própria mente. Imaginara o primeiro beijo, o primeiro abraço sem desculpas, o instante em que poderia chamá-la de sua sem medo. Mas havia um detalhe que nenhuma dessas fantasias conseguira prever: a realidade era infinitamente melhor. Os braços do ruivo a envolveram com mais firmeza, trazendo-a para si como se o próprio corpo reconhecesse que aquele sempre fora o lugar dela. As mãos deslizaram pelas costas da melhor amiga com uma calma quase reverente. não exploravam com pressa, mas descobriam lentamente sensações novas sobre seus dígitos. Havia uma diferença profunda entre desejar alguém em silêncio e finalmente permitir que esse desejo existisse em voz alta, sem culpa, sem receio de quebrar algo precioso. Os dedos encontravam caminhos que antes jamais ousariam percorrer — não por falta de vontade, mas pelo excesso de cuidado que sempre existira entre eles. Agora, porém, esse mesmo cuidado se transformava, adquiria nova forma, nova linguagem. Arthur descobria, pouco a pouco, que o amor tinha densidade. Tinha calor. Tinha perfume. Tinha a textura dos fios ruivos escapando entre seus dedos enquanto ela o beijava. E ele sequer percebeu em que momento aquilo deixou de ser apenas um beijo. Talvez quando Molly o procurou sem hesitar, como se anos de cumplicidade finalmente encontrassem uma única maneira de existir ou talvez quando o suspiro dela se perdeu contra seus lábios ou quando as mãos dela se embrenharam em seus cabelos, desfazendo qualquer tentativa dele de manter o controle. O que o bruxo sabia era simples: beijá-la tornara-se necessário. Tão necessário quanto respirar. Quando voltou aos lábios dela, havia algo diferente. Não era mais apenas o gesto tímido de quem experimenta; era a entrega de alguém que esperara tempo demais para descobrir como seria amar daquela maneira. O beijo se aprofundou naturalmente, lento o suficiente para que cada aproximação fosse sentida por inteiro. As respirações se misturavam em intervalos curtos, roubando o ar um do outro, enquanto o mundo ao redor desaparecia com uma facilidade quase assustadora. Ele jamais imaginara que um beijo pudesse conter tanto. Havia ternura. Havia saudade de algo que ainda nem tinham vivido. As mãos do Weasley desceram pelas costas da Prewett, agora livres do zíper que sustentava o vestido. As pontas dos dedos percorreram sua pele com um cuidado quase artístico, como se temesse desfazer algo precioso apenas por tocá-lo com intensidade demais. O calor que encontrou ali foi suficiente para fazê-lo estremecer, ainda que de forma contida. E, naquele instante, algo dentro dele mudava. Não de forma abrupta, mas inevitável. O Arthur cuidadoso ainda estava ali — sempre estaria — mas começava a dividir espaço com outra versão de si mesmo. Uma que sentia mais. Que desejava mais. Que, pela primeira vez, não recuava diante disso.
Quando Molly começou a guiá-lo em direção à cama, Arthur a acompanhou sem qualquer resistência. Havia algo quase inevitável naquele movimento, como se ele apenas seguisse um caminho que sempre existira entre os dois, mas que só agora se revelava. O sorriso ainda brincava em seus lábios entre um beijo e outro, enquanto permitia que a grifana conduzisse aqueles poucos passos, incapaz de desviar o olhar do rosto dela, como se cada expressão fosse preciosa demais para perder. Então, de repente, o salto dela se enroscou no vestido. O instante seguinte aconteceu rápido demais. O grifano mal teve tempo de compreender antes de vê-la perder o equilíbrio, e o corpo reagiu por puro instinto. Os braços envolveram a cintura da ruiva com firmeza, puxando-a contra o próprio peito antes que ela pudesse cair. O impacto foi leve, mas suficiente para fazê-lo prender a respiração, os olhos buscando imediatamente os dela com uma preocupação genuína. — Opa… calma aí… — Murmurou, a voz baixa, ainda próxima demais. — Tá tudo bem? — A tensão durou pouco. Bastou o riso espontâneo escapando dos lábios da Prewett para dissolver qualquer resquício de apreensão. Arthur riu junto, daquela forma leve e sincera que sempre surgia quando estavam lado a lado, como se o mundo fosse mais simples quando era dividido com ela. E foi nesse exato momento que o vestido cedeu por completo. O tecido deslizou com suavidade até repousar aos pés da bruxa, abandonando, sem cerimônia, o último papel que ainda desempenhava naquela noite. Arthur parou, não de propósito, mas porque o corpo simplesmente esqueceu como continuar. O sorriso ainda permanecia em seus lábios, mas todo o resto pareceu suspenso, como se o tempo tivesse sido gentil o suficiente para lhe conceder alguns segundos a mais naquele instante. Então, ele simplesmente esqueceu de respirar. Não porque jamais tivesse imaginado que Molly fosse bonita — isso seria impossível. Ele a achava linda muito antes de entender o que sentia por ela. O que o atingiu foi outra coisa. A forma como ela se permitia estar ali. Sem defesas. Sem disfarces. Vulnerável de um jeito que não era fragilidade, mas confiança. As pequenas marcas da vida, as sutis imperfeições que apenas a tornavam mais real, o ritmo acelerado da respiração, o modo como o peito subia e descia, tudo nela parecia intensamente verdadeiro. E isso o desarmou. O calor subiu pelo corpo do ruivo sem pedir permissão, espalhando-se do peito até o rosto, enquanto as próprias roupas se tornavam, de repente, um incômodo absurdo. Pesadas demais. Espessas demais. Como se o separassem justamente daquilo que mais queria alcançar. Os olhos do bruxo percorreram sua silhueta com lentidão, quase cuidadosos demais, como se temesse parecer apressado ou, pior, desrespeitoso. Mas havia algo impossível de esconder ali. Desejo. Um desejo maduro, honesto, que fazia o coração bater com tanta força que ele podia senti-lo contra as costelas. E quando a ruiva avançou e o beijou novamente, Arthur compreendeu imediatamente a diferença. Agora ele sentia. Muito mais. O calor da pele dela contra o tecido de sua camisa fazia sua imaginação completar o que ainda permanecia oculto e isso foi suficiente para desfazer o pouco controle que ainda restava. As mãos dela deslizaram por suas costas, encontrando caminho sob a camisa. Arthur inspirou fundo. O toque arrancou dele um estremecer involuntário. E, dessa vez, ele não tentou esconder. Porque ali começava a mudança. O Arthur cuidadoso ainda estava presente — sempre estaria — mas já não era o único. Havia outro. Um que queria mais. Que sentia mais. Que não recuava diante do próprio desejo. Quando suas mãos voltaram a tocar Molly, havia algo diferente nelas. Ainda havia cuidado — mas agora vinha acompanhado de intenção. De uma vontade silenciosa de explorar, de descobrir, de sentir sem se conter completamente.
O toque de Molly sobre sua pele arrancou de Arthur um arrepio involuntário, daqueles que começam discretos e, em questão de segundos, se espalham por todo o corpo. Os olhos se fecharam por um breve instante enquanto ele soltava o ar devagar, como alguém tentando se manter inteiro diante de uma sensação intensa demais para ser ignorada. Quando a ruiva, com aquele sorriso carregado de provocação que ele conhecia tão bem, sugeriu que talvez fosse melhor livrar-se da camisa, o bruxo sequer cogitou pensar. — Acho… acho que você tem razão. — A resposta veio acompanhada de um riso baixo, levemente envergonhado, mas sem hesitação. As mãos foram até a barra do tecido, e ele a puxou para cima em um movimento simples, ainda que um pouco desajeitado, como se não estivesse acostumado a ser observado daquela maneira. O pano caiu em algum ponto atrás dele, esquecido no instante seguinte. O peito do grifano se expandiu em uma respiração mais funda. Exposto. Não apenas pela ausência de roupa, mas pelo que aquilo significava. Arthur nunca fora um atleta. Não possuía o porte imponente dos jogadores de quadribol que atravessavam os corredores cercados de olhares admirados. Seu corpo carregava força honesta, construída no cotidiano, mas jamais lhe parecera digno de atenção especial. E, por muito tempo, isso nunca importara... até agora. — Espero… — Começou, soltando um riso curto, quase nervoso — Que você não esteja esperando um corpo à la jogador de quadribol... — A insegurança surgiu rápida, como um reflexo antigo que ele ainda não havia desaprendido. Um pensamento breve, mas incômodo. E se ela esperasse algo diferente? Algo mais? Mas não teve tempo de crescer. Antes que pudesse se perder nisso, Weasley encontrou novamente a mão dela. Seus dedos se entrelaçaram aos da melhor amiga com naturalidade, e ele a puxou para perto outra vez, não com ansiedade, mas com uma firmeza que já dizia mais do que qualquer palavra. Dessa vez, não havia nada entre eles. O calor do corpo dela encontrou o dele diretamente, sem barreiras, e Arthur fechou os olhos por um instante, como se precisasse daquele segundo para absorver o impacto. Que foi intenso. Mais do que ele imaginara. Era como se uma corrente invisível percorresse sua pele, despertando cada nervo adormecido, cada sensação que ele aprendera a ignorar ao longo dos anos. A respiração falhou por um segundo, depois voltou mais pesada, mais presente. Arthur sorriu contra os lábios dela antes de voltar a beijá-la, e o beijo, dessa vez, carregava uma diferença. Ainda havia calma, ainda havia aquela doçura que sempre os acompanhara, mas agora vinha entrelaçada a um desejo evidente. Os lábios dele demoravam mais. Insistiam mais. Como se já não quisessem apenas provar, queriam sentir. As mãos, antes contidas, começaram a explorar com mais liberdade. Ainda havia respeito no toque, ainda havia atenção, mas também havia uma curiosidade nova, mais ousada, como se o ruivo finalmente se permitisse descobrir o que sempre evitara. Os passos até a cama tornaram-se lentos, descompassados. Nenhum dos dois parecia disposto a interromper o beijo para caminhar corretamente. Era quase desajeitado mas também profundamente verdadeiro. Cada pequeno movimento era guiado mais pelo impulso do que pela lógica, mais pelo querer do que pelo pensar.
Arthur conduziu Molly com uma das mãos firme em sua cintura, enquanto a outra deslizava pelas costas da ruiva quase sem perceber, desenhando trajetos lentos sobre a pele agora descoberta. Havia algo distraído naquele toque — não desatento, mas entregue — como se o próprio corpo dele tivesse passado a agir por vontade própria, guiado por uma necessidade silenciosa de continuar sentindo. Os lábios se encontravam, afastavam-se apenas o suficiente para um suspiro compartilhado, um sorriso leve, um quase comentário que nunca se completava, e então voltavam a se buscar, irrevogáveis. Era como se existisse um ímã invisível entre eles, algo que não permitia distância por muito tempo. Mais um passo e depois outro, até que a parte de trás das pernas de Molly encontrou a cama. Arthur diminuiu o ritmo imediatamente, não por hesitação, mas por instinto. Sempre fora assim com ela. O cuidado vinha antes de qualquer coisa, mesmo agora, quando tudo dentro dele parecia pedir pressa. A mão em sua cintura se firmou um pouco mais, sustentando-a com segurança enquanto o colchão cedia sob seu peso. Cada gesto carregava intenção. Como se até aquele momento simples merecesse a mesma delicadeza de uma promessa não dita. O bruxo permaneceu de pé diante dela por um instante. O silêncio que se formou não era desconfortável. Pelo contrário, era preenchido pelo som das respirações ainda descompassadas, pelo leve ranger do colchão, pela luz morna que atravessava a janela e desenhava contornos dourados ao redor do corpo dela. Os olhos do ruivo voltaram a percorrê-la. Devagar. Sem pressa. Sem tentar disfarçar. Havia uma honestidade quase desarmadora naquele olhar, algo que não era apenas admiração, mas fascínio. Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios, como se ele próprio não acreditasse no que via. — Por Merlin, Molly… — Murmurou, balançando levemente a cabeça. — Você é a mulher mais bonita que eu já vi. — Não havia exagero, nem enfeite, porque qualquer tentativa de tornar aquilo mais bonito pareceria insuficiente diante do que ele realmente sentia. Arthur deu mais um passo. Os olhos passaram pelo rosto dela, demorando-se em cada detalhe antes de voltarem aos dela como se precisasse daquele contato para se manter ancorado, mesmo enquanto tudo dentro dele começava a se transformar. — Você faz ideia do efeito que tem sobre mim? — Perguntou, a voz mais rouca agora, mais próxima, quase se perdendo entre um suspiro e outro. Sem quebrar o contato visual, o grifano levou as mãos até a própria cintura. Os movimentos eram lentos, quase cautelosos. Mas havia algo diferente ali; não era mais apenas timidez. Era consciência. Despindo-se não apenas da calça, mas de tudo aquilo que sempre o manteve contido. O gesto carregava mais do que desejo, carregava confiança. Vulnerabilidade. Um pedido silencioso para que ela o visse como ele realmente era. Por um breve instante, os olhos do bruxo buscaram os dela com uma intensidade mais profunda, quase como se perguntasse, sem palavras, se ainda era suficiente, se ainda podia continuar com aquele ato.
O tecido da calça deixou de ser uma barreira. Era como se, ao se livrar daquela penúltima camada, Arthur também abandonasse a versão de si mesmo que sempre medira cada gesto com cuidado excessivo. O ar entrou mais fundo em seus pulmões, e o calor se espalhou por seu corpo inteiro, não como um incêndio descontrolado, mas como o sol finalmente rompendo um inverno longo demais. Ali, ele existia por inteiro. Sem reservas. Sem disfarces. O ruivo permaneceu diante de Molly por alguns segundos a mais, como se quisesse gravar aquela imagem em algum lugar onde o tempo não pudesse tocar. Havia algo quase solene naquele instante — não pela ausência de desejo, mas pela intensidade dele. A mão do bruxo desceu até encontrar a dela e os dedos se entrelaçaram com lentidão, como se aquele simples gesto ainda carregasse toda a história que tinham construído juntos. Arthur levou a mão dela aos lábios, depositando um beijo demorado sobre seus nós, antes de guiá-la com suavidade até que se deitasse por completo. Então, ele a acompanhou. Uma mão firme em sua cintura, sustentando-a com segurança, enquanto a outra se apoiava ao lado de seu corpo quando o colchão finalmente cedeu sob o peso dos dois. O peito subia e descia com mais intensidade do que ele gostaria de admitir. A respiração vinha mais pesada, mais presente, como se o próprio corpo tivesse decidido ignorar qualquer tentativa de manter a compostura. Os olhos percorriam o rosto da Prewett com uma atenção quase dolorosa, onde cada detalhe, cada mínima mudança na expressão, cada variação na respiração parecia importante demais para ser desprezada. Arthur não desviou o olhar. Havia algo profundamente sério na forma como a observava, não como quem apenas deseja, mas como quem reconhece o valor do que tem diante de si. Como se Molly fosse mais do que um momento, fosse uma escolha. Ainda assim, por trás daquele silêncio carregado, algo nele já havia transformado. A respiração denunciava. O calor que corria sob a pele também. E, principalmente, a forma como suas mãos começaram a se mover. Mais seguras. Mais presentes. Menos contidas. Logo, ele se inclinou devagar — não por hesitação, mas por querer sentir. Cada centímetro de aproximação parecia importar, como se o caminho até ela fosse tão essencial quanto o destino. A mão em sua cintura a manteve próxima enquanto o corpo do grifano se acomodava sobre o dela, eliminando qualquer espaço restante. O contato arrancou um suspiro baixo, involuntário, que escapou antes que ele pudesse contê-lo. E, então, a beijou, diferente de todas as outras vezes. Agora havia menos contenção. Os lábios do Weasley encontraram os dela com uma intensidade mais consistente, mais viva, como se cada beijo fosse uma tentativa de traduzir algo que já não cabia mais em pensamento. A boca demorava, explorava, buscava resposta e, quando a encontrava, aprofundava sem receio, como alguém que finalmente compreende o caminho e escolhe não voltar atrás.
Ele queria que ela sentisse. Cada parte. Cada intenção. Cada pedaço dele. Arthur inclinou levemente a cabeça, prolongando o beijo até o ar começar a faltar. Quando se afastou, não foi por escolha, foi necessidade e, ainda assim, não se distanciou. Os lábios desceram imediatamente, encontrando o contorno do maxilar da ruiva, deslizando até o pescoço com uma lentidão quase provocadora. Ele respirou ali por um instante, o ar quente contra a pele dela, como se precisasse daquele ponto exato para se manter firme ou talvez para se perder de vez. Os beijos ali já não eram apenas carinhosos. Eram demorados. Insistentes. Carregados de intenção. A língua deslizou devagar pela pele aquecida, seguida pelos lábios que se fechavam com mais firmeza, como se ele quisesse sentir melhor, mais profundamente, cada reação dela. O leve roçar dos dentes veio em seguida, não o suficiente para machucar, mas o bastante para provocar, para marcar presença, para arrancar dela algo que ele agora buscava quase instintivamente. E cada resposta dela… alimentava algo nele. Arthur aprendia rápido ou talvez sempre soubera, apenas nunca tivera coragem de ser assim. As mãos deslizaram mais uma vez pelo corpo dela, agora com menos cautela e mais desejo. Ainda havia respeito, mas agora vinha acompanhado de uma vontade clara de explorar, de descobrir, de fazê-la sentir tanto quanto ele sentia. O cuidado não desapareceu, ele apenas mudou de forma Porque agora, mais do que preservar, Arthur queria dar. Queria que Molly sentisse. Tudo. Sem que ele precisasse pedir. Sem que ela precisasse duvidar. As mãos de Arthur firmaram-se com mais segurança sobre o corpo de Molly, uma ainda sustentando sua cintura, enquanto a outra deslizava lentamente pela lateral de seu torso, acompanhando o caminho que sua boca já começava a trilhar. Quando desceu mais, não foi por impulso. Foi como se o próprio corpo soubesse exatamente para onde ir. Os lábios do ruivo encontraram o seio da Prewett com uma reverência que durou apenas um instante, o tempo exato antes do desejo assumir o controle. Ele a beijou devagar, sentindo, como se quisesse guardar aquela sensação para sempre. A língua deslizou com mais segurança sobre o bico, explorando o calor da pele dela, testando reações, demorando-se onde percebia respostas mais intensas. Os lábios alternavam entre suavidade e pressão, enquanto os dentes, vez ou outra, roçavam com provocação contida, arrancando pequenas reações que ele absorvia quase como combustível. E aquilo o excitava. Extremamente. O quadril do grifano se ajustou ainda mais entre as pernas da ruiva, aproximando-se sem esforço consciente, como se o próprio corpo buscasse aquele contato com urgência crescente. A pressão aumentou, carregada de uma necessidade que Arthur já não fazia questão de esconder. O calor entre eles tornava-se quase palpável, e a respiração dele vinha mais pesada, irregular, acompanhando cada movimento da boca, das mãos, do próprio corpo. Ele não pensava mais. E isso ficava evidente. A mão em sua cintura apertou-se com mais firmeza, puxando-a contra si, enquanto a outra subia brevemente até o rosto dela, como se precisasse daquele ponto de equilíbrio entre cuidado e desejo — um lembrete silencioso de que ainda era ele, mesmo se perdendo.
