Um lugar em que posto qualquer aleatoriedade que passe pela minha cabeça e reblogo qualquer aleatoriade que me convenha. Atualmente, postando muito sobre Star Wars
Eu, geralmente, não sou uma pessoa que se importa muito com spoilers. Saber o que acontece não costuma estragar minha experiência com um filme/série/livro desde que eu não saiba como acontece. Mas isso não é uma verdade absoluta e, talvez, ter ido assistir A Hora do Mal sem saber praticamente nada sobre esse filme foi o que me proporcionou uma das minhas melhores experiências audiovisuais dos últimos meses (talvez, do último ano).
Na trama roteirizada e dirigida por Zach Cregger, 17 crianças da mesma sala de aula acordam de madrugada, exatamente as 2:17 da manhã, e saem de suas casas e partem correndo de suas casas em direção à escuridão da noite, desaparecendo sem deixar vestígios e fazendo a cidade mergulhar em um mistério interminável. Alex (Cary Cristopher), o décimo oitavo aluno da classe e a única criança a não desaparecer, passa a ser fartamente interrogado pela polícia enquanto a professora das crianças, Justine (Julia Garner) se torna o bode expiatório para uma multidão da pais e mães desesperados que insistem em culpá-la em um momento em que nem mesmo a polícia tem pista alguma do que aconteceu. E isso era absolutamente tudo o que eu sabia sobre o filme quando fui vê-lo.
A primeira coisa que chama a atenção no filme é a sua narrativa fragmentada e nada linear: por mais da metade do filme, vemos os mesmos eventos, repetidas vezes, pelos olhos de múltiplos personagens diferentes: Justine (a professora dos alunos desaparecidos), Paul (interpretado por Alden Ehrenreich, um ex-namorado de Justine e um policial com problemas com álcool que está envolvido na investigação do desaparecimento), Archer (interpretado por Josh Brolin, o aflito e inconformado pai de uma das crianças desaparecidas), Marcus (interpretado por Benedict Wong, o diretor da escola em que estudavam as crianças desaparecidas), James (um drogadito morador de rua, interpretado por Austin Abrams, que parece estar sempre no lugar errado e na hora errada) e, por fim, Alex (a única criança de sua sala a não desaparecer na fatídica noite que dá início ao filme).
Em um primeiro momento, essa fragmentação parece confusa. Um a um, cada um desses pontos de vistas apresentam apenas mais e mais peças de um quebra-cabeça extremamente confuso e que não parecem se conectar de forma alguma. Porém, muito lentamente, todos esses pontos de vistas começam a confluir para um mesmo ponto; todas essas histórias passam a se interconectar com uma casa e com uma figura caricata, carnavalesca e extremamente maquiada que é nova na cidade. Assim, chegamos aos 30 minutos finais do filme, em que todas essas narrativas se somam para virar uma unidade em um clímax que misturar terror, ação e sobrenatural com pistadas de uma comédia amarga e sarcástica.
Apesar de confusa em um primeiro momento, essa narrativa tem a vantagem de transformar o filme em um mistério intrigante que prende o expectador do começo ao fim: nenhuma das histórias contadas são autossuficientes, todas elas terminam com mais dúvidas do que respostas, só começando a fazer sentido quando os seus elementos começam a confluir. A cada novo mistério bizarro que é introduzido na trama, mais e mais a atenção do expectador é capturada diante de uma trama que se torna cada vez mais macabra. Muito aos poucos e bem sutilmente, o filme deixa de ser um simples mistério policial e passa a flertar com o profano, nos fazendo mergulhar em um submundo ritualístico que brinca com a nossa imaginação, com a nossa curiosidade e com os nosso medos.
