Engrenagens dos poucos relΓ³gios de pulso que ainda existem na Terra autodestruiram-se para o temp(l)o real - aquele parado, pausado e o agora- ser encontrado e reconhecido como pequeno local de conforto, espaΓ§o em que o aconchego abraΓ§a e repousa no ombro do outro, de lado. Um encaixe orgΓ’nico, como se fosse enlaΓ§ar perfeito de uma fita de cetim. Um sentimento redondo, macio, um estar em casa, sem estar.
Fazia tempo que nΓ£o olhava nos olhos das pessoas para conversar sem fugir para o azul nΓ£o-oceΓ’nico, nΓ£o-celeste. Fazia tempo que nΓ£o ligava para alguΓ©m por telefone, sem usar aplicativo, dependendo de conexΓ΅es estΓ‘veis.
Nunca houve tempo em que atrasei de pegar meu pedido na padaria. Essas foram a primeira e a segunda vez, depois de ser chamada 3 vezes pelo painel eletrΓ΄nico por conta de conversas plenas.
TambΓ©m fazia tempo que nΓ£o assistia um show sem registrar nada dele, sem filmar, sem fotografar, registrando sΓ³ na memΓ³ria, aproveitando cada segundo e ainda cuidando para o celular nΓ£o interromper nada, deixando-o no modo aviΓ£o. Fazia tempo ou nΓ£o me lembro de que quando a ressaca do dia seguinte nΓ£o era de Γ‘lcool mas da leitura, da mΓΊsica, da conversa sobre um tema curioso e desconhecido, do riso solto, da amizade, do amor e do carinho. Fazia tempo que eu nΓ£o fazia tempo. Fazia tempo.


















