Don’t you (forget about me) | Flashback 1978 | Benjy & Ava
Ao adentrar em seu apartamento naquela fatídica noite, Benjy sequer poderia imaginar que encontraria Aviva Goldstein.
Longe de incomodá-lo, em geral, a presença da healer costumava ser apreciada pelo obliviador. A bem da verdade, uma parte dele até mesmo ansiava em poder encontrá-la com mais frequência quando ela vinha tomar conta das folhagens que instalara às janelas da sala e da cozinha de sua casa. Ava havia se tornado uma boa amiga desde que se mudara para o apartamento vizinho, alguns anos atrás. Dos quatro moradores ao lado, talvez fosse a pessoa com quem Benjamin se havia se tornado mais próximo, embora sempre se imaginasse com uma estranha sorte de ter acabado morando perto de outros nascidos-trouxa como ele. Quando um dia ela lhe disse estar sem espaço para cultivar as plantas de que constantemente falava, ele não hesitara em sugerir que poderia abrigar alguns vasos para ela, conquanto Aviva continuasse cuidando deles: diversas folhagens haviam perecido depois de terem ficado aos cuidados de Benjy, e não gostaria que outras tivessem o mesmo destino. Confiara à ela as chaves e o segredo da porta, para que pudesse ir e vir quando fosse mais oportuno, já que ele mesmo raramente estava em casa, e dificilmente topava com a jovem, mesmo que todos os dias a terra dos vasos estivesse misteriosamente umedecida.
Naquela ocasião, porém, perdido nos pensamentos indigestos sobre o que havia acontecido naquele dia – no que ele havia feito – a visão de Ava o desconcertou. Depois do que havia passado, ele só imaginava chegar em casa, se estirar no sofá ou na cama e tentar dormir. Imaginava que assim conseguiria esquecer de tudo, mesmo que apenas momentaneamente. Não sabia ao certo se queria estar sozinho, ou se estava conformado à ideia de que o estaria, mas jamais cogitaria ter que interagir com alguém tão cedo, e menos ainda que esse alguém seria ela.
Atônito, Benjamin a assistiu derrubar o regador e se recompor com certa graciosidade, ainda processando o que estava acontecendo. Quando se deu conta, a mulher já estava a alguns passos de si, e finalmente começava a escutar o que dizia. – Oh não. Não se preocupe. – tentou dizer de maneira tranquilizadora, fazendo um meneio com a cabeça. – Está tudo bem. – “Bem” talvez fosse a última palavra que usaria para definir o seu estado de espírito, mas isso nada tinha a ver com a presença de Aviva. Tentou ensaiar um sorriso fraco, mas temendo estar sendo pouco convincente, logo o desfez. – Me desculpe se te assustei. Eu não, hm, esperava te encontrar por aqui. – explicou por fim, encolhendo ligeiramente os ombros. – Obrigado por vir… cuidar das plantas. Espero que esteja tudo bem no hospital. – completou, só então percebendo que ainda não se movera e continuava prostrado diante da porta, impedindo a saída dela. – Perdão, hm, boa noite. – E então girou o corpo e deu alguns passos para o lado, se afastando da entrada e liberando a passagem. Pensou em fazer menção a abrir a porta para ela, mas algo o manteve imóvel, quase se como não quisesse que ela fosse embora.
Aviva não sabia explicar direito, mas ela gostava demais do apartamento ao lado do seu. Poderia até mesmo dizer que gostava dele mais do que o seu próprio, que constantemente tinha a presença de outras pessoas - não que não gostasse de seus companheiros de apartamento, longe disso, mas era que aquele outro apartamento era... calmo. Tão calmo quanto o dono dele. Até mesmo as plantas que Aviva mantinha ali pareciam perceber a diferença, como se ali elas conseguissem se desenvolver e florir com mais facilidade do que em qualquer outro lugar.
O apartamento era normalmente tão sereno que Ava pôde perceber que algo não estava certo assim que a voz de Benjy soou pela sala. Havia algo ali, mesmo que ele estivesse dizendo que estava tudo bem. A expressão abatida, triste, quase como... quase como se ele tivesse chorado por um bom tempo.
“ Não, não se preocupe comigo... nem com as plantas. ” Respondeu em tom afável, tentando ignorar aquela pulguinha que havia se instalado atrás de sua orelha e que insistia que havia algo ali que não podia deixar passar, não sendo uma healer. Quando ele saiu de frente da porta dando espaço para que ela saísse, Ava não conseguiu segurar o impulso. “ May I...? ” Perguntou, mas antes mesmo de receber uma resposta afirmativa de Benjy a mão direta de Aviva já ia de encontro ao rosto dele. Primeiro tocando com as costas de sua mão a bochecha dele, depois subindo até a testa e repetindo o gesto, descendo para o pescoço, numa tentativa de confirmar o que sentira nas três vezes. A temperatura do homem estava elevada, era verdade, mas ainda não configurava febre de fato. “ Just one more thing... ” Informou antes de pegar a mão dele na sua, sentindo as palmas geladas e então cuidadosamente colocando dois de seus dedos sobre o pulso dele, automaticamente checando o relógio pequeno e velho em seu próprio pulso esquerdo. Contou os segundos, atentamente sentindo as batidas do coração dele em seus dedos. Estava mais acelerado do que o habitual para qualquer pessoa. Se Aviva tivesse que dar um diagnóstico ali mesmo, apontaria estresse como a causa de tudo: a aparência abatida, as mãos geladas, o coração acelerado.
Soltou a mão dele, como se apenas ali tivesse percebido que ainda tinha sua mão na dele. Tossiu suavemente, dando um passo para o lado. “ You know what? ” Começou a falar, sem saber direito o que estava fazendo. “ You seem like you need someting for your nerves. ” Anunciou enquanto refazia seus passos para a pequena varanda, em busca de um vaso que ela sabia que havia ali. Achou o pequeno pote de barro e se abaixou para pegar um cacho repleto de pequenas flores roxas. Retornou à sala, seus olhos preocupados mais uma vez recaindo sobre a figura abatida de Benjy. “ Valeriana. Minha mãe costumava me dar um pouco todo dia antes de dormir. Ajuda bastante a relaxar. ” Explicou mostrando o punhado de flores roxas que tinha em mãos.
Sem cerimônia nenhuma, Ava adentrou a cozinha e logo entendeu como tudo ali funcionava, quase como se fosse a sua própria casa. Encontrou a chaleira, colocou água suficiente na mesma, depois a colocou no fogo. “ Você tem mel? ” Perguntou na direção da sala, mas não esperou a resposta, começou a abrir as portas dos armários em busca do que procurava. Encontrou mel e pegou duas canecas, logo desligando o fogo antes que a água começasse a ferver. Colocou a valeriana dentro da chaleira, se ocupando em depositar uma colher de mel no fundo de cada caneca. Não sabia por qual motivo havia duas à sua frente. Sua intenção quando fora até o vaso apanhar a erva era fazer um chá para o homem e depois ir embora, ele devia estar querendo um pouco de paz e Aviva apenas o atrapalharia. Alcançou sua varinha, tentando lembrar um feitiço que transferiria a substância da caneca de volta para o pote. Era um encantamento simples e Ava sentia que estava na ponta de sua língua, mas não conseguia colocar em palavras. Pensou ter se lembrado e apontou a varinha para a caneca, recitando baixinho o encantamento. Porém, não era o certo, o que fez com que a caneca se quebrasse em mais pedaços do que ela seria capaz de juntar novamente. “ For the love of God! ” As palavras deixaram seus lábios com o susto, começando a juntar com as mãos alguns dos cacos sobre a pia.