Mais do que isso, a narrativa fragmentada do filme cria o sempre interessante fenômeno da história sem protagonista, em que cada personagem tem o seu momento de brilhar e contribuir com a construção da trama - e, consequentemente, cada ator/atriz tem a sua oportunidade de destaque. Mesmo assim, os destaques de atuações vão para Julia Garner e Josh Brolin: por terem mais tempo em tela, os dois tem múltiplas oportunidades para mostrarem talento, de forma que seus personagens carregam boa parte das maiores interpretações do filme. Mas ganha destaque, também, a atriz Amy Madigan, que interpreta Gladys, a extravagante tia-avó de Alex que, apesar do curto tempo em tela (mais concentrado na metade final do filme), consegue dar o tom que o filme todo assume: uma ópera de terror que ressignifica os clichês do gênero e dá uma nova roupagem ao macabro.
A Hora do Mal acerta em uma trama inquietante, prendendo a atenção do expectador ao fazê-lo se importar com cada personagem apresentado e ao oferecer milhares de peças desconexas enquanto monta um imenso quebra-cabeças sobrenatural. Você não só quer acompanhar os personagens como desenvolve um interesse genuíno em tentar entender o que está acontecendo nas entrelinhas enquanto se choca com as cenas mais brutais que ocorrem diante de seus olhos. Afinal, foram muitas as cenas em que encarei chocado a pessoa que estava assistindo ao filme comigo (quase que buscando nela a mesma reação de choque a cada novo evento misterioso e/ou traumático apresentado em tela ou a cada cena em que uma peça começava a se conectar com outra).
Fazia anos que eu não via um filme de terror tão deliciosamente envolvente como esse, que não duvida da inteligência do expectador ao oferecer explicações detalhadas do que está ocorrendo. A Hora do Mal faz justamente ao contrário, praticamente te convidando para ajudar a solucionar o mistério do desaparecimento de 17 crianças.
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Eu pouco sabia do que se tratava Aftersun, de 2022, dirigido por Charlotte Wells. Pelo que eu já tinha ouvido falar, sabia que se tratava de uma série de memórias da personagem e sabia que era um filme muito bonito. Apenas isso. Nada mais. E, por mais que eu seja uma pessoa que não liga nem um pouco para spoilers, talvez ter ido ver esse filme sem saber de absolutamente mais nada foi a melhor coisa possível. Spoilers entregam o impacto de uma vez, de forma muito rápida e muito crua. Mas o que esse filme faz é diferente. Conforme a trama avança e você percebe a que ponto ela está se direcionando, a diretora arranca o coração do espectador peito de uma forma lentamente sádica, te permitindo sentir cada mísero segundo daquele impacto avassalador e dilacerante que você sabe que vai chegar, mas se recusa a acreditar.
A história conta sobre os poucos dias em que Calum (Paul Mescal) e sua filha, Sophie (Frankie Corio), passagem juntos em um resort na Turquia logo após o aniversário de 11 anos dela e pouco antes do aniversário de 31 anos dele. Filmagens e flahsbacks se misturam ao longo de todo o filme enquanto Sophie, já adulta, revisita vídeos, fotos e memórias para tentar entender quem era o homem que ela chamava de pai. É impossível falar mais do que isso sem avançar para detalhes reveladores da trama e sem comprometer a experiência de ninguém em assistir essa preciosidade de filme. A princípio, parece ser um filme em que nada acontece, mas devemos lembrar que não acontecer nada também é acontecer alguma coisa.
Em um primeiro (e breve) momento, o filme parece confuso. Filmagens e flahsback se misturam o tempo inteiro. As vezes, fora de ordem. Algumas cenas muito rápidas, outras exageradamente extensas. Tudo isso enquanto acompanhamos os poucos dias de viagem de pai e filha, sem haver um conflito nítido (em um primeiro momento, que fique claro) que funcione como fio condutor da narrativa. Mas, não muito tarde ao longo do filme, é muito fácil perceber que essa foi a forma que a diretora encontrou para trazer à vida as memórias de mais de 20 anos que Sophie está revivendo, tentando juntar os cacos de tudo aquilo que viveu para desesperadamente compor a imagem de quem era o seu pai. Um trabalho primoroso de storytelling que é muito mais do que bem sucedido em fazer o espectador se interessar e se preocupar com os personagens em tela, apesar de o próprio filme não nos dar explicitamente muito detalhes sobre quem são e sobre como são suas vidas. Esses detalhes são entregues aos poucos, de forma parcimoniosa e em cenas tão sutis quanto impactantes.
