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SKAM FRANCE: The Curiosity (2018 -)
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SKAM FRANCE: The Curiosity (2018 -)

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— ❝ 𝒘𝒆’𝒓𝒆 𝒂𝒍𝒍 𝒑𝒓𝒆𝒕𝒕𝒚 𝒃𝒊𝒛𝒂𝒓𝒓𝒆. ❞
o som estridente da porta metálica do automóvel ecoou pelo pavimento de cimento do estacionamento, com as ondas de som se propagando ao infinito até o silêncio mórbido do ambiente fantasma, tão deprimente quanto o céu nublado que castigava aquela manhã de sábado. o primeiro cigarro das horas iniciais do dia ainda queimava suas digitais ao que os passos cansados de leonard finalmente alcançaram as portas da biblioteca principal, aproveitando os últimos segundos que o restavam antes de entregar o corpo exausto às garras das medidas burocráticas de punição daquela instituição. o pulmão jovem extraiu com força o último suspiro de vida da nicotina antes de descartá-la no chão, pisoteando-a preguiçosamente com as velhas botas de couro. as mãos machucadas alcançaram o puxador gélido que dava acesso ao interior do ambiente, com as feridas do metacarpo arrancando-lhe um resmungo abafado, contraindo os dedos em resposta a dor que ainda agonizava suas juntas mesmo após horas.
o que fizera para ter as mãos machucadas, você pergunta? para responder tal pergunta talvez fosse útil remontar os eventos da noite anterior ao castigo que o levava a cumprir aquele destino às oito da manhã. como em todos os anos, tradicionalmente a instituição organizava a recepção ao corpo discente com a celebração da fogueira, que agia sob o pressuposto de recepcionar os alunos à mais um período letivo, mas na verdade servia como oportunidade para o diretor ostentar o orçamento milionário e corrupto que era repassado ao time de futebol americano e para o aumento de casos de intoxicação alcoólica no hospital local da comunidade. como em qualquer evento dedicado única e exclusivamente aos símbolos miseráveis de identificação social, a noite dava início a comemoração do status quo e aos elementos infelizes que se gabavam de sua posição na pirâmide de popularidade de east wenk. a presença de leonard seria dispensável se não fosse por sua participação na equipe esportiva honrada da noite, o que acompanhava ordens expressas do treinador para que todos os jogadores estivessem presentes e responsivos durante toda a noite. a tarefa parecia relativamente simples, porém a relação fragilizada do woolrich com alguns de seus colegas de equipe exibia suas rachaduras ainda nas primeiras horas do evento. bastou algumas garrafas de cerveja, então, