No inferno — um passo de cada vez
[...] A própria cultura pode vir a se corromper. Obedecer a seus ditames nessas circunstâncias não é senão tomar parte nessa corrupção; é também um grave e genuíno ato de abandono do dever (até mesmo para com a própria cultura, independentemente da opinião da maioria), uma vez que o verdadeiro dever do cidadão patriota é a revivificação do passado morto, perdido no caos, e a restauração de seu poder de visão. Nessas circunstâncias, não há escolhas seguras: podemos optar pela conveniência e sua aparente salvaguarda, ou pelos enormes perigos de um jogo patológico e duradouro que descambará para o inferno.
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Como o Inferno sobe à Terra? Primeiro porque as pessoas começam a agir contra suas consciências, até mesmo em detrimento próprio, mesmo sabendo o que estão fazendo; e segundo porque o Inferno avança um passo de cada vez, um ato de traição depois de outro. E não se deve esquecer que só muito raramente as pessoas fazem frente àquilo que sabem que está errado, mesmo quando as conseqüências disso são razoavelmente leves. Mas isto é algo que você deve meditar seriamente, se quiser levar uma vida moral e conscienciosa: se você não fizer nenhuma objeção quando as transgressões à sua consciência forem (em comparação) pequenas, por que você acha que resistirá quando as coisas saírem completamente dos trilhos e você for solicitado a tomar parte [no caos]?
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A tirania avança aos poucos e pede que nos recolhamos a passos curtos. Mas cada recuo aumenta a possibilidade do próximo. Cada traição da consciência, cada ato de silêncio (mesmo feito à revelia de uma indignação sentida) e cada racionalização enfraquece a resistência e aumenta a probabilidade do próximo avanço da tirania. Isso é assim especialmente quando parte daqueles que a estão fazendo avançar sentem um verdadeiro deleite em exercer de modo irresponsável o poder que lhes foi dado — e esse tipo de gente sempre vai existir. É melhor estar alerta e se contrapor quando o custo disso ainda for baixo — e quando as possíveis recompensas ainda não tiverem sido descartadas. É melhor se opor antes que a possibilidade de fazê-lo esteja irreversivelmente comprometida. Essa é a terrível lição do Holocausto e, eu diria ainda, de todas as tiranias do século XX.
Como é possível que homens comuns, cidadãos evidentemente decentes (ou pelo menos nada piores do que a média, escolhidos quase que de modo aleatório) tenham sido transformados em chacais sem coração, voltados à destruição total e obedientes a todas as terríveis ordens que lhes foram dadas? A resposta não é nada agradável. É pessoal demais, para aqueles que são capazes de pensar de modo sóbrio e realista enquanto lêem e refletem. É por demais indicativa dos terríveis perigos alojados numa mera estrutura ordenada, e da perda do espírito e da alma que vem como conseqüência do sacrifício da consciência no altar do Estado. É assustador demais considerar os lugares terríveis a que se pode chegar caminhando um passo descuidado e deliberadamente cego de cada vez. Mas é necessário contemplar essas coisas, se quisermos acabar, de uma vez por todas, com a catástrofe da conformidade social obscena que costuma acompanhar o sacrifício da pequena voz dissonante.
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Se você decidir resistir e recusar uma ordem; se fizer algo que os outros condenam mas que você acredita piamente que é certo, então você precisa estar em condições de acreditar em si mesmo. Isso significa que você já deve ter se esforçado para viver uma vida honesta, produtiva e cheia de sentido (ou uma vida parecida com a de alguém em quem você se sente inclinado a confiar). Se você não fez isso, pode ser que, quando a coisa ficar feia, você não consiga confiar em si mesmo. Mas se você viveu de modo honroso, de tal modo que possa ser considerado alguém confiável, será a sua decisão refratária ou a maneira como você agir contrariamente à opinião pública o que irá ajudar a sociedade a se manter de pé. Agindo assim, você poderá ser parte da força da verdade que impede a ordem de se tornar ela mesma corrupta e tirânica. Sempre foi assim. O indivíduo soberano, desperto e fiel à sua consciência, é a força que impede que o coletivo, estrutura necessária que orienta as relações sociais normativas, se torne cego e mortífero.
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Trechos do texto publicado por Jordan Peterson em 31 agosto de 2020 em sua rede social thinkspot, disponível aqui: https://www.thinkspot.com/discourse/zquaJQ/post/jordan-peterson/hell-one-step-at-a-time/b6mtwx















