Só mais um dia. Repito essa promessa como uma condenada que, todas as manhãs, jura que não voltará ao próprio cárcere, sabendo perfeitamente que o inferno é o único lugar onde ainda reconhece a própria pele. Só mais um dia sem você. Eu consigo. Eu preciso conseguir. E, no entanto, basta a primeira fissura da alma para que minhas mãos procurem, quase por instinto, aquilo que minha razão já condenou às profundezas.
Que tormento.
Quem nunca amou um vício com a ânsia cega de quem abraça a lâmina para ter certeza de que ainda é capaz de sentir dor dificilmente compreenderá. Não era apenas tabaco queimando entre os dedos. Era testemunha e cúmplice. Viu meus choros mais viscerais, sentiu minhas lágrimas escorrerem e misturarem-se ao calor da brasa, deixando o meu batom nas pontas secas do filtro como quem sela um pacto secreto com o próprio carrasco. Nas tardes de chuva, quando o mundo inteiro parecia ocupado demais para notar minha existência, havia apenas nós dois na calçada de casa. Eu, o cigarro e um silêncio tão profundo que chegava a parecer uma forma de oração profana.
Nas manhãs, ele esperava ao lado do café como um velho amigo incapaz de oferecer bons conselhos, mas sempre disposto a permanecer na imundície. Consolou-me em dias que pessoa alguma conseguiu alcançar. Escutou confissões que jamais ousaria dizer em voz alta, absorvendo a minha desgraça com uma paciência devota. Nunca interrompia. Apenas ardia lentamente, enquanto deixava em mim aquele cheiro horrível de cinza fria e o gosto tenebroso de alcatrão que grudava no fundo da garganta, lembrando-me, a cada segundo, da minha própria putrefação.
Mas há amores cuja ternura é apenas uma forma cruel de destruição.
O cigarro acaricia antes de estrangular. Abraça antes de envenenar. Faz você acreditar que encontrou repouso quando, na verdade, apenas ensina seu corpo a implorar pela próxima dose de alívio. É um amante ciumento e tirânico: exige sua respiração, seu dinheiro, seus anos, impregna sua alma com seu bafo rançoso, e ainda convence você de que tudo isso foi entregue por livre e espontânea vontade.
Que romance perverso. Quanto mais me consola, mais me arruína. Quanto mais me salva do instante, mais me condena ao futuro.
E o mais revoltante é perceber que continuo sentindo falta.
É exatamente como aquele relacionamento abusivo e doentio de onde você finalmente consegue escapar, juntando os cacos que restaram da própria dignidade. O passo estropiado deixa o cativeiro, a porta se fecha, a distância se impõe, mas a dependência continua fincada na alma como um parasita. Você sabe, com a clareza cortante da lucidez reconquistada, que ceder de novo significa assinar a própria sentença de morte, que voltar para os braços daquele monstro é anular tudo o que custou sangue para construir. No entanto, a abstinência consome por dentro, transformando a liberdade recém-adquirida em uma dor fantasma insuportável. E a alma, humilhada, continua implorando pelo abraço do mesmo veneno que jurou abandonar.
𓂃 ࣪˖ ִֶָ𐀔
𝒜𝓂𝒶𝓃𝒹𝒶 𝒟𝑒𝓋𝑒𝒸𝒸𝒽𝒾