Mas é impossível falar desse filme sem mencionar o fato de que Paul Mescal e Frankie Corio o carregam nas costas com a maestria de grandes nomes da velha guarda de Hollywood. Afinal, durante quase todo o filme, um dos dois está em cena. São raríssimo e pontuais os momentos em que não os vemos. Os dois se saem muitíssimo bem individualmente, mas é nas cenas em que os dois interagem que encontramos uma verdadeira jóia. Os dois roubam a cena, mas não roubam o brilho do outro quando interagem, um permitindo o outro ter o seu espaço. E isso ocorre de uma forma tão orgânica e íntima que é quase possível acreditar que são, realmente, pai e filha em tela. E essa sincronia entre os dois é fundamental para o avançar do filme: enquanto os dois personagens compartilham de dias felizes à beira da piscina, a verdadeira história é construída nas entrelinhas... por meio de olhares, de gestos, de palavras não ditas... até o momento em que toda essa sutileza passa por cima do espectador ao jogar na sua cara a verdade por trás de tudo aquilo, o porquê Sophie, mais de 20 anos depois, precisa reviver essas memórias tão desesperadamente.
Aftersun fala de amor, de fragilidade, de medo, de maturidade, de inseguranças e fortalezas. Fala sobre o sofrimento das pessoas que mais amamos e que mais nos amam, mesmo quando esse sofrimento não é perceptível. Fala dos sinais que são emanados de uma pessoa quando dor e amor se encontram em seu interior ao mesmo tempo. E fala da dificuldade em percebermos esses sinais quando os outros os emanam. Fala de amor próprio. E também fala de ódio próprio. Fala da nossa fragilidade enquanto sermos capazes de sentir e de refletir sobre esse sentimento. Fala da nossa insignificância em relação ao mundo enquanto, para outras pessoas, nós podemos ser todo o seu mundo. E, mais do que isso, o filme grita, incessantemente, sobre as palavras não ditas e sobre as oportunidades que jamais teremos de dizê-las. Em meio a todas as suas inúmeras delicadezas e artimanhas, Aftersun é visceral, agressivo, violento e devastador.
Enquanto te estapeia sem dó nem piedade com pequenas sutilezas (e que aos poucos se transformam em uma avalanche incontrolável), Aftersun é aquele filme que termina com um nó terrivelmente apertado na garganta. Aquele filme que aluga um triplex na sua cabeça enquanto você tenta processar tudo o que viu, mesmo após horas depois de já ter terminado, ainda incapaz de engolir tudo aquilo. Sem dúvida algumas, (mais) uma obra de arte (da A24).
My character, Verna, is an anagram for raven. And so I am the raven. This was definitely a character that I could not go halfway with. She's not the devil. She's not even evil. She isn't human. You could say she is the executor of fate or the executor of karma. She manifests to each person at the moment before their death as they can see her. A character who isn't of this world but is able to seamlessly be in this world. Always, like a raven looking at things from a vantage point, from a perch. She sees you from the inside out as well. She allows people to tell the truth in a way that we rarely do. Mike Flanagan mentioned at one point, "Each of the Usher family members are like a different instrument. Verna is like a symphony."
Carla Gugino on her character, Verna, in The Fall of The House of Usher (2023)
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Se é série de terror assinada pelo Mike Flanagan, eu já sei que vai ser boa. “A Maldição da Residência Hill” foi espetacular, “A Maldição da Mansão Bly” foi excelente e “Missa da Meia Noite” foi simplesmente sublime! OK... “Clube da Meia Noite” foi uma exceção, mas eu passo pano pro Mikinho nesse caso. Quem não erra de vez em quando, né? Não que essa tenha sido ruim, é até divertidinha, mas definitivamente não chega nem aos pés das outras três. Mas ele definitivamente não errou com a sua mais nova série feita em parceria com a Netflix, “A Queda da Casa de Usher”, baseada em incontáveis poemas de Edgar Allan Poe que, aqui, juntam-se com o objetivo de criar uma história única. História essa que gira em torno da poderosíssima família Usher, dona da farmacêutico Fortunato e que alcançou um poder financeiro impensável para a maioria dos mortais com a venda de uma única medicação, o Ligodone, capaz de curar toda e qualquer dor sem causar vício ou dependência (pelo menos, é o que a empresa promete).
