Ao meu lado sentia seu corpo despertar, logo não demoraria para que ela se virasse em busca de meu rosto. Lívia tinha esse estranho hábito de me encarar, não importava se eu estivesse dormindo ou acordado, várias vezes me deparei com seus olhinhos castanhos pela casa. Ela era esse tipo de pessoa que consegue achar graça em pequeninos atos, como por exemplo o esvaziamento da xícara de café enquanto o bebe, era até engraçado vê-la nesses momentos de contemplação, uma criança olhando pelo caleidoscópio. Então virei-me e lá estavam aquelas amêndoas a me observar, bem como seus lábios inchados, sua face amaçada e cabelo esparramado por todos os lados e como que dizendo bom dia sorri e me beija num beijo preguiçoso, tão preguiçoso que terminou em um bocejo. Espontânea e sincera como sempre.
Saiu da cama e eu sabia que ela iria tomar banho, aproveitei para me espreguiçar e sentir seu perfume. O barulho do chuveiro era a trilha sonora e eu de olhos fechados, imaginava minha musa lá, dançando sob águas quentes.
Depois do café da manhã-quase-tarde iriamos começar a faxina, juntos. Depois de certo tempo acabamos criando uma rotina, que além de envolver tarefas domésticas incluía também escorregões ao lavar o banheiro, roupas manchadas depois de saírem da máquina de lavar, miojo no jantar de sexta á noite, chinelos trocados, maratona de vídeo game, indicações de livros e filmes, novidades na cama, palavrões, choros, visitas de amigos e parentes...
Depois de cuidar do básico, tirar pó, varrer, passar pano e lavar a louça enquanto Liv cuidava do banheiro, lá estávamos na área de serviço, parecia que todas as peças de tecido da casa resolveram serem lavadas.
Liv colocava algumas peças na máquina e as mais delicadas, segundo ela, eram lavadas á mão e eu, sentado no chão separando as roupas pela cor, segundo suas instruções.
Algumas vezes ela ficava quieta, como se não estivesse ali, naquele momento acho que ela estava pensado num lugar para aproveitar o sol, o céu azul, o calor e a brisa fresca ou no que comeríamos ao terminar a faxina. Quebrando o silêncio fui colocar um som, o dia (eu) pedia por Carlos Santana e Liv ficaria feliz, ela também curtia as músicas do cara, principalmente os solos, ela dizia que tinham uma espécie de magnetismo que te envolve, impossível de resistir.
Encostada na tanque esfregando alguma roupa, sem se preocupar em molhar o chão ou a si mesma, lá estava ela balançando o corpo feliz, já envolvida pela música. Ela me olha e sorri. Dali, da porta onde eu estava apoiado vê-la simples, crua, viva, leve, suave, uma imagem de caráter puro, mas de essência profana só porque eu a desejava, tinha gosto de paraíso, porém para minha sorte era real.
Da janela aberta vinham ventos brincar com seus cabelos mau arrumados num coque, secar o suor que escorria pelo seu pescoço, balançar seu vestido florido molhado, cuja uma das alças pendiam pelo braço. Como ela estava linda!
Vencido por seus encantos...
- O que foi?
- Ahhh... Olha só pra você, eu não consigo ficar longe.
Lívia ficava constrangida toda vez que era elogiada mesmo que indiretamente, porém só pra reforçar o elogio inconscientemente sorria o tempo todo, pensando que tolo por estar elogiando-a, provavelmente. Ela tinha esse paradoxo dentro de si, era amável e dura ao mesmo tempo, uma peça rara, muito defeituosa como costumava teimar em dizer.
Interrompendo-a num abraço. Instintivamente seu corpo relaxa e com meu rosto apoiado na curva de seu pescoço digo que a amo, mais um sorriso sem jeito. Beijo cada pedacinho que alcanço, posso sentir que sua retribuição devido a sua respiração mais profunda, devido ao balanço de seu corpo junto ao meu. Estávamos rendidos. Vencidos.
Face a face uma longa pausa, Liv está me encarando. Com suas pequenas mãos molhadas envolve meu rosto nos levando a um profundo beijo, seguido de intensos olhares, sorrisos e carinhos.
Já é tarde demais para pensar em ao menos baixar as cortinas da janela, a tenho envolvida em meus braços apoiada sobre a máquina de lavar e ela me tem envolvido entre seus braços e pernas. Amantes, livres, despretensiosos nos amamos.
Olhando em meus olhos ela pergunta:
- Sabe no que eu estava pensando?
- Não.
- Estava pensando que não haveria melhor forma de aproveitar esse dia lindo do que dessa maneira.
- Fazendo sexo?
Nós rimos.
- Sim, mas melhor do que só isso, com você, assim, sendo só.
- Que tal repetir a dose?
Rimos mais ainda. Ela me responde com um sorriso, um olhar enigmático e aquela combinação fatal de beijo com pegada pela nuca.
Ainda bem que os vizinhos da frente estavam viajando.