Benedict podia entender aquilo como preferisse. Se desejasse um desafio, podia agarrar com ambas as mão. Isso não lhe garantiria respostas, precisava estar ciente daquilo. Jornalistas passavam hora elaborando perguntas para serem barradas pela assessoria da princesa a cada entrevista. Os monólogos eram prontos porque Octavia sempre sabia que nada seria diferente de antes. Eram complicado mas sempre visou o melhor para sua imagem e principalmente para a imagem do país e proteger-se de invasões em sua vida privada era uma forma de fazer isso. Além disso, possuía um grande medo de acabar sempre prejudicando as pessoas ao seu lado, as que realmente importavam. Sua imagem podia causar dano a muitos, ela era ciente daquilo. A princesa de Port Thar nunca achou ruim carregar tal peso, sempre foi acostumada com tal coisa e não se importava, afinal, importar-se com todas aquelas cinco pessoas das quais sua vida girava em volta era algo que valeria até mesmo sua vida. Achou, internamente, engraçado o fato dele citar a grande repetição de perguntas acerca da competição que estava recebendo nos últimos meses mas o fato era que, em nenhum delas, Octavia havia expressado sua verdade. Não estava pronta para falar alguma verdade tão direta sobre si a respeito do tema tão abertamente em algum canal de televisão ou jornal. Previsível e clichê, mas Benedict, se possuísse o dom, poderia ter tirado algo a mais dela. Entretanto o selecionado não desejou tal coisa. A princesa manteve suas expressões para pensar no que poderia contar que não fosse lhe comprometer no futuro. Sua infância havia sido interrompida por uma morte precoce de sua mãe e irmão. Sempre imaginava como a situação era para Lhoris, que havia perdido a mãe ainda mais cedo. “— Lembranças de infância. Difíceis de serem lembradas. Há pouco sobre minha infância que tenha sido de fato contada a alguém. Meus pais tentaram ao máximo proteger eu e meu irmão para que pudessemos ter essa fase com a maior normalidade que poderiam para dois pequenos monarcas. Apesar de tal fato, pouco eu aproveitei de tamanha liberdade. Sempre fui apegada a livros mas quando pequena desenvolvi gosto pela equitação, ainda que não a pratique tanto quanto gostaria por não ser possível agora.” Recordava do mesmo selecionado que tinha ali em sua frente ter lhe falado ainda no dia do banquete, possuir pouco talento para equitação. Octavia já havia tido maior destreza mas agora limitava-se ao ato de passear somente durante suas montarias. Escutou com atenção o selecionado lhe contar sua história, algo que já havia ficado sabendo pela própria ficha, como o mesmo citara. Octavia não entendia muito bem a necessidade de separação entre os dois termos. A falta de contato com a mulher quem lhe dara a luz, fazia com que, em seu pensamento, o outro tivesse apenas uma mãe, quem lhe criou e com quem vivia até o presente. “— A senhorita Vanderbilt deve ter muito talento no piano. Parece que esse elo foi algo fundamental para a união de vocês, acredito que seja por isso que gosta de música.” Supos, afinal, a mulher era alguém importante na vida do outro e por ter sido quem lhe apresentou poderia muito bem ser a inspiração do selecionado apra tocar. Assustou-se bastante com as palavras alheias, tentou não demonstrar isso em sua linguagem corporal e provavelmente a maior estranheza que poderia ter sido notada era a permanencia por tempo em demasia em sua posição. Sem mover nem um pouco de sua posição, ereta no sofá, Octavia sentiu-se pela primeira vez um pouco obrigada a encarar a situação. Ela seria obrigada a fazer o que o outro dizia. Tirando pela parte do amor épico, precisaria abrir seu coração, ou melhor, sua mente, para que algum deles entrasse em sua vida. Era bastante assustador colocada nas palavras tão claras. Como se o outro tivesse lhe jogado uma bomba relógio no colo. Provavelmente não havia sido a intenção; ao ouvir a música, ela pensou em algo totalmente diferente daquilo. Não pode nem mesmo cogitar ideias amorosas de forma mais carnal. Piscou algumas vezes, voltando a recompor seus pensamentos. “— Realmente é uma melodia que pode ser demasiadamente subjetiva pelo angulo que ela ouvida. Acredito que falte pouco para que consiga finalizar.”