Na série, a família Usher, no auge de seu poder e riqueza, é completamente abalada quando os herdeiros do patriarca e magnata, Roderick Usher, começam a morrer violenta e misteriosamente. E isso não é um spoiler: é a própria sinopse presente na página da série na Netflix. Nesse momento tão singular de sua vida, Roderick junta forças com sua irmã gêmea, Madeline, para entender o que está acontecendo, por que e, principalmente, quem está causando tudo isso. Para isso, os dois revisitam o passado em busca de potenciais inimigos e, consequentemente, de uma solução para a catástrofe que estão vivendo. Afinal, não há absolutamente nada que a família Usher não possa fazer com seu dinheiro, seu advogado (aqui, brilhantemente interpretado pelo eterno Luke Skywalker, Mark Hamill) e com assassinatos encomendados. Ou será que, pela primeira vez, a grandiosa família Usher está incapaz de agir, sendo uma mera expectadora da própria ruína?
Inicialmente, quero discutir o brilhantismo com o qual Mike Flanagan trata suas histórias. Primeiro, pelo fato de que ele é um dos cineastas que mais demonstra entender que o gênero de um filme não é a história, mas um veículo para se contar a história. Isso, é claro, parece ser muito óbvio, mas transportar isso para um roteiro e técnicas de filmagem deve ser extremamente difícil. Ainda mais quando se trabalhada com o gênero de terror, recheado de clichês e que pode ser facilmente manipulável com incontáveis jumpscares para criar uma falsa sensação de medo enquanto, na verdade, apenas está assustado o espectador. Mas não aqui. O terror em “A Queda da Casa de Usher” não está em sustos distribuídos a cada 5 minutos nos 8 episódios da série. Não... Os sustos existem, mas são artifícios narrativos pontualmente utilizados em momentos muito específicos. O terror nessa história está, na verdade, em cada canto, de cada sala, de cada cena da série. Está na atmosfera criada pelas mortes dos membros da família Usher. Está no não saber o que está acontecendo. Está no mistério sem respostas que se torna cada vez mais assombroso. E está no medo que vai sendo construído pouco a pouco, a cada episódio, até que, no último, transformar-se em pleno pavor. Nada diferente do que o tio Mike fez em suas séries anteriores, é claro, mas que faz com que a sua narrativa seja brilhante.
Aliás, a narrativa é outro ponto que merece um destaque. Assim como eu suas duas minisséries sobre mansões assombrada, a narrativa não é linear. A história é narrada pelo próprio Roderick Usher na forma de uma confissão para Auguste Dupin, um promotor de justiça que passou a vida toda tentando, frustradamente, responsabilizar a família Usher por todos os (incontáveis) crimes que cometeram em sua escalada até a riqueza absoluta. Durante essa confissão, dividida ao longo de todos os 8 episódios, transitamos por flashbacks dos dias anteriores e por flashbacks de um passado muito distante em que Roderick e Medeline ainda eram apenas jovens desajustados com sonhos que não conseguiam tirar do papel. O vai-e-vem, como nas outras séries do diretor, é um pouco confuso no começo. Mas essa confusão dura pouco tempo, pois, aos poucos, vamos conhecendo os personagens nos vários momentos de suas vidas e conectando informações de uma época com a outra, construindo em nossas mentes um quebra-cabeças que só se completa, em sua totalidade, nas cenas finais do último episódio. E, nessa narrativa, somos convidados a refletir sobre as consequências de nossos atos, as consequências das mentiras que contamos e sobre como essas consequências existem para os outros (mesmo que nós não saibamos de sua existência), sobre o potencial lesivo da corrupção e da mentira, sobre como apenas nós podemos ser responsabilizados pelos nossos próprios erros e, principalmente, sobre como, mais cedo ou mais tarde, o universo vai nos mandar a conta. E, justamente por essas questões, “A Queda da Casa de Usher” é uma série com o magnífico e inesperado diferencial de fazer o expectador não sentir empatia alguma pelos protagonistas – o que sentimos é um ódio imenso e indescritível de cada membro da família Usher, além do desejo insaciável de que eles sejam punidos por cada um de seus atos bárbaros.
