Eu já fui Mariana. Jovem, em um ambiente que me inspirava certa confiança. Não muita, mas o suficiente para que eu não me importasse com o que estava no meu copo. Então, aconteceu. Essa memória me assombrou por anos, mesmo sem saber muito bem o que, de fato, tinha ocorrido. Passei pela fase da culpa, da negação, do esquecimento forçado, depois da culpa de novo, da negação mais uma vez… E assim os anos seguiram. Tempos depois, confiante de que eu, finalmente, havia tomado poder completo sobre o meu corpo, aconteceu de novo. E o ciclo se repetiu: culpa, negação, esquecimento, culpa, negação, esquecimento.
Hoje, eu descobri que o que aconteceu com a gente recebeu um apelido carinhoso para inocentar alguém do outro lado. Do lado que viola, do lado que mata. Encontraram um jeito de transformar o que se passa na cabeça deles quando se deparam com um corpo feminino incapaz de consentir, em sinônimo de inocência. Assim como sempre encontram qualquer justificativa para não impedir o seu “espírito animalesco” de atacar, encontraram um meio para que isso se transformasse em impunidade, em erro, em um pequeno equívoco sem intenção.
A voz que chora, implorando por respeito ao advogado Cláudio Gastão da Rosa Filho é o grito entalado na minha, na sua, na garganta de toda mulher que já passou por isso. O rosto branco desaparecido de André de Camargo Aranha é a representação da figura que ataca e some, sem se responsabilizar. O “estupro culposo”, criado pelo promotor Thiago Carriço, é aquela desculpinha que você, homem, cria para se aproveitar e violentar um corpo que não lhe pertence e sair impune por isso. É a roupa, é a bebida, é o nível de intimidade entre vocês, é o clima, é tudo o que você usa como argumento para justificar o injustificável. E Rudson Marcos, o juiz vendido, é você que passa pano para o seu brother que odeia mulheres, mas ama os seus corpos. Aquele brother que faz piadinha na mesa do bar. Aquele brother que coloca droga na bebida das meninas nas festas. Aquele brother que adora mandar mensagem para menina menor de idade. Aquele brother que some do nada com uma menina bebada na festa. Aquele brother que adora compartilhar os nudes que recebe no grupo de whatsapp. Aquele brother que grita com a namorada. Aquele brother que gosta de aproveitar do corpo da namorada enquanto ela dorme. Aquele brother que empurra a namorada. Que bate na namorada. Que impede a namorada de ver amigos, família. Aquele brother que, apesar disso, é seu brother, o que te torna tão responsável quanto ele. Não quero discurso de empoderamento feminino, de girl power, de “desculpa por ser homem” e toda essa baboseira que você aí gosta de postar uma vez por ano nas suas redes sociais. O que aconteceu hoje mostrou que, contra homem branco e rico, não há argumento. Não há força feminina sozinha. Não há nada.
Eu, assim como Mariana, também imploro por respeito. Imploro por justiça.
Parem de nos violentar. Parem de nos matar. Parem. Ou nós vamos encontrar um jeito de parar vocês.
Beatriz Ramos outubro/2020


