E, então, sem quebrar o ritmo, seus dedos encontraram a última barreira que ainda a cobria. O gesto foi lento. Quase deliberado demais. Como se aquele instante carregasse mais significado do que qualquer outro até então. Arthur ergueu o olhar por um segundo, encontrando os olhos de Molly, não pedindo, mas oferecendo a chance de parar. A peça restante cedeu sob seus dedos e foi retirada com cuidado, como se estivesse desvendando algo precioso demais para ser tratado com pressa. Quando voltou a encará-la, havia algo diferente no olhar do bruxo. Não era apenas desejo. Era fascínio. Era tesão. Era a certeza silenciosa de que estava diante de algo que não queria apenas ter, queria sentir, entender, aprofundar-se em cada detalhe. Arthur não pensou quando desceu mais a boca pelo corpo dela. Pensar já não fazia parte daquele momento. Havia apenas instinto e algo mais profundo. Uma necessidade quase urgente de permanecer ali, de sentir cada mínima reação que a melhor amiga deixava escapar, como se aquilo fosse a única coisa capaz de guiá-lo. O calor aumentava à medida que ele se aproximava. Não era apenas temperatura. Era intensidade. Era vida. E ele queria isso. Queria provocar. Queria descobrir. Queria vê-la reagir. A boca dele encontrou a intimidade com a mesma mistura de reverência e desejo que vinha guiando tudo até ali. Os lábios tocaram primeiro, demorando-se como se ele precisasse sentir antes de agir. A respiração falhou de leve contra a pele quente dela, e o som que escapou foi baixo, quase um reconhecimento involuntário de que já estava completamente envolvido. E, então ele começou. Sem pressa. Sem perder o controle mas também sem tentar recuperá-lo. A língua deslizou com atenção quase obsessiva sobre o clitóris, como se cada movimento fosse uma pergunta silenciosa e o corpo dela, a resposta. Arthur aprendia através das reações, ajustando, voltando, insistindo onde percebia mais intensidade. Era um diálogo sem palavras. E ele a escutava. Com o corpo inteiro. O ruivo encontrou um ritmo. Lento. Constante. Como alguém que se recusa a apressar o melhor momento de uma história. E permaneceu ali. Os lábios acompanhando, a língua explorando com mais precisão, retornando, testando novamente, como se quisesse memorizar cada detalhe — o que a fazia reagir mais, o que alterava sua respiração, o que arrancava dela aquilo que ele agora buscava sem disfarçar. E, quando encontrou… Arthur percebeu. Não porque pensou logicamente, mas porque sentiu. Um arrepio percorreu sua espinha, o peito se expandiu num suspiro mais profundo enquanto ele mantinha o movimento, agora mais seguro, mais consciente, mais intencional. — …Molly… — Murmurou o nome dela, a voz abafada, irreconhecível. As mãos dele se ajustaram nas coxas dela, segurando com mais firmeza, não para contê-la, mas para mantê-la ali, próxima, como se qualquer centímetro de distância fosse desperdício. Ele não parava. Não queria parar. Porque havia algo quase hipnotizante em vê-la reagir, em saber que era ele quem causava aquilo. Havia uma determinação silenciosa agora, algo quase teimoso na forma como o ruivo permanecia ali, como se tivesse assumido para si mesmo um propósito claro que era fazê-la sentir prazer.
Os lábios continuavam, insistentes, guiados por cada resposta que Molly oferecia sem palavras. A língua explorava com precisão, voltando a massagear o clitóris que parecia respondê-lo cada vez mais ao inchar-se sob seus lábios. A respiração dele vinha mais pesada agora, misturando-se ao calor que se acumulava entre eles, ao ritmo que ele mantinha com uma constância quase obstinada. Havia algo profundamente envolvente na forma como ele reagia às pequenas mudanças dela — um suspiro mais alto, uma tensão súbita, o corpo se arqueando levemente. E ele buscava isso. Queria mais. Queria ver até onde podia levá-la. O ruivo fechou os olhos por um instante, deixando escapar um gemido baixo, quase rouco, enquanto mantinha o ritmo, agora com uma intensidade que já não tentava esconder. — …Isso… — Murmurou, quase sem perceber, como se estivesse respondendo mais a ela do que a si mesmo. — Quero te sentir na minha boca. — Ele não pararia. Não enquanto não sentisse. Não enquanto o corpo dela não cedesse sob seus lábios, não enquanto não percebesse aquela quebra, o instante exato em que o controle escapa, em que a tensão se dissolve, em que o prazer toma tudo de uma vez. A respiração dele se misturava à dela, mais pesada, mais irregular, como se estivesse vivendo cada sensação junto com ela. O mundo ao redor já não existia. Não havia quarto, não havia tempo, não havia amanhã. Havia apenas aquele instante. E eles dois dentro dele. E quando finalmente veio, Arthur percebeu de imediato. O estremecer. O relaxar. A forma como o corpo dela respondeu de um jeito diferente. O ruivo desacelerou aos poucos, sem romper o contato de imediato, como se ainda quisesse permanecer ali mais um instante, absorvendo o que acabara de acontecer. A respiração vinha pesada, o peito subindo e descendo com intensidade, enquanto ele, enfim, se permitia parar. Devagar. Sem pressa. Como alguém que respeita o próprio momento. Arthur ergueu o rosto lentamente, os olhos buscando os dela mais uma vez. Havia algo diferente ali, não apenas desejo, mas uma satisfação silenciosa, quase orgulhosa. Não só de si. Mas dela. — Molly do céu… — Murmurou, um sorriso leve surgindo, ainda ofegante — Acho que… fiz certo, né? — A frase veio baixa, carregada de um humor suave que contrastava com tudo o que haviam acabado de viver. O ruivo subiu lentamente, o corpo ainda próximo ao dela, deixando um rastro de calor e umidade no caminho de volta. Os lábios encontraram novamente a pele, depois o pescoço até finalmente alcançarem os dela para um beijo rápido, compartilhando o sabor dela com ela mesma. — Você é deliciosa, sabia?
Conseguia enxergar um reflexo de si mesma na resistência que ele demonstrava em aceitar aquele elogio, ainda que fosse sincero e viesse diretamente do coração. Em momentos como aquele, percebia o quanto se pareciam em certos aspectos, como na forma que dificilmente aceitavam aquilo que os outros enxergavam de bom neles. Talvez ambos tivessem passado tempo demais negligenciando o amor-próprio, e lamentava profundamente por isso. De qualquer forma, não aceitaria que Arthur se diminuísse, pois mantinha vivo o objetivo de fazê-lo enxergar a si mesmo através de seus olhos. Sem hesitar, ela assentiu veementemente com a cabeça em resposta à pergunta feita com nervosismo, pintando no semblante uma expressão que reforçava a obviedade da beleza do rapaz. A verdade era que pouco importavam os tecidos que o vestiam, pois a beleza dele era algo inerente, espontâneo e capaz de se destacar independentemente de qualquer adorno. Mas seria mentira dizer que vê-lo fora do uniforme não provocava algo dentro dela. Havia algo naquela visão que despertava sentimentos inquietos, e a explicação ia além do interesse que crescia dentro dela a cada dia. Weasley, como a pessoa solar que era, parecia pertencer às cores vivas. Com sua natureza calorosa e luminosa, combinava muito mais com tons vibrantes do que com o preto e as tonalidades sóbrias que dominavam os corredores do castelo. Não era exagero dizer que seus olhos pareciam ganhar ainda mais vida em contraste com o lavanda da camisa, realçando aquilo que já havia de naturalmente marcante nele. Diante da menção do brechó, Molly franziu ligeiramente o cenho, pois não compreendia a relevância daquele detalhe. Superficialidades como o valor ou de uma roupa nunca tiveram importância para ela, e se perguntava se em algum momento havia falhado em deixar isso evidente. Contudo, reconhecia que o elitismo era uma presença cada vez mais forte na realidade em que viviam e compreendia o quanto isso poderia afetá-lo.
Seu sorriso ganhou um calor ainda mais intenso e logo se transformou em uma risada leve ao ouvir a anedota sobre a Sra. Weasley. Ao que tudo indicava, a doçura de Arthur era um traço herdado de família. ── Sua mãe estava certa e tem muito bom gosto! ── Teceu o elogio que se estendia à matriarca, o que imediatamente a fez pensar em como ela se sentiria se estivesse presente no recinto durante o baile. ── Tenho certeza de que vai adorar saber que decidiu vestir uma peça escolhida por ela em uma noite tão especial. ── Aquele era mesmo um gesto significativo, que comoveria até a mulher de coração mais gélido. Mais uma vez, permitiu que o olhar vagasse pela figura masculina, assimilando toda a elegância e beleza que ele ostentava ali. ── Não importa onde foi comprada e quanto custou, pois hoje essa camisa está te vestindo e te vestindo lindamente bem. ── As palavras deixaram seus lábios em um tom mais suave do que pretendia, como se deslumbrar-se com ele por um tempo longo demais fosse suficiente para esgotar seu fôlego. Quando se deu conta, imersa nos próprios pensamentos impróprios, percebeu como ele retribuía o mesmo olhar atento e contemplativo que o seu, percorrendo o vestido que apenas se mantinha no lugar graças à destra. Quando ouviu o murmúrio, Prewett instintivamente prendeu a respiração em antecipação pelo que ele comentaria a respeito de sua aparência. Se importava com a opinião de Arthur. E, provavelmente, apenas e unicamente com a dele.
Deslumbrante. Como era de se esperar vindo dele, o elogio era tão educado quanto lisonjeiro, arrancando-lhe um sorriso bobo e acrescentando ainda mais cor às maçãs de seu rosto. ── Obrigada. ── Agradeceu, visivelmente encabulada. Por alguns segundos, desviou o olhar para os próprios pés, pois fitá-lo diretamente nos olhos parecia intimidador demais. Mas logo se viu procurando novamente aquele brilho tão característico nos olhos alheios, aquela luz que apenas ele parecia capaz de transmitir. E, naquela noite, parecia ainda mais viva. Os elogios que vieram em seguida fizeram suas bochechas arderem ainda mais, mas também arrancaram dela uma risada divertida. ── Ai, que exagero! ── Achava difícil acreditar que um vestido novo possuísse poderes tão extraordinários, capazes de fazer alguém — principalmente Arthur — esquecer até o próprio nome. ── Mas, irritantemente deslumbrante? ── Tentando afastar o foco de si mesma, sem saber por quanto tempo ainda conseguiria suportar antes de ser consumida pelo constrangimento, Molly recorreu a uma brincadeira como distração. ── Se for se irritar com alguém, se irrite com a minha mãe, pois foi ela quem escolheu meu vestido também. A sua não é a única com bom gosto. ── Disse enquanto sorria.
Estivera tão distraída pela tentadora faixa de pele revelada pela abertura do colarinho que demorou a perceber o efeito que seu olhar insistente causava no rapaz. Quando finalmente se deu conta, já era tarde demais. O rosto de Arthur parecia tomado por um calor repentino, tingido de um vermelho intenso que rivalizava com o do brasão da Grifinória iluminado pelos vitrais do salão comunal. O movimento discreto feito por ele para fechar um único botão foi a gota d’água para sentir o amargor do arrependimento e da culpa tingir o seu paladar. Por Merlin, seria possível que, mesmo depois de tudo o que haviam confessado um ao outro e dos beijos que compartilharam, ela tivesse conseguido ultrapassar algum limite? Era assim que interpretava a reação dele, e a simples possibilidade fez seu estômago se revirar. Os olhos se arregalaram ligeiramente antes de buscarem refúgio em qualquer outro ponto do cômodo. Engoliu em seco, tentando dissipar o remorso que começava a se alojar em seu peito. Havia um medo quase paralisante em descobrir que seu interesse poderia afastá-lo, que talvez tivesse se deixado levar demais e que, em algum momento, Arthur tivesse mudado de ideia, preferindo preservar apenas a amizade que existia entre os dois. Só de imaginar essa possibilidade, sentia o coração se apertar dolorosamente. Seria como ter tocado as portas do paraíso apenas para vê-las se fecharem diante de si no instante seguinte. Não, não, aquilo não podia estar acontecendo. Não podia ter interpretado tão mal cada palavra, cada gesto e cada sinal que os havia conduzido até ali.
Os pensamentos confusos e autodepreciativos que se atropelavam dentro de sua cabeça só começaram a cessar quando reuniu coragem para encará-lo novamente e percebeu o quão perto ele estava. Foi um acidente? Franzindo levemente o cenho, sem compreender o motivo da pergunta, procurou a resposta no olhar de outrem antes de dirigir sua atenção até o vestido. É claro, o rasgo! Sentindo-se um pouco tola por não ter se situado antes, deslizou a mão da alça danificada e permitiu que as duas extremidades do tecido se desprendessem, revelando o corte que as separava e deixando parte do ombro à mostra, embora tivesse o cuidado de não expor mais do que o necessário. Queria apenas demonstrar a extensão do estrago que o vestido havia sofrido. ── Sim, sim... Sofri um acidente com a decoração do salão e meu vestido foi a única vítima. ── Pestanejou os olhos e a distância que os separava era ainda menor, despertando em seu peito aquele nervosismo agradável que somente a proximidade de Arthur era capaz de gerar. ── Pelo menos não foi fatal, mas descobri que esqueci minha varinha em cima da cama e não consigo fazer nada sem ela. ── Por pouco suas palavras não saíram desconexas, já que o foco de sua atenção jazia no par de olhos que a fitavam, assim como o sorriso enviesado que estava cada vez mais próximo de seus lábios. A tensão se instaurou subitamente entre eles, tornando a respiração de Molly um pouco mais pesada. Também não conseguia ignorar os diabretes que nasciam em seu estômago, agitados e impacientes.
Não estava perdendo a sanidade, sabia identificar exatamente o que o semblante dele comunicava. Ainda assim, a dúvida persistia. Mas havia uma maneira de eliminá-la de uma vez por todas. ── Artie… ── O chamou com a voz aveludada, que tocava o ar com delicadeza, quase não rompendo o silêncio sereno que os rodeava. Ergueu o olhar insinuante para encontrar o dele, magicamente conseguindo disfarçar o nervosismo que ameaçava causar uma torrente de suor na palma de suas mãos. Precisou de um segundo para acumular coragem, sentindo-se diante de um penhasco onde estava prestes a se jogar. ── Eu estava pensando em trocar de vestido. ── O tempo entrou em suspensão e ela já não sabia se focava na própria respiração ou se deveria se preocupar com o fato de conseguir sentir as batidas do próprio coração na garganta. Nunca havia sentido tanto medo, mas queria se arriscar. ── Você quer subir comigo até meu dormitório e me ajudar a tirar este? ── Calculando seus movimentos com malícia, ela estendeu a mão para tocar suavemente o braço do rapaz, deslizando os dígitos sobre a pele dele até que seus dedos se encontrassem em um convite silencioso para guiá-lo até o andar superior. Aquela fora, sem sombra de dúvidas, a atitude mais arriscada que já havia tomado em toda a vida. E nem sequer poderia alegar ter sido impensada ou impulsiva, pois seguia exatamente o desejo que palpitava no peito inquieto enquanto esperava pela resposta.
Arthur sempre acreditou que uma de suas maiores qualidades era saber ouvir. Gostava de prestar atenção nas pessoas e de guardar detalhes que normalmente passavam despercebidos, por isso, era quase humilhante descobrir que toda essa habilidade simplesmente desaparecia quando Molly Prewett resolvia ficar perto demais dele. Ela explicava calmamente o acidente com o vestido, comentava sobre a decoração, sobre a varinha esquecida no dormitório e sobre precisar subir até a torre para resolver o problema, enquanto Arthur travava uma batalha silenciosa contra os próprios olhos. Eles pareciam não aceitar ordens naquela noite. Bastava um segundo de distração para escaparem da conversa e pousarem, quase involuntariamente, sobre o ombro delicadamente revelado pela alça rompida. Não havia nada de impróprio naquela cena. Era apenas seu ombro. Apenas um pedaço de pele que qualquer pessoa sensata ignoraria depois de meio segundo, Arthur, no entanto, descobriu que definitivamente não fazia parte desse grupo de pessoas sensatas. O ruivo obrigou a si mesmo a erguer o olhar. "Olha para os olhos dela, idiota", repetia para si mesmo como quem tentava domar um hipogrifo teimoso. Funcionou por aproximadamente dois segundos porque, dos olhos, sua atenção escorregou para o contorno suave de seu pescoço, onde algumas mechas ruivas repousavam com uma delicadeza quase injusta. Então, vieram seus lábios e, por Merlin, por que eles tinham que parecer tão naturalmente convidativos quando ela sorria daquele jeito? Ele engoliu em seco, desviando o rosto para a lareira apenas para recuperar algum vestígio de dignidade. Sentia-se um completo idiota. Molly estava conversando com ele, confiando nele, dividindo um problema simples, enquanto seu cérebro parecia absolutamente incapaz de processar qualquer informação que não envolvesse a proximidade dela. Mas, quanto mais tentava se concentrar, mais consciente ficava da proximidade entre os dois. Conseguia perceber o perfume suave que sempre parecia acompanhá-la, o modo como ela gesticulava enquanto falava, completamente alheia ao pequeno caos instalado dentro dele. Precisando desesperadamente provar, ao menos para si mesmo, que não passara todo aquele tempo completamente distraído, Arthur pigarreou discretamente e tentou reunir os poucos fragmentos da conversa que ainda restavam espalhados dentro da própria cabeça. — Esse estrago todo por causa de uma decoração? — Perguntou, apontando com cuidado para a alça rompida do vestido e um sorriso tímido surgiu no canto de seus lábios enquanto balançava a cabeça em falsa reprovação. — Acho que os responsáveis deveriam responder por danos ao patrimônio alheio, então. — A piada saiu acompanhada de um pequeno riso nervoso, mais para esconder o próprio constrangimento do que por realmente achar graça. Arthur ainda não sabia exatamente como conseguia conversar com Molly quando, toda vez que ela estava perto, metade de seu cérebro insistia em admirar o quanto ela era bonita, enquanto a outra metade fazia um esforço monumental para parecer um rapaz perfeitamente tranquilo. Até aquele momento, pelo menos, nenhuma das duas partes parecia estar vencendo.
Estava prestes a lançar mais um comentário desajeitado e sem noção sobre decorações criminosas quando ela pronunciou seu apelido. Era profundamente injusto o efeito que aquela única palavra tinha sobre ele. Não era o apelido em si, até porque já o chamavam assim desde pequeno. Seus irmãos, alguns amigos mais próximos, pessoas da família. Nenhuma delas, porém, conseguia fazê-lo soar daquele jeito. Na voz de Molly havia sempre alguma coisa que escapava à lógica. Um carinho que parecia se acomodar entre as sílabas antes mesmo de chegar aos seus ouvidos. Uma amabilidade como se aquele nome tivesse sido feito para existir apenas quando ela o dizia. Seus olhos encontraram imediatamente os dela, como se respondessem antes mesmo que seu corpo tivesse tempo de pensar, e Arthur teve a nítida impressão de que alguma coisa havia mudado. Não sabia dizer exatamente o quê. Existia alguma coisa escondida na maneira como Molly o observava agora. Um brilho novo, mais demorado, que não desaparecia quando seus olhares se encontravam. Antes ela costumava sorrir e continuar a conversa naturalmente, agora havia pequenas pausas, respirações discretamente mais lentas e um silêncio que não era constrangedor, mas cheio de possibilidades. Arthur não conseguia interpretar aquilo sem que sua esperança resolvesse participar da conversa, e esperança era uma criatura perigosíssima pois bastava alimentá-la por um segundo e ela construía um castelo inteiro onde talvez existisse apenas uma pedra. Então, fazia exatamente o que sempre fazia: tentava convencer a si mesmo de que provavelmente estava imaginando coisas. Que Molly era naturalmente carinhosa e que ela tratava todo mundo daquele jeito ou que ele só estava prestando atenção demais porque estava apaixonado pela melhor amiga, e isso claramente afetava o funcionamento normal de seu cérebro.
