Serra Leoa, África - 2009
Quando eu tinha uns 12 anos, mudei pra Serra Leoa com a mamãe e meus irmãos. Lá é... difícil. Eu lembro da gente procurando casa pra alugar sabe, e tinha muitas ruínas da guerra civil ainda, que foi a muito pouco tempo, eu ficava surpresa, porque naquela época eu não sabia o que tinha acontecido ali de verdade. Nós tínhamos acabado de sair do Senegal e tava bem difícil, tivemos que dar de pagamento, uma televisãozinha que a gente tinha em casa (uma bênção junto aos livros da mamãe) pro menino da lojinha perto de casa em que eu comprava coisas pra gente comer, a gente tava devendo demais mas as únicas moedas que a mamãe conseguia juntar, dava pra comprar só doces, e como ele sabia disso ele ajudava a gente. Papai já tava em Serra Leoa a algum tempo e a mamãe estava saindo de outra crise grave de malária, até então a pior, levamos pouca coisa, e fomos nos juntar ao papis. Moramos em Freetown (capital e maior cidade) por um tempinho e o resto foi em Kenema se não me engano. Vou contar antes de prosseguir com a minha história, um pouco da história de Serra Leoa.
O país faz fronteira com a Libéria, com a Guiné e com o Oceano Atlântico, e ele é sequelado. Foi um dos lugares mais afetados pelo Ebola esses tempos e teve a Guerra Civil que durou 11 anos até 2002. Como eu disse ali em cima, as casas estão em ruínas, e a escravidão, mesmo após tanto sofrimento, não acabou. Durante a Guerra Civil, Serra Leoa perdeu MUITA gente, houve tanta tortura que eu fico nauseada apenas pensando. Eu não vou falar delas aqui e não recomendo que pesquisem tendo estômago fraco, e para os corajosos que insistem em saber mas também são frágeis, recomendo o filme Diamante de Sangue (2006). Nele mostra de uma forma emocionante tanto do que se passou... As crianças-soldados, as mães mutiladas e tanto mais não foi brincadeira. As minas de diamante de sangue obviamente continuam ali e funcionando como sempre, foram a maior fonte econômica do país, e relembrando e acentuando: a escravidão não acabou, e o trabalho nas minas é feito em parte (não sei quão grande, talvez seja totalmente) por eles.
Eu me lembro de olhar para a rua em que eu morava e prestar bem atenção em cada coisa ali: A minha frente tinha um amontoado de areia, crianças desnutridas brincando por ali, um bebê muito barrigudo comendo a areia sem os parentes fazerem nada, porque como dariam no lugar da areia, um pacote de biscoitos? Umas pessoas conversando aqui e ali, uma lojinha que a uns metros de distância parecia ter o tamanho de uma cabine telefônica,era maior, claro, porque eu sei que ali tinha uma televisão, e os rapazes da vizinhança gostavam de ir lá aos domingos para beber e assistir futebol da melhor forma possível com o sinal péssimo que a antena tinha.
Do lado de cá do portão eu estou segura da fome e da sede ali fora, Ousman, Mike e seus amigos adolescentes, aqueles bobos engraçados sempre aparecem por aqui, brincam, sobem no portão. Uma vez um deles fez isso e Mike ficou gritando "Thief! Thief!" e todos ficamos rindo. Ousman tem ou vai fazer 15 anos, é mais ou menos a idade de todos eles, e ele é muito amigo do meu irmão mais novo, Cheikh Béthio, que não tem nem dois anos ainda, eu acho que ele ama mais meu irmão do que eu consigo, talvez ele queria que fosse irmão dele. O papai começou a pagar o Ousman e os amigos dele pra pegarem uns galões de água pra gente, eles tem que ir buscar um pouco longe acho, eu nunca fui mas acho que é, porque é como os documentários sobre a África fazem parecer. A água sempre tem uma cor estranha, porque não é mineral, sabe, e não tem como ter água das torneiras, nem luz a gente tem, papai conseguiu um gerador pra gente mas geralmente usamos vela, não dá pra ficar gastando dinheiro com gerador, e eu acho que ele faz um barulho alto engraçado kkkk. A gente precisa da água pra algumas coisas. Papai também começou a pagar o Ousman pra cuidar do meu irmão, fazer e dar comida pra ele, e se alimentar também, claro, e as vezes ele cuida das roupas do papai também porque ele tem que trabalhar sempre, então ele e os amigos estão sempre por perto. A mamãe costumava fazer isso, mas ela tá em coma a algum tempo agora, pelo menos eu acho que é algum tipo de coma, porque ela não fala mais, ela não se mexe, ela não consegue comer, ela parece uma boneca grande e pesada que as vezes murmura, aí eu