O sermão do monte vai dar cabo da tua vida
Uma razão porque confio que Jesus é Deus é porque Jesus se comporta comigo como um Deus. Ele diz-me coisas que seriam insuportáveis de ouvir a um ser humano. Mas se ele for Deus, como acredito que ele é, posso ter algum consolo. Este consolo não significa que as coisas insuportáveis que ele me diz se tornam maravilhosas de ouvir. Mas significa que, sendo Jesus um Deus para mim, posso sentir-me consolado porque o poder de suportar as coisas insuportáveis que ele me diz vem dele mesmo.
Não quero ser irritante ao generalizar mas é insuportável que não saibamos lidar com coisas insuportáveis. A nossa tendência é querer tirar de Jesus o que nele nos parece insuportável porque assim já o podemos suportar. O pior é que se só lidarmos com Jesus quando o conseguimos suportar, significa que obviamente ele deixou de ser um Deus para nós - arranjámos nós uma maneira de sermos maiores do que ele.
Cristãos que nunca se zangam com Cristo são uma raça que devemos evitar. Não devemos confiar neles. Cristãos que se sentem sempre a amar Cristo são os mais perigosos de todos. Cristãos que lêem a Bíblia e ficam à rasca - essa é a equipa de que quero fazer parte. Dou um exemplo.
Ontem li este texto no sermão do monte, em Mateus 7:6:
“Não deis aos cães o que é santo nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas. Para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos dilacerem.” Baza ler o texto com alguma racionalidade e concluir coisas?
1. Não devemos dar coisas valiosas a quem não pode reconhecer o valor. Aos cães não devemos dar o que é santo, bem como aos porcos não devemos dar joias.
2. Não devemos dar coisas valiosas a quem não pode reconhecer o valor porque quem não reconhece o valor estraga as coisas valiosas que lhe são dadas. Os cães e os porcos pisam as pérolas e as coisas santas que recebem.
3. Não devemos dar coisas valiosas a quem não pode reconhecer o valor porque quem não reconhece o valor acaba por voltar-se também contra quem lhe deu as coisas valiosas. Os cães e os porcos, depois de pisarem as pérolas, dilaceram quem as deu.
São palavras duríssimas. E difíceis de encaixar com um evangelho de graça que, pelo menos a determinada altura, supõe sempre que quem não reconhece o valor está a receber algo valioso. Afinal, o evangelho alcança-nos quando, num certo sentido, ainda somos cães e porcos. Como lidar com esta aparente contradição?
Como avaliaremos quem é o cão e o porco quando, se formos sinceros connosco e com o evangelho de graça que nos alcançou, a determinada altura também nos sentimos como cães e porcos? A quem pregaremos e a quem deixaremos de pregar se num certo sentido todos são cães e porcos?
Tenho de ler muito mais a Palavra e depender do Espírito para, quem sabe, ter uma resposta melhor para estas perguntas. Tenho de receber de Deus o poder dele, através do Espírito Santo, para lidar com este texto que me parece insuportável. Uma coisa é certa: se Jesus não quisesse que lidássemos com estas palavras, não as teria dito e o Espírito Santo não as teria preservado nas Escrituras. Ter fé também é isto. E a cambada de cristãos armados em hippies que dizem que o sermão do monte é que é a cena, pensem duas vezes antes de se meterem com pólvora desta. O sermão do monte vai dar cabo da tua vida.
(Ilustração de Lori H. Barrett.)