Logo, veio o restante da frase. Ela comentou que estava pensando em trocar de vestido e Arthur assentiu quase imediatamente. Fazia sentido. Ela subiria até o dormitório, pegaria outro vestido, talvez demorasse alguns minutos escolhendo entre um e outro, enquanto ele permaneceria ali, sentado perto da lareira, esperando por ela. Honestamente, esperaria uma hora inteira se fosse preciso. Não lhe custava absolutamente nada. Na verdade, já estava prestes a dizer "Eu espero você aqui" quando Molly terminou a frase e o convite veio. Seu cérebro, sempre tão rápido para criar teorias mirabolantes sobre castelos duplicados, artefatos trouxas e conspirações, resolveu abandonar completamente suas funções mais básicas. — Ué, mas eu não posso entrar no dormitório feminino quando tem garotas lá... — As palavras foram saindo enquanto seu cérebro ainda processava o restante da frase. E então, bem no meio da explicação que nem ele sabia onde terminaria, a compreensão finalmente chegou. O silêncio caiu sobre ele de uma forma quase cômica. — ... Aaah. — O calor subiu tão depressa pelo seu rosto que Arthur teve certeza de que até as orelhas haviam decidido participar do constrangimento. Sentiu o coração acelerar de uma maneira completamente descontrolada, como se alguém tivesse encantado seu peito com um feitiço e agora ele tentasse desesperadamente escapar dali. A garganta secou e as mãos ficaram inexplicavelmente quentes. Sua mente, que normalmente seguia uma lógica só dele, transformou-se num Salão Comunal durante uma guerra de travesseiros. Ela... Ela tinha mesmo... Não. Será que tinha? Merlin, será que ele tinha entendido completamente errado? Talvez ela só estivesse sendo prática. Devia ser isso. Ela precisava de ajuda com o vestido. Só isso. Era uma amiga pedindo ajuda para outro amigo. Perfeitamente natural. Então, por que ela estava olhando daquele jeito? E por que sua mão continuava repousando tão delicadamente sobre seu braço? E por que seu coração parecia decidido a pedir demissão da função de órgão vital para se transformar em um tambor de banda marcial? Arthur imaginou, durante um único segundo, todas as possibilidades que aquele convite poderia carregar, e imediatamente desejou apagar metade delas da própria cabeça. Não porque fossem ruins, muito pelo contrário, eram boas demais. Assustadoramente boas. E justamente por isso pareciam perigosas. Tinha medo de interpretar um gesto gentil como algo maior. Medo de estragar tudo por querer demais. Medo de atravessar uma linha invisível que ambos vinham contornando com tanto cuidado nas últimas semanas. Arthur sentiu vontade de perguntar umas quinze vezes se ela tinha certeza ou se não seria melhor chamar uma das amigas ou se ele não estaria sendo inconveniente. Ao mesmo tempo, uma parte infinitamente menor e muito mais otimista, sussurrava que talvez Molly simplesmente quisesse que fosse ele. Aquilo bastou para fazê-lo perder completamente a capacidade de formular frases inteligentes. Ele apenas a encarou por alguns instantes, completamente desarmado, antes de deixar escapar um sorriso pequeno, incrédulo, daqueles que surgem quando alguma coisa boa demais acontece e a pessoa ainda não acredita que seja verdade. Então balançou a cabeça em um gesto tímido de concordância.
Arthur sequer lembrava como haviam começado a subir as escadas. Em algum momento, apenas percebeu que seus dedos ainda repousavam entre os dela, deixando-se conduzir naturalmente enquanto Molly caminhava alguns passos à frente. A mão dela era pequena, quente e firme o bastante para fazê-lo sentir que estava exatamente onde deveria estar. Não havia pressa em seus passos, tampouco hesitação, apenas uma confiança silenciosa que fazia o coração do ruivo bater um pouco mais forte a cada degrau vencido. Quando atravessaram a porta do dormitório feminino, o bruxo inevitavelmente lançou um olhar curioso ao redor e encontrou um ambiente acolhedor, iluminado pela luz suave das velas, com colchas coloridas cuidadosamente arrumadas, pequenos objetos pessoais espalhados sobre criados-mudos e um perfume agradável, Arthur sorriu sozinho, balançando levemente a cabeça. — Sabe... — Comentou em tom baixo, quase divertido, tentando aliviar a própria tensão. — Eu passei anos achando que o dormitório feminino era protegido por um dragão, três armaduras encantadas e, talvez, pela própria professora McGonagall escondida atrás de um armário pronta para transformar qualquer aluno curioso numa samambaia. — A risada escapou baixinha. — Confesso que estou um pouco decepcionado. — O humor ajudou por alguns segundos, mas bastou Molly parar uns passos a frente para que o nervosismo voltasse a ocupar cada espaço disponível dentro dele. Arthur permaneceu alguns passos atrás, sem absoluta certeza do que deveria fazer dali em diante. Ela o convidara até ali. Ainda assim, não queria ultrapassar nenhum limite por menor que fosse. Talvez ela esperasse apenas que abrisse o zíper do vestido ou talvez quisesse ajuda para escolher outro e só. Respirou discretamente, aproximando-se dela apenas o suficiente para que sua presença não a surpreendesse, procurando em seus próprios movimentos a mesma delicadeza que Molly sempre demonstrava quando se aproximava dele. Foi então que percebeu que os longos cabelos ruivos caíam exatamente sobre o zíper do vestido. Arthur ergueu lentamente as mãos, dando a ela tempo suficiente para perceber o gesto antes que seus dedos encontrassem as primeiras mechas. O toque foi quase inexistente, leve como quem receava desfazer um penteado cuidadosamente construído. A textura macia dos cabelos deslizou por entre seus dedos com uma facilidade que o fez prender a respiração por um breve instante e enquanto reunia aquelas mechas sobre um dos ombros dela, um perfume o envolveu sem pedir licença e com os cabelos agora repousando cuidadosamente sobre seus ombros, o pescoço e parte de suas costas ficaram livres, revelando apenas o suficiente para que Arthur desviasse rapidamente os olhos antes que sua imaginação resolvesse trabalhar novamente. Sorriu consigo mesmo, quase constrangido pela facilidade com que Molly conseguia deixá-lo sem qualquer linha de raciocínio coerente. — Assim vai ficar mais fácil... — Murmurou com uma voz surpreendentemente baixa, deixando as mãos repousarem ao lado de seu próprio corpo depois de concluir o pequeno cuidado, sem saber muito bem o que fazer com elas. — Então... Já decidiu qual vestido vai colocar... ou ainda está aceitando sugestões de alguém cujo maior conhecimento em moda é saber diferenciar uma gravata torta de uma gravata muito torta? — Brincou e permaneceu imóvel por um instante, como se qualquer movimento em falso pudesse romper a vulnerabilidade que parecia envolver os dois naquele momento.
Porém, bastou um segundo para que sua coragem resolvesse dar alguns passos à frente da prudência. Com um cuidado quase reverente, Arthur diminuiu apenas mais um pouco a distância entre eles, o suficiente para que suas palavras não precisassem viajar muito pelo quarto silencioso para alcançar a orelha dela. Quando falou, sua voz saiu baixa, naturalmente mais rouca do que pretendia, carregando um carinho que ele já não conseguia esconder. — Mas uma coisa eu posso garantir... Que independentemente do vestido que escolher, qualquer um vai ficar lindo em você. — A frase escapou com uma sinceridade, sem qualquer exagero. Então inclinou-se apenas o suficiente para que sua presença pudesse ser percebida. O coração batia tão alto que Arthur tinha a impressão de que Molly seria capaz de ouvi-lo antes mesmo que ele dissesse qualquer palavra. Ainda assim, venceu a própria hesitação e roçou os lábios de leve contra a maçã de seu rosto. Foi um beijo breve, quase tímido, delicado o bastante para parecer uma pergunta. Apesar de tudo o que acontecera entre eles nas últimas semanas, uma parte dele continuava temendo interpretar um gesto de Molly da maneira errada e, justamente por isso, estragar algo que lhe era precioso demais. O sorriso que surgiu em seu rosto foi pequeno, incrédulo, quase infantil. Era como se, pela primeira vez desde que começara a se apaixonar por ela, Arthur percebesse que talvez não estivesse caminhando sozinho. — Na verdade... — Murmurou. — Você ficaria bonita até de pijama. — A frase arrancou dele uma risada baixa, tímida, daquelas que escapavam sempre que o coração corria mais depressa do que a própria coragem. Arthur sentiu o peito apertar de um jeito estranho, quase dolorosamente bonito. Depois de tantos dias imaginando como seria aquele momento, descobriu que a realidade tinha um detalhe que sua imaginação jamais conseguira reproduzir: o medo de estragar tudo. Bastava um gesto precipitado para transformar aquela proximidade em constrangimento. Bastava interpretar errado um olhar, um sorriso, uma respiração mais demorada. Mas, ainda assim, ela permanecia ali. Sem pensar muito mais, levantou lentamente uma das mãos até encontrar a dela, entrelaçando seus dedos com cuidado. Com a outra, roçou delicadamente seu braço, convidando-a a voltar-se completamente para ele. Agora estavam frente a frente. Arthur não disse absolutamente nada, apenas a olhou. Era estranho pensar que durante tantos anos bastara chamá-la de melhor amiga, quando agora aquela definição parecia pequena demais para tudo o que ela despertava nele. Seus olhos passearam pelo rosto de Molly como se quisessem gravar cada detalhe na memória. A curva suave de seu sorriso, as sardas discretas e o brilho tranquilo que havia em seu olhar. Depois, quase sem querer, desceram até seus lábios. Será que podia? Será que aquilo era real? Será que, se a beijasse outra vez, ela continuaria ali quando abrisse os olhos? Sem coragem para transformar todas aquelas perguntas em palavras, Arthur fez a única coisa de que era capaz: aproximou-se apenas alguns centímetros e roçou os lábios nos dela em um beijo tão breve que mal podia ser chamado de beijo. Foi quase um selar de promessas, delicado e hesitante, como quem precisava confirmar que não estava imaginando tudo aquilo. Quando se afastou, continuou perto o bastante para encontrá-la outra vez, observando sua expressão com esperança. Um sorriso pequeno, absolutamente rendido, que parecia dizer tudo o que ele não conseguia colocar em palavras. Ela continuava ali e, naquele instante, alguma coisa dentro dele finalmente relaxou.
Então, a mão que ainda segurava a dela apertou seus dedos com um carinho quase imperceptível, enquanto a outra voltou lentamente até seu ombro. Com toda a delicadeza do mundo, encontrou a alça intacta do vestido entre os dedos e, esperou apenas um instante, certificando-se de que Molly permanecia confortável com sua proximidade. Só então deixou que o tecido deslizasse devagar pelo ombro, acompanhando naturalmente o movimento da outra alça já rompida. O vestido afrouxou suavemente, acomodando-se um pouco mais abaixo, enquanto Arthur mantinha toda a atenção nela, muito mais preocupado em acompanhar suas reações do que no próprio gesto. Por um momento, limitou-se a admirá-la. Não havia urgência em seus olhos. Havia encanto. Um daqueles encantamentos silenciosos que fazem alguém esquecer completamente onde está. — Acho que passei metade da minha vida imaginando como seria ter você tão perto... — Confessou, a voz saindo mais baixa do que pretendia e um sorriso emocionado apareceu em seu rosto. — E, de algum jeito... a realidade conseguiu ser ainda melhor do que qualquer coisa que eu inventei na minha cabeça. — Aquelas palavras pareciam ter levado embora o último vestígio de insegurança. Arthur voltou a erguer os olhos para os dela e, dessa vez, não havia dúvidas e nem perguntas. Levou uma das mãos até seu rosto, acariciando sua face com o polegar enquanto diminuía novamente a distância entre os dois. Não havia qualquer impulso ou precipitação em seus movimentos, era apenas a certeza tranquila de alguém que finalmente encontrara coragem para seguir o caminho que seu coração percorria havia muito tempo. Levou uma das mãos lentamente até sua cintura, atraindo-a para mais perto em um gesto firme, porém sutil, enquanto a outra subia por suas costas até repousar entre suas escápulas. A proximidade fez com que suas respirações voltassem a se misturar, e Arthur sorriu de leve ao sentir que já não precisava esconder o quanto desejava permanecer ali.
Quando seus lábios encontraram os dela novamente e, dessa vez, não havia o cuidado hesitante de quem experimentava um sonho pela primeira vez. O beijo nasceu carregado de tudo o que ele passara semanas tentando esconder: da saudade que sentia mesmo quando ela estava por perto, da vontade constante de encurtar a distância entre os dois, do desejo quase desesperador de fazê-la entender, sem precisar de uma única palavra, o quanto ela significava para ele. Os lábios se encontraram com mais convicção, mas sem perder a delicadeza que sempre existira entre eles. Arthur a envolveu em um abraço instintivo, diminuindo o espaço que ainda restava entre seus corpos, como se receasse que aquele instante pudesse escapar caso a soltasse cedo demais. Seus dedos apertaram levemente o tecido de suas costas, em um gesto quase involuntário, enquanto a outra mão permanecia junto ao seu rosto, acariciando-lhe os cabelos com uma ternura que contrastava com a intensidade daquele momento. O beijo demorou-se mais do que qualquer um dos anteriores. Não porque existisse pressa, mas porque, pela primeira vez, Arthur não queria interromper nada. Era como reencontrar alguém que, sem perceber, ele já procurava havia muito tempo. Quando finalmente afastou o rosto apenas alguns centímetros, ainda permaneceu com a testa encostada na dela. Respirava um pouco mais depressa e um sorriso pequeno, completamente rendido, surgiu em seus lábios. — Posso... te ajudar com isso? — Suas mãos encontraram, com extremo cuidado, o pequeno fecho do zíper nas costas do vestido. Os dedos demoraram um segundo a mais do que o necessário, não por insegurança sobre como fazê-lo, mas porque queria ter certeza de que cada gesto seria gentil e exatamente do jeito que ela esperava. Só então começou a deslizar o zíper lentamente para baixo, num movimento contínuo e cuidadoso, sem qualquer pressa, permitindo que o tecido relaxasse aos poucos. Sem esperar resposta, voltou a encontrá-la em um novo beijo, ainda envolvido pelo mesmo encantamento, como se o restante do castelo tivesse desaparecido e existissem apenas os dois, o silêncio da torre e a sensação extraordinária de finalmente poder demonstrar, sem reservas, tudo aquilo que durante tanto tempo permanecera apenas em seu coração.
O baile vinha sendo muito mais agradável do que Molly esperava, após toda sua ajuda na organização como parte da monitoria. Depois de semanas em que o castelo fora tomado por mistérios, teorias e inquietação, havia algo reconfortante em ver o Salão Principal cheio de música, risadas e alunos tentando se convencer de que a vida ainda era normal e merecia ser desfrutada. Faixas das casas atravessavam o teto encantado, refletindo a luz quente de centenas de lanternas mágicas suspensas sobre o recinto e, entre elas, pequenos leões dourados e as demais criaturas representadas nos brasões das casas cruzavam o salão em voo constante, distribuindo fitas, flores e outros adornos temáticos aos convidados. Infelizmente, um deles parecia ter decidido que Prewett precisava desesperadamente de uma fita vermelha presa ao vestido. Ela só percebeu sua aproximação quando algo dourado passou zunindo perto de sua cabeça e virou-se a tempo de encontrar a criatura pairando diante dela com um longo laço escarlate preso entre os dentes. Antes que pudesse reagir, o animal diminuto avançou em sua direção. Tentando impedir que se aproximasse demais, a garota ergueu o braço e girou levemente o corpo para o lado. O problema foi que o movimento aconteceu exatamente quando uma das garras do leão encontrou a alça do vestido. O tecido cedeu com um estalo seco, suficiente para fazê-la parar imediatamente. Por um instante apenas ficou imóvel, olhando para o próprio ombro enquanto tentava entender se aquilo realmente havia acontecido. Sim, havia. O leão pareceu perceber o desastre que causara, pois soltou a fita no mesmo instante e desapareceu entre as decorações antes que pudesse ser responsabilizada pelo estrago deixado para trás. Uma lufada de ar despontou de seus lábios, como única demonstração de insatisfação. Depois de verificar rapidamente a extensão do estrago, concluiu que não era algo impossível de resolver, mas também não era o tipo de problema que poderia ignorar até o fim da noite. Com uma das mãos segurando o vestido no lugar, tateou a roupa em busca de sua varinha e sentiu o estômago afundar ao lembrar onde ela estava: sobre sua cama, esquecida no dormitório desde o início da noite. Aquilo a fez suspirar. Depois de passar horas ajudando colegas a se arrumarem, encontrando acessórios perdidos e lidando com pequenos desastres de última hora, acabara saindo às pressas sem levar consigo a única coisa capaz de resolver o problema em segundos. Sem alternativa melhor, decidiu voltar até a torre da Grifinória, onde poderia reaver o objeto e remendar o estrago sofrido.
O caminho foi tranquilo, pois a maior parte dos alunos continuava concentrada no baile, o que deixava os corredores incomumente silenciosos. O som da música foi desaparecendo aos poucos conforme ela subia as escadarias, substituído pelo crepitar distante de tochas que iluminavam os corredores e pelo murmúrio ocasional dos retratos espalhados pelo castelo. Quando finalmente atravessou o retrato da Mulher Gorda, já pensava em qual vestido poderia usar para substituir o primeiro sem precisar passar muito tempo escolhendo, se assim fosse necessário. Talvez um dos que havia deixado no fundo do armário no começo do ano. Talvez algo simples. Qualquer coisa serviria. Foi só ao entrar na sala comunal que seus pensamentos foram interrompidos. A luz da lareira espalhava reflexos dourados pelos sofás e pelas paredes arredondadas da torre, iluminando o ambiente quase vazio. Quase. Porque próximo ao fogo, completamente solitário e aparentemente tão distante da festa quanto ela própria naquele momento, avistou Arthur. Seu cenho se franziu e os passos imediatamente recalcularam a rota para caminhar até ele. ── Arthur?! O que faz sozinho aqui? ── Perguntou, visivelmente preocupada. Sua mente sempre parecia esperar o pior quando encontrava algum de seus colegas isolados pelo castelo, principalmente durante festividades como aquela. ── Tá tudo bem? ── Conforme a distância entre eles diminuía, os olhos se iluminaram ao vislumbrarem as roupas que ele vestia. Estava tão elegantemente charmoso que, por um instante, até seu coração pareceu tirar um segundo das batidas para admirá-lo por completo. ── Uau, você está tão elegante. ── Observou as tramas da camisa lavanda, admirando o trabalho refinado presente em cada detalhe da peça. Contudo, ao alcançar a abertura deixada pelos botões desabotoados junto ao colarinho, sentiu a respiração se tornar inesperadamente mais pesada. A partir daquele momento, seus pensamentos escaparam de qualquer tentativa de controle que pudesse fazer. Antes que percebesse, sua imaginação já preenchia aquilo que permanecia escondido sob o tecido delicado. Aquela pequena fração exposta era tão pequena quanto cruel, revelando o bastante para estimular algo dentro dela, sem realmente entregar demais. Molly engoliu em seco e forçou o olhar a seguir adiante. Não adiantava negar, depois de tudo o que acontecera entre eles, tornara-se impossível enxergá-lo com os mesmos olhos de antes. ── Adorei a camisa. ── A voz soou um pouco frágil, quase trêmula. ── Essa cor fica linda com o seu... É... Com os seus... ── Tropeçando nas próprias palavras e se atrapalhando com os gestos apressados das mãos, quase deixou escapar as alças rasgadas do vestido que mantinha presas entre os dedos. O calor que subiu por seu rosto foi inevitável, tingindo de leve as maçãs de suas bochechas. ── ...os seus olhos. ── Não importava o que dissesse, seu olhar ávido insistia em encontrar o caminho de volta à parcela de pele revelada, o que a fazia se sentir profundamente inapropriada. Aquele era seu melhor amigo, não um delicioso sapo de chocolate na vitrine da "Dedos de Mel".