tento dar banho nela, a gente tenta dar comida, eu sou a mamãe da mamãe agora, e o Ousman é a mãe do meu irmão, a Khady não é mais bebê, então ela fica brincando, e eu acho que ela não consegue fazer as coisas ainda pra ajudar, mesmo que queira, porque ela ainda é mais nova do que eu. Antes da mamãe ficar mal assim, a gente ia junto com o papai pro trabalho dele. Ele tem uma pequena concessão de diamantes, e quando a gente ia lá podíanos ver os moços trabalhando. É um negócio grande, pelo menos pra mim parece grande, tem muita lama amarelada e de longe dá pra ver umas pedras verdes grudadas nas paredes que mamãe falou que são esmeraldas, eu ficava sentada num banco de bambu, era fresquinho, mas eu sei que os moços ficavam muito cansados e com calor, as vezes eles trabalham sem blusa e a pele deles brilha de suor e da água de lama que fica lá em baixo, porque é assim: eles usam uns coadores enormes, colocam na água e sacodem, aí aparece um monte de pedrinhas coloridas que eles separam e verificam. A minha preferida é uma pretinha, aprendi que o nome dela é ônix. As vezes aparecem umas vermelhas que é rubi, a preferida da mamãe, mas eles jogam tudo de volta na água. A mamãe guardou umas miudinhas mas todo mundo diz que não vale nada porque é bem pequenininho mesmo sabe, eles só não jogam de volta pra água os branquinhos que são os diamantes, na verdade eles só procuram eles. O dono do lugar é tipo um rei eu acho, ouvi algo assim mas eu nunca entendi direito e eu não vou pra escola aqui, então eu não sei por que é tudo quebrado e nem entendo inglês. A gente tinha um cachorrinho vira-lata mas ele foi roubado, Khady e eu ficamos bem tristes. Ali no jardim é cheio de mato, eu gosto de brincar lá com as minhas filhas que são minhas bonecas, e a gente finge que é a nossa casa na floresta, é bem legal. As vezes aparecem urubus ali, e eu gosto de ver eles, mamãe sempre achou eles muito feios e ela fala que eles gostam de carniça, mas eu acho eles bonitos e grandes, e as pessoas dizem que quem olha pra urubu tem mais dez anos de vida, eu quero viver até os 200. As pessoas aqui em Serra Leoa costumam comer uma coisa que eles fazem a partir da folha da mandioca, tem um cheiro muito forte, e também comem a mandioca, eu não gosto de mandioca e nunca comi a folha, desde que viemos papai não deixou faltar comida em casa, com todo mundo junto é mais fácil, eu gosto de quando ele faz sanduíches de atum e maionese pra gente comer, a mamãe odeia comer qualquer coisa do mar.
É assim que me lembro dessa época. Isso tudo não durou nem um ano, mamãe piorou tanto que quase morreu, o papai que mesmo também já tendo pegado malária e ficado muito mal, parece não ter notado a gravidade antes de apontarem isso pra ele. Conseguimos tratar a mamãe, e nos preparamos para ir embora. Papai falou com a mãe do Ousman e sugeriu levar ele conosco para Gana, que seria nossa próxima parada, e ela concordou, como qualquer boa mãe ela só queria o melhor para o filho. Com a gente, Ousman poderia estudar, trabalhar e mandar dinheiro se a família precisasse, ele poderia ter a vida que uma criança da nossa idade precisa, mas o tio dele foi o obstáculo. Quando os maridos morrem, o irmão atua como o homem da família, logo ele era como o pai do Ousman, e ele disse que ele poderia ir com a gente se o papai deixasse um dinheiro com eles antes, então nós fomos embora.
Eu sempre fui uma criança muito inocente independente de tudo que acontecia, e eu não entendia o motivo do papai não ter deixado o dinheiro com eles, eu tava triste, olhei pra trás, vendo muita bagagem cair de cima do carro, tentando ver ele mais um pouco enquanto partíamos.
Faz 10 anos, ainda choro. Eu não sei como Serra Leoa está hoje, e eu não sei se quero imaginar como eles, Ousman principalmente e seus amigos, estão hoje, mas é isso. Depois desse tempo eu nunca mais consegui jogar comida fora ou ver alguém fazer o mesmo sem sentir um aperto no peito, nunca mais consegui nem mesmo não beber toda a água do copo para não jogar o resto pelo ralo, eu sei o que a falta dela, e todos vocês que choram porque não conseguem o celular de última geração são uns desgraçados, ali tem gente que não consegue nem uma roupa que as pessoas doam achando que na África a gente pode receber elas de graça, é comprado. Pra ser feliz ali tem que ter um espírito brilhante, e eu tinha.









