para lina
- não se engane, estou bem e feliz, olha pra mim como não estar feliz vivendo tanta coisa boa? - é que às vezes penso que poderíamos ser dois aqui fora. te esperando, conhecendo e sentindo um e outro descobrindo coisas novas que chegam agora juntos acordo todos os dias de manhã, nesse horário, quase 7h, e caminho pelo corredor tão quieto para pegar uma bolacha de sal no armário - não gosto, mas prefiro ela do que os enjoos matinais é difícil abrir meus olhos com tanto sol no quarto, mas me esforço e vejo ninguém ao lado pra empurrar pra fora da cama até a cozinha levanto e vou, de sobrancelhas franzidas passo as minhas mãos no rosto, como quem quer ter certeza de que tudo está no lugar está depois passo as mãos nos meus cabelos, sem intenção nenhuma de deixar ele arrumado, me olho no espelho e não tem ninguém por trás abraçando nós duas nenhum bom dia baixinho ou um beijo na barriga amarro o tênis, tarefa simples e que está ficando difícil, sentada na cadeira que deixei do lado da janela pra olhar as montanhas e me esquentar debaixo do sol de manhã vamos eu - cantando e você - ouvindo só não dançamos porque estou atrasada, e meu passo é mais lento depois que você começou a crescer e eu ainda preciso estudar, mamães não ganham um passe livre preciso andar, então sento e durmo, acordo na terceira aula e na quinta escuto sobre os cuidados que devemos ter para não engravidar pra quem acredita no que está escutando, tenho vontade de dizer que isso não é coisa ruim como todo mundo fala, acontece aconteceu sou nova, mas o que é que isso quer dizer, afinal? vou aprender do mesmo jeito que quem tem o dobro da minha idade aprende não sei o que esperar como também não sabem todas as mães de primeira viagem e te amo, já, e te recebo, assim arrumando a casa - que ainda não é só minha e tua, verdade mas já que é assim, te espero e vamos juntas escolher onde vamos morar lá no alto ou quase na terra vendo as luzes dos prédios ou estrelas - mas fico quieta, que falem mas falam sem saber porque se soubessem, ririam como eu rio todos os dias é vida, mundo, não morte felicidade e não tristeza notícia boa: sou mãe! engravidei aos dezessete não precisam suspirar, entortar a boca pra um dos cantos ou descer a cabeça em direção ao ombro e se compadecer de mim abram os braços, os sorrisos, o coração pra mais alguém que chega não perdi vida nenhuma, estou aqui, não estou? transbordando vida desço agora para ir embora ao passo mais rápido que uma menina de pernas pequenas e barriguda consegue dar tudo bem, a barriga não está tão grande assim mas já parece que eu estou fora de forma e nesse calor gostaria de estar chegando na praia e não em casa - ou na nossa casa na praia, talvez? - mergulhar no mar e não no colchão mas chegamos aqui e o almoço está pronto, sessenta minutos para dividir entre comer, descansar e me arrumar confesso que perco mais de trinta deitada e sobram poucos pra eu me arrumar de novo sento, abro a gaveta e faço as contas ainda faltam mais de cem dias pra você chegar e trabalho desse jeito: pensando em como é, como vai ser e o que eu tenho que fazer agora, nesse escritório são quase 18h e a gente sobe pra casa não chegamos pra ninguém que nos espera não que não nos esperem, mas não há quem me esquente digo, não que eu passe frio, mas às vezes me arrepio da cabeça aos pés quando me lembro que você é metade minha e metade dele e ele está faltando. e me vejo longe quando olho pra baixo e vejo nada além da minha barriga que te embala no meu embalo e eu vou, eu juro, estou seguindo mas às vezes me ocorre que estou pra cima e pra baixo com um pedaço de alguém que hoje é um amor apagado, desbotado e seco, eu acho alguém que não desce o rosto pra falar com você e não sobe pra me olhar nos olhos e não me conta como foi o dia e não compartilha suas preocupações e não divide o tempo comigo que dirá, então, todas as outras coisas que um dia eu quis - a vida, o amor, a casa, a cama, a comida, as contas, as louças, a tv não que você realmente precisasse saber disso, mas queria te contar que amores vem e vão, e eles podem voltar, sim mas não conte com isso arranje algo pra ser feliz e vai a vida me arranjou você e eu sou feliz -como nunca fui- te adianto, já: toda vez que eu te falar que o amor faz a gente feliz, saiba, amor, que não estou falando do amor de quem vai colocar um anel em seu dedo anéis são lindos, mas não valem nada se quem te deu também não for o amor é imenso, veja só: eu te amo tanto! mas de um jeito que nunca amei - amo outros, também e eu te amar - te amo me faz feliz -como nunca fui- (quando fui) amada. o que quero dizer, afinal, é que poderíamos ser, todos os dias, poderíamos ter, outra rotina, de dois esperando um, para sermos três como a quantidade de sílabas de fa mí lia mas sendo duas apenas, ficamos mais perto, porque ninguém, bem me diz, quem é que precisa separar família? eu prefiro juntinho, assim como eu e você família, filha. -como nunca fui- nós somos.
enquanto a água vai saindo da banheira, saio também me enrolo na toalha que antes acabava no joelho e agora está na metade da coxa, tem mais corpo pra cobrir começo a me vestir e paro pra me olhar no espelho esquece aquilo que te disse de estar fora de forma, eu estou, na verdade ficando na forma mais bonita que uma mulher pode estar cheia de curvas de amor curvas que me fazem ter que sentar pra vestir qualquer coisa debaixo do umbigo mas não reclamo, descanso vou pra cozinha e como, hoje não é domingo, domingo eu vou pro fogão e cada final de semana aprendo um prato novo - aliás, de tantas coisas sempre imagino e quero muito que você me ajude a preparar comidas gostosas pra gente comer e conversar e rir enquanto cozinhamos e comemos e assistimos e vivemos imagino a gente errando a receita, queimando as coisas, mas aprendendo a fazer um monte de coisa boa que deixe a gente mais fofinha - eu amo escutar as coisas que sua vó me conta enquanto eu estou sentada aqui, num banquinho branco e alto de frente pra janela vendo a luz do poste da esquina e uma araucária que eu amo ela, sua avó, minha mãe, anda pra lá e pra cá, preparando a comida de cada um ao mesmo tempo que me conta histórias conto também, várias delas, várias coisas menos o que o meu coração, às vezes, diz e que você, aí dentro - de mim e de meu coração - ouve. deito e me cubro, não sei porquê, se me descubro toda noite hábitos e me ajeito no meio de seis travesseiros coloco meus pés em cima de um, outro no meio das pernas, outro abraço, um vai atrás das costas e dois servem só pra me incomodar no meio da noite hábitos - que eu te ensine a criar bons deles converso com você e você me chuta fraquinho, é uma conversa, você me responde com seus chutes coloco a mão onde eu acho que você está e durmo boa noite