Arthur estava preparado para mentir. Não uma mentira elaborada. Não uma daquelas que exigiam planejamento, álibi e talento. Apenas a mentira simples e universal de qualquer aluno de Hogwarts que fosse encontrado sozinho durante uma festa. "Estou bem." Era isso que pretendia dizer. Por que o que mais poderia responder? Que estava sentado diante da lareira refletindo sobre a própria existência? Que estava questionando se parecia ridículo em roupas que custaram menos do que provavelmente custava um único acessório usado por metade das pessoas naquele baile? Que estava se perguntando se alguém perceberia que aquela camisa tinha vindo de um brechó do Beco Diagonal encontrado pela mãe durante uma de suas caçadas quase mágicas por pechinchas? A verdade era que Arthur nunca tinha se importado muito com roupas. Capas eram capas e uniformes eram uniformes. Todo mundo parecia mais ou menos igual dentro deles. Mas aquela noite era diferente. Naquela noite todos pareciam ter saído diretamente das páginas de alguma revista elegante do Profeta Diário. Vestidos impecáveis e tecidos que provavelmente tinham nomes que Arthur nem conhecia. E, pela primeira vez em muito tempo, o ruivo sentiu uma pequena insegurança mordiscando seus pensamentos. Então, ouviu a voz dela e antes mesmo de virar o rosto já sabia exatamente quem era. Entre centenas de vozes em Hogwarts, ele reconheceria a de Molly em qualquer lugar, talvez até dormindo ou inconsciente. O simples som dela já foi suficiente para fazer algo dentro dele relaxar. E, então, veio o elogio tão simples, tão natural, tão... Molly. E, por Merlin, era exatamente o que ele precisava ouvir. O sorriso surgiu fácil porque aquilo era outra coisa absurda sobre ela. Molly sempre parecia encontrar a frase certa. Não importava se ele estava feliz, preocupado, confuso ou prestes a entrar em colapso por causa de um filho hipotético surgido através de uma anomalia temporal. Ela sempre sabia. — Você acha mesmo? — A pergunta saiu antes que pudesse impedir. Havia até um pequeno riso nervoso misturado nas palavras e Arthur puxou distraidamente uma das mangas da camisa. — Porque essa roupa foi encontrada num brechó. — Confessou e a voz saiu mais baixa do que pretendia. — Minha mãe jurou que era um achadinho incrível. — O ruivo inclinou levemente a cabeça. — O que normalmente significa que custou três galeões e uma negociação de quarenta minutos. — O sorriso aumentou e os olhos baixaram brevemente para o tecido. — Então, eu não tenho a menor ideia se isso é elegante mesmo ou se estou vestido como o tio distante de alguém que vende caldeirões usados. — Mas era impossível continuar pensando na própria roupa porque finalmente seus olhos pousaram nela de verdade e, então, todo o resto desapareceu.
Arthur já havia visto Molly centenas de vezes. Talvez milhares. No salão principal, nos corredores, nas aulas, nas arquibancadas, na biblioteca, em tardes comuns, em dias difíceis e em momentos felizes mas aquilo era diferente. O vestido parecia ter sido criado especificamente para ela. Não apenas porque combinava mas porque realçava tudo aquilo que Arthur já achava bonito e passava o dobro do tempo fingindo que não estava observando. O tecido acompanhava seus movimentos com delicadeza, os reflexos dourados da lareira pareciam presos aos fios dos cabelos dela e havia algo no sorriso de Molly, algo que ele conhecia há anos, mas que agora parecia ter adquirido um significado completamente novo. Mais bonito. Mais impossível de ignorar. Arthur simplesmente a encarou. — Merlin... — Escapou num murmúrio. Os olhos dele percorreram o vestido lentamente, sem pressa e sem conseguir evitar. — Molly... — Tentou novamente mas nenhuma frase parecia suficiente. Porque qualquer coisa que dissesse soaria pequena diante do que estava vendo. O coração dele batia tão forte que começava a desconfiar que ela conseguiria ouvir. — Você está... — Tentou outra vez. — Você está absolutamente deslumbrante. — A voz saiu quase rouca e sincera demais. — Tipo... — Arthur passou a mão pelos cabelos, perdido em tamanha beleza que via. — Irritantemente deslumbrante. — O sorriso voltou mas havia algo vulnerável por trás dele. — Eu acho que metade dos garotos daquele baile teria esquecido o próprio nome se te visse entrar. — E, então, completou, sem conseguir impedir. — Eu mesmo quase esqueci.
Os olhos dele demoraram mais alguns segundos nela e foi justamente nesse momento que algo mudou. Talvez fosse o silêncio confortável da sala comunal, talvez fosse a proximidade ou talvez fosse simplesmente porque Arthur passava tempo demais observando Molly para não perceber quando era observado de volta. Os olhos dele voltaram para ela e encontraram os dela. Não apenas olhando. Parados. Demorados. Presos. Por um instante, o ruivo teve a estranha sensação de que era ele quem estava sendo admirado agora. A percepção o atingiu com força suficiente para fazê-lo esquecer completamente o restante da frase que pretendia dizer. Molly estava olhando para ele de um jeito diferente. Não era apenas carinho. Não era apenas amizade. Não era nem mesmo o olhar caloroso que ela sempre lhe lançava quando tentava convencê-lo de que era melhor do que acreditava ser. Aquilo parecia... interesse. O tipo de interesse que fazia o coração acelerar sem autorização prévia. O tipo de interesse que fazia um homem se perguntar se deveria endireitar a postura, prender a respiração, fingir que não tinha percebido ou, preferencialmente, se jogar da Torre da Grifinória para evitar lidar com aquilo. Arthur sentiu o rosto esquentar imediatamente porque quanto mais observava Molly, mais tinha certeza de que ela estava presa exatamente no mesmo lugar algumas vezes. No colarinho aberto. Na pele exposta. Nos botões desabotoados. E aquilo provocou uma sensação completamente nova dentro dele. Uma mistura perigosíssima de vergonha e satisfação. Vergonha porque estava sendo observado. Satisfação porque estava sendo observado por ela. Sentiu o calor subir pelo pescoço, alcançar as orelhas e espalhar-se pelo rosto inteiro enquanto lutava inutilmente para não sorrir como um completo idiota. E tentando desesperadamente recuperar algum resquício de dignidade, Arthur baixou os olhos para a própria camisa e, fingindo uma naturalidade que não enganaria nem um trasgo particularmente distraído, levou a mão até o colarinho e fechou um dos botões que havia deixado aberto. Só um. Porque também não precisava exagerar e porque uma parte muito inconveniente dele adorava a ideia de Molly olhando para ele como um delicioso sapo de chocolate. Foi então que percebeu algo estranho. O movimento das mãos dela e o jeito como segurava o vestido, e toda a expressão encabulada deu lugar a uma preocupação imediata. — Epa, espera... — O ruivo endireitou a postura e os olhos fixaram-se no tecido rasgado. — O que aconteceu aí? — Perguntou, aproximando-se instintivamente. A preocupação veio tão naturalmente quanto respirar. Arthur abaixou o olhar para a alça rompida e franziu a testa como se estivesse diante de um crime. — Quem foi o criminoso? — Os olhos analisaram o rasgo com cuidado. — Foi um acidente? — Os olhos voltaram para os dela e só então percebeu o quanto estavam próximos. Próximos o bastante para enxergar cada detalhe, para notar o brilho nos olhos dela e o bastante para sentir o perfume suave que parecia envolvê-lo completamente. Arthur engoliu em seco e sorriu. — Você quer ajuda com isso? — Perguntou, aproximando-se um pouco mais. — Porque eu posso não saber nada sobre moda feminina... — O canto da boca dele se ergueu um pouco mais. — Mas sou excelente em resolver problemas depois que eles já aconteceram.
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Marlene cerrou os olhos confusa com a pergunta e com um meio sorriso nos lábios, um tanto duvidosa porque ela sabia que era uma perspectiva estranha o positivismo dela "Apenas o que está oficialmente no cardápio do colégio, nada ilegal. Não dessa vez" Ri levemente, lembrando a última vez que bebeu exageradamente e vomitou boa parque de seu estomago na comunal "Mas Arthur, por que eu seria negativa com um filho seu? Quer dizer, é estranho, mas é seu filho" Encolhe os ombros, tentando entender o ponto do amigo "Acho que você está surpreso com a revelação e principalmente com a forma que aconteceu, eu entendo, de verdade, também teria um treco, mas…" Pisca rapidamente, tentando montar um raciocínio para explicar o que aquilo significaria para ela; Era muitos mais que casei e construí uma família, seria a confirmação que aquela paranoia de morrer cedo era apenas uma paranoia "Não há problema algum em gostar da ideia, porque meio que vai acontecer… no futuro você vai cria-lo, educa-lo e tudo mais que um pai precisa fazer" Assume uma postura mais leve, empolgada com o futuro do amigo. Lene poderia discutir por horas sobre isso e das possibilidades e apesar de achar que as perguntas certas estavam sendo esquecidos, esse tipo de frivolidade fazia seu coração aquecer "Desde sempre… eu acho. Todos os meus irmãos são mais velhos e eles já tem seus filhinhos e durante as férias, quando a minha avó não decide me arrastar para alguma coisa, fico com eles e… é meio que fantástico como são tão pequeninhos e tem tanta personalidade" Diz, sem perceber no grande sorriso que surgia em seu rosto "Juro para você, uma das minhas sobrinhas decidiu que só anda de galochas e outro jura, eu digo, jura juradinho que é o Merlin" Ri, lembrando da confusão que se instalou na sua casa nesse dia; Céus, crianças eram uma graça "Sim, vamos super…" Cerra os olhos, tentando parecer seria "Acho que sim… mas talvez não. Quer dizer! Tem tantos homens aqui que pode ser qualquer um… mas pera ai, você quer sair procurando a mãe do seu filho?"
Ter um treco era provavelmente a descrição mais precisa que alguém tinha dado para sua situação desde que tudo aquilo começou porque era exatamente essa a sensação. Não parecia uma descoberta racional ou minimamente saudável, parecia alguém ter pegado sua vida, sacudido dentro de uma garrafa e devolvido sem o manual de instruções. O ruivo apoiou os antebraços no parapeito, observando a névoa distante enquanto o vento da noite bagunçava seus cabelos. — Tá aí uma boa definição. — Arthur soltou uma risada quando Marlene disse que teria um treco também. O ruivo apoiou os antebraços no parapeito, observando a névoa distante enquanto o vento da noite bagunçava seus cabelos. O sorriso de Arthur cresceu quando Marlene começou a falar dos sobrinhos. Havia algo diferente na voz dela, algo parecido com o que ele escutava quando alguém falava de um lugar que amava ou de uma lembrança muito feliz. Ele permaneceu quieto por alguns instantes, apenas ouvindo-a contar sobre as galochas e sobre a criança que acreditava ser Merlin reencarnado. Aos poucos, sem perceber, Arthur começou a imaginar Ronald pequeno, correndo pelos corredores e dizendo alguma bobagem com absoluta convicção. A imagem surgiu tão naturalmente que o assustou um pouco, porque quanto mais fácil ficava imaginar um filho e mais inevitável se tornava pensar na outra pessoa envolvida naquela história. A futura senhora Weasley. Então, Arthur soltou um suspiro longo e depois outro, aqueles suspiros dramáticos que normalmente antecediam alguma confissão constrangedora. Quando Marlene finalmente perguntou se ele estava procurando a mãe do filho, o ruivo imediatamente desviou os olhos para o lado. O silêncio durou alguns segundos,tempo suficiente para se condenar sozinho. — Depende do que você considera procurar. — Começou. — Porque se procurar significa criar uma lista de possíveis candidatas, ir atrás de uma por uma, perguntar sobre filhos e terminar uma reputação de esquisito por isso... — O bruxo fez uma careta. — Então... talvez eu tenha começado um pouco. — A confissão saiu como alguém assumindo um crime. — Eu sei que é uma péssima ideia. — Ele fechou os olhos por um instante. — E eu sei que parece coisa de alguém que precisa dormir oito horas seguidas e tomar menos café também. — O sorriso apareceu apesar de tudo porque, no fundo, ele sabia que era ridículo mas era o único fio que tinha encontrado naquele labirinto. — Mas já que estamos falando disso... — Pigarreou e se inclinou um pouco para frente. — Você teria um filho comigo? — A pergunta saiu tão naturalmente que parecia apenas mais um tópico qualquer de conversa, como perguntar as horas ou o resultado de uma partida de quadribol. — É que assim... você gosta de crianças e não parece achar a ideia de filhos uma tragédia como a maioria. — Arthur gesticulou no ar como quem tentava organizar um mapa invisível, organizando seus pensamentos. — E você acabou de dizer que gostaria de descobrir alguma coisa sobre o seu futuro. — O brilho da teoria já aparecia em seus olhos. — E se você tivesse um filho comigo hipoteticamente falando... Você automaticamente descobriria um pedaço do seu futuro também e, se liga no bônus, nem precisaria sair procurando um futuro marido entre trocentos alunos. — O bruxo parecia impressionado consigo mesmo. — Pelas barbas de Merlin, eu sou um gênio, não sou?
"E você acha que eles conversam sobre o que? Nessa idade, com os hormônios a flor da pele?" Hestia abriu os braços, convencida que aquele era um bom ponto. Adolescentes sempre tinham as maiores idiotices pra conversar, ela sequer gostava de lembrar das maiores atrocidades que saia de sua boca naquela idade. Sempre fora descabida de vergonha e falar sem pensar era praticamente o dom da Jones. "Olha só!" ela ergueu o indicador em direção a Arthur, o sorriso enviesado já surgindo em sua boca. "Você já está defendendo ele como um pai, que lindo, Weasley!" caçoou, a boca se curvando em um beicinho. Sequer tentava conter a risadinha ao ver Arthur se encolhendo na cadeira, se era estranho para ela ouvi-lo dizer aquelas exatas palavras, como se já fosse de fato pai, imagina como deveria ser para ele dizer aquilo. Hestia não sabia qual era a sensação, nunca havia cogitado a possibilidade de ter filhos, era uma das muitas coisas que simplesmente havia jogado no colo de Gwenog, o quadribol, a heterossexualidade, o peso de tentar ser orgulho da família e, agora, dar continuidade a prole dos Jones. "Se isso te consola, eu acho que você vai ser um bom pai," assentiu consigo mesma, os ombros subindo e descendo. "digo, você já está defendendo ele, isso deve ser um bom sinal." e de fato era, qualquer um deveria estar surtando ainda mais que ele se descobrisse que seu futuro filho estava logo ao lado, em uma das anomalias que apareceram no exterior do castelo. Mas Arthur, muito embora estivesse surtando com a péssima escolha de um nome, ainda conseguia defender seu suposto filho no meio de tudo, o que pra ela já era um ótimo sinal.
Merlin, ela realmente estava se divertindo vendo a reação dele diante daquela descoberta. Das outras duas vezes, Hestia quase conseguia sentir a tensão beslicar cada pedacinho do seu corpo só com a ideia de cogitar gostar de garotas, e ter que falar aquilo em voz alta tinha sido um terror, para além de aceitar primeiro, é claro. Mas ali, naquele instante, tudo era mais leve, tanto que chegava a ser engraçado. "Fujo tanto de vassouras que até do legado da minha família no quadribol eu recusei." brincou, balançando a cabeça em positivo. Em contrapartida, era muito boa com a varinha. O pensamento quase fez uma careta se formar em seu rosto. Por que diabos quase tudo no mundo bruxo parecia ter algum tipo de conotação sexual? Que maluquice. "Ah, era óbvio? E o que o senhor quis dizer com isso?" quis parecer ofendida, mas não estava de fato. Ela realmente não fazia esforço algum em esconder aquilo, depois de deixar isso muito claro pra sua irmã, o céu era o limite. Não tinha muito o que temer. Não dentro do castelo, dentro de casa era outra história, que ela já tinha deixado nas mãos da Hestia do futuro. "É, seu radar tá péssimo, vamo ter que trabalhando nisso aí pra você não acabar chegando em mais odiadoras de vassouras achando que elas podem ser a futura Srª Weasley." ela se recostou na cadeira, os braços se cruzando. A sobrancelhas logo se uniram em pura confusão, enquanto observava Arthur buscar por algo dentro das vestes, e pior ainda quando ele simplesmente apareceu com um pergaminho amassado, riscando o que deveria ser seu nome. "Por Godric, não me diga que você fez uma lista inteira só pra isso?" voltou a se inclinar sobre a mesa, completamente desacreditada com o que estava vendo. "Arthur, você não tem... sei lá, alguém que simplesmente goste?" questionou, como se gostar de alguém automaticamente significasse que aquela pessoa seria a sua esposa em um futuro. Não era algo óbvio, claro, mas era um bom começo. "Você devia simplesmente ir pra alternativa mais próxima, como alguém que tenha interesse, ou sei lá, alguém que você esteja dando uns amassos."
Arthur ficou vermelho de um jeito quase impressionante quando Hestia afirmou, com toda a naturalidade do mundo, que ele seria um bom pai. Não era a primeira pessoa a dizer aquilo nos últimos dias e, talvez por isso mesmo, o comentário tivesse começado a atravessar as camadas de negação que ele vinha construindo cuidadosamente desde que o nome Ronald Weasley apareceu em sua vida. Ainda assim, ouvir aquilo continuava produzindo um efeito devastador porque ouvir alguém dizer que ele seria um bom pai fazia seu coração dar pequenas cambalhotas desconfortáveis dentro do peito. — Nah... eu não estava defendendo ele... — Protestou imediatamente, embora a frase tenha saído sem convicção alguma, porque estava claramente defendendo. — Quer dizer... tá, talvez um pouco. Mas ele tem meu sobrenome! Eu sinto que existe algum tipo de obrigação moral aí. — O ruivo suspirou dramaticamente e apoiou a cabeça na mão. Quando Hestia falou sobre fugir das vassouras e abandonar o legado familiar do quadribol, Arthur abriu um pequeno sorriso. Aquilo parecia uma heresia para metade do mundo bruxo. — Tá bom. Nada de vassouras, então. — Apontou para ela com solenidade. — Esquece o quadribol e foca no xadrez bruxo. — Então, o sorriso cresceu, o típico sorriso de Arthur quando uma ideia idiota aparecia. — Lá você pode comer a rainha se quiser. — Arthur, então, cutucou Hestia com o cotovelo uma vez, só para entregar que a frase tinha saído com segundas intenções e imediatamente começou a rir sozinho. — Desculpa. — Não parecia nem um pouco arrependido. — Foi mais forte do que eu. — A própria piada fez o ruivo balançar a cabeça. Aquele provavelmente era o tipo de humor que explicava por que ainda estava solteiro e sem encontrar a futura Sra. Weasley. Quando ela comentou sobre seu radar estar péssimo, Arthur apontou para ela como alguém que finalmente encontrara uma solução prática para um problema complexo. — Boa, Jones! Vamos calibrar esse tal radar antes que eu cometa outra catástrofe social com mais com mais gente. — Assentiu consigo mesmo. A confiança durou até ela mencionar a lista, aí tudo desmoronou e Arthur ficou em silêncio absoluto. Aquele tipo de silêncio que só aparece quando alguém foi pego fazendo exatamente aquilo que não deveria estar fazendo. Os dedos dele apertaram o pergaminho e os olhos desviaram, com uma expressão culpada surgindo imediatamente. — É, eu fiz... — Confessou baixinho como quem admite um crime. — Eu sei que parece ruim, tá? Porque é ruim! Mas parecia uma boa ideia às duas da manhã. — O que era provavelmente a origem de metade dos problemas da vida dele. Então veio a pergunta: alguém que ele gostasse, uma alternativa mais próxima ou alguém com quem estivesse dando uns amassos. Então, Arthur suspirou longamente, pesadamente e dramaticamente, como se estivesse carregando sozinho o peso de todas as tragédias românticas da história da humanidade. — Hestia... — Começou. — Desde quando a vida seria legal o suficiente comigo pra funcionar assim? — O olhar dele se perdeu por um instante entre as estantes da biblioteca. — Tipo... — Tentou explicar. — Você realmente acredita que o universo olharia para mim e diria: "sabe o que seria divertido? Vamos fazer Arthur Weasley gostar da pessoa certa e depois fazer essa pessoa gostar dele também." — O tom era tão descrente que parecia uma teoria impossível. E, então, sem perceber, deixou escapar. — Não é como se Molly... — A frase nasceu e morreu instantaneamente. O silêncio que veio depois foi tão abrupto que parecia ter tropeçado nas próprias pernas. Ele levou as duas mãos à boca tão rápido que quase derrubou a cadeira. — Nope. Eu não falei isso. — Murmurou atrás dos dedos. Ele tinha um horror estampado em sua expressão que deixava tudo mais cômico. — E você não ouviu isso.
