SALOMÃO
Estou aqui sentado, em um banco a frente de sua cabine, observando o fluxo e vendo o que tempo pode desmoronar enquanto você coça a nuca com movimentos curtos e repetitivos. Não tinha entrado de maneira errônea, apenas contida. É como escorrer por uma fresta morna. Mas hoje, minha tremedeira está mediana. Sinto uma confiança cortante, mas há um temor que nasce na base da minha própria espinha. Estou desconfiado de mim mesmo, ou talvez do que vim buscar no escuro do seu cerne.
Eu conheço você, Salomão. É assim que todos o chamam: um nome lançado entre cliques de celulares e cascas jogadas. Tentam dialogar com você através de palmas, atrações ou chamados vazios. Um nome dado apenas para dar nome, uma etiqueta colada sobre uma alma. Para mim, Salomão, você é a memória de quando eu era mais novo e vinha aqui apenas para olhar, antes de aprender a invadir. Eu sentia um apreço silencioso pela sua força, sua agilidade, seu instinto e sua simplicidade. Uma nostalgia de um tempo em que eu não precisava de conceitos para entender o mundo. Agora, eu volto, querendo que você acorde, lhe dando estes tais conceitos que eu aprendi até agora.
Atravesso a camada da fome e encontro o sedimento. Há um cheiro de terra úmida que você nunca tocou e galhos que não existem neste recinto. Você nunca esteve em uma floresta intacta, mas algo em você carrega o molde dela. Não como lembrança individual, mas como herança, uma cicatriz antiga e cuidadosa. Sinto seu corpo esperar pela casca da árvore enquanto seus dedos tocam o cenário e as folhas falsificadas. Isso não é tédio, Salomão, tem algo mais nisso aí, você só não desbloqueou ainda. É o eco de um espaço maior comprimido dentro de um corpo pequeno.
A ideia se deposita como um peso leve. Você pausa no meio do movimento. O corpo continua por inércia, mas há um microssegundo de silêncio cognitivo. Eu empurro a probabilidade e seu braço se move. Você toca um tronco em sua proximidade e, pela primeira vez, faço isso funcionar de uma forma mais aparente. Essa é terceira vez que tento utilizar esse método e o mais arriscado, pois só fiz isso com seres menores do que eu, com o resultado não sendo um dos melhores. Eles eram mais fracos, deve ser uma frequência que eu não obtive ainda. Mas você meu querido amigo, será meu primeiro nessa jornada de auto-consciência, uma comparação. O frio do ser humano contra o cheiro de uma seiva imaginada. Você sente o peso da palavra "dentro". Dentro de quê? O conceito começa a se formar como uma tensão no peito, uma pergunta sem som que eu acompanho com a atenção de quem observa uma ferida abrir aos movimentos voluntários de coçadas e afagadas em sua própria cabeça.
Então, você olha desnorteadamente, repetitivamente para um lado e outro, cima e baixo de maneiras horizontais e verticais. Não o ordenei a fazer, significa que o processo está funcionando, graças as minhas hipóteses. Por enquanto a rebeldia que eu tanto buscava como resposta, aparentava ter adormecido. Porém eu acabo sentindo seu instinto, seu desígnio primal. Seguindo entre obter comida, pulando de um galho para se sentir enérgico ou utilizando-se de sons para fazer atrair as atenções desejadas do seu sexo oposto. Começo então a ouvir os outros ao seu redor, uma sensação de que você está diferente. Os humanos pouco se importam, eles gostam de ver um ser como você em um espetáculo da sua natureza. Enquanto eu estava achando a brecha para fazer você pensar, seu foco se fixou repentinamente em mim, onde meus olhos estariam, atrás destas lentes escuras. Há reconhecimento, mas há algo além: uma expectativa que eu mesmo plantei. Você sente minha mente pressionando a sua como a água contra uma pedra. Sinto uma satisfação que beira o indecente, mas a apreensão volta. Ao mergulhar fundo demais, levo comigo um resíduo: o cheiro de terra que nunca pisei e o estalo de galhos partindo sob um peso que não é o meu. Eu tento sair de você pois já estou entrando em choque e não quero chamar atenção com meu corpo estirado no chão mas você de alguma forma me prende, aterrorizando meu horizonte de buscas incessantes pelo controle de uma alma simplória. “O que é isso que sinto?.... Não era suposto eu internalizar isso, não cravei isso em mim”.
Quando vi pela sua visão que você me encontrou, alto em dois pés, numa pose ameaçante, senti medo pela primeira vez nessa descoberta. O meu sentimento de explorar isso profundamente se esvai ao notar o terror que você projeta em mim, como uma sombra enorme querendo me agarrar e me engolir. Isso é uma força? É um delírio? Alucinei por usar demais do que foi me dado? Sinto meu tremor chegar, forte, com batidas sinápticas, cardíacas, involuntárias. Vocês são tão superiores a nós, mesmo que ambos possuímos nossos respectivos instintos. Ao som de um simples urro vindo em minha direção, caio do banco de costas. Depois disso, o que eu mais eu poderia perder ao testar? Pelo visto nada além de preocupações vindas de estranhos com perguntas supérfluas de como eu estou e se ficarei bem ao andar. Toda essa exaustão foi o máximo para mim, levantando o que eu havia pensando de uma última possibilidade dos quarenta por cento de chance que eu havia contado. Me vejo voltando para casa, com a minha cabeça doendo mais do que uma queda de fratura exposta. Na rádio da recepção do dia seguinte, os jornais locais confirmaram o que eu já sentia no meu próprio sono inquietante. O chimpanzé Salomão foi encontrado em estado de severo isolamento. O animal recusa alimentos e mantém-se afastado dos demais. No centro do recinto, Salomão desenhou na terra batida um padrão circular repetitivo composto por dois círculos opacos, como o contorno de óculos.
Agora, sinto o silêncio da minha casa sendo povoado por você. Meu trauma é uma invasão invertida. Eu fecho os olhos e não vejo o meu reflexo, vejo o seu olhar fixo, carregado com o peso daquilo que tentei te puxar; uma luz, um conhecimento que eu te dei e que agora você não tem como usar pois sentiu e presenciou demais. Eu quis te dar a rebeldia, mas te dei a isolação e o medo de um trajeto histórico cercado por demônios inconclusivos da repressão.
Minha subjetividade agora é um território invadido. Quando caminho pelo corredor, minhas mãos buscam o áspero das paredes como se esperassem encontrar a textura de troncos centenários. A luz da lâmpada da sala me agride; ela parece filtrada por uma copa de árvores que nunca vi, mas que sinto latejar atrás das minhas têmporas. Eu olho para as minhas janelas e não vejo a rua; apenas o limite de um vidro que eu mesmo ajudei a polir.
Sou assombrado pelo olhar daquele que foi violado. Sinto o cheiro da terra úmida impregnado nos meus lençóis e o som de galhos quebrando toda vez que tento caminhar. Eu tentei ser o terapeuta de um animal, mas acabei sendo o arquiteto de uma loucura que agora dividimos. Salomão está preso no zoológico e sua própria mente, graças a mim. E eu estou enclausurado no desenho que ele deixou na terra. No meu fracasso psicodélico de atividades neurais. A memória, quando percebe que foi vista, não volta a dormir. Ela fica acordada, nos observando de volta do fundo de uma mata que agora cresce dentro de mim, mesmo que ela não exista.















