Acordei. Tinha aquela vontade imensa de ficar dormindo - oque acontece toda segunda praticamente.
Olhei para o espelho. Enxerguei alguém diferente. Uma Alice diferente no espelho. Ha ha ha, queria ser a Alice e cair em um buraco do mundo das maravilhas para esconder toda a vergonha do feriado passado.
Olhei para as minhas olheiras e para os meus olhos vermelhos de choro acumulado. As olheiras eu podia cubrir, os olhos vermelhos podia disfarçar com um lápis de olho, mas os sentimentos não.
Minha melhor amiga simplesmente me trocou na festa do namorado dela, pela novata. Ela estava tão bêbada, que ameaçou falar metade dos segredos que havia contado pra ela. A outra metade ela já tinha espalhado por ai, sem dó:
1- O roubo da senha do colégio (pra mudar a nota de geografia);
2- A cola da prova (de geografia);
3- E o pior de tudo: O fato de eu ter traido (não-propositalmente) meu namorado (depois de tudo, agora é ex) com o meu melhor amigo (ex).
Eu não era de fazer tantas besteiras antes de conhecer a Lia. Antes de conhecer a Lia - que eu costumava chamar de Bia. Depois que a gente se conheceu, arrumei um namorado (ex), e mais alguns problemas pra minha vida.
Depois dela, troquei meu ex-melhor amigo por bebidas e festas. Não foi exatamente uma troca, eu arrastava ele junto.
Agora que já expliquei tudo oque aconteceu, vou fazer tudo de novo (de uma maneira diferente): Troquei o vestidinho preto, por uma blusa estampada com flores amarelas (minhas preferidas) e uma calça jeans. Cabelo solto.
Me olhei no espelho de novo, na esperança de encontrar a Alice corajosa dos filmes: Nada.
Rolei os olhos pelo quarto a procura de algo afiado. Encontrei uma navalha no fundo do baú. Mentira, ela estava na gaveta do meu banheiro, pronta para ser usada novamente.
A peguei, e a posicionei contra o meu... Cabelo? Era isso mesmo que eu estava fazendo? Alice nova, lá vamos nós.
As pessoas dizem que é fácil esquecer os sentimentos. Mas vamos reconsiderar a frase e mudar para: As atrizes dizem que é fácil esquecer os sentimentos. Se eu não posso mudar o que está dentro, eu posso fingir que mudei por fora. Nada como um corte novo para o cabelo.
Sai de casa pronta para uma nova vida. O que acabou logo em seguida, quando vi que iria chover. E hoje tinha prova de matemática.
Se fosse a Bia, ela diria:
- Você pode roubar a senha do colégio e mudar sua senha, de novo.
Aquela voz irritante me passou pela cabeça, e agora eu não sabia se era real, ou só minha imaginação. Continuei andando.
- Não se faça de difícil. Mudar o cabelo não vai fazer diferença alguma. Ainda somos amigas.
Bia (ou Lia, como preferir) puxou meu braço, fazendo com que ficassemos frente a frente.
- Como você acha que somos amigas, depois de tudo aquilo que você disse na festa passada?
Ela ficou quieta. Foi o que eu imaginei. Ela era perfeita e egoísta demais para pedir desculpa. Ou então me conhecia o suficiente pra saber que eu também sou perfeitamente egoísta para não perdoar ninguém. Isso é com o tempo, uma palavra (desculpa) não muda nada.
Continuei seguindo em frente.
- Primeiro: Mateus terminou comigo - Ela disse dando de ombros. Mateus era seu namorado (ex, no caso) - depois que você saiu da festa chorando. Segundo: A Lívia - Lívia era a novata - disse que eu não merecia viver. Terceiro: Pedro saiu da festa também atras de você. Ele estava chorando. Depois mandou uma mensagem falando que queria falar com você. - Ela disse isso como se não se importasse nem um pouco com os acontecimentos de sábado.
- Primeiro: Problema seu. Segundo: Problema da novata. Terceiro: Ele terminou comigo. Não temos mais nada pra conversar. Então problema dele. - Eu disse seca, e também um pouco espantada com a minha coragem de enfrentar minha ex-melhor amiga. Agora eu estava entendendo. Antes de eu "terminar" com a nossa amizade, eu tinha medo dela. De alguma maneira, eu temia ela.
- OK.
Continuei andando, e coloquei meu fones de ouvido, e resolvi fingir - só fingir - que nada havia acontecido. Estava tocando Enchanted, da Taylor Swift, e resolvi colocar pra repetir, só pra ver se eu caia em algum buraco no meio da rua por engano e do nada minha vida começasse a ser como uma das músicas dela.
O que por engano, ocorreu logo em seguida. Não o fato de acontecer algo como as músicas delas, e sim eu cair dentro de um buraco no meio da rua. Um buraco cheio de água suja. Merda.
Não exatamente um buraco profundo pra me afogar (já que não sei nadar), mas grande o suficiente pra entrar água nas minhas botas de couro pretas.
Levantei, e fingi que nada havia acontecido. Triste mesmo foi saber que logo em seguida havia um ponto de ônibus e que algumas pessoas viram meu show e que as mesmas estavam segurando a risada. Como sei? Até um cego perceberia a cara delas!
Não vou dizer que senti minhas bochechas queimarem ou ficarem coradas, porque eu havia passado base clara demais pra a cor do meu rosto mudar. Apenas fiquei envergonhada, e de mal humor -mais do que eu já estava-.
Segui em frente - de novo -, só que dessa vez em busca de algum mato pra enfiar a cabeça e morrer picada por algum inseto não descoberto cientificamente. Eu o daria o nome de "dia ruim". Não que seja um bom nome pra um inseto, mas isso define o meu dia. Ou a minha vida, sei lá.
Por milagre da vida, eu encontrei um "matinho" no meio do caminho, mas se vocês acham que eu iria enfiar minha cabeça lá dentro, pode estar muito enganado.
Eu só desviei o olhar para uma estrada vazia, e segui em frente.
Eu não estava indo para o colégio. Eu não estava voltando pra casa. Pra onde eu estava indo? Para o País das Maravilhas, quem sabe.