Sempre que se pegava observando a princesa, não podia deixar de observar a beleza estonteante da mulher, mas também sentia uma enorme curiosidade em relação à ela. Pelo pouco que tinha conhecido de Octavia, a princesa tinha uma imagem que beirava a perfeição, como se fosse imune de erros (em determinados momentos Ben se questionava o quão verdadeiro aquilo era). Ela era inteligente, educada, polida e para muitos podia ser considerada a mulher perfeita. E o objetivo do selecionado, com aquela conversa, era tentar descobrir um pouco mais sobre Octavia, quem sabe um lado mais pessoal da mesma. Inicialmente, imaginou que sua pergunta faria com que a princesa se abrisse, contasse algum fato importante ou marcante de sua infância, mas a resposta parecia ter sido muito bem pensada e articulada. Para Benedict, a sensação era de que faltava um pouco de espontaneidade por parte da princesa e, se conseguisse falar as palavras corretas talvez conseguisse arrancar algumas outras informações. “Em certos pontos consigo me identificar com Vossa Alteza, apesar de nossas realidades serem um pouco diferentes. Eu nunca fui o garoto popular do bairro e cheio dos amigos, esse papel sempre pertenceu ao Joseph, meu irmão mais velho. Às vezes eu acaba ficando de fora de algumas brincadeiras deles por não ser o mais atlético entre eles, e foi assim que começou o meu interresse pela literatura. Os livros se tornaram um refúgio pra mim, e me permitiam viajar para outros países e até mesmo para outros universos”, o amor que Ben tinha pelos livros e pela literatura eram imensuráveis, e aquele fora um gosto que tinha adquirido quando criança ainda. Na época, o seu relacionamento com Joseph não era um dos melhores (não que hoje em dia os dois eram próximos como unha e carne, mas tinham feito um avanço considerável naquele aspecto) e a partir daí que começou a se interessar pelos livros e, desde então, nunca mais ele parou de ler. “Depois que entrei para a escola as coisas ficaram um pouco mais fáceis. Por mais que eu não tenha me tornado popular lá, consegui fazer amizades com pessoas que tinham os mesmos interesses que os meus. E uma das melhores coisas do mundo é poder conhecer e se conectar com pessoas que se interessam por coisas semelhantes, o sentimento de solidão desaparece, é uma das coisas mais gratificantes é poder conversar com alguém que se interessa por você”, ao falar sobre sua vida, comentar alguns aspectos de sua vida, Ben esperava tornar a situação mais fácil para Octavia. Ele tinha o desejo de conhecer um pouco mais sobre a mulher e sua vida, principalmente, da época antes da Seleção. Contudo, arrancar tais informações não seriam fáceis, e ele imaginava que falar um pouco mais de sua vida pudesse ajudar a princesa naquilo. “Vossa Alteza nunca pensou em voltar a treinar novamente? Imagino que a senhorita tenha outros deveres importantes, mas nunca lhe ocorreu como seria capaz de organizar seu dia caso não tivesse nenhum compromisso ou deveres para cumprir, quais coisas que a senhorita gostaria de fazer?”, Benedict tentava demonstrar empatia e se colocar no lugar da mulher, e toda vez que fazia aquilo ele chegava a uma só conclusão: Octavia era uma mulher impressionante. Mesmo com tantos deveres para cumprir, suas obrigações como princesa, ela dava um jeito de cumprir tudo e sempre estava de rosto erguido; era como se nada deixasse a abater, e em momentos como aquele que Ben fica simplesmente encantando com a força de determinação dela. O selecionado não conhecia o primo de Octavia, o príncipe Lhoris, e não tinha embasamento nenhum para dizer se ele daria um bom rei no futuro ou não; a única coisa que não podia negar o fogo e a determinação de Octavia em se tornar a rainha do país. Ben deu um pequeno riso ao escutar Octavia chamando sua mãe de “Sra. Vanderbilt”, aquele tipo de tratamento soava estranho, mas mesmo assim não corrigiu a princesa ou pediu que ela tratasse sua família com mais