Pedro acordou mais cedo que o habitual naquela segunda feira... Culpa de um nervoso raio de sol que adentrou a fresta da cortina e bateu diretamente no seu rosto inchado. De praxe, alcançou o celular. 5:45 am. Checou as atualizações das redes sociais. Nada demais. Apenas mais do mesmo.
Aos poucos ia acordando e voltando à realidade... Afinal, havia passado os últimos dois dias sob o efeito da maconha. Vício? Dizia que não. Fumava há dez anos, mas não era vício. Vício mesmo era conferir o Instagram minuto a minuto, afirmava.
Cannabis era mesmo uma necessidade. Sob o efeito dela, esquecia as tristezas, as saudades, as angústias e ainda mantinha a maldita ansiedade menos intensa, mesmo que momentaneamente. E o melhor de tudo, não o deixava com ressaca, coisa que detestava a ponto de nunca mais consumir álcool. Com a erva era diferente. No dia seguinte estava pronto pra encarar mais uma jornada exaustiva de trabalho. Não que ele amasse o que fazia. Muito pelo contrário, mas as inúmeras experiências de noites sem dormir, embaladas por conversas aprazíveis, café e muita maconha tinham ficado pra trás, pois deixavam o dia seguinte ainda mais demorado.
Preparou um café forte, condição sine qua non para iniciar o dia, acendeu um paiol e sentou-se na varanda. Morava num apartamento no quarto andar, relativamente bem localizado num bairro de classe média de onde podia avistar o mar. Ali ficou em silêncio por alguns minutos degustando o café, o cigarrinho e ouvindo o barulho das ondas.
Momentos simples assim eram o ápice de sua felicidade diária. Sentia-se completo: Silêncio, um bom café e contemplação. Pena que duravam pouquíssimo. Talvez por isso, os valorizasse tanto. Afinal, na maior parte do dia ouvia gritos, risos e falatórios de adolescentes extremamente insuportáveis. Pobre coitado. Amava a solidão e o silêncio, mas diariamente, devido a sua profissão de professor, era obrigado a suportar o oposto. Mas era realmente obrigado?
Fazia essa e outras dúzias de perguntas a si mesmo todos os dias e, pouco a pouco, compreendia que a suposta “obrigação” e outras “prisões” eram muito mais mentais do que poderia um dia imaginar. Alias, amava demais as perguntas. Via nelas grande fecundidade e potencial, principalmente aquelas de difíceis ou escassas respostas. Uma radical mudança de consciência estava a caminho...
continua...









