el botón de nácar (2015), chile, dir: patricio guzmán
Quando novo, observara bastante o Cinturão de Órion e o Cruzeiro do Sul. Não imaginava - a princípio - que o esplendor à vista não só gera fascínio como também é o grande observador da ciclicidade humana. A propriedade atômica - no divino científico, o corpo humano, vida e consciência, abalado laconicamente pelo seu futuro, obsessão desenvolvimentista, sistema desigual usurpador e opressivo. A história da origem de tudo é um grande transe, como o sonho de Machado de Assis; é um passeio esplêndido pelo absoluto da forma - o espírito (em Kawésqar, sem "deus" ou "polícia"), a água, as estrelas, o quartzo - objeto petrificado que resiste aos milhares de anos. A água, como o pensamento - se transeunte, flexível, humanista; também testemunha do tragédia. O ensaio de Guzmán que muito lembra Nostalgia da Luz revela a conexão cósmica da história universal - da abstração da formação da consciência à violência causada pela humanidade, às artimanhas estadounidenses e os longos anos de ditadura militar no Chile sob o comando de Pinochet. Revela também a contigüidade da violência histórica dos colonos, a invasão europeia em uma terra já em paz com seus habitantes. Esses, seres da água, andavam sobre os mares. A fantástica configuração geográfica do Chile - de monumental deserto do Atacama a um grande rastro que expande as rotas norte e sul. A longa costa que encontra o mar destaca um país meio terra e meio mar. Conectado ao espaço amplo do céu, do abismo do conhecimento humano, a água como território natural, pássaros marítimos, cultura de fluxo, respeito e entendimento mútuo de ser e universo.
Os mesmos espaços da condenação e destruição civilizatória europeia, no futuro, evidenciaram as violações, torturas, assassinatos, mutilações de um povo - militantes de uma ideia política, sistematizada pelo socialismo, a crença da União Popular do início dos anos 70, seja na busca pela reforma agrária, pela igualdade, pelo fortalecimento do Poder Popular nas ruas, pelo operário, pelos sindicatos, pelas juntas de distribuição de alimentos, pelos movimentos democráticos populares que se opuseram aos boicotes e às greves financiadas pelos Estados Unidos e pela direita voraz no Chile - enquanto ocorria a desintegração de uma estrela Supernova tão perto da terra. A história que precisa ser repetidamente contada - tensiona colapso também quando Guzmán nos apresenta a imagem brutal do rosto de Marta Ugarte, a mulher da praia, misteriosa e anônima existência que carrega a marca da dor, seus olhos, abertos, como as estrelas, grande observadora da miséria humana. Ela, sem direito à imagem, à dignidade do corpo ou da representação: sua demanda é nacional histórica, não mais individual em seus direitos. Impacto da visualidade quando é recriada a forma de empacotamento, objetificação, desses homens e mulheres, antes de serem jogados ao mar, para o esquecimento dos crimes e da responsabilidade do regime militar chileno e dos vários civis que o apoiaram.
À plena visão do surgimento do universo e do apocalipse sedento que se manifesta diariamente nessas terras ensanguentadas, a impunidade. O cinema, em transe, recontará obsessivamente essas narrativas, enquanto há vida e tecnologia - em O Botão de Pérola, o pensamento que se assemelha às águas, pela montagem, pela construção da narratividade pela voz, progressiva, latente, de seu próprio ritmo, pela fusão - a condição de uma imagem mergulhada ou devorada por outra em sua mescla de poesia, inesperada, a contração e contradição de memórias e estados de ser. Àquele jovem de classe média, a realidade intangível pela educação social e do Estado, o contato aos primeiros, os povos indígenas (cujas terras, inclusive, foram devolvidas durante o breve governo de Allende). A busca pela linguagem esquecida pela instituição colonizatória, pela cultura orgânica (a dificuldade imposta pela Marinha em liberar os povos nativos usarem suas próprias embarcações artesanais), aos esquecimentos traçados no solo e na linha do tempo da Patagônia, à música das águas - conhecimento multiverso, quântico, o idioma das águas, para além da simplificação da relação comunicação/natureza.
Aqueles povos sobreviventes da Patagônia, fotografados por Paz Errázuriz, assumindo para os chilenos - atuais donos da terra - primeira formação de identidade no termo ocidental, visualidade, demarcação material de sua existência, se em seus corpos estão grafadas as estrelas e os segredos astronômicos, que lhe permitiam um conhecimento sensível do tempo, do clima, do natural, é porque já estampavam também os seus ancestrais, os mesmos que se multiplicavam nos céus como novos astros. A sua história é grafada no corpo para uma expansão cíclica e consciente. Seu povo, seu sangue, sua raiz. À beira do colapso da relação e massacre entre os povos e as organizações políticas de seu tempo.