Conseguia sentir o nervosismo e ansiedade de Arthur de longe, ele parecia quase desesperado e focado na ideia de descobrir mais sobre o futuro filho, mas talvez estivesse levando as coisas muito para o limite. " não acho que está um pouco obcecado com essa história? " perguntou oferecendo um pequeno sorriso, quase cúmplice para ele. Dorcas em parte, conseguia entender de onde via aquilo, talvez também entrasse em algum tipo de espiral se soubesse que tinha um filho no futuro, porque isso definitivamente não estava nos planos de Dorcas, mudava tudo o que ela tinha planejado para si mesma, porém, talvez diferente de Arthur, tentaria racionalizar a coisa toda, preferencialmente sozinha. " se eu quisesse alguma coisa diferente, você seria um candidato ideal Artie, a pessoa teria que ser maluca para não escolher você. " disse com sinceridade, sabia que os dois jamais funcionariam em qualquer outra esfera que não a amizade, eram muito diferentes no quesito emocional, mas realmente gostava do Weasley e sabia que ele seria um ótimo pai. " você definitivamente está no top 3 e olha que eu sou super criteriosa. " brincou dando uma risada, afim de deixa-lo um pouco menos tenso. no entanto, ao vê-lo tirando a lista do bolso e riscando seu nome, Dorcas foi pega de surpresa, não sabia que ele tinha chegado ao ponto de realmente fazer uma lista de todas as possíveis candidatas e... espera ela era o número 32? " você falou com 31 pessoas antes de mim? estou tão embaixo assim na sua lista. " disse se fingindo de ofendida, ele precisava de um sistema melhor do que aquele se quisesse encontrar a pessoa e mesmo assim, não fazia sentido, porque era hipotético demais, fora que a futura mãe podia nem estudar em Hogwarts. " não querendo me meter, mas já me metendo, porque me recuso a te deixar se enfiar nesse buraco sozinho. " suspirou dando alguns passos e parando do lado dele, dando uma olhada na lista. " Artie, sair perguntando pra cada garota se ela teria filhos com você é esquisito, e não vai te levar a uma resposta séria, porque talvez muitas sequer pensem nisso, e as coisas mudam com o tempo... a resposta de agora pode ser diferente daqui um mês. " explicou de maneira calma. " também, tem a chance de você conhecer essa mulher em outro lugar, fora dos muros do castelo, o que eu acho pouco provável, mas pode acontecer. " continuou, agora erguendo o olhar para o amigo. " e Weasley, você sabe que no fundo só existe uma única pessoa que se encaixa perfeitamente em toda essa história de mãe do seu futuro filho. "
Arthur ficou alguns segundos olhando para Dorcas como alguém que havia sido pego colando numa prova importante. O comentário sobre a obsessão o atingiu porque, infelizmente, ela estava certa. O pior tipo de pessoa para receber uma crítica era alguém que sabia exatamente que a crítica era verdadeira. O ruivo abriu a boca para se defender, fechou de novo, depois apontou para si mesmo como se estivesse construindo um argumento sólido, e não construiu, apenas suspirou. Antes dos castelos, antes da névoa e antes daquela avalanche de informações impossíveis, seu maior problema era descobrir como passar em Aritmancia sem sacrificar completamente a própria sanidade. Agora existia um garoto chamado Ronald Weasley caminhando em algum lugar do futuro, aparentemente vivo, saudável e carregando o sobrenome que Arthur ainda nem tinha terminado de entender como honrar de verdade. Então, sim, talvez ele estivesse um pouco obcecado. O suficiente para criar uma lista muita extensa de nomes para possíveis mamães de Ronald Weasley. — Calma lá! Eu não falei com trinta e uma pessoas antes de você. — Defendeu-se imediatamente, soltando uma risada nervosa. — A lista não está em ordem, Dorquinhas. — Ergueu o pergaminho como se estivesse apresentando evidência em um tribunal. — Eu fui anotando conforme lembrava ou acontecia alguma coisa. — Continuou. — Tanto que uma delas eu anotei porque estava usando um cachecol furado e, por cinco segundos, eu achei que talvez meu cérebro estivesse tentando me enviar uma mensagem profética. Mas não estava, era só um cachecol mesmo. — Arthur balançou a cabeça enquanto observava a própria lista. Havia algo quase melancólico naquele pedaço de pergaminho, porque ele sabia que Dorcas estava certa. O método era ruim, era estranho e pouco eficiente, e ainda assim tinha se agarrado àquela lista como um náufrago se agarra a um pedaço de madeira no meio do oceano, porque era a única coisa concreta que possuía. Então, quando Dorcas disse que sair perguntando para garotas se elas teriam filhos com ele era esquisito, o bruxo murchou visivelmente. Os ombros caíram e o olhar foi para o chão. — Eu sei que é esquisito. — A voz saiu mais baixa dessa vez. — Mas era isso ou começar a interrogar os fantasmas. — O bruxo olhou para o pergaminho por alguns segundos antes de dobrá-lo lentamente. — Eu estava ficando sem opções. — Foi então que veio a frase que fez todo o resto desaparecer. "Existe uma única pessoa". Arthur sentiu o coração dar uma cambalhota. O problema era que seu cérebro não precisava de nomes porque o nome apareceu sozinho como se já estivesse esperando por aquela oportunidade havia semanas. Ele queria que fosse Molly Prewett, mas também tinha medo. Medo de construir castelos inteiros em cima de sentimentos que ainda pareciam novos demais para serem compreendidos completamente. Logo, o ruivo ficou vermelho tão rápido que parecia ter levado um feitiço direto no rosto e, para ganhar tempo, fez o que Arthur Weasley fazia de melhor: falou uma besteira. — Espera... — Pigarreou. — Não pode ser a McGonagall. — A frase saiu séria demais. Ele imediatamente puxou a lista de volta, procurou por alguns segundos e fez um risco dramático no nome da professora. — Adeus candidata, quinze. Mulheres muito mais velhas não fazem meu tipo. — Satisfeito com a eliminação oficial de Minerva McGonagall da investigação, Arthur guardou o pergaminho novamente. Então, voltou a encarar Dorcas e toda a coragem desapareceu porque agora precisava ouvir a resposta. — Então tá... — A voz saiu um pouco mais baixa, mas, sem perder, o típico humor como sua costumeira defesa. — Me diga quem é essa única pessoa, ó, grande oráculo?
Ignorando completamente a tentativa frustrada do rapaz de aliviar a tensão despertada por aquele tema, Molly podia enxergar através da fachada que ele falhava em erguer em frente a si, dissimulando a melancolia que transparecia através do olhar apesar de seus esforços. O diferencial em pessoas solares como Arthur, era a facilidade com que se notava quando a luz que irradiava de sua essência ameaçava vacilar por algum motivo. O que era exatamente o que observava no amigo naquele instante. Tratava-se de uma evidência incômoda, perceptível até mesmo aos mais distraídos, dada sua capacidade de alterar a atmosfera de um ambiente. E, por se tratar de alguém que julgava conhecer profundamente, alguém de quem já havia descoberto facetas ocultas à maior parte das pessoas, aqueles sinais se tornavam impossíveis de ignorar. Era como se a angústia dele se infiltrasse em seu próprio peito e se alojasse ali. Sem saber o que havia dito de errado para fazê-lo se sentir de tal maneira ou onde havia falhado em confortá-lo durante o enfrentamento de sua adversidade, ela se sentiu frustrada e decepcionada consigo mesma. Falhava como amiga. Mas perder uma batalha não significava que havia perdido a guerra. Se dependesse de seu carinho pelo ruivo, faria até o inalcançável para sanar a sua dor. Quando, enfim, ele revelou ter desenvolvido certo apego ao papel como pai do Weasley misterioso, sua mente começou a desanuviar lentamente e algumas peças começaram a se encaixar. Identificava o seu primeiro erro. Inevitavelmente, um sorriso se moldou em seus lábios. ── É claro que você já estava abraçando a ideia de ser pai! ── Comentou, como se aquela fosse a coisa mais óbvia no mundo, mas apenas agora se mostrasse clara o suficiente para sobrepujar o caos daquela situação desordenada. O olhar que recaía sobre o amigo carregava uma admiração profunda, e uma risada fraca escapou por seus lábios de repente. Que outro garoto naquele castelo aceitaria uma paternidade súbita com tanta facilidade e de braços tão abertos? Que outra pessoa teria desenvolvido sentimentos quase que instantâneos por um suposto filho, o qual nem mesmo havia tido a chance de conhecer? Arthur era um rapaz extraordinário! ── Mesmo que descubram que ele é seu filho, tenho certeza de que o acolheria como se fosse. ── Continuou, dando levemente de ombros, fazendo questão de usar aquele ensejo para reforçar todas as qualidades listadas anteriormente. Momentos como aquele a faziam perceber que nunca encontraria alguém como ele e nem sequer desperdiçava seu tempo procurando. Cabia a ela preservar e cultivar aquele vínculo para tê-lo para sempre em sua vida e, talvez, isso significasse parar de tentar racionalizar tudo o tempo inteiro. ── Quando eu digo que sua natureza é cativante e admirável, tenho vários exemplos para reforçar meu discurso. Esse é apenas um deles. ── Com um sorriso, findou seu posicionamento, agora com um pouco mais de cautela quanto ao que dizia. Por pouco não havia transformado em ruínas um sonho da paternidade, que ainda dava seus primeiros passos. A resistência em aceitar o nome do garoto, por outro lado, inesperadamente a divertia. Uma risada curta era arrancada dela, enquanto se preparava para defender a honra do Weasley que se escondia do outro lado da barreira. ── Não seja tão cruel com o nome Ronald, eu tenho… ── Molly se calou de repente, abandonando a frase pela metade enquanto seu olhar encontrava o do amigo por um tempo longo demais. Novas peças se encaixavam.
Ela engoliu seco. Primeiro, pensou no bisavô que jamais tivera a oportunidade de conhecer em vida, mas cuja coragem e integridade continuavam vivas nas histórias repetidas à exaustão durante as frequentes reuniões da família Prewett após sua partida. Seu nome? Ronald Ignatius Prewett. Essa percepção foi o suficiente para despertar uma vertigem na bruxa, que inspirava profundamente na esperança de limpar o turvamento que se formava em seus pensamentos e que ameaçavam a desequilibrar sobre os próprios pés. Então, veio a compreensão de tudo aquilo que um simples olhar fora capaz de comunicar. Quando Arthur idealizava a mãe de seu filho, era a imagem dela que visualizava. "Porque... e se não for você?". O sentido daquelas palavras tomavam forma através de um único olhar. O motivo que o impulsionara a roubar um beijo dentro da Sala de Troféus se revelava com um único olhar. Como nunca havia percebido a profundidade daquele sentimento antes? As batidas de seu coração eram tão intensas que podia senti-las reverberando nos tímpanos. Mas, por uma razão óbvia, aquela descoberta não a afugentava. Ao se imaginar assumindo o papel que ele havia fantasiado, Molly percebeu que sua principal preocupação não era consigo mesma. Tudo o que desejava era corresponder à confiança que as duas pessoas mais importantes de sua vida pareciam ter depositado nela. Aquilo era uma completa loucura. Em um momento, estava repreendendo Arthur pela irresponsabilidade de manipular polissuco para circular pelo castelo sob outra identidade. No seguinte, encontrava-se perdida em devaneios sobre uma realidade em que era casada com seu melhor amigo e mãe de seu filho. O pensamento era suficiente para lançá-la em um estado de profundo choque e reflexão. Seus pensamentos giravam em círculos, incapazes de decidir o que era mais absurdo: a situação em si ou a naturalidade inquietante com que sua mente começava a preencher os detalhes daquele cenário impossível. Foi apenas quando ouviu seu nome ser chamado com delicadeza que conseguiu emergir daquela espiral de pensamentos e voltar sua atenção para o presente. Pega desprevenida pelo pedido inesperado, viu-se mais uma vez desarmada pela dimensão do amor que ele representava em sua vida. ── É claro que pode, querido. ── Respondeu com a voz cálida. Imediatamente comovida pela necessidade exprimida pelo rapaz, a garota estendeu os braços para recebê-lo, pronta para para acalentá-lo por quanto tempo fosse necessário. Assim como as conclusões que se formavam dentro dela começavam a colocar ordem no caos de seus pensamentos, aquele abraço também encontrou seu lugar. O encaixe foi instantâneo, praticamente inevitável, como se ambos já soubessem exatamente onde pertenciam. E estavam a cada dia mais convencidos disso. A firmeza com que ele a mantinha em seus braços dizia aquilo que palavras não eram suficientes para traduzir, e alcançavam o coração de Molly sem nenhum obstáculo ou desvio. Em resposta, sua mão encontrou os cabelos do rapaz com cuidado, afagando-os lentamente enquanto, com a outra, o apertava ainda mais contra si. Era difícil descrever a sensação daquele abraço. Havia algo nele que a fazia se sentir em casa, protegida de qualquer ameaça, acolhida de uma forma tão completa que, durante o tempo em que permaneciam ali, o restante do mundo parecia perder toda a importância. O agradecimento chegou aos seus ouvidos antes que pudesse dizer qualquer coisa, despertando um arrepio sutil em sua espinha. Ainda que presente, ele era discreto demais para competir com a felicidade que tomava conta de seu peito. Acima de tudo, seu coração parecia mais feliz do que nunca por receber uma resposta positiva ao esforço que fazia para confortá-lo. Tudo o que desejava era vê-lo sorrir novamente, livre para ser quem era, em paz consigo mesmo e feliz com os caminhos que sua vida escolhesse seguir.
Aninhando-se um pouco mais em seus braços, sussurrou de volta. ── Eu não quero replantar essa ideia na sua cabeça para evitar alimentar expectativas, mas pensar que pode existir um reflexo de você andando por aí me faz ter mais esperança pelo futuro. ── Confidenciou com sua sinceridade desarmante e um sorriso que se refletia na voz. Enquanto falava, sua mão começou a percorrer as costas dele em carícias lentas e familiares, traçando desenhos sem forma definida. Quanto mais se permitia imaginar Arthur como pai, mais natural a ideia lhe parecia e, aos poucos, deixou de enxergá-la apenas como uma possibilidade distante e passou a encará-la como um futuro que desejava genuinamente ver acontecer. O simples vislumbre daquela realidade trazia lágrimas aos olhos fechados. ── Por mim, ter um mundo bruxo repleto de homens com sua integridade seria a utopia perfeita. ── Não se cansava de tecer elogios a alguém tão merecedor de recebê-los. O calor do corpo dele a chamava para mais perto, assim como o perfume que invadia seus sentidos. ── Se depender de mim, você nunca vai precisar se preocupar em parecer maluco. ── Continuou, enquanto sua voz adquiria um timbre cada vez mais aveludado e envolvente, com uma naturalidade que nem ela mesma saberia explicar de onde surgia. Mas era assim com Arthur. Sempre fora. Entre eles, tudo parecia fluir com uma facilidade rara. Era uma sensação difícil de explicar para qualquer outra pessoa, mas que os dois conheciam perfeitamente bem. ── Nunca vai precisar hesitar em me procurar para conversar sobre os seus problemas e compartilhar aquilo que te aflige. ── Mantendo os olhos fechados, deixou que a proximidade entre eles se prolongasse enquanto seu rosto deslizava suavemente contra o dele. Estava inteiramente presente naquele instante, permitindo-se sentir cada nuance mais uma troca inesperada e indescritível entre os dois. Em um gesto igualmente espontâneo, a mão que afagava seus cabelos abandonou as mechas ruivas para repousar delicadamente em sua nuca. ── Nunca vai precisar hesitar em me procurar para pedir por ajuda. ── Suas promessas não eram vazias, mas um compromisso que, mesmo sem saber, já havia firmado no momento em que o conhecera. O faria feliz. Movida por tudo o que sentia, Molly tomou uma decisão. ── Você também nunca precisará pedir por um abraço meu. ── Lentamente, afastou o rosto apenas o suficiente para encontrar o olhar do rapaz e, o processo, seus olhos se demoraram nos lábios dele por alguns instantes além do necessário. Parte dela reconsiderava aquela decisão, questionando se não era inapropriada e precipitada demais diante da irresolução que ele ainda enfrentava. A outra parte, porém, sabia exatamente o que queria e o quanto aquele desejo era correspondido. ── Ou um beijo. ── Murmurou, por fim, próxima o suficiente para que suas respirações se fundissem, deixando suas intenções evidentes.
Arthur achou que já tinha vivido coisas estranhas suficientes para uma vida inteira. Tinha visto castelos surgirem onde não deveriam existir, tinha descoberto a possibilidade de um filho vindo do futuro antes mesmo de descobrir como sobreviver aos próprios sentimentos, tinha trocado de corpo com James Potter por uma quantidade de horas que ainda o fazia questionar seu próprio bom senso e, ainda assim, nenhuma dessas coisas parecia tão absurda quanto o simples fato de estar ali com Molly, nos braços dela e sendo amado de uma forma que ele nunca teve coragem suficiente para pedir. O bruxo permaneceu imóvel por alguns segundos depois das palavras dela, não porque não quisesse reagir, mas porque sentia que qualquer movimento poderia quebrar alguma coisa invisível e preciosa que existia entre eles naquele instante. As mãos dele continuavam apoiadas em sua cintura, mas agora sem qualquer hesitação, como se finalmente tivessem encontrado o lugar exato onde pertenciam. O calor do corpo dela atravessava as camadas do uniforme sem dificuldade alguma e Arthur percebeu que jamais conseguiria explicar o conforto que sentia simplesmente por tê-la tão perto. Era diferente de tudo. Diferente das amizades, das brincadeiras, das conversas intermináveis no salão comunal ou das risadas compartilhadas pelos corredores. Era Molly e isso mudava tudo. A cada palavra que ela dizia, Arthur sentia alguma parte antiga de si sendo remendada porque ela tinha essa habilidade perigosa de enxergar nele coisas que ele mesmo nunca conseguia ver. Enquanto a ruiva falava sobre futuro, esperança e integridade, o Weasley apenas a observava. Observava os cílios dela se moverem quando fechava os olhos, a curva suave de seu sorriso e a maneira como sua mão passeava por suas costas sem pressa alguma, como se estivesse decorando cada detalhe dele através do toque. O corpo inteiro parecia atento à presença dela, ao toque e à voz. Ao modo como o rosto dela descansava próximo ao seu e ao modo como ela sempre parecia encontrar espaço para ele em sua vida sem que precisasse pedir. O coração do bruxo batia forte demais. E, por Merlin, ele estava apaixonado. A constatação não era nova. Mas parecia se tornar mais verdadeira a cada dia, mais inevitável e mais impossível de ignorar. Arthur havia passado anos acreditando que Molly era sua melhor amiga, agora descobria que ela continuava sendo sua melhor amiga e também era a garota por quem estava apaixonado, o que era maravilhoso e completamente aterrorizante. Porque amizade já era uma coisa preciosa, mas amor? Amor parecia algo que exigia coragem e Arthur nunca havia se sentido muito corajoso quando o assunto era Molly Prewett. Apaixonar-se por ela parecia a melhor e a mais irresponsável decisão que seu coração já havia tomado.
Quando o rosto dela deslizou contra o seu, Arthur fechou os olhos por um breve instante, só para sentir, para guardar e para ter certeza de que aquilo era real. Os dedos dele subiram lentamente por seus braços até encontrarem os cabelos ruivos dela. Não houve pressa e nem ansiedade, apenas um carinho lento, cuidadoso, quase reverente, como se estivesse tocando algo precioso demais para ser tratado de outra forma. Os fios escorregavam entre seus dedos enquanto ele os afastava delicadamente de seu rosto. Depois sua mão encontrou sua bochecha e permaneceu ali, acariciando-a e sentindo o calor de sua pele, como se não conseguisse parar e como se tivesse passado tempo demais querendo fazer aquilo. As palavras seguintes dela o atingiram de uma forma completamente diferente. O coração dele acelerou e antes que pudesse se recuperar... Arthur congelou, literalmente, durante um segundo inteiro esqueceu como respirar. Existiam palavras que uma pessoa passava anos imaginando ouvir e depois existiam palavras que, quando finalmente eram ditas, pareciam bonitas demais para serem reais. O mundo ficou silencioso. Ou talvez fosse apenas o som do próprio coração ocupando espaço demais dentro de seu peito. Tanto que parecia um trem. Um daqueles trens trouxas enormes que ele tanto gostava de observar: pesado, imparável e avançando com toda velocidade na direção dele. Os olhos do ruivo encontraram os dela, depois desceram devagar até seus lábios. Ele realmente estava olhando para os lábios dela de novo. Ele não conseguiu evitar. Não queria evitar. A mão que repousava próxima ao rosto dela se moveu quase sem perceber e o polegar encontrou o contorno suave de sua boca e permaneceu ali por um momento, como se estivesse confirmando que aquilo era real. Que Molly continuava ali. Que ela tinha dito aquilo. Que não era mais um dos milhares de cenários impossíveis que sua cabeça inventava antes de dormir. Os olhos dele voltaram aos dela e havia algo quase vulnerável naquele olhar. — É o que eu mais quero na vida. — A confissão saiu baixa e honesta, sem espaço para brincadeiras ou espaço para esconderijos, apenas a verdade.
