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Sempre fui solitário, mas aqui nas praias noturnas do sonho, a solidão flui sobre mim em ondas que envolvem e arrastam meu espírito. Jogo areia nas águas escuras. Os grãos queimam enquanto caem e me trazem de volta um passado distante, de quando meu rosto era altivo e os olhos cheios de orgulho. É hora de enfrentar o abismo. É hora de reclamar o que me pertence." (Morpheus, Príncipe das Histórias, Oneiros, Kai'Ckul, Oniromante, L'Zoril, Modelador, Tecedor de Histórias)
Há um oceano de raízes que preenche tudo o tempo todo.
Quem é tu?
Tu aí do outro lado da linha,
do outro lado do muro,
do outro lado do mundo.
Quem é tu que me fez a pergunta maldita?
Se tu soubesse o prazer que ela me causa,
perguntava de novo.
(O Gosto das Estrelas)
For insomniacs only

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"O que é maior que o universo e mais pequeno que o mais ínfimo átomo? O que é mais duradouro que a Eternidade e mais breve que um instante?"
O Zero. Nele estão todos os enigmas, todas as potências e atos do passado infinito e do infinito futuro.
(Matemática para Filósofos)
Truque do tempo
Estava em um caverna fria de pedras brancas cor de gelo. Havia me teletransportado pra lá através de uma manchete que estava lendo no sonho: eis aqui o teatro interativo. Era um convite para comparecer. Ao ler, fui imediatamente para a caverna. De pedras surgiam pessoas, pouca roupa, veste de espetáculo. Desafio a um dos atores a executar um determinado movimento acrobático difícil com precisão. Ela diz que sim e se posiciona pronta pra fazer. Estou me divertindo e rindo, mas logo sinto um empurrão nas costas. São muitas pessoas enfileiradas que começam a passar e cruzar meu caminho. Elas surgem de trás das grutas. Tudo acontece de supetão, como se houvesse sido acionado um botão que ligavam engrenagens que naquele momento funcionavam sem parar. Olho pra trás e me dou conta que estou experienciando um teatro imersivo, interativo e sensitivo. Me assusto, mas não há o que fazer. Está tudo sob controle e eu realmente devo apenas desfrutar. Passo por inúmeras sensações experienciais boas e ruins. Toques, tapas, cheiros, texturas, cores. Começo a ser levada por um trem, junto de outras pessoas, e aquele vagão dá muitas voltas na gruta, transmitindo cada sensação por etapas. Sou arremessada muito rapidamente para um lugar onde dançam muitos papéis e documentos. Eles batem no meu rosto e no meu corpo criando também um ritmo sonoro desesperador. Circulo por entre sensações até o carrinho me levar para o final do espetáculo e também para o fim do sonho. Acordo com a sensação de ter acabado de ler a manchete e me sinto capturada em um truque do tempo expandido-comprimido.
File in the process of being deleted
Memória de um esquecimento
Eu começo a lembrar do sonho quando estou envolvida com um caso de justiça. O pai queria fazer justiça e saber quem era o real culpado entre um caso judicial, se eu ou meu tio, havia também o roubo de uma câmera minha. Conversávamos seriamente sobre isso em uma mesa de plástico de posto, estávamos reunidos eu, pai, mãe e minha irmã. Eu já estava querendo deixar as coisas como estão, mas o pai queria fazer justiça. De semana em semana ele ia até aquele posto falar com um policial que estava ali para avaliar o caso. A mãe dizia para ele parar de procurar culpado, pois de maneira ou outra ia fazer com que eu fosse presa. Eu estava em parafusos, mas sabia que não tinha o que fazer para parar a vontade do pai. Olhava para meus atos passados e via que várias coisas estavam fora da linha para a moral tradicional da sociedade, ainda mais se tratando de investigadores policiais. Eu estava fodida naquele balaio todo e achava que de tanto o pai tentar me inocentar, ia acabar por fazer o contrário: eu seria presa. Da estrada surge uma mulher em uma moto grande, os seus cabelos pretos alongados passam o assento da moto e voam longe ao vento. Ela estaciona naquele posto em que estamos e se dirige a mim com uma folha escrita mão. Aquele momento é sublime e havia pirilampos que rodeavam aquele ser. Ela entrega e vai embora. Eu me sentia preenchida e sabia que ela viria com uma mensagem. A mãe dizia que era um sinal para me colocar no eixo. Era uma música do Milton Nascimento, a música tinham 4 estrofes e estavam escritas a caneta Bic, a folha parecia ser de uma revista. Eu lia a letra e me encantava, era uma poesia que falava sobre o esquecimento. Atrás da folha haviam mais duas folhas que falavam sobre os polícias que o pai estava se envolvendo no posto e eu via que os nomes deles eram associados ao fascismo. A notícia vinha pra mim como um design super arrojado que saltava da revista a frase: fuck the cops! Eu retornava à letra da música de Milton e me maravilhava, parecia que havia sido feita para me acalmar. Eu vou ao banheiro e digo para cuidarem da revista. Quando volto, a Carol acabou de passar ketchup em 2 estrofes e comentou que foi aquelas que achou mais marcantes. Eu brigo com ela e vou limpar o ketchup do papel. Quando limpo, a poesia some, os resquícios de ketchup também fazem sumir as outras estrofes. Eu havia perdido toda a canção e quando acordo não consigo lembrar o que dizia o poema. Só lembrava que falava sobre o esquecimento.