Aqui, cada ator e atriz nos papéis principais tem o seu momento de brilhar. Como de praxe, Mike Flanagan resgata o caráter antológico de suas séries e, aqui, vemos muitos rostos conhecidos de suas séries de casas assombradas ou de “Missa da Meia-Noite”. Nesse grupo de rostos conhecidos, vemos Kate Siegel, a esposa de Mike, que, apesar do seu pouquíssimo tempo de tela consegue roubar a cena e ofuscar quase qualquer outro ator ou atriz que contracene com ela. Mas, talvez, o rosto mais conhecido aqui, presente em quase todas as séries do diretor, seja o da atriz Carla Gugino (daqui ao final do parágrafo, pode haver informações que sejam sugestivas de spoilers, então, prossiga por sua conta e risco). E, para quem acompanha as séries do Mike Flanagan, existe uma verdade absoluta: se a Carla Gugino está no elenco, ela, com certeza, será a personagem esquisita, doida, misteriosa e com segredos assombrosos capazes de render os melhores plot twists em algum momento da história. E a série não decepciona: aqui, Carla interpreta Verna, uma figura do passado de Roderick e Madeline, desaparecida durante tantas e tantas décadas, mas que ressurge em suas vidas justamente no momento em que seus herdeiros começam a ser eliminados, um a um. Ao meu ver, Verna é a personagem mais importante da história, um livro de poesias e liricismo tão singelo e deliciado que é a personagem responsável por dar à “A Queda da Casa de Usher” uma das características mais marcantes das série do tio Mike: a profundida das reflexões sobre os temas do qual a série aborda. Carlinha faz um trabalho ímpar, poético, delicado e, apesar da natureza (bem) incomum de sua personagem, belo. Pessoalmente, não sei se a interpretação da Carla lhe renderá algum prêmio na temporada de premiações do ano que vem, mas, ao meu nada especializado julgamento, seria no mínimo justo que ela fosse indicada nas categorias de atuação (e eu digo isso considerando, principalmente, mas não só, a sua participação nos dois episódios finais da série, que concentram quase 50% das cenas de suas personagem, e, em especial, à única cena que divide exclusivamente com o personagem de Mark Hamill). Como disse o próprio Mike Flanagan, "cada membro da família Usher é como um instrumento, mas Verna é uma sinfonia".
E, como prova de tudo o que falo sobre a Carla Gugino, eu vos ofereço a cena final de sua personagem (e, por sinal, a última cena da série). Em uma sequência de frames que não mostram seu rosto em nenhum momento, apenas a sua mão, você, expectador, sabe EXATAMENTE o que a personagem sente por cada um dos membros da família Usher. Com apenas as mãos, sem precisar usar suas expressões faciais, a Carla consegue comunicar o juízo de valor de sua personagem em relação aos outros. ARTISTA!
Apenas para deixar registrado, queria pontuar também a atuação de Willa Fitzgerald, que interpreta a versão jovem-adulta de Madeline Usher em diversos flahsbacks. Todo o ódio, ranço e nojo que sinto da personagem em sua velhice são causados pela participação brilhante de Willa em suas cenas. Um trabalho de construção de personagem primoroso.