Então, Arthur aproximou-se devagar, como alguém saboreando cada segundo antes de alcançar algo que desejava há muito tempo. Seu nariz roçou levemente o dela primeiro, depois sua testa quase encontrou a dela e o coração dele batia tão forte que tinha certeza absoluta de que Molly podia ouvi-lo. E quando seus lábios finalmente se tocaram, o mundo inteiro pareceu prender a respiração junto com eles. O beijo começou suave. Um simples encontro de lábios, mas com um toque cuidadoso e uma pergunta silenciosa onde a resposta veio imediatamente porque Molly parecia querer aquilo tanto quanto ele. Porque não havia dúvidas entre os dois. E Arthur sentiu algo dentro do peito se desfazer completamente. A tensão, o medo e a insegurança, tudo desapareceu. Os dedos dele deslizaram para sua nuca enquanto aprofundava o beijo aos poucos, sem perder a delicadeza. Não havia qualquer pressa. Nenhuma necessidade de correr. Era como se estivesse tentando memorizar cada sensação, guardar cada detalhe para revisitá-lo nos próximos cem anos. O gosto dela. O calor dela. A forma como seus lábios se encaixavam nos dele. A maneira como seu coração parecia responder ao dela. E quando o beijo finalmente se interrompeu, não foi por vontade, foi apenas porque respirar continuava sendo uma necessidade irritantemente importante. Arthur permaneceu com a testa apoiada na dela, os olhos ainda fechados por alguns segundos, incapaz de se afastar. O polegar continuava acariciando sua pele distraidamente enquanto um sorriso inevitável surgia em seus lábios. Um sorriso quase incrédulo, daquele tipo que aparece quando algo bom demais acontece e a pessoa ainda não decidiu se acredita ou não. — Você percebe que acabou de criar um problemão, né? — O olhar encontrou o dela novamente e os dedos dele procuraram os dela quase por instinto, entrelaçando suas mãos com naturalidade. Aquele gesto simples pareceu mais íntimo do que qualquer palavra que pudesse encontrar. Arthur soltou uma risada baixa, nervosa e feliz ao mesmo tempo. — Porque eu tenho a impressão que você pode acabar se arrependendo de ter me dado essa autorização de não ter que pedir por um beijo. — O comentário arrancou dele uma pequena risada. Era uma frase tipicamente Arthur: torta, improvisada e completamente sincera. — Como sou legal, vou dar 24h pra você repensar nessa sua decisão polêmica antes de protocolar essa nova regra entre nós dois, combinado?
Marlene encontrava-se no parapeito a muito tempo, observando a vastidão com olhos atentos, simplesmente deixando tudo passar por ela enquanto fazia uma companhia silenciosa a Arthur; Como se algum segredo estivesse sendo compartilhado telepaticamente, ou apenas a compreensão que o inimaginável era completamente real. Uma parte dela gostava desse silencio, o que era estranho, afinal, Lene falava incontrolavelmente, mas haviam certos momentos como esse que ela não rompia o véu; Apenas esperava que fosse feito "De tudo que eu esperava que fosse acontecer nesses anos, isto não fazia parte da lista" Começa a dizer, com um pequeno sorriso inconformado, chocado com o que acontecia "Mas sem dúvidas e até sendo um pouco difícil de admitir, é melhor do que tudo que imaginei" Conclui, com certo alivio no peito. A Mckinnon havia feito certos planos de contenção pelo que sua mente havia floreado, preparado-se para você-sabe-quem, então isso era simplesmente um paraíso "Seu pensamento é incrivelmente historiador, sabia? E isso é legal, um olhar com outra perspectiva" Suspira, olhando para ele, dando certo apoio porque ela entendia completamento o que Arthur queria dizer "Ofensivo? Eu acho que não! Imagine! Você tem um filho! E ele parece ser legal" Rebate o Weasley, para Marlene saber que no futuro ela havia tido um filho ou uma família tanto aliviador como incrível "Sim, é um pouco assustador, porque, por Merlin! Você tem um filho! Isso quer dizer que você ficou bem" Agora, o sorriso que surge no seu rosto é um tanto mole, fraco; Lene sempre lidava com a incerteza de sua própria história e futuro, sabendo que já havia sido condenada uma vez por um erro juvenil de querer provar demais. E em muitos momentos escondia, mas outros, o frio na barriga era grande demais "Ah, Arthur! Que tipo de pergunta é essa? É claro que eu esperaria ao menos saber alguma coisa sobre meu futuro, na verdade, sobre o futuro completo. E sei lá, encontrar um filho ou sobrinho, ou até mesmo um neto seria uma honra"
Arthur permaneceu apoiado no parapeito por alguns instantes depois que Marlene terminou de falar. O som distante da música do Homecoming chegava até eles abafado pelas paredes do castelo, misturando-se às vozes dos alunos espalhados pelo Salão Principal. A festa continuava viva atrás deles e enquanto metade de Hogwarts estava preocupada com quem convidaria para dançar, Arthur Weasley estava tentando processar a possibilidade de ter deixado um filho escondido em algum ponto do futuro. O mais estranho era que Marlene parecia feliz por ele e aquilo o pegou completamente desprevenido. O bruxo virou o rosto na direção dela com o cenho franzido. — Espera. Você bebeu alguma coisa? — A pergunta saiu tão séria que parecia uma acusação e Arthur estreitou os olhos. — Sei lá... tipo hidromel ou vermute, porque você está sendo assustadoramente positiva sobre isso. — Ele apontou para si mesmo. Mas, conforme as palavras saíam de sua boca, Arthur percebeu algo desconfortável, uma contradição dentro de si, porque parte dele estava começando a concordar. Agora existiam momentos em que ele se pegava pensando em Ronald. Perguntando se ele gostava de quadribol, se era engraçado, se gostava de doces ou se andava agasalhado quando fazia frio, questões completamente absurdas para alguém que ainda não tinha certeza nem da existência da própria criança. Arthur soltou um suspiro longo enquanto passava a mão pelos cabelos. — O problema é que eu acho que estou começando a me acostumar com a ideia. — A confissão saiu baixinha, quase constrangida. O ruivo ficou alguns segundos observando a névoa distante através de uma das janelas e depois voltou a olhar para Marlene. — Desde quando você gosta tanto de crianças? — Um sorriso apareceu no canto de sua boca. Ele apoiou os braços no parapeito. — Filho, sobrinho, neto... — Repetiu as palavras dela. — Você falou tudo isso com uma receptividade tão grande que me preocupa um pouco. — O humor retornou aos poucos. — Então, vamos supor... — Começou, gesticulando com as mãos. — Hipoteticamente... — A palavra favorita de Arthur naqueles dias. — Que você descobrisse que existe uma criança do seu futuro andando por aí. — Ele inclinou a cabeça. — Você iria sair pelo castelo caçando o futuro pai da criança?
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A falta de sono estava começando a afeta-la, tinha dado a volta pelo mesmo corredor por pelo menos 3 vezes, o que só significava que sua situação vinha se tornando mais preocupando do que ela se permitiria admitir, chegava ao ponto de que achava que teria que recorrer a poções revigorantes ou algum sedativo. foi em uma dessas voltas que deu de cara com Arthur, mas ele parecia... caótico? perdido? ansioso? não era o Arthur que estava acostumada, e isso foi o suficiente para que toda sua energia se voltasse em resolver o possível problema que parecia assolar o outro. " ok. " disse tentando fazer conexões sobre o que ele dizia. " está se referindo ao garoto Weasley que Remus encontrou? " perguntou retoricamente, aquela era a única opção que fazia sentido, e com essa informação a inquietação de Arthur começou a fazer mais sentido. " eu acho que diante de todas as informações que ele recebeu e o choque de dar de cara com alguém do futuro, fizeram ele esquecer de perguntar sobre esse pequeno detalhe. " justificou ainda mantendo seu olhar atento no outro, porque do jeito frenético que estava falando parecia a ponto de explodir a qualquer segundo. " Arthur, primeiro você precisa respirar fundo ou vai acabar tendo uma crise de pânico, se é que já não está tendo um. " suspirou se aproximando dele e colocando as mãos em seus ombros para que parasse de andar de um lado para o outro. " e sim, talvez seja um pouco estranho sair perguntando por ai quem seria ou gostaria de ser a mãe do seu futuro filho, pode acabar passando a impressão errada pras pessoas. " assentiu pra ele, falando com calma, tentando fazer com que seu tom de voz o acalmasse também. " além do mais, não é meio óbvia a resposta pra essa pergunta? " falou inclinando a cabeça para o lado e o encarando. a pergunta dele, apesar de esperada a fez rir, e ela teve que se segurar por um momento. " Artie, eu te acho um cara incrível, sério... você é melhor do que a metade dos homens desse lugar, tá no top 3 facilmente de melhores homens, mas... " um sorriso doce estampou seus lábios. " eu decidi desde muito cedo que nunca teria filhos, ser mãe não combina comigo e não acho que vá mudar de ideia no futuro. então, acho que sou uma candidata pouco provável, mas me sinto honrada por ser considerada. "
Arthur estava começando a suspeitar que o verdadeiro propósito do Homecoming não era celebrar Hogwarts, trazer o quadribol de volta ou qualquer outra explicação bonita que os professores gostariam de dar. Na verdade, sentia que o verdadeiro propósito daquela festa era colocá-lo em uma crise existencial pública e prolongada. O ruivo respirou fundo quando sentiu as mãos dela pousarem em seus ombros e só então percebeu que realmente estava andando de um lado para o outro havia vários minutos, e quando Dorcas começou a responder sua pergunta, Arthur sentiu uma pontinha de esperança surgir. Afinal, ela tinha dito que ele era incrível, melhor que metade dos homens dali e top três, aparentemente. Talvez aquilo estivesse indo bem e estivesse finalmente encontrando alguma pista concreta em meio ao caos. Então veio o "mas" e Arthur odiava aquela palavra. Ela sempre chegava trazendo más notícias. À medida que ela explicava que nunca quisera ter filhos e que provavelmente jamais mudaria de ideia, o ruivo sentiu aquela pequena esperança morrer de forma extremamente silenciosa. Ainda assim, ele não conseguiu evitar que o cérebro encontrasse uma brecha porque não querer ter filhos não era exatamente a mesma coisa que nunca ter filhos, certo? Quer dizer... As pessoas mudavam, o futuro era estranho e acidentes aconteciam. A própria existência de Ronald parecia ser a prova viva de que a vida gostava de ignorar planejamentos. Mas Arthur logo afastou o pensamento pois a amiga tinha sido clara, e ele não era do tipo que insistia onde não devia. O ruivo suspirou longamente. — Entendido, Dona Dorcas. — Ele a observou por alguns segundos e acabou sorrindo porque mesmo depois de destruir uma de suas teorias favoritas dos últimos cinco minutos, ela ainda o tinha chamado de incrível. E, considerando o estado emocional em que se encontrava, Arthur estava começando a aceitar elogios como alguém perdido no deserto aceita água. — Pelo menos você me colocou no top três. — Deu de ombros e, então, levou a mão até um dos bolsos da calça e puxou a maldita lista. O pergaminho já estava amassado de tanto entrar e sair dos bolsos dele. Arthur abriu o documento com solenidade exagerada e Dorcas pôde observar enquanto ele procurava o nome dela e riscava. — Adeus, candidata número trinta e dois. — Murmurou. Quando terminou, baixou os olhos para o restante da lista e se arrependeu porque ainda havia muitos nomes. O ruivo ergueu o pergaminho na direção do rosto como se estivesse contemplando sua própria sentença. — Tem gente demais nesse castelo, isso vai ser impossível. — Os olhos percorreram o Salão Principal e as dezenas de alunas espalhadas pelo ambiente. Arthur suspirou pela centésima vez naquela noite antes de dobrar parcialmente a lista. — Você tem algum palpite? — O olhar percorreu o salão rapidamente antes de voltar para ela. — Sei lá, algum nome em mente? Sem ser a Hestia e a Rita, porque elas já me deram um fora também.
Concordava que devia ter começado com um pouco mais de tato. Mas quanto mais assustado Arthur parecia, mais Remus queria rir. Ainda que estivesse ciente que se tratava de uma reação bastante indevida. "Arthur, lembra que estamos presos aqui e que não temos como receber informações externas, não é?" Disse em um tom de voz calmo, na tentativa de acalmá-lo. Lupin fez uma pausa curta para organizar seus próprios pensamentos. Nunca imaginou que seria ele a dar aquele tipo de notícia duas vezes. Primeiro a James, agora a Arthur. "Deve ter ouvido sobre a encontro que a professora Mcgonagall e eu tivemos, certo?" Começou, de forma cautelosa. "Então, o garoto que encontramos... O nome dele é Ronald Weasley. Ron, acho que ele prefere o apelido. Pois bem, podemos concluir que é parente seu." Remus fez outra pausa, mas breve, apenas para acompanhar a reação do outro. Havia um sorriso em seu rosto, não por achar graça, mas porque esperava que ajudasse a diminuir o choque. "Ele disse que é melhor amigo do filho do James, então estou quase completamente certo que é seu filho. Bom... Vai ser seu filho, no futuro. Não muito distante, aliás."
Arthur percebeu muito cedo que tinha cometido um erro monumental ao aceitar ouvir aquela conversa. Não porque Remus estivesse sendo cruel, muito pelo contrário, ele parecia estar usando exatamente o mesmo tom que alguém utilizaria para dar algum diagnóstico complicado a uma pessoa que não esperava por isso. O problema era que o assunto envolvia o futuro inteiro de Arthur Weasley sendo jogado na sua cabeça como um armário despencando escada abaixo e o pior de tudo era que Remus continuava falando naquele tom absurdamente calmo enquanto o cérebro do ruivo tentava sobreviver ao impacto. — Eu ouvi sobre o encontro... — Respondeu por fim, esfregando uma das mãos no rosto. — Quer dizer, ouvi mais ou menos. Talvez eu tenha escutado só as partes que me interessavam e ignorado as que ameaçavam minha estabilidade emocional. — Aquela era uma forma muito elegante de dizer que tinha entrado em negação porque havia uma diferença enorme entre ouvir alguém comentar sobre um garoto ruivo encontrado do outro lado da névoa e realmente processar o significado daquilo. Arthur percebia agora que passara o último dia fazendo exatamente o que sempre fazia quando alguma coisa o assustava demais: fingindo que o problema não existia enquanto criava cinquenta teorias paralelas para não encarar a principal. Então Remus falou o nome. Ronald Weasley. De novo. Arthur sentiu o estômago afundar. Não importava quantas vezes escutasse aquele nome, a sensação continuava a mesma. Era como levar um soco inesperado e depois descobrir que o soco tinha vindo do futuro e enquanto todos pareciam criar conclusões, teorias e árvores genealógicas completas, Arthur ainda estava parado na primeira etapa do processo tentando entender como tinham saído de "três castelos apareceram" para "parabéns, você vai ser papai". — Você tem certeza que o garoto não falou algo tipo "meu tio Arthur" ou "meu primo Arthur" ou "aquele parente distante que aparece só no Natal e leva presentes estranhos"? — A esperança na voz dele era quase comovente mas, no fundo, ele sabia a resposta. Arthur passou as duas mãos pelo rosto, afundando os dedos nos cabelos ruivos logo em seguida. Estava tentando organizar os pensamentos quando Remus mencionou casualmente que Ronald era melhor amigo do filho de James. O ruivo congelou, depois soltou uma risada. Uma gargalhada nervosa, meio histérica e meio aliviada, daquelas que escapavam sem autorização. — JAMES TAMBÉM?! — A pergunta saiu mais alta do que deveria e Arthur imediatamente abaixou o tom, mas a risada continuou porque aquilo era absolutamente horrível e, ao mesmo tempo, era a melhor notícia que recebera nos últimos dias. — Então, eu não fui o único a queimar a largada. — A satisfação surgiu antes que pudesse impedir. — Quer dizer... não que eu esteja feliz pela desgraça do James. — Estava um pouco, eis a verdade. Era bom saber que não estava sozinho naquele desastre. Se o futuro tinha resolvido distribuir filhos aleatórios entre os marotos e seus amigos, pelo menos Arthur possuía companhia na própria crise existencial. — Céus... — Murmurou, afundando em uma poltrona próxima. — Nós nem terminamos a escola. — A imagem dele e James, dois adolescentes tentando processar uma paternidade futura enquanto ainda acumulavam deveres de casa, era tão ridícula que quase merecia um prêmio. — E nem namorada eu tenho pra encher o frasquinho dela com minha poção do amor, Lupin. — Aquilo parecia um detalhe importante e talvez o detalhe mais importante. O sorriso foi desaparecendo aos poucos enquanto ele absorvia o restante das informações porque, por trás do humor, ainda existia algo muito criticamente real. Existia um garoto que carregava seu sobrenome e que aparentemente conhecia James, que possuía amigos, uma vida, histórias, sonhos e medos. — Er... Ele parecia feliz? — Arthur engoliu em seco porque de todas as dúvidas que o assombravam naquele momento, aquela talvez fosse a única cuja resposta realmente importava. — Quero dizer... quando você falou com ele... — Os dedos se entrelaçaram nervosamente. — Ele parecia alguém feliz?
Aquilo era demais, era demais. Mesmo ela vinha ficando tão vermelha quanto Arthur, conseguia sentir o rosto inteiro queimando, até o pescoço. A vontade de rir era tanta que ela precisou cobrir o rosto inteiro com o capuz do moletom e puxar a cordinha até que ele deixasse só seu nariz do lado de fora. Assim, a risada que saia vinha abafada, baixa o suficiente pra impedir que ambos fosse expulsos dali. "Até onde eu sei, você pode sair daqui e engravidar alguém em um armário de vassouras hoje mesmo!" disse ao abrir um espaço a mais no capuz pra que sua boca também ficasse exposta, o suficiente pra o sussurro sobre aquilo se tornar audível para Arthur. Quando o rosto diminuiu o queimor, ela finalmente deixou ele exposto, precisando morder o interior das bochechas pra segurar o riso. "Pois não sabe o suficiente, se não nosso querido Ronald não estaria por aí invadindo barreiras suspeitas," o indicador bateu com a ponta na madeira da mesa, pontuando o que ela vinha falando. "Merlin, três filhos?" ela precisou fazer uma careta. Se um já parecia loucura o suficiente, imagina três? Hestia inclinou a cabeça para o lado, observando Arthur por alguns instantes. Ele realmente tinha cara de alguém que teria uma família grande no futuro, até que fazia sentido. Assentiu consigo mesma, preferindo não verbalizar aquilo e deixa-lo mais maluco que já estava. Quando a frase foi interrompida, a boca de Hestia se entreabriu, como se já estivesse se preparando emocionalmente para o que poderia sair daquela conversa, que já vinha sendo devidamente estranha. Ela permitiu que o silêncio se estendesse alguns segundos, "Botar a vassoura pra voar?" o sussurro saiu ainda mais alto, junto com uma gargalhada que logo foi abafada pelas próprias mãos da Jones. Aquilo só ficava pior a cada frase que saia da boca do Weasley. Como diabos ela tinha se metido naquilo se só estava ali por um cochilo clandestino? "Dude, você não vai pra lugar algum, acha mesmo que se você acabasse lá na bulgária sua mulher búlgara te deixaria colocar Ronald no nome do seu filho? Lógico que não. Ia ser algo tipo Ivan, ou Nikolai." tentou forçar um sotaque que só saiu ainda mais rídiculo que aquela possibilidade, rendendo uma nova careta a Hestia. "E nesse caso eu definitivamente vou sair em defesa do nosso senhor de quarenta e tantos anos, Ronald Weasley." aquele realmente soava como um nome de alguém que já nascera velho, falando sobre o clima e cultivando mandrágoras no jardim de casa.