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Mas vencer era sempre sofrer
Eu jogo um jogo real com pessoas reais que consiste em entrar dentro de um universo onde inimigos atacam os jogadores até a morte. As pessoas topavam jogar mesmo que o jogo lhes custasse a vida. O jogo havia alguma interligação com a história de Sandman, e eu jogava porque sabia todas as regras e sabia como escapar dos inimigos. Nem sempre era fácil, porque várias fases eram regadas a tiroteios, ataques, matança e muito sangue em lugares inóspitos ou ruínas. Eu vencia aquele jogo toda a vez, e todas as vezes eu fazia amigos, criava laços inimagináveis, mas de um jeito ou de outro os perdia porque estavam fadados a morrer, já que o jogo só podia ter um vencedor. Lembro de uma grande amiga no qual contei vários segredos e revelei locais secretos onde ela poderia se esconder comigo. Tínhamos uma conexão absurda, mas em determinado momento eu precisei escolher entre ela e eu. E foi quando ela morreu e eu senti um extremo vazio no peito. Em todo o jogo eu corria muito até encontrar lugares que eram também escombros onde os inimigos não acessavam. Haviam baratas, vermes e morcegos, mas eu agradecia por estar ali, mesmo com eles povoando e circundando meu corpo, e não estar sendo atacada pelos inimigos. Havia um certo orgulho pelas tantas vitórias, que eu acabava por entrar em um círculo vicioso de sofrimento ao sempre mirar a conquista do jogo. E isso se dava porque o jogo era mesmo cruel, e quem ganhava era coroado o grande jogador, porém prestes a jogar de novo e ser eternamente desafiado por si mesmo. A vitória vinha, era enriquecedora para o ego, mas toda conquista era permeada por um sabor ácido corrosivo de um próximo sofrimento previsível, pela perda de amigos e também de um certo propósito de vida. A adrenalina do jogo atenuava toda essa sensação, mas vencer era sempre sofrer. Eu era a grande jogadora da vez e estava sendo reconhecida pelos chefões do jogo que pediram para que eu fosse até uma biblioteca. Quando cheguei lá ela era imensa e eu esperava para receber algum documento importante com meu reconhecimento. Nas prateleiras eu reconhecia os quadrinhos de Sandman, no qual o jogo havia sido inspirado. Uma mulher de salto alto passeava pela biblioteca e eu a reconhecia como autora do jogo. Um dos chefes pedia para que eu pegasse o capítulo 21 e me preparasse para mais uma partida.
Sleepless Forest
Duplas exposições vivas
Virtualmente, eu recebia um negativo digitalizado, e ao olhar cada foto me dou conta de que elas estavam duplamente expostas. Seja por feitiço ou encanto, adentro cada foto e nela todas as sobreposições tinham movimento, vida e uma certa conexão sutil, além de que a minha percepção estava muito alerta e recebendo tudo com muita vividez. Eu passava pelos lugares mesmo não conseguindo muito bem reconhecer o cenário, porque as formas em conjuntura recriavam novas formas em um comemorativo nascimento. Dos lugares, dos seres e das formas, ecoava maravilhamento e terror, pelo fato de estarem sendo vistas. As imagens tinham tons avermelhados e brancos, e naquele momento eu via uma flor recém desabrochada em fusão com uma cobra espiralada.
