âVocĂȘ acha que pode simplesmente bater na minha porta no meio da noite, com aquele sorriso descarado e me pedir pra ficar, depois de tudo o que me fez? Acha que se vocĂȘ se sentar mais uma vez no meu sofĂĄ com seu violĂŁo e tocar todas aquelas suas mĂșsicas bregas meu coração vai se derreter, e tudo serĂĄ como antes, como se nunca tivesse mudado, ou como se coraçÔes jamais tivessem sido partidos? Bom, penso que se as coisas fossem assim tĂŁo simples, se uma canção pudesse mesmo fazer tudo dar certo, nĂłs ainda estarĂamos aqui, certo? Foram muitas as nossas cançÔes⊠De amor, de Ăłdio, de paixĂŁo, ciĂșme, cançÔes de medo, de saudade, de arrependimento, e foram tantas e mais tantas que no fim a melodia simplesmente se tornou barulho, daqueles chatos, que incomodam, sabe? Aquele tipo de barulho que se fica por muito tempo ao seu redor, faz a cabeça doer, causa mau humor, irrita. Fere a audição. Ah, vocĂȘ consegue se lembrar como nossa Ășltima canção deixou estilhaços de vidro por todos os cantos? Sei que lembra, os mesmo que cortaram meu peito, tambĂ©m cortaram o seu. Eu me pergunto se um dia ainda vou olhar nos seus olhos, e ouvir por entre seus lĂĄbios aquela velha canção que nunca foi tocada, e entĂŁo eu penso, serĂĄ que um dia eu sequer vou te ver passar pelo outro lado da rua? E se visse, vocĂȘ me cumprimentaria ou fingiria que eu sou uma estranha qualquer? EntĂŁo, vocĂȘ faz, mais uma vez. VocĂȘ estĂĄ lĂĄ, simplesmente do lado de fora da minha porta, me pedindo mais uma vez que abra, e eu, limito-me a duvidar se te mando embora ou deixo que vocĂȘ se canse e parta novamente. Ă sempre a mesma velha histĂłria, e esse papo de disco arranhado, bem, eu jĂĄ nĂŁo sei se funciona conosco. Talvez seja tempo de aprender outras cançÔes, outros ritmos, aceitar novos desafios, expandir as extensĂ”es vocais e romper novos limites. Talvez seja tempo de jogar o disco fora, afinal, ele estĂĄ todo arranhado, nĂŁo Ă© mesmo? Pode ser que eu simplesmente guarde ele no fundo de uma caixa, e deixe lå⊠Quem sabe, daqui hĂĄ alguns anos, ele valha alguma coisaâŠâ
â Mendonça, B. - You always come back.