Ela franziu o nariz enquanto as possibilidades sobre um novo nome surgia na conversa, é, devia vir de Perseus. O que era ainda mais estranho meter mitologia no nome de uma criança bruxa. Com dezenas de constelações no céu. Era melhor copiar a ideia dos Black e cada criança vir com nome de estrela. "Olha, se você for pro lado da mitologia eu vou te repudiar pela eternidade," disse um pouco mais séria dessa vez, erguendo o indicador em direção a ele. "segue o exemplo dos Black e aprimora, bota nome de meteoro nessas crianças, sei lá." se bem que se o futuro já estava bem ali, não havia muito o que Arthur pudesse fazer se não aceitar que não era a pessoa mais criativa pra nomear seus próprios filhos. "Não acho que bebedeira tenha sido seu problema, acho que você ficou tão empolgado depois do primeiro que saiu escolhendo nomes aleatórios pros outros filhos." os ombros subiram e desceram, era uma possibilidade, afinal. Se ao invés de três, ele tivesse colocado quatro Weasleys no mundo? Ronald poderia ser até o mais novo, e só até o segundo que Arthur foi capaz de pensar em nomes mais elaborados e foneticamente bonitos. Ela retirou de dentro dos bolsos do moletom um cantil cheio de whisky de fogo contrabandeado que nunca deixava de carregar por aí, estendendo furtivamente em direção ao Weasley. "Cê quer encher a cara? Eu to sentindo que você tá precisando." ofereceu com solenidade, franzindo o nariz.
Quando a conversa começou a mudar drasticamente de engraçado pra cauteloso, Hestia já tratou de se recostar na cadeira, se preparando pro que mais Arthur seria capaz de trazer aquela conversa. Já haviam falando sobre nomes, sobre métodos contraceptivos, sobre botar a vassoura pra voar, o que mais diabos ele teria pra perguntar que precisasse de tanto suspense repentino? Então a pergunta finalmente veio, e ela precisou de alguns segundos em silêncio, os olhos piscando uma, duas, três vezes, enquanto encarava Arthur completamente incrédula com aquilo. Merlin, ele realmente não sabia. Então, como quem precisa se assumir pela terceira vez na vida — primeiro para Dorcas, depois para Gwenog e agora para Arthur —, ela só suspirou pesadamente. Depois da segunda ela imaginava que todo mundo já soubesse daquilo, por Godric, não estava estampado na cara dela? O que precisava fazer pra ficar ainda mais gay? Inclinou-se sobre a mesa enquanto estendia a mão em direção a ele, convidando para segurar a sua enquanto o preparava para ouvir algo ainda mais dramático que a possibilidade deles tendo um filho hipotético no futuro. "Arthur, querido, eu vou segurar bem suas mãos enquanto te digo isso," ela comprimiu os lábios, sustentando o riso. "eu gosto de mulheres." disse enfim, assentindo consigo mesma. "Eu sou, muito provavelmente, a pessoa mais gay que você vai conhecer na vida." deu dois tapinhas na mão dele que segurava, como se aquilo fosse algum tipo de consolo. "A gente vai precisar pensar mais em alguém que goste de subir em vassouras pra ser a mãe desses seus possíveis filhos, sinto muito."
Arthur sentiu o próprio rosto entrar em combustão espontânea no instante em que Hestia repetiu "botar a vassoura pra voar" em voz alta e começou a rir, o ruivo praticamente saltou na cadeira, os olhos arregalados percorrendo a biblioteca em busca de testemunhas. — Fala baixo! — Sussurrou desesperadamente, inclinando-se sobre a mesa. — Pelo amor de Merlin, Hestia! Tem primeiranistas aqui. — A mão foi automaticamente para a gravata, afrouxando-a para conseguir respirar melhor. Arthur já estava convencido de que aquela conversa inteira seria a causa oficial de sua morte prematura. Não seria por conta de um dragão, não seria um comensal e nem de uma experiência mal sucedida envolvendo artefatos trouxas, seria uma conversa sobre filhos, gravidez e vassouras voando. Quando Hestia começou a falar sobre Bulgária, esposas búlgaras e crianças chamadas Ivan e Nikolai, o cérebro do bruxo começou a percorrer caminhos perigosos uma vez que Arthur estava tão focado na existência de Ronald que não havia parado para pensar profundamente na geografia da situação. E se não fosse na Bulgária? Talvez estivesse em Londres ou estivesse estudando em Hogwarts naquele exato momento. O estômago dele revirou ao cogitar aquela possibilidade. E se ela já estivesse ali? Se conversasse com ela todos os dias? Ou pior... Se já estivesse apaixonado por ela? A imagem de Molly apareceu tão rápido na mente dele que Arthur precisou desviar o olhar para a mesa. Aquilo era completamente ridículo, mas também era a única hipótese que fazia seu coração ficar um pouquinho menos desesperado. Então, imediatamente decidiu que precisava mudar de assunto antes que acabasse antes que morresse de vergonha ali, literalmente. — Ei, ei, ei! — A indignação foi instantânea. — Um pouco de respeito com Ronald Weasley. — Ele cruzou os braços. — O garoto nem nasceu ainda e já está sofrendo bullying. — O ruivo balançou a cabeça com desaprovação. Quanto mais pensava no garoto, mais sentia uma necessidade estranha de protegê-lo. — Vai ver exista uma excelente explicação para se chamar Ronald que não seja uma bebedeira além da conta. — Resmungou, cruzando os braços. — E outra... Só eu posso implicar porque eu sou o pai dele. — O tom saiu absurdamente sério como se aquilo resolvesse completamente a questão, entretanto, o silêncio que veio depois foi estranho porque aquela era a primeira vez que dizia aquilo com todas as letras. A frase pareceu errada dentro da própria boca, então, Arthur afundou lentamente na cadeira. — Ai, cara... Isso é muito esquisito. — Murmurou. — Eu nem consigo cuidar de um cacto... Como eu vou cuidar de uma criança? — O ruivo ainda estava encarando o vazio quando Hestia segurou suas mãos e Arthur congelou porque o cérebro dele, já fragilizado por informações demais, imediatamente começou a trabalhar em velocidade máxima. Ela parecia séria, o olhar parecia sério, o gesto parecia sério e até o tom parecia sério.
Por um momento completamente absurdo, Arthur pensou que finalmente descobriria a identidade da futura senhora Weasley. Ele segurou a mão dela imediatamente e já estava tentando reorganizar toda a linha do tempo da própria vida. Será que eles tinham se aproximado mais no futuro? Será que algum evento estranho tinha acontecido? Então, ela disse que gostava de mulheres e Arthur piscou algumas vezes no mais absoluto silêncio. As engrenagens dentro da cabeça dele começaram a girar devagar. Era quase possível ouvir os mecanismos enferrujados funcionando dentro da cabeça dele e a compreensão chegou tão de repente que ele quase caiu da cadeira. — AAAAAH! Então, vassouras realmente não são a sua praia! — A conclusão saiu antes mesmo que ele percebesse e Arthur imediatamente cobriu o rosto com as duas mãos. — Por Melin... — Uma risada nervosa escapou. — Eu deveria ter percebido isso. Era óbvio! — A vergonha veio em ondas que mais pareciam Tsunamis dentro dele, porque agora várias conversas antigas estavam ganhando um contexto completamente diferente dentro da cabeça dele. — Eu não acredito que o cheiro de couro passou despercebido pelo meu nariz durante todos esses anos. — A frase saiu antes que pudesse filtrá-la e imediatamente ele levou a mão à testa. — Que bola fora, que mancada... Me desculpa, Hestia. — O pedido foi sincero porque aquilo parecia algo importante demais para ela para fingir que não se importava. Ainda vermelho, o bruxo começou a remexer os bolsos do uniforme até retirar um pedaço de pergaminho completamente amassado. Havia muitos nomes em uma lista enorme, Arthur pegou a pena e suspirou de maneira exausta, procurando pelo nome Hestia Elowen Jones e riscou. — É... menos um nome. — Ele observou o pergaminho, depois observou a amiga e voltou para o pergaminho novamente. — Agora só faltam... — Os olhos percorreram a lista. — Quinhentas e quarenta e oito garotas para perguntar se elas hipoteticamente teriam um filho comigo. — A derrota na voz dele era quase poética. O bruxo ficou alguns segundos encarando o vazio, refletindo sobre a própria existência por longos segundos. — Sabe de uma coisa? Acho que agora seria uma boa hora pra eu aceitar o convite e encher a cara.
rita assistiu arthru falar com uma expressão serena. o mais divertido era que ele acreditava estar sendo sutil. cada vez que os olhos dele escorregavam para os pergaminhos espalhados sobre a mesa, rita sentia vontade de rir. não estava realmente debochando dele, mas aquele era exatamente o tipo de comportamento que viu repetido nas pessoas que tentavam lhe enrolar ao longo dos anos. felizmente nem precisou falar nada, porque ele acabou se entregando no final da fala. ❝ — arthur weasley, você é muito ruim em parecer despreocupado.❞ — o olhar dela deslizou para os pergaminhos por um instante, sabia perfeitamente que ele acompanharia o movimento. então voltou para arthur com a mesma calma. ❝ — mas já que você perguntou diretamente eu não escrevi nada... ainda. mas já que está aqui, talvez você queira me ajudar. afinal, ronald weasley... arthur weasley...❞ — arqueou as sobrancelhas, lançando a ele um olhar sugestivo. estava com os dedos coçando para não estalar rapidamente e fazer a pena começar a escrever, mas conteve-se. ❝ — quer dizer, seria muito interessante saber a sua versão de tudo isso. não sei, como você se sente em saber que tem um possível filho por aí? e, melhor, quem seri a sortuda que conquistou esse coração?❞
O olhar dele tentou permanecer fixo nela por aproximadamente dois segundos antes de escorregar novamente para os pergaminhos espalhados sobre a mesa antes de voltar os olhos para ela. — Ah, mas eu tô completamente despreocupado. — A resposta saiu tão rápida que quase atropelou a própria pergunta de Rita. Ele cruzou os braços, descruzou os braços, colocou as mãos nos bolsos e imediatamente tirou as mãos dos bolsos porque aquilo também parecia suspeito. Em algum lugar dentro dele existia um ser humano tentando parecer natural e esse ser humano estava perdendo uma batalha humilhante. — Despreocupadíssimo. — Os olhos dele acompanharam automaticamente o movimento dela em direção aos pergaminhos e Arthur percebeu isso um segundo tarde demais e imediatamente tentou parecer casual, o que apenas piorou tudo. Porém, quando Skeeter pronunciou o nome Ronald Weasley, toda a situação deixou de ser apenas desconfortável e passou para algo próximo de um desastre natural. O baque foi quase físico... Seu estômago afundou, a garganta secou e, por um instante, o bruxo teve a nítida sensação de que poderia vomitar. — Tá bom, eu não estou tão despreocupado assim. — A confissão saiu derrotada enquanto passava a mão pelo rosto. Como alguém deveria reagir ao descobrir que possivelmente tinha um filho escondido atrás de uma névoa dimensional? Existia um manual para aquilo? Uma apostila? Um panfleto distribuído pelo Ministério? Se existia, Arthur definitivamente não tinha recebido. — A verdade é que eu não tenho uma versão oficial dos fatos, Rita. — Suspirou e passou a mão pelos cabelos. — Porque toda vez que eu acho que entendi alguma coisa, aparece uma outra e ferra com tudo o que pensei. — O bruxo se apoiou na mesa por um instante, os dedos tamborilando nervosamente na madeira enquanto tentava organizar os pensamentos. — Semana passada eu tava preocupado com provas e hoje estou tentando descobrir se sou pai. — A simples frase parecia absurda quando dita em voz alta e, então, veio a pergunta sobre a mãe e Arthur quase teve um colapso visível porque o corpo inteiro pareceu travar por um segundo. — E-eu não sei quem é a "mãe" desse Ronald Weasley. — A resposta saiu baixa e vulnerável. Arthur fechou os olhos só por um segundo, o suficiente para sofrer mais um pouquinho, porque aquela questão também estava destruindo sua paz. Aparentemente todo mundo sabia da existência do garoto mas ninguém sabia da mãe. Então, ele ficou em silêncio por alguns segundos até que uma ideia horrível surgiu em sua mente. Uma ideia daquelas que só apareciam na cabeça dele e que nunca deveriam ser verbalizadas. Mas, naturalmente, Arthur botou pra fora. — Mas já que estamos fazendo perguntas desconfortáveis e você parece muito interessada nessa história da mãe... — Estreitou os olhos. — Rita Isobel Skeeter... — O dedo apontou para ela como se tivesse acabado de desvendar um grande mistério. — Você por acaso teria um filho comigo?
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Durante tempo demais sua mente permaneceu focada no fato de Arthur ter usado a identidade de outro rapaz para sair pelo castelo flertando com outras garotas. Uma parcela sua se inflamava com uma espécie de ciúme que não tinha precedentes e nem explicação, pois o amigo continuava solteiro e livre para aproveitar a vida como bem entendesse. Mesmo que optasse por desfrutá-la em orgias ardentes com outras alunas. Ora, Arthur já havia expressado o desejo de ir até outro castelo na esperança de encontrar uma companheira, por que ela ainda parecia se surpreender ao confirmar que o anseio persistia? Mas parte sua, inconscientemente, associava aquele episódio com essa mesma confissão feita na sala comunal da grifinória, mas por outra perspectiva. Teria ele recorrido ao polissuco por ainda se sentir insuficiente? Por acreditar que apenas seria capaz de conquistar alguém ao assumir a identidade de outra pessoa? Talvez estivesse dando importância demais para uma simples brincadeira proposta por Weasley para distrair a mente, talvez estivesse esmiuçando demais algo que deveria ser apenas inconsequente e descomplicado. Começava a se preocupar com a possibilidade de algo na química de seu cérebro ter mudado depois do beijo entre os dois, pois estava convencida de que nada daquilo passaria por sua cabeça em condições normais. Reprimindo qualquer raciocínio ou sentimento que não contribuísse positivamente com aquela conversa, Molly encheu os pulmões de ar e os esvaziou lentamente em seguida, retomando a clareza para acompanhar o que o outro dizia. Franziu o cenho, visivelmente zangada quando nem mesmo os problemas causados pela troca momentânea de corpos foi o suficiente para convencê-lo a ser mais responsável. Pior ainda, ele já justificava possíveis equívocos futuros. ── Isso mesmo, Arthur, culpe o castelo por suas decisões individuais. Tá certinho… ── Rebateu, um tanto cínica e insatisfeita. Notando que nada do que dizia parecia penetrar a mente do amigo ou convencê-lo a observar a situação através de seu ponto de vista, a garota se sentia cada vez mais frustrada, sem nem mesmo encontrar disposição para continuar a enfatizar os riscos que havia corrido com a brincadeira. Ao menos, com o pavor demonstrado por ele diante da ideia de ser James Potter pelo restante de seus dias, tinha esperanças de que se aceitasse um pouco mais e começasse a reconhecer as próprias qualidades, pois eram inúmeras.
Erguendo o olhar adiante, ela apoiou a cabeça contra a parede e engoliu seu aborrecimento em seco, focando a atenção na mais recente crise a afligir o amigo — que, consequentemente, também a afligia por reflexo. Para a sua tristeza, Arthur parecia saber tanto quanto ela, o que seria o suficiente para deixá-la tão aflita quanto ele naquele momento, mas que ainda parecia muito pouco para que a paternidade fosse firmada em rocha. Pensava em diversos argumentos que poderia usar para tranquilizá-lo, mas chegou à conclusão que o melhor a fazer era permitir que desafogasse toda a tormenta que carregava no peito. Era possível que apenas quisesse surtar em paz, na companhia de alguém confiável, sem ser julgado pelas emoções despertadas pelo anúncio de Ronald Weasley. O discurso honesto ecoava em sua mente, inevitavelmente a fazendo pensar em Lílian e em como deveria estar se sentindo com a descoberta do próprio filho, este mais concreto e indiscutível, declarado com todas as letras. Sendo honesta consigo mesma, imaginava que todos os seus colegas se sentiam da mesma forma, despreparados para lidar com a responsabilidade de ter uma vida sob seus cuidados. Ora, as palavras ditas por Arthur ali caberiam na sua própria boca, sem alteração ou adaptação, caso descobrisse ser mãe de algum jovem do outro lado da barreira. A simples ideia despertava um suador na palma de suas mãos. Como monitora, possuía alguma experiência no cuidado e na orientação dos alunos mais jovens, mas sabia que aquilo estava longe de se comparar à responsabilidade de ser inteiramente responsável por outra pessoa. Havia uma diferença considerável entre supervisionar estudantes durante algumas horas do dia e carregar o peso constante de moldar, proteger e educar uma criança. Quando precisava lidar com algum aluno particularmente teimoso ou encrenqueiro, bastava mencionar a possibilidade de relatar o ocorrido aos pais para que a maioria reconsiderasse suas escolhas. Era um recurso simples, mas surpreendentemente eficaz. O problema era que essa estratégia deixava de existir quando se era o próprio pai ou mãe da criança em questão. Afinal, não havia nenhuma autoridade superior para quem transferir a responsabilidade. No fim das contas, todas as decisões, correções e consequências inevitavelmente retornavam para você. E, pela primeira vez, ela começava a compreender o quão assustador aquilo realmente podia ser. O terror ameaçava transparecer por seu olhar, enquanto assentia e se mostrava atentiva a tudo que ele dizia, até que a autocrítica descabida verbalizada pelo rapaz despertou sua indignação.
O que o convencia de acreditar ser algo menos que incrível? Seu olhar encontrou o dele no mesmo instante, quase ofendido por tabela. Estava cansada de escutá-lo se autodepreciar daquela maneira. Era injusto e desnecessariamente cruel. Mas, antes que pudesse dizer algo para confrontá-lo, a dúvida seguinte o manteve calada. Aquela era mais uma questão relevante, que também tiraria o sono de Molly. E as especulações que percorriam os corredores tampouco ajudavam. O observando de soslaio, tentava interpretar a expressão estampada em seu rosto, imaginando se alguém surgia na mente dele ao pensar sobre a futura mãe de seus filhos. Um nervosismo indecifrável nasceu em seu estômago de repente. Mas essa sensação inquietante logo foi reduzida a nada com o golpe desferido contra seu peito em seguida. Porque... e se não for você? Seus olhos se arregalaram, confusos e desacreditados. Como se perdesse o controle sobre os próprios movimentos e o corpo reagisse a uma queda abrupta, ela ergueu discretamente os braços rente ao corpo, tentando recuperar o equilíbrio perdido após o impacto inesperado. O que ele queria dizer com aquilo? O QUE ELE QUERIA DIZER COM AQUILO? A dúvida gritava ao pé do ouvido, a impossibilitando de dizer qualquer coisa. Mas o bruxo parecia decidido a não permitir que o silêncio ou a tensão se estabelecesse entre eles. E com uma nova rasteira contra os seus pés, o pânico deu espaço para uma nova comoção dentro de seu peito. Arthur acreditava que ela seria uma boa mãe? Aquele era um elogio que não esperava receber em qualquer estágio de sua vida, muito menos esperava que a comovesse como fazia. Mas era diferente quando vinha dele e durante uma troca tão honesta. Algo pareceu se tranquilizar dentro dela, como se uma peça retornasse do lugar de onde nunca deveria ter saído e realinhasse o que havia se desprendido em caos. Embora seus olhos ameaçassem marejar, ela não admitiria se tornar o foco daquela discussão.
