eu estava escondida no seu inconsciente. foi o que vocĂȘ me confessou, em uma dessas noites que nĂłs tivemos juntos. eu ri, como quem pensava que era passado. mas eu sempre soube que nĂłs Ă©ramos desses desejos recĂprocos que nĂŁo se realizam.
entre nĂłs, nĂŁo existe limite. tudo Ă© infinito, fluido, como se fosse perfeitamente ensaiado. talvez por isso o desejo, a culpa e a tensĂŁo estivessem tĂŁo palpĂĄveis desde a nossa primeira troca de mensagens.
nĂłs conversamos sobre coisas que sempre evitamos e nos reconhecemos como nunca havĂamos feito antes. vocĂȘ reconheceu todas as vezes em que errou, e eu, que jĂĄ tinha feito isso antes, apenas reforcei.
sempre pairou entre nĂłs uma dor, aquela de quando a pessoa Ă© realmente incrĂvel e nenhum dos dois quer estar fora da vida do outro. eu sempre quis te dilacerar em pedacinhos para ter todos para mim; vocĂȘ sempre quis me acorrentar a vocĂȘ. mas sempre foi como se uma força pedisse esse afastamento.
nĂłs conseguimos reconhecer, naquela noite, o porquĂȘ. nenhum de nĂłs queria ser quem a gente era.
entre santa catarina e o paranå hå um espaço onde tudo o que não aconteceu ainda respira. mas, naquela noite, tudo saiu da minha imaginação.
vocĂȘ tenta ser melhor para me convencer, e eu demonstro que sempre gostei de vocĂȘ da forma que vocĂȘ Ă©.
foram-se anos. eu nĂŁo deveria saber ainda quem vocĂȘ Ă©. eu deveria ser outra, e vocĂȘ tambĂ©m. de certa forma, nĂłs somos. mas ainda sabemos o que Ă© sermos nĂłs. o que Ă© sermos juntos.
eu ainda falo piadas, e vocĂȘ as completa. vocĂȘ ainda sabe como o meu ciclo circadiano funciona. essas coisas deveriam ter morrido em vida. um hĂĄbito que nĂŁo era para vocĂȘ lembrar. Ă©ramos para ser completos desconhecidos.
mas, naquela noite, eu me lembrei de tudo, de tudo o que eu nunca esqueci, do meu corpo se entregando completamente a vocĂȘ. e meu corpo se lembrou do que nunca esqueceu, de todos os arrepios com sua voz no meu ouvido.
meu desejo se acendeu, de forma que nunca tinha sido apagado. seus dedos provaram o quanto eu te queria, e eu me senti exposta, mas não existe exposição mais gostosa do que ser reconhecida em amor.
e, naquela noite, vocĂȘ tentou nĂŁo cruzar aquela linha, e eu me esforcei para que ela nĂŁo fosse ultrapassada. mas, quando vocĂȘ me tocou, eu me esqueci dela. quando vocĂȘ me experimentou, nĂŁo existiu mais nada para mim, apenas eu, vocĂȘ e nossas mĂŁos.
um âeu te amoâ guardado por anos.
e vocĂȘ, mesmo estando com ela, e apesar dela, me disse que ainda me via nos seus piores momentos, nos seus melhores momentos, no seu cotidiano.
eu me odiei quando me coloquei no lugar dela. mas, quando voltei para o meu, tudo o que soube fazer foi te experimentar mais uma vez.
e mais uma. e mais uma. e mais uma.
e agora, hoje, nĂŁo hĂĄ mais nada que possamos fazer.
nĂłs erramos. e acertamos. e erramos de novo.