Noites sem fim
Chamo de "noites sem fim" as madrugadas de insônia. Aquelas noites em que parece necessário levar os problemas de ontem para a manhã seguinte. Não devia, mas os levo. Então, não durmo. Penso, penso e penso. Penso um pouco mais. Penso ainda mais. E, por um caminho de pensamentos infinitos, as noites não acabam, o dia não finda. Enquanto as noites sem fim acontecem, vou para a cozinha e procuro algo para mastigar: um café, um biscoito, uma pasta de amendoim com pão, um sono. Meus pensamentos continuam a velejar no céu noturno, que resolve se manter aceso com a lâmpada velha que pisca no meu quarto. E eu, mesmo deitada, não descanso. Olhos abertos, atentos aos anseios. Como se algum receio pudesse me capturar viva. Em estado de alerta, posso ser mais exata que o alarme. Antes que os monstros acordem, eu canto uma canção de ninar, mas eu também não durmo. Procuro um livro na cabeceira, uma música no telefone, um trabalho pendente no computador — algo que seja qualquer coisa, menos os meus pensamentos. Durante as noites sem fim, eles soam como martírios, e não sirvo para mártir. Eu sou apenas alguém tentando dormir à noite, depois de um dia cheio de pensamentos e problemas imparáveis e mal resolvidos. E assim segue o cortejo dos pensamentos, causando-me cansaço redobrado. Como se eu fosse alguma dobradura perfeita de origami, e eu sou tudo nessa vida, menos perfeita. A falta de sono entrega essa imperfeição, mas, infelizmente, é por causa de uma causa perfeita que não durmo direito. Não me sinto no direito. Talvez seja por isso que, às vezes, não me sinto inteira. E como posso me sentir assim? A noite foi feita para dormir, mas eu não durmo. Eu penso, penso e penso. Quase como se eu fosse cada um desses pensamentos. Será que eu sou? [Som do alarme] Ótimo, nem eram seis horas da manhã ainda, e o mundo já pesava nos meus ombros.