Como as outras séries que fez, é possível ver o quanto Mike Flanagan ama o seu trabalho e o quanto ele ama as histórias que cria. Mais uma vez, ele se prova como um excelente storyteller, tanto quanto roteirista quanto como diretor, enquanto deposita sua obra de arte na mãos de atores e atrizes tão talentosos que se repetem em cada um de seus projetos. “A Queda da Casa de Usher” é, talvez, a série mais profunda e atual de todas as que Mike já fez até então, mas sem precisar duvidar da inteligência do expectador e lhe explicar tim-tim-por-tim-tim de tudo o que está acontecendo, mas explicando apenas o essencial e permitindo que o expectador preencha sozinho as lacunas do que está acontecendo enquanto se deleita com uma história absurdamente bem contada.
Nota: 5/5
Edit 1: Acabei de descobrir que a Carla Gugino foi indicada como Melhor Atriz em Série Limitada no Critics Choice Awards 2024 por esse papel.
LIVROS | OS REGISTROS ESTELARES DE UMA NOTÁVEL ODISSÉIA ESPACIAL
Muito tempo atrás (MAS MUITO TEMPO MESMO), eu vim aqui fazer uma review do livro “A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil” (vou deixar o link lá no final), o primeiro de quatro livros da série Wayfarers, escrito por Becky Chambers. Eu me lembro terrivelmente bem de ter demorado quase dois anos (ou talvez, até mais) para iniciar a leitura do segundo livro da série, “A Vida Compartilhada em uma Admirável Órbita Fechada”. Minha paixão, admiração e idolatria pelo primeiro livro tinham sido tamanhas que eu temia que esse segundo livro pudesse não chegar nem aos pés do primeiro e acabar com a imagem que a série tinha em minha mente. Mas esse foi um erro juvenil: o segundo livro, realmente, não me cativou tanto quanto o primeiro, mas isso não quer dizer em hipótese alguma que ele não tenha me encantado absurda e terrivelmente em cada uma das suas páginas. Realmente, só não foi melhor que o primeiro (mas, sejamos sinceros, essa era uma meta quase impossível de ser atingida e, sinceramente, eu até esperava que não fosse). Por que diabos eu não fiz um review do segundo livro aqui? Não sei, o mundo tem seus mistérios, não é mesmo? Novamente, eu enrolei grotescamente para iniciar a leitura do terceiro livro da série, “Os Registros Estelares de uma Notável Odisséia Espacial”, novamente imaginando que o terceiro livro da série pudesse minar a idolatria e a admiração que eu nutria pelos seus antecessores. E, mais uma vez, eu cometi um erro juvenil. Enquanto o segundo livro era quase tão bom quanto o primeiro (acreditem, os quesitos que me fizeram chegar a essa conclusão são detalhes terrivelmente preciosistas), o terceiro é igualmente bom ao primeiro. Na verdade, considerando todo o meu respeito pelo primeiro livro, me dói ter que assumir isso publicamente, mas, talvez, o terceiro seja até melhor que o primeiro.
Antes de continuar, vamos recapitular os dois primeiros livros (momento a partir do qual podem haver alguns leves spoilers, então, prossiga por sua conta e risco). Em “A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil”, acompanhamos a tripulação da nave Andarilha vagando pelo universo para concluir um trabalho: cavar um buraco-de-minhoca que conecte um novo planeta admitido na Confederação Galáctica ao centro dessa, facilitando assim, trocas comerciais e políticas. Quase que a totalidade do livro se passa dentro da nave durante essa viagem, sem uma grande história a ser desenvolvida. Mas, durante toda a aparente monotonia dessa viagem, nós conhecemos cada um dos membros essa tripulação. Quem são, por que fazem o que fazem, por que gostam uns dos outros e porque não gostam um dos outros. Eventos vão e eventos vem, a história chega ao fim, e um dos membros da tripulação precisa deixar a nave e seus colegas para trás no final. E é justamente ai que chegamos no segundo livro. Em “A Vida Compartilhada em uma Admirável Órbita Fechada”, vemos esse ex-membro da tripulação da Andarilha reaprendendo a viver em uma comunidade maior, dentro de uma cidade, sendo ajudado por outras pessoas durante o seu processo de readaptação à comunidade no solo. Novamente, não há uma grande história épica e marcante se desenvolvendo. Mas vemos esses esse personagem se relacionando com outros, aprendendo a conviver com pessoas diferentes e conhecendo as virtudes e defeitos delas enquanto aprendem a ver beleza nas suas companhias. Em resumo: Becky Chambers não está nem um pouco preocupada em contar uma história interessante, mas sim em contar sobre pessoas, suas relações com outras, seus medos, suas angústias e seus desejos. E ela faz isso de forma primorosa: há uma delicadeza e uma sutileza tão profundas que fazem com situações comuns do dia-a-dia sejam ressignificadas em passagens de um impacto filosófico e uma magnitude emocional que poucas obras de ficção já me fizeram sentir.
