ㅤ ㅤ Não era a primeira nem a segunda vez onde Haruto se pegava trocando de roupa no meio da noite, após o toque de recolher, para encontrar Sora fora dos portões da faculdade. Desde que o conhecera, aquilo vinha se tornando mais e mais frequente. Não ligava para as regras da instituição, e isso não era surpresa para ninguém, mas sempre que estava prestes a se esgueirar pelos pontos cegos das câmeras e deixar o campus para encontrar o japonês, se questionava até onde deveria levar aquilo. Talvez estivesse deixando ir longe demais, mas talvez também não quisesse admitir nem para si mesmo que gostava daquilo - aquilo, já não sabia o que era ao certo. Mas gostava. ㅤ ㅤ Depois de guardar todo o necessário nos bolsos da jaqueta escura, tomou o cuidado de olhar pelo corredor a fim de evitar alguém. Deixou o quarto em silêncio, o bastante para não acordar o colega já adormecido, e fez o caminho costumeiro até o lado de fora do prédio. Com ambas as mãos nos bolsos do casaco, andou com mais pressa até a parte de trás, longe do portão principal onde sabia que os guardas estariam mais atentos. Um pulo ou dois foram suficientes para fazê-lo alcançar o topo do muro, onde se segurou para poder pular para o outro lado da maneira mais silenciosa possível - o que não era muito, na realidade, mas fez o que pode. ㅤ ㅤ “Qualquer dia eu ainda vou me foder por isso,” Resmungou ao encontrar o outro rapaz, limpando as mãos. “O que a gente vai fazer hoje, hein?
sora.
❛ não conseguiu segurar o sorriso quando ouviu haruto falar, inclinando-se um pouco na direção dele. “então você realmente odiou, é?”, a palavra dançou um pouco na língua de sora. segurando um pouco para falar, mas deixando a vontade ir morrendo aos poucos enquanto ainda a prendia dentro da boca. “sabe, haruto, você é bem fácil de ler.” sora falou mais para o alto. blefando, como se ele conseguisse ler alguém dele mesmo. não concluiu o assunto, porque logo em seguida estava apenas se divertindo com as palavras seguintes. sora tinha dessas algumas vezes, de deixar o som pairar no ar e nunca mais tocar nele, mesmo que lhe fosse indagado uma ou maiz vezes em seguida. deu de ombros. “pior que tem, mas não tem como julgar. quando as pessoas estão apaixonadas conseguem fazer esses sacríficios. se me chamassem disso eu não hesitaria em tomar uma dose letal de cianeto, uma morte horrível para escapar de uma vida de tortura.”, disse enquanto concordava com a cabeça. essas poucas coisas faziam, sim, sora ter um certo nojo. mas nem tanto quanto dizia, podia ser capaz de quase qualquer coisa por pura diversão. com o nariz franzido, tirou a mão do bolso para espalhar um pouco da fumaça que vinha do cigarro. “um tremendo perdedor, coitado de quem seuqer confiar a saúde mental nas suas mãos.” sora continuava a caminhar pelo caminho que tinha teaçado na cabeça, mas não sabendo exatamente se era tão confiável. não era à toa que sora parava em qualquer lugar que parecesse bacana ao invés de ser fiel a um lugar só. parou por um momento. “extremamente específico? eu acabei de descrever qualquer bar de má fama ou você nunca andou por akihabara de madrugada?” uma memória levemente desbloqueada do lugar noturno próximo de onde morava, mas nada muito alarmante. “deixa para lá, roppongi é ainda pior.” deu de ombros. continuou a andar. “depois de ser expulso do bar anterior por ser um exímio assassino de diversão? é algo bem a sua cara, na verdade.” deixou um riso muito breve escapar antes que olhasse para uma placa, à fim de localizar-se ali na rua. não estava muito longe de um conglomerado de bares noturnos, então continuou a caminhada. era, ainda, um pouco demorado distanciar-se da universidade renomada em que haruto cursava até algum lugar minimamente indecente. “não carrego tanta coisa assim, mas pode enfiar a mão se quiser conferir.” um sorriso passava bem sutil pela boca de sora enquanto reconhecia onde estavam, finalmente. o último dito de haruto sequer passou por algum ouvido de sora, porque ele apenas andou um pouco mais rápido até uma porta encorpada e pouco iluminada. “torce para não ser uma clíninca clandestina e sim uma sub-rave.” agitou o rosto na direção de haruto enquanto abria a porta. “as damas primeiro?”, ele estendia a passagem para o outro. ❜
Caminhando despreocupadamente com a mão livre no bolso do casaco, Haruto se esforçou para não permitir que o semblante se tornasse perplexo com a declaração de Sora. Ser facilmente lido não lhe soava agradável, gostava de pensar que era capaz de agir de acordo com o que queria e não guiado puramente pelas emoções, mas também sabia que aquilo poderia ser meramente um blefe. Com o cigarro entre os lábios mais uma vez, desviou o olhar para a rua deserta e revirou os olhos, rindo. “Cuidado para não descobrir coisas que você não vai gostar de saber, então” Balançou a cabeça, negando. “Nunca me apaixonei, então se você diz que é assim, eu acredito”, Continuou, o rosto virado para a frente, observando o japonês pelo canto do olho. “Embora eu tenha dúvidas sobre até onde eu devo acreditar nas coisas que você fala.” Provocou, sem muita pretensão, mais pelo hábito.
Riu com o comentário - apesar de não ser um aluno dedicado, gostava do assunto o suficiente para estudar por conta própria quando lhe dava vontade, e era essa a única razão pela qual Haruto não achava que seria um completo desastre como profissional. “Que isso, não confia em mim? Eu vou ser um ótimo psicólogo, posso estar te analisando agora mesmo e você nem sabe” Voltou a fitar Sora, com um sorriso travesso nos lábios ao passo que retirou o cigarro dali novamente e soltou a fumaça. “Minha adolescência é um borrão. Eu só ia aos lugares, não lembro o nome, nem as pessoas que conheci, nem o que eu fiz” Deu de ombros; não estava mentindo, realmente lembrava de pouquíssimas coisas, e o que se lembrava… preferia manter em segredo. “Ei, o que você tá falando? Eu sou tãaao divertido!” Nem tentou fazer o sorriso no rosto parecer sincero, sua intenção era mesmo ser sarcástico. Pouco a pouco o burburinho de pessoas se tornava mais audível, e era assim que o japonês sabia estar chegando perto dos estabelecimentos escondidos mais próximos do campus.
Ergueu as mãos ao alto com a proposta, negando com a cabeça antes de tragar o cigarro uma última vez e jogar o restante no chão, pisando em cima para apagá-lo. “Eu não. Vai saber o que vou encontrar nos seus bolsos? Sou novo demais para morrer” Exagerou, seguindo o menor até a entrada do local do qual, até então, não se recordava. “É, as damas primeiro” Riu antes de empurrá-lo em sua frente e adentrar o estabelecimento logo em seguida. A pouca iluminação e a música alta evidenciavam o tipo de lugar que estavam logo no primeiro instante, e mesmo se não fosse o suficiente, os amontoados de pessoas distribuídas nas mesas com os mais diversos tipos de substâncias jogadas sobre elas fariam o trabalho. “Eu preciso beber, você vai querer também?” Deixou a palavra preciso escorregar da boca, mas não fazia tanta questão de se esconder quando já estavam ali. Continuou caminhando na direção do bar, mantendo uma distância suficiente de Sora para poder ouví-lo.












