I'm glad I shared this with you | Epilogue.
New York, Spring 2030.
O pôr do sol tingia o céu e a paisagem do quintal dos fundos de laranja. Era grande o bastante para conter duas árvores (uma delas com uma casinha de madeira alojada entre os galhos), um pequeno playground e um jardim. O próximo passo seria construir uma piscina, assim que o estúdio em que Caleb trabalhava fechasse um novo contrato que lhe renderia um salário ainda melhor.
Saindo da garagem, carregou o saco que continha a barraca e a caixa em que guardavam o colchão inflável até a base de uma das árvores, depositando ambos na grama. – Ei, Seth, venha aqui ajudar o pai. – Gritou para a porta aberta da cozinha, sabendo que o filho estava ali comendo um dos sanduíches que eles haviam preparado para a noite de acampamento. – Esperaumpoucoaípai. – Respondeu o garoto, aparecendo no vão da porta, com a boca cheia e meio sanduíche na mão. Caleb riu. – Não vai sobrar nada para mais tarde desse jeito. – Repreendeu-o levemente. Seth deu de ombros em réplica, mas abandonou o sanduíche em um prato em cima do balcão e limpou as mãos nas calças antes de vir em seu auxílio. Caleb bagunçou ligeiramente os cabelos loiros do filho antes de abrir o saco que continha os cabos e a lona da barraca, e ambos começaram a montá-la.
Dez minutos depois, ela já estava quase pronta, e foi quando um garotinho de cachos castanhos passou correndo por eles, socando e chutando o ar. – Eba! Essa noite, vamos lutar contra os monstros do quintal! – Rindo, Caleb puxou o pequeno para perto e o pegou no colo. – Que golpes são esses, Mike? Sua mãe andou te ensinando o judô-da-tpm dela? – Brincou. – Eu aprendi assistindo Karatê Kid. – Respondeu Michael prontamente, seu rostinho ficando sério como se estivesse prestes a enfrentar um inimigo, e ele chutou o ar novamente no colo de Caleb. – Wow! Esse foi muito bom, aposto que nem o Sr. Han faria melhor. Os monstros do quintal terão que tomar muito cuidado com você. – Estimulou-o, colocando-o no chão em seguida. Seth riu. – É isso aí, vamos acabar com eles, maninho. – Estendeu a mão para que Michael tocasse e passou-a afetuosamente entre os cachos do pequeno em seguida. Caleb não pode deixar de sorrir. Sempre ficava admirado com o quanto os dois irmãos se davam bem, apesar de Seth ter sido adotado aos seis anos e, um ano depois, Michael ter chegado à família como um integrante extra que Caleb e Tessa não haviam planejado. Agora o mais velho tinha 12 e Mike, 5, mas os dois não viviam discordando ou discutindo por bobeira como era comum acontecer entre irmãos dessa idade – pelo contrário, era quase como se um completasse o outro.
Caleb terminou de montar a barraca e olhou para os filhos. – Por que vocês dois não enchem o colchão inflável com a bombinha? Eu já volto, vou buscar os nossos cobertores e mantimentos para a noite. – Informou, seguindo em direção a casa. – Não se esqueça de pegar nossas arminhas, papai! – Ouviu Michael gritar e sorriu. – Pode deixar! – Entrou pela cozinha e pegou o sanduíche que Seth havia abandonado ali, dando uma mordida e devolvendo o resto ao prato. Foi até a sala e subiu as escadas para o segundo andar, caminhando pelo corredor até a porta do escritório. – Tess? – Chamou a esposa, encontrando-a ainda debruçada sobre a escrivaninha, trabalhando em seu projeto para a ONG ambiental da qual fazia parte. – Não vai mesmo poder acampar com a gente hoje? – Perguntou, embora já a tivesse questionado quanto aquilo pelo menos umas dez vezes durante o dia e recebido a mesma resposta. Theresa estava muito concentrada em seus planos e, apesar de parecer desapontada em ter de dizer não, apenas balançou a cabeça negativamente em resposta. Geralmente, não importando quão importante fossem os assuntos do trabalho que precisavam resolver, Caleb e Tessa sempre deixavam essas coisas em segundo plano para poder aproveitar os finais de semana com as crianças, mas aquele projeto era especialmente importante para a ONG e ele sabia que a esposa precisava terminá-lo o quanto antes.
Suspirou, assentindo, e foi até a escrivaninha para dar-lhe um beijo antes de ir em busca de cobertores para ele e os meninos. – Estaremos te esperando, caso consiga terminar a tempo. – Encorajou-a com um sorriso e então se virou, mas acabou batendo sem querer contra a estante com seu cotovelo. Uma caixa retangular azul caiu no chão. – Ouch. – Levou uma mão ao cotovelo, fazendo uma careta enquanto o massageava. Tessa riu alto. – Vai rindo. Essa caixa deveria ter caído na sua cabeça. – Resmungou, recolhendo o objeto do chão. Antes de devolvê-lo à estante, porém, notou a inscrição na sua lateral e interrompeu o movimento, trazendo a caixa de volta para si e abrindo-a. Lá dentro havia várias fotografias. Caleb sorriu. – Vou levar isso aqui. – E então deixou o escritório, passando no quarto para pegar cobertores, travesseiros e as arminhas dos meninos.