Claramente, não é de se esperar que o terceiro livro da série, “Os Registros Estelares de uma Notável Odisséia Espacial”, fosse diferente. Nele, somos apresentados à Frota Exodiana (ou apenas Frota): um conjunto de naves que, décadas antes, havia retirado do moribundo planeta Terra os últimos seres humanos ainda vivos e que, na ocasião da história, ainda persiste como uma comunidade funcional e auto-sustentável. Durante os dois primeiros livros da série, a Frota é mencionada em alguns momentos, mas, no terceiro, toda a ação da história se desenvolve no interior dessas naves. Novamente, não existe uma grande história sendo contada, mas somos apresentados a personagens em toda a sua complexidade. E a complexidade aqui reside no imediato prólogo da história: apenas quatro anos antes dos eventos do terceiro livro, uma das nave-residência da Frota, a Oxomoco, passou por uma despressurização acidental, resultando em uma explosão que vitimou todos os seus milhares de moradores. Quando a história, de fato, começa, os personagens que dão voz à narrativa já aprenderam a seguir com suas vidas, apesar das perdas de amigos e familiares, mas as consequências do acidente ainda são sentidas em detalhes pequenos, mas não imperceptíveis, de seu dia-a-dia. E, nesse momento, somos apresentados a alguns personagens, cada um memorável ao seu modo. Aqui, faço um breve relato sobre cada um deles (aliás, nada do que eu falar aqui são spoilers, afinal, quase tudo que eu disser sobre esses personagens já é exposto logo no prólogo ou nos primeiros capítulos do livro):
* Tessa: Irmã mais velha de Ahsby (o dono e capitão da nave Andarilha, sendo ele um dos personagens principais do primeiro livro). Trabalha no gerenciamento de cargas nas docas da nave Asteria (pertencente à Frota) ao mesmo tempo em que precisa cuidar do pai idoso e criar os filhos pequenos praticamente sem a ajuda do marido, cujo emprego faz com que ele fique fora em viagens à trabalho por um tempo muito prolongado.
* Kip: Jovem de 16 anos com todos os problemas de um adolescente dessa idade. Tem suas questões sobre não ter notas boas o suficiente para ir estudar em uma faculdade ao mesmo tempo em que não consegue se identificar com nenhuma profissão em que faz estágios e, por isso, começa a nutrir um desejo de deixar a Frota para sempre e tentar a sorte em qualquer planeta por ai.
* Isabel: Uma senhora idosa que trabalha como Arquivista da Frota, algo que muito se assemelha a uma curadora de museu, sendo responsável por toda a parte legal das tradições sociais na Frota ao mesmo tempo em que é responsável por preservar a memória e a história da raça humana nos arquivos da Frota (quase como se fosse, ao mesmo tempo, uma historiadora e uma funcionária de cartório). Passa a maior parte do livro na companhia de uma colega acadêmica alienígena, que visita a Frota com objetivos de conhecer o funcionamento daquela sociedade tão peculiar.