Um nó apertado
Era madrugada quando eu e meu duplo, uma espécie de rastro gêmeo de mim, saíamos cedo em uma noite de breu iluminada apenas por luzes da calçada. Lembrava um sépia esbranquiçado próprio das ruas feitas de véu que descrevia Camus em "O Estrangeiro". A madrugada fervilhava em nós, e parecia que não havia ninguém além da gente. Lembro de sair pela porta de uma casa antiga, que confessava sua idade pelo peso que ela fazia nas minhas mãos quando eu a forçava para fechar. Havia uma realidade sutil cobrindo tudo de uma fumaça turva brilhante. Não havia sensação de perigo, havia uma conexão misteriosa que nos tornava dois criadores em potencial e espelhos responsáveis um pelo outro. Havia uma troca muda silenciosa que ardia em flama. Sentia-me no meu duplo como quem veste uma luva. Os corpos no meio daquela atmosfera densa balançavam como folhas grandes num jardim orvalhado da madrugada. Viver ali era como um abraço fugaz, um risco de giz, mas também um nó apertado. Eu corria em giros esvoaçantes numa rua calma, com olhos apenas para o visor da câmera. Produzia imagens e parecia não estar em terra firme. Quando eu passava por uma ponte, um ponto forte de luz amarelada dava ao cenário um aspecto osco desvanecido, como de uma foto impressa em processo de desintegração. Acordo.

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Toda lucidez em um cristal - Pt. 2
Ainda sinto o sonho e percebo que posso me transportar para locais planejados pela minha consciência, bem como voltar para os locais anteriores. Eu planejo ir para um local em meio a natureza, e logo o que se apresenta a mim é um bosque com um riacho que corre ao lado. De dentro deles saltam alguns sapos, eles saem em fila e eu me assusto com aquela peregrinação que impede minha passagem. Fico apenas a observar. Logo que todos passam, eu sigo trilhando aquele caminho natural percebendo a lucidez em calmaria e contentamento. Até estranho o fato de estar segurando a lucidez por tanto tempo. Aproveito o fato e intento produzir ainda um outro local para teletransporte. Construo então uma área urbana que me levasse ao contato com pessoas, eu naquele momento gostaria de conversar com alguém sobre algo ou coisas da vida. Eu penso então no nome Lucas, sem nem mesmo projetar a sua materialidade. Ando por um corredor onde muitas pessoas estão situadas fazendo suas atividades cotidianas. A minha caminhada acontece junto à uma força de projeção no encontro com esse alguém a quem eu chamava Lucas. Olho para o lado e vejo um homem magro de cabelos escuros encaracolados. Eu pergunto a ele: "Você é o Lucas?" E ele responde que sim e disse que também estava a minha procura no sonho, então começamos a conversar como recém conhecidos. No meio da conversa, somos surpreendidos por uma fila de rapazes que se autodenominam Lucas e que estavam à minha procura. Nesse momento, o sonho começa a perder nitidez e causar ruído na imagem. Um daqueles Lucas diz que vem do Irã e que a partir de uma publicação na internet viu que eu o procurava e se teletransportou ao meu encontro a partir de um hyperlink. Todos os outros diziam as mesmas coisas que vinham um de cada país em minha procura. Eu começo a dizer que não procuro ninguém e a atmosfera onírica começa a ficar densa. Os ruídos da imagem se desfazendo auxiliam a tensão que surgia no sonho. Eu corro e todos os Lucas correm em minha direção, as pessoas no qual eu passo começam a ter uma feição robótica degradante, sua fisicalidade é torta eu preciso me desviar de toda uma multidão em sequela de uma lucidez em fase de esvaimento. Nesse momento, eu faço checks de realidade, como olhar para o relógio para assegurar a lucidez. Passo por corredores e elevadores, enquanto vejo que meu relógio marca números absurdos ou mesmo troca de horário sem parar. Eu sinto que ainda estou sonhando e então intento mudar de local. Começo a passar muito rapidamente pelo locais de onde vim antes: a casa dos meus pais no sítio e o bosque dos sapos. Todas aquelas realidades estão em processo de desintegração e refletem um eu psíquico perturbado. Por exemplo, faço o caminho de volta no qual passei no bosque, e os sapos de anteriormente se mostram como seres grandes e mutantes que vem ao meu encontro como um ataque. Eu corro na direção contrária e sinto medo. Minha lucidez se esvai por completo e eu acordo em um falso despertar onde sou acordada por minha cachorra e estou em paralisia do sono na cama. Quando a paralisia do sono acaba, então eu acordo na realidade de vigília e olho no relógio que apontam 18h22.