De volta à cozinha, pegou a lancheira que haviam preparado com todos os suprimentos necessários para uma noite de acampamento no quintal, e seguiu para fora de casa carregando todas as coisas até a barraca. – E aí, conseguiram? – Descarregou as coisas dentro da barraca e deu uma olhada no colchão inflável, enchido pela metade. Sorriu. – Tudo bem, esse é um trabalho para o papai finalizar, o serviço de vocês será me dar cobertura enquanto isso, caso algum monstro apareça. – Já estava escurecendo, e as luzes do lado de fora da casa acenderam-se automaticamente. Seth e Michael pegaram suas nerfs e começaram a brincar em volta da barraca enquanto Caleb terminava de encher o colchão.
Assim que tudo foi devidamente organizado dentro da barraca, os três entraram e acenderam suas lanternas. O barulho de grilos do lado de fora e da brisa leve fazendo esvoaçar as folhas das árvores eram as únicas coisas que quebravam o silêncio pacífico da noite. Se fechasse os olhos, Caleb podia facilmente imaginar que estava acampando em outro lugar, num bosque de pinheiros próximo a um lago. – Quero mostrar uma coisa a vocês. – Disse para os filhos, alcançando a caixa azul no canto da barraca e abrindo-a em seu colo. Seth e Mike posicionaram-se um de cada lado seu, observando atentamente. – Quando eu tinha 18 anos, passei as férias de verão em um acampamento, o The New Star Camp. Lá você podia fazer aulas de canto, dança, música, teatro, pintura… E ainda aproveitar a praia, o bosque, o lago, as cachoeiras e as festas. – Tirou a primeira foto da caixa, mostrando para eles uma imagem das árvores na entrada do camp. Os garotos sorriram, interessados. – Lá tinha monstros com os quais você precisava lutar também, papai? – Perguntou Michael, fazendo Caleb rir. – Bem, tinha alguns zumbis de vez em quando. Uma vez as luzes de todo o camp se apagaram a noite, como se fosse o fim do mundo. E alguns diziam que havia uma lula gigante no lago. Mas também havia vários super-heróis e semideuses para defender o local em caso de ataques. – Respondeu, vendo um sorriso se abrir nos rostos dos filhos.
- Olha, é o tio Grant! – Seth apontou para a segunda fotografia dentro da caixa, e Caleb assentiu, tirando-a de lá. Nela, ele e Grant, bem mais novos, estavam na sala de música, com violões no colo. A próxima era ele abraçado com Clarissa e Bianca na estufa, o point de encontros dos três. Tinha uma com Dia na trilha do bosque e outra com Jason na praia, quando os dois iam surfar. A seguinte era de uma garota de cachos loiros sentada em um banco, desenhando ou escrevendo algo em seu caderno. Ele guardara essa imagem de Sophie, e sentia-se bem agora em dizer aos filhos que se tratava de uma velha amiga. Pouco tempo depois, as fotos passaram de paisagens de acampamento para o campus de uma universidade. – Então a fundadora do TNSC resolveu criar também um centro colegial e universitário, a Edward Rivere, e todos os campistas foram convidados a estudar lá. Foi onde eu conheci a mãe de vocês. – Explicou, mostrando as fotos da Omega Eta, ele e David jogando videogame, todos os colegas pintados com tinta neon em uma festa, Tessa o ensinando a fazer uma manobra no skate, e por último os dois abraçados debaixo de uma árvore. – Quase todos nas fotos são nossos tios e tias hoje. É engraçado reconhecer eles mais novos. – Seth riu, e Caleb concordou. – Foi a época em que fiz meus melhores amigos, os que eu sei que vão ficar comigo a vida toda. Um dia, quando vocês dois forem maiorzinhos, vou procurar um acampamento como esse para que passem as férias de verão e vivam suas próprias aventuras, assim poderão triplicar o conteúdo dessa caixa. – Caleb a sacudiu de leve, voltando a guardar todas as fotos nela e fechando-a em seguida. – Certo, agora prestem atenção. Monstros podem estar nos rondando nesse exato momento e nós precisamos defender nosso forte. – Apontou com a lanterna para o zíper da barraca e fez um sinal para que as crianças pegassem suas arminhas. – A postos, soldados.
Depois de muitas brincadeiras, jogos, algumas cantorias e o esvaziamento completo da lancheira, Seth e Michael começaram a bocejar, deixando as nerfs de lado. – Ok, hora de dormir. Já lutamos o suficiente por hoje. – Caleb os ajudou a se ajeitarem debaixo das cobertas, colocando-se no meio para abraçar os dois. – Tem certeza de que nenhum monstro vai nos atacar enquanto estivermos dormindo, papai? – Perguntou Mike, sonolento. – O que? Acha mesmo que eu deixaria algum monstro se quer chegar perto dos meus garotos? Não se preocupe, Mike, papai estará sempre cuidando de vocês. – Passou a mão no topo da cabeça do filho e sorriu. – Durma bem.
Os dois já estavam dormindo tranquilamente quando Caleb ouviu um barulho do lado de fora. Franzindo a testa, recolheu os braços que envolviam os filhos, ajeitando-os com cuidado em seus respectivos travesseiros. Passos se aproximavam da barraca e ele acendeu a lanterna, direcionando a luz para o zíper assim que ele se abriu, revelando Tessa de pijamas. – Santo Júpiter, Theresa, que susto! Eu pensei que fosse um monstro. – Recostou-se no próprio travesseiro e respirou fundo, recebendo vários xingamentos de Tessa em resposta. Riu. Ela havia terminado o projeto e viera se juntar a eles, embora não a tempo de aproveitar as brincadeiras e os lanches. – Estou feliz que tenha vindo, mesmo que no fim. O acampamento só fica completo com você. – A abraçou para que ela se deitasse ao seu lado, dando uma última olhada nos garotos e então beijando a testa da esposa. – Boa noite, Tess.