*Eyas: Mulher de 40 e alguns anos, trabalha como Cuidadora, ou seja, é a responsável por cuidar dos corpos dos falecidos, reciclando-os e os usando para nutrir o solo e produzir novos alimentos (afinal, a Frota é um sistema fechado e “nada se cria, tudo se transforma”). Praticamente, Eyas trabalha como uma espécie de agente funerária e, uma vez que ela é responsável por reciclar a energia, seu trabalho é visto pelas outras pessoas como muito respeito e admiração, sendo vital para o funcionamento da Frota. Na época do acidente, Eyas foi uma das cuidadoras responsáveis por processar os milhares de corpos das vítimas, algo que ainda mexe muito com ela, consciente e incoscientemente
*Sawyer: Jovem de 24 anos que se muda para a Frota tentando conseguir uma vida melhor do que a que levava no solo, acreditando que a Frota poderá lhe oferecer uma qualidade de vida melhor (completamente o movimento oposto ao de Kip). Não vou entrar em detalhes mais profundos por motivos de spoilers (que seriam PESADÍSSIMOS, no caso), mas é através dos eventos da história desse personagem que todos os outros acabam se conectando. E, particularmente, foi o personagem por quem eu mais me afeiçoei e mais senti empatia (o que, no meu caso, é um pouco estranho, visto que a minha história de vida é completamente oposta à dele, mas, enfim...).
Todos esses personagens, de uma forma ou de outra, ainda são afetados pelas consequências do que aconteceu na Oxomoco. Todos esses personagens, de uma forma ou de outra, tem seus destinos entrelaçados. Todos esses personagens, de uma forma ou de outra, acabam se encontrando, tendo seus conflitos pessoais chegando a um clímax em meio a uma história nada épica, mas delicada, sutil e impactante o suficiente para mudar o curso de suas vidas para sempre. Becky Chambers entrelaça a vida desses personagens, tão diferentes entre si, com um curso de eventos simples e mundano, mas toma uma proporção reflexiva, violenta e avassaladora. Da mesma forma que descrevi no review do primeiro livro, nós, leitores, somos discretamente manipulados a nos afeiçoarmos os personagens... alguns mais, outros menos.... mas a TODOS os personagens. Você se importa com eles, você torce por eles, você quer saber o que vai acontecer com ele, você sofre com eles e você fica feliz por eles. E isso faz com que a leitura seja fluida e veloz: o livro com pouco mais de 350 páginas acaba em um piscar de olhos, mas não sem te fazer passar por uma montanha-russa emocional e por longos momentos de reflexão. Reflexões essa que, guardadas as devidas proporções, são mais do que totalmente válidas de serem aplicadas à nossa realidade, tanto como indivíduos, quanto como sociedade.
Becky Chambers é uma artista. A autora que eu adotei como mãe adotiva depois de ter abandonado para sempre a JK Rowling. E, nesse terceiro livro, Becky me faz ter ainda mais certeza de que eu fiz a escolha certa, trazendo uma história simples, porém impactante e recheada de reflexões quanto à pertencimento, funcionamento social e xenofobia. Uma história sobre achar o seu lugar. Uma história sobre respeito. Uma história sobre acolhimento. Uma história sobre oferecer ajuda, mesmo quando o outro não está pedindo. E, principalmente, uma história sobre como não é possível reverter os nossos erros, mas sobre como é possível aprender e cuidar para que eles não se repitam. “Os Registros Estelares de uma Notável Odisséia Espacial” é aquele livro que termina, simultaneamente, com um gosto amargo na boca mas com uma sensação de “quer mais”. Por mais que eu ache que a história tenha terminado no momento certo, eu adoraria que o livro tivesse mais 100... 200... 300 páginas, só para poder acompanhar esses personagens que, pouco a pouco, eu aprendi a amar. Mas outras coisa que eu espero ter aprendido é a não demorar tanto para ler um novo livro dessa série e, por isso, espero trazer o review do quarto e último livro da série Wayferes aqui muito em breve.
Nota: 5/5 (impossível ser menos do que isso, IMPOSSÍVEL!)
Link pro meu review do primeiro livro:
Sensível, inspirador e tocante. Se você não quiser ler o resto desse texto, saiba apenas que essas três palavras são suficientes para descre
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