Toda lucidez em um cristal - Pt. 1
Vou dormir e olho o relógio que aponta para as 16h22. Sonho que estou em uma casa nova de meus pais, ela é ampla e tem um pátio gramado, parece estar localizada em um sítio. Eu estava ali para visitar e era recebida pelo meu pai que me apontava os locais e explicava um pouco de cada coisa. O portão dava para um gramado imenso onde ficavam um carro, andando mais um pouco havia uma rampa e uma pequena ponte de madeira que ligava a garagem da frente com o local dos fundos. A sensação era de amplitude e harmonia com todos da casa. A entrada da casa ficava logo ao lado da rampa e tinha uma porta de madeira azul claro humilde, já um pouco descascada. Ao lado da porta eu conseguia ver algumas setas de madeira que apontavam para os dois lados, junto de alguns dizeres apagados. Quando entrei na casa eu vi a mãe que falava com minha vó, eu as cumprimentava com afeto e logo ia conhecer mais aposentos da casa. Aquele sonho pareceu durar dias, e notei isso a partir de um fenômeno que começamos a perceber dia após dia. No muro que separava a casa onde estávamos da casa vizinha, havia um único pingo que caia dos céus e assim que caía no muro cristalizava em uma pedra sólida brilhosa. Com os passar dos dias, vimos aquela solidez se formar e até contávamos as horas pra observar o fenômeno incrível que era assistir a gota cair e solidificar, em um exato local e horário, onde o sol batia e raiava resplandecentemente dourado, algo mais próximo do entardecer. Cada dia a cristalização da gota crescia em torre, parecido com uma estalagmite a céu aberto. Em determinado momento vimos que a gota crescia em grandes proporções e ia formando cristais esculpidos como uma seta que apontava pra cima. Olhar de perto é ainda mais fascinante quando em horário de pingo, a luz repousava nos cristais refletindo a cor dourada estonteante do sol ao entardecer. Em um dia onde aguardávamos o fenômeno já com a torre bastante comprida, eu então começo a ter a visão da queda. Eu penso: "A construção vai ruir hoje e e eu vou salvar o cristal!". A visão de onde eu assistia a queda da gota era dos fundos da casa, então no exato momento em que tive a intuição da queda da torre, eu corri muito rapidamente em sua direção. Em movimento constante e quando passo pela ponte de madeira, o fenômeno do pingo acontece. E ao bater a água na torre, o sólido despenca com tamanha precisão à minha chegada ao muro, que torna possível eu apanhar com minhas mãos o topo daquela formação de cristais em seta para cima. Ao segurar o cristal, eu o aponto para o céu e tenho a certeza de que estou dentro de um sonho. Todos vibram e correm em minha direção, surpresos em como eu havia previsto a caída da torre e chegado a tempo para a sua captura. Eu falava: "Eu estava vendo lá de longe e algo me dizia que hoje iria cair". Todos riem e entramos um estado de celebração ao observar de perto aqueles cristais. O carro estava com compras e, em êxtase, íamos retirando as sacolas do carro, o pai em certo momento diz: "Isso aqui até parece um sonho, né, Camila?". E eu digo: "E é. Nós estamos sonhando agora". Todos seguem rindo e entrando na casa. Eu estou em plena consciência de que aquilo é um sonho e então planejo me transportar dali. A minha visão escurece totalmente e alguns feixes de luz brilham nesse escuro. Sinto uma vibração constante em meus olhos emitidos por aqueles feixes, enquanto materializo o próximo local onde quero estar. [CONTINUA...]