intimidade (pelo pouco que conhecia da princesa, podia concluir que ela gostava de seguir à risca as regras de etiqueta). “Minha mãe é uma das melhores pessoas do mundo, é uma das mais altruístas que eu conheço. Tenho certeza que ela iria gostar de você, Vossa Alteza. Na verdade, ela foi uma das poucas pessoas que acreditou no meu potencial para entrar na Seleção. Meu pai, por outro lado, achava que Joseph era o candidato perfeito, mas ele não pode se inscrever devido à idade. De qualquer modo, tenho minhas dúvidas se Joseph seria um candidato tão bom assim como o meu pai idealizou”, Ben nunca fora o tipo de cara que fazia sucesso entre as mulheres e não era muito galanteador. Por esse exato motivo que seu pai não acreditava que ele fosse dar certo na seleção, que seria necessário seguir o comportamento de seu irmão para obter alguns resultado: ser mulherengo, além de ter a péssima tendência dd objetificar as mulheres. Não, Benedict está disposto a seguir seu próprio coração e sua própria personalidade ao invés de tentar ser alguém que não era, ainda mais se tratando de um exemplo negativo. Quando terminou o seu monólogo a respeito do amor, o selecionado reparou certa estranheza no comportamento da princesa uma vez que ela não falou nada por um bom tempo e ficou sentada na mesma posição. Benedict não sabia ao certo o que tinha acontecido, sua única certeza era que aquela não era uma reação positiva. Quando optou por falar tudo aquilo com Octavia apenas estava tentando ser o mais transparente e sincero sobre seus sentimentos e emoções, ele nunca tivera muitos namoros em sua vida e nunca tinha encontrado alguém que gostasse bastante ao ponto de falar “eu te amo” para outra pessoa (aquelas três palavras tinham um peso importante e apenas deveriam ser dita se os sentimentos fossem reais), e como um dos selecionados ele estava disposto a tentar amar Octavia, ver o que aquela história poderia dar apesar do futuro incerto que existia. “Eu te assustei, não foi? Mas que droga. Juro que essa não era minha intenção, Vossa Alteza. Apenas estava sentando ser o mais sincero com você sobre tudo que estou sentindo, pois acredito que a sinceridade e a confiança são as bases necessárias para qualquer tipo de relacionamento. Eu não sei como vai ser o futuro, o que ela reserva para a Seleção, então a única coisa que posso te garantir nesse momento é uma amizade sincera e toda ajuda possível caso Vossa Alteza decida conhecer um pouco mais sobre o país, ou da província de onde vim. Apenas dê tempo ao tempo”, aquela era a forma que tinha encontrado para tirar a pressão de suas palavras anteriores, pois nunca tinha sido sua intenção causar qualquer tipo de incômodo ou pressão em Octavia. Se ele tinha alguma expectativa de alguma coisa acontecer entre eles? Sim, isso ele não podia negar. E se as coisas não acontecessem do modo que tinha planejado? Também não tinha nenhum problema. A vida era imprevisível e por mais que desejasse chegar até o fim da Seleção, ganhar o coração da princesa, ele não tinha aquilo em controle. Octavia podia muito bem se interessar por qualquer outro selecionado, e por mais que não fosse o ideal ele também poderia se interessar por outra pessoa. Levemente Ben deixou que sua mão roçasse na mão de Octavia (o primeiro contato físico entre eles), um ato simples que poderia se passar por despercebido, mas se tratando da princesa era como estar pisando em ovos, era preciso pensar no que falar ou no que fazer para não deixá-la desconfortável. “Essa que é a magia da música, as pessoas tem total liberdade para interpretar uma melodia e às vezes acabam se identificando com a música. Agora, só é preciso arranjar uma letra que tenha significado. Não precisa ser nada complexo, apenas algo verdadeiro, que tenha uma alma e que desperte os sentimentos das pessoas que escutam”, talvez fosse muito idealizador de sua parte ao querer fazer uma música daquela forma, mas até que Ben gostava de um bom desafio. Ele não queria fazer algo simplesmente por fazer, ele queria fazer um trabalho bem feito e que fosse capaz de emocionar as pessoas.