Recobrando a linha de raciocínio e focando no problema do rapaz, Molly voltou a se afastar da parede e colocar-se diante dele, pintando do rosto um semblante impassível.── Eu não sei com quem você anda convivendo, mas é inacreditável como não consegue reconhecer suas próprias virtudes, Arthur. Você precisa parar de falar do meu melhor amigo dessa forma tão crítica, eu não gosto nem um pouco. ── Seu tom era carinhoso e firme na mesma medida, pois era de suma importância que ele compreendesse a seriedade com que falava, mas sem se esquecer do carinho profundo e o respeito que nutria por ele. Já havia passado da hora de Arthur se enxergar como o rapaz fantástico que realmente era. ── Qualquer criança seria a mais afortunada do mundo com o privilégio de ter você como pai e exemplo de homem. ── Não dizia aquilo da boca para fora. Quem o conhecesse suficientemente bem não teria dificuldade para visualizá-lo apresentando novos objetos trouxas para seu filho, possivelmente mais encantado e entusiasmado com a atividade do que a própria criança. Para enfatizar o que dizia, avançou meio passo na direção dele, sem ser agressiva com os movimentos. ── Você é carinhoso, divertido, inteligente, generoso, criativo, honesto, acolhedor, compreensivo, otimista, tolerante... ── Devido ao fôlego que se esgotava, sua pausa foi quase compulsória, pois ainda estava distante de alcançar o fim. Suspirou, balançando a cabeça em negativa, demonstrando estar cansada por ser capaz de fazê-lo se enxergar através de seu olhar. ── Quantas vezes eu vou precisar repetir essa lista até que entenda que estou dizendo a verdade? ── O faria quantas vezes fosse necessário. Hesitando por um instante, prosseguiu. ── E, bem, essas… Essas qualidades também valem para a afortunada da sua futura esposa e mãe de seu filho, seja lá quem for. Qualquer mulher teria sorte de ser escolhida para estar ao seu lado. ── O coração deu um salto dentro do peito. Pigarreou, ligeiramente desconcertada, pois reconhecia o motivo do nervosismo despertado por aquele assunto. ── E eu posso estar perdendo a cabeça, sendo burra ou inocente demais ao pensar assim, mas acho que todo mundo está se adiantando ao presumir que este rapaz é o seu filho só por carregar o seu sobrenome e os cabelos ruivos. Não acha possível que seja filho de um parente distante? Você não é o único Weasley ruivo no mundo. ── Deu de ombros. Não se sentia confiante em dizer aquilo, mas faria o possível para fazê-lo se sentir melhor ou ao menos mais esperançoso com o futuro. ── A chance pode ser remota, mas ainda é possível. ── Talvez não fizesse sentido nenhum. Mas, bem, tinha a justificativa de ter perdido seu chão em diferentes ocasiões pelas últimas semanas e daria a si mesma a liberdade de não fazer sentindo dentro dessas condições.
Existiam coisas para as quais um bruxo podia se preparar e existiam coisas que simplesmente o acertavam no peito sem aviso e Molly falando dele daquela forma era uma dessas coisas. Não era apenas o que ela dizia, era a convicção e a forma como falava como se aquelas qualidades fossem fatos tão óbvios quanto o céu sobre Hogwarts. Arthur sentiu o próprio coração apertar de uma maneira estranha enquanto ela falava. Os olhos do ruivo permaneceram nela quando ela o chamou de carinhoso, divertido, inteligente e todas as outras coisas que vieram depois, e cada palavra parecia encontrar alguma parte dele que normalmente permanecia escondida atrás de piadas, teorias absurdas e tentativas desastrosas de resolver problemas que não eram da sua conta. Por um instante, Arthur teve a impressão de estar enxergando a si mesmo através dos olhos dela, e aquilo era quase desconfortável. Não porque fosse ruim, mas porque era bonito demais. Bonito de um jeito que ele não sabia lidar. Arthur conhecia suas qualidades, mas também conhecia suas falhas com uma intimidade quase cruel, reconhecia todas as decisões impulsivas, as detenções acumuladas, as suposições absurdas que inventava antes de dormir e até os momentos em que sua curiosidade era maior do que seu bom senso. E o pior de tudo era que Prewett não parecia estar exagerando para fazê-lo se sentir melhor, ela parecia acreditar em cada palavra dita e fazia parecer simples gostar dele, como se não houvesse nada para questionar, como se ele fosse alguém fácil de admirar e aquilo talvez fosse ainda mais perigoso do que a existência de um possível filho no futuro. Quando ela terminou, Arthur permaneceu em silêncio por alguns segundos. Observou o rosto dela, os olhos dela, o jeito como parecia determinada a convencê-lo daquilo tudo e, então, um pensamento traiçoeiro atravessou sua mente. Se ela acreditava tanto assim que qualquer mulher teria sorte de estar ao lado dele... por que falava como se estivesse descrevendo outra pessoa? E, de repente, alguma coisa dentro dele simplesmente apagou. Foi um sentimento estranho, como uma vela que continua acesa, mas perdesse a força de repente. Ele desviou o olhar pela primeira vez durante toda a conversa e os olhos encontraram uma janela próxima, depois uma armadura antiga no corredor, depois qualquer coisa que não fosse Molly, porque aquela frase era incrivelmente gentil e justamente por isso doía. Ela sempre parecia fazer aquilo: empurrá-lo para uma mulher imaginária, para uma futura namorada desconhecida, para alguém que existia em algum lugar do futuro e nunca para ela. Se ele era tão incrível quanto ela dizia, tão gentil, tão divertido, tão tudo aquilo... então por que aquela sorte sempre pertencia a outra pessoa? O pensamento surgiu sozinho e imediatamente Weasley sentiu culpa por tê-lo porque Molly não lhe devia absolutamente nada e, ainda assim, a pergunta permaneceu silenciosa, incômoda e plantada em algum canto do peito. O ruivo sorriu de leve, mas havia algo melancólico naquele sorriso. — É uma lista bem longa para alguém que vive sendo pego fazendo besteira. — Comentou, tentando manter o tom leve, mas a brincadeira não teve a força habitual porque, pela primeira vez desde que aquela conversa começara, Arthur não estava pensando em seu possível filho do futuro, estava pensando nela e pensar na possibilidade de Molly não querer estar naquele lugar era infinitamente mais assustador do que pensar na existência de um Ronald Weasley. O silêncio durou alguns segundos antes que ele finalmente respirasse fundo e deixasse o assunto seguir adiante. Talvez fosse mais fácil e mais seguro, porque o território da paternidade prematura já era assustador o bastante sem adicionar seus próprios sentimentos à mistura.
O comentário sobre o garoto não necessariamente ser seu filho ajudou a interromper aquele desastre emocional antes que ele se aprofundasse ainda mais. Arthur agradeceu mentalmente por isso porque agora surgia uma nova teoria para distrai-lo. O ruivo cruzou os braços e começou a pensar em voz alta, hábito perigoso que frequentemente o levava a lugares questionáveis e que, de vez em quando, trazia um arrependimento ou outro para sua vida. No fim das contas, Molly tinha razão. Ele não era o único Weasley ruivo do mundo. Existiam primos, tios, parentes distantes e provavelmente algum antepassado perdido em algum canto da Inglaterra que também possuía cabelos alaranjados. — Eu não sei se gostei do fato de isso fazer sentido. — Admitiu por fim, balançando a cabeça lentamente. — Porque eu já estava começando a aceitar minha paternidade compulsória imposta por uma névoa interdimensional... Já estava quase fazendo as pazes com a ideia e agora você aparece com lógica. — O canto de sua boca se ergueu em um sorriso pequeno. O ruivo suspirou e passou a mão pelos cabelos, bagunçando ainda mais os fios já desalinhados. O coração havia desacelerado um pouco, mas não completamente, ainda existia algo dentro dele preso naquilo que ela dissera antes, na forma como falara e na certeza com que o defendera dele mesmo. — Mas se eu descobrir que você está certa... — Começou, voltando os olhos para ela. — E esse garoto for só um primo distante... ou um sobrinho... ou o filho de algum Weasley que resolveu perpetuar nossa tradição familiar de tomar decisões duvidosas... Eu vou ficar muito, muito aliviado. — Arthur fez uma pausa como se estivesse reconsiderando a sua próxima fala. — E um pouquinho decepcionado. — Ele precisava admitir por mais aterrorizante que fosse a ideia de ser pai, por mais despreparado que estivesse, por mais que Ronald continuasse sendo um nome que parecia resultado de uma aposta perdida... uma parte dele já tinha começado a imaginar aquele menino existindo. Uma parte dele já tinha começado a se importar. Por isso, quando falou novamente, o humor retornou pela necessidade quase desesperada de aliviar o próprio coração. — Apesar de tudo... — Começou, cruzando os braços. — Eu ainda não superei o nome. — A expressão ficou profundamente ofendida. — Ronald. — Balançou a cabeça. — Se existe uma chance real desse garoto ser meu filho, eu devo ter sofrido uma concussão grave no dia em que escolhi esse nome. — E, por mais que tentasse parecer indignado, o olhar acabou voltando para Molly uma última vez. — Ou talvez a mãe tenha escolhido o nome. — O olhar de Arthur permaneceu nela por mais tempo do que deveria depois daquela última frase, talvez porque tivesse sido uma brincadeira ou talvez porque não tivesse sido inteiramente uma brincadeira. A linha entre as duas coisas vinha ficando perigosamente borrada sempre que ela estava por perto.
O silêncio que então surgiu não era constrangedor, era um daqueles silêncios que carregavam coisas demais. Arthur observou o rosto dela por um instante, os olhos percorrendo detalhes que conhecia há anos e que, ainda assim, pareciam novos desde a Sala dos Troféus. A curva suave dos lábios, a forma como ela franzia levemente a testa quando estava preocupada, o brilho determinado que surgia nos olhos quando decidia proteger alguém que amava. Era isso era completamente injusto porque quanto mais tempo passava ao lado dela, mais difícil ficava fingir que aquilo era apenas amizade. Ele desviou o olhar por um instante, tentando organizar os próprios pensamentos e falhou miseravelmente nisso. A verdade era que estava cansado de lutar contra aquilo. Cansado de fingir que o coração não acelerava quando ela sorria, cansado de fingir que não prestava atenção demais na voz dela ou que não passava tempo demais imaginando futuros que nem sequer sabia se existiriam. Descobrir a possível existência de um filho tinha sido assustador mas descobrir que, no fundo, desejava desesperadamente que Molly fizesse parte daquela história tinha sido pior. — Molly... — Começou, mais baixo do que pretendia e a voz falhou um pouco no final. Ele soltou uma pequena risada nervosa e coçou a nuca. — Posso...? — A pergunta ficou suspensa por um instante e Arthur abriu e fechou a mão ao lado do corpo antes de finalmente completar: — Posso te dar um abraço? — Era uma pergunta simples mas não pareceu simples quando saiu de sua boca porque não era sobre um abraço ou, pelo menos, não apenas sobre isso. Era sobre agradecer. Sobre conforto. Sobre a forma como ela sempre aparecia quando ele precisava. Sobre a maneira como tinha passado os últimos minutos juntando os pedaços da confiança dele sem sequer perceber. Então, Arthur simplesmente deu um passo à frente e não esperou uma resposta formal da parte dela. Não porque não respeitasse a amiga, mas porque, naquele instante, aquilo pareceu a coisa mais certa do mundo. Ele se aproximou devagar, como se tivesse medo de quebrar alguma coisa invisível entre eles. Os braços envolveram a cintura dela de forma cuidadosa, firme o suficiente para transmitir o que sentia, mas sem exigir nada em troca. Quando a trouxe para perto, algo dentro dele finalmente relaxou. Uma tensão que ele nem sabia que carregava pareceu desaparecer dos ombros, o que era estranho porque abraços nunca deveriam resolver tantos problemas assim. E, no entanto, aquele resolvia. Arthur apoiou o rosto próximo aos cabelos dela por um instante e pôde sentir o perfume familiar, o calor, a sensação simples da presença dela. Tudo aquilo produzia um conforto que nenhuma explicação lógica conseguia alcançar. Era como voltar para casa depois de um dia longo ou como encontrar uma luz acesa esperando por você quando a noite já tinha caído. Os dedos dele apertaram levemente o tecido das vestes dela nas costas o suficiente para demonstrar algo que não conseguia colocar em palavras. Quando falou, sua voz saiu mais baixa do que pretendia, quase um segredo perdido entre eles. — Obrigado. — A palavra saiu junto ao ouvido dela. O agradecimento veio simples e sincero, mas carregava muito mais do que a palavra permitia. Obrigado por acreditar nele. Obrigado por enxergá-lo daquela forma. Obrigado por permanecer ali. Obrigado por ser Molly. Então, o ruivo fechou os olhos por um segundo antes de continuar. — Eu acho que você é a única pessoa que consegue me convencer que eu não sou completamente maluco.
Hestia sequer estava estudando, tinha se coberto com o moletom mais fofinho e corrido pra biblioteca pra tirar um cochilo enquanto fingia ler um livro, era engraçado porque já tinha se tornado um hábito da Jones. Quem poderia culpa-la? Era o lugar mais silencioso do castelo, oras. Era, até o suspiro alto e pesado de Arthur conseguir acorda-la de sua pestana, fazendo-a pular na cadeira. A bibliotecária já havia advertido ela sobre seus cochilos e pelos segundos que a confissão do Weasley não chegaram nos seus ouvidos ela teve certeza que ouviria um novo sermão. Estava pronta pra reclamar, mas ouvir Arthur Weasley dizendo que não estava pronto pra ser pai fez Hestia arregalar os olhos e finalmente acordar pra vida. "Você engravidou de quem?! Quer dizer, engravidou quem?" ela questionou com devida exasperação, se atropelando com as palavras. Fosse o sono ou fosse pela surpresa. O corpo se inclinando sobre a mesa pra que o sussurro, já devidamente alto, chegasse até o outro lado. Merlin que a segurasse, porque cada vez que Arthur abria a boca, mais assombrada Hestia ficava e o pior que era expressiva o suficiente pra isso ficar evidente em seu rosto: arqueando as sobrancelhas, abrindo e fechando a boca, franzindo o nariz. Para que ele iria pedir a opinião dela? O que diabos Hestia saberia sobre engravidar alguém? Será que Arthur sabia que ela também gostava de mulheres e isso, feliz ou infelizmente, era impossível de acontecer? Hestia levou a mão ao peito, já se preparando pra algo muito maior do que o que viria. "Você não teve essa conversa com seus pais?!" ela sussurrou antes que ele pudesse completar o questionamento. Era sobre futuro que ele queria falar, e ouvir aquilo fez ela finalmente respirar e relaxar os ombros. "For Merlin sake, Arthur!" exclamou, rindo baixinho. "Eu tinha certeza que ia ter que começar um sermão sobre como você deveria se proteger e já tratar de te passar receitas de poções preventivas." finalmente caiu em si, era dos boatos que ele vinha falando todo aquele momento. O garoto Weasley do outro castelo, Ronald. Ronald Weasley era o nome. Hestia precisou cobrir o rosto com as duas mãos pra conter a gargalhada e impedir que ambos fossem expulsos dali. O nome realmente era ridículo, mas bem que podia ser pior. "Você definitivamente perdeu a criatividade, mas olha pelo lado bom: ele poderia se chamar Percy." abriu os braços, convencida que aquele era sim um bom ponto. "Já se imaginou tendo um filho chamado Percy Weasley? Isso nem nome de gente é, eu tenho certeza que minha tia avó tinha um cachorro chamado assim." fez uma careta lembrando do cão ranhento que vivia arisco, sempre rosnando pra todo mundo. "Pelo menos Ronald ainda tem um apelido legal, já pensou?" continuou, tentando motivá-lo. "Podem chamar ele de Ron. Ron Weasley é maneiro, não é não?" Hestia sorriu convencida, lançando uma piscadela em direção a Arthur em cumplicidade. "Agora Percy definitivamente não tem escapatória, sequer consigo pensar num apelido pra isso."
Arthur ficou vermelho tão rápido que parecia que alguém tinha lançado um algum feitiço diretamente no rosto dele. O ruivo levou as duas mãos ao rosto como se pudesse impedir a própria circulação sanguínea de continuar funcionando e afundou alguns centímetros na cadeira. A simples palavra engravidou parecia ter atravessado a biblioteca inteira e ido bater direto em sua alma e, por um segundo horrível, ele teve a sensação de que todos os livros ao redor estavam olhando para ele com julgamento. — Eu não engravidei ninguém! — Sussurrou alto demais para alguém dentro de uma biblioteca. Imediatamente lançou um olhar nervoso para os arredores, esperando que a bibliotecária não surgisse de alguma estante para expulsá-los dali. — Quer dizer... ainda não. — A correção saiu e imediatamente piorou tudo. — Por Merlin, isso é terrível. — Arthur afrouxou a gravata como alguém prestes a desmaiar por falta de oxigênio. Passou a mão pelos cabelos várias vezes antes de soltar um suspiro dramático. — O que eu estou tentando dizer é que aparentemente em algum momento distante da minha existência, eu vou cometer esse ato revolucionário chamado reprodução. Mas até onde sei, não será hoje! — O bruxo apontou para si mesmo como se estivesse apresentando provas em um julgamento. A vergonha continuava queimando suas orelhas enquanto ele tentava recuperar alguma dignidade. — E eu sei me cuidar, tá?! — Acrescentou rapidamente. — Conheço todas as poções preventivas. Bom... quase todas. Sei o suficiente para não acordar amanhã e descobrir que tenho três filhos escondidos em Hogsmeade. — Defendeu-se, apontando para o próprio peito. — Mas, assim... não porque eu precise delas frequentemente ou porque eu use ou porque eu tenha muitas oportunidades para isso. — Arthur fechou os olhos por um segundo e quando voltou a falar, sua voz havia descido para um tom quase resignado, como alguém aceitando o próprio destino. — Até porque... para aparecer uma gravidez surpresa por aí eu primeiro precisaria... bem... — O ruivo travou e o rosto ficou ainda mais vermelho. — Você sabe... — A mão fez um gesto completamente inútil no ar. — Botar a vassoura para voar. — O silêncio que veio depois foi tão devastador que Arthur imediatamente apoiou a testa na mesa. — Argh!Eu odeio essa conversa. Eu odeio essa conversa tanto que estou considerando me mudar para Durmstrang. — Ainda assim, apesar de toda a vergonha, o problema continuava existindo.
A conversa então migrou novamente para os nomes, o que, para Arthur, era um terreno quase tão assustador quanto a paternidade. Quando Hestia mencionou o outro nome, ele fez uma careta tão dramática que parecia ter mordido um limão inteiro. Na verdade, quanto mais pensava naquilo, mais suspeitava que o futuro Arthur tivesse sofrido alguma pancada séria na cabeça antes de registrar os filhos. — Percy... — Repetiu devagar, fazendo uma careta. — Percy vem de Perseus, não vem? — O nome ficou pairando entre eles por alguns segundos e Arthur repetiu mentalmente. — Sei lá, parece nome de algum semideus grego. — O tom saiu quase ofendido e balançou a cabeça imediatamente. — Não gostei. Parece alguém que nasce já carregando uma profecia e uma saga de sete livros. — O ruivo cruzou os braços e refletiu como se estivesse analisando um documento importante do Ministério. — Se for só Percy é até melhor do que Ronald. — Admitiu com relutância, então, apoiou a cabeça nas mãos. — Mas, sério, eu juro que quanto mais penso nisso, mais tenho certeza de que eu estava muito bêbado no dia em que esse menino nasceu. — Por alguns segundos ficou encarando a madeira da mesa enquanto tentava aceitar a própria realidade, mas, não conseguiu. Ronald Weasley continuava existindo. E a cada minuto que passava aquilo parecia mais absurdo porque não era apenas um filho, também existia uma mãe naquela história. Uma pessoa real. Uma pessoa que, aparentemente, havia gostado dele o suficiente para terem agraciado o mundo com um novo Weasley. O pensamento era assustador o bastante para que ele permanecesse alguns segundos encarando o tampo da mesa antes de erguer os olhos novamente e, logo, o olhar pousou em Hestia de forma quase minuciosa, como alguém tentando resolver uma equação impossível naquela altura do campeonato. Talvez fosse o sono. Talvez fosse o desespero. Talvez fosse o fato de que ele já estava fazendo perguntas absurdas havia dias. Mas, naquele momento, a curiosidade e a falta de bom-senso venceu mais uma vez. — Hestia, me responde mais uma coisinha aqui, é a última, eu juro. — Começou devagar, estreitando os olhos. — Se hipoteticamente tudo tivesse enlouquecido completamente no futuro, você acha que existe alguma possibilidade remota, microscópica, estatisticamente improvável, mas tecnicamente não impossível... de você acabar tendo um filho comigo?