Quase uma resenha - Filme: Valentina
Título original: Valentina
Direção: Cássio Pereira dos Santos
Roteiro: Cássio Pereira dos Santos
Estreia: 19 de Agosto de 2021
Classificação: 14 - Não recomendado para menores de 14 anos
Elenco: Thiessa Woinbackk, Guta Stresser, Rômulo Braga, Letícia Franco, Ronaldo Bonafro, entre outros.
Uma menina trans muda-se para uma pequena cidade mineira com sua mãe, que passou em um concurso para hospital local como técnica de enfermagem, mas ao matricular sua filha na escola, elas começam encontrar dificuldades, pois precisam da assinatura do pai da Valentina.
DILEMAS E CONTRIBUIÇÕES DA TRAMA
A primeira cena que a Valentina (Thiessa Woinbackk) aparece, é ela se encontrando com as amigas, e elas perguntam a mesma se conseguiu imprimir a identidade, destacando um dos tópicos já de início. Logo após ao entrarem em uma festa matinê, de cara ela é barrada na porta da boate, o segurança a acusa de falsificar a identidade, de fato era falsa, mas para evitar um constrangimento maior, o qual começará ao ser barrada, a obrigando mostrar a original e explicar o porquê da imagem da identidade está diferente da atual. E essa situação acaba agravando-se dentro do recinto quando ela é agredida sendo empurrada pelo pescoço por um menino.
Depois, somos apresentados a uma outra questão “abandono paternal”, através do comentário da Márcia (Guta Stresser), mãe da Valentina, depois da pressão da mesma, diz: “quem se mandou foi ele. Não fui eu, né?”
Ao se mudarem para a cidade do interior mineira, Estrela do Sul, Márcia vai matricular sua filha em uma Escola pública, ela já estava a cinco meses sem estudar, e ficou claro o motivo, sofreu algum nível de violência no espaço escolar, essa que a levou a afastar-se e levando a aquele momento, precisando de um reforço ou repetir o segundo ano. Márcia destaca que há uma lei que obriga a inclusão do nome social nos documentos escolares, a coordenadora diz se há, será feito, porém, a questão gira em torno de achar o pai, que abandonou as duas, mas permanece casado, precisando assim da assinatura dele para matrícula.
Nas aulas de recuperação ela conhece dois amigos, Julio e Amanda, essa última nos traz uma outra problemática, a gravidez na adolescência, esperta em ciência da computação, ajuda Valentina a encontrar o pai, mas teme não conseguir terminar o Ensino Médio e por conseguinte, não cursar uma superior. Valentina, como uma aluna aplicada, ajuda os amigos a estudarem, os quais passam para o último ano.
Em uma festa de virada do Ano Novo, Julio acaba se distraindo com uma ficada, deixando Valentina sozinha bêbada, adormecendo em um cômodo da festa, ocorrendo um abuso sexual por parte de um menino mascarado. Além da questão da violência de ser tocada, sua maior preocupação era sofrer de novo agressões pelos seus colegas, mas na nova escola. No entanto, dessa vez, extrapolou o ambiente escolar e jogaram uma pedra na porta onde ela estava morando, forçando-as a mudar de residência. Posteriormente, Valentina e os amigos descobrem quem foi o menino que tentou abusá-la, dessa forma, ela o enfrenta, acaba que a situação se agrava e juntamente com sua mãe, denunciam o abuso na delegacia.
No espaço da delegacia, Valentina é aconselhada a fazer o “corpo e delito”, mas por motivos de constrangimento, prefere não fazer. Após o ocorrido, finalmente, o pai, Renato, aparece e pressiona o delegado, que diz que procederá com as investigações.
Na escola, a Valentina já pode matricular-se e usar o nome social, no entanto, há uma petição manifestando o mal-estar da comunidade em relação à matrícula, fazendo que o primeiro sentimento da Valentina seja de ir embora com o pai. Por fim, decide ficar e lutar pelos seus direitos, permanecendo na escola com o apoio da comunidade de professores e alunos e com o apoio dos seus pais consegue o requerimento para a retificação do nome e gênero para seu RG.
Ao final do filme, nos é passado alguns dados, que no Brasil a evasão escolar de pessoas trans aproxima-se dos 82% e que a expectativa de vida dessa parte da população é de 35 anos.
A questão da identidade é de suma importância para todos nós, não é diferente para a população trans, é nossa expressão diante do mundo, o nosso nome, nosso gênero, é um direito de ser. Como demonstrado no filme, há um outro direito pilar para a sociedade, esse é o direito à educação, mas o espaço escolar vem sendo a muito tempo sendo negado aos jovens trans, efetivamente, por questões documentais e burocráticas, como também, por constrangimento dos próprios professores e colegas, porém, felizmente, o caminho da lei já está sendo traçado e conquistas estão sendo feitas. O MEC desde 2018 autoriza o uso do nome social na educação básica para travestis e transexuais, a personagem Márcia faz referência a essa questão no momento da matrícula da Valentina, chamando a atenção da coordenadora, que agora é lei.
A outra questão é o abandono parental, que já sabemos que todo abandono ocorrido durante a menoridade civil, em violação do poder familiar, tendo em vista que todo genitor tem de manter convivência familiar com os filhos, pode ser indenizado, mas infelizmente o ato em si, emocionalmente, é irreparável, marcando psicologicamente eternamente o indivíduo.
Outro tópico, deixado em segundo plano, mas que causa grande evasão escolar entre as meninas, é a gravidez precoce, isso acaba tendo consequência na vida adulta, gerando desvantagens no mercado de trabalho.
O filme apesar de ser um drama, termina com uma mensagem positiva, em todas as suas situações, como o apoio familiar e dos amigos são importante, para seguirmos em frente mesmo com as dificuldades, porém, devemos nos atentar as pessoas que não possuem esse aparato e como incluí-las nos meios educacionais e assim atuarem de forma saudável na vida adulta, no mercado de trabalho e poderem assim formarem suas próprias famílias.
https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2018-01/mec-autoriza-uso-de-nome-social-na-educacao-basica-para-travestis-e
https://www.sinprominas.org.br/noticias/os-desafios-para-as-escolas-garantirem-os-direitos-dos-estudantes-trans/
https://www.casaum.org/como-fazer-retificacao-de-nome-e-genero/?gclid=Cj0KCQiAqbyNBhC2ARIsALDwAsDfsMuRyW0iIIJVFJ76sC1qNG4p3Fjt8EEU5GwE4qlmdJnMnlzoQoAaAij4EALw_wcB
https://advogado1965.jusbrasil.com.br/artigos/719910497/indenizacao-por-abandono-afetivo-de-filho-valores-casos-reais-prescricao-e-cabimento
https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2019/04/22/gravidez-precoce-e-uma-das-principais-causas-da-evasao-escolar-diz-estudo.ghtml
https://www.caf.com/pt/conhecimento/visoes/2021/01/evasao-escolar-devido-a-gravidez-na-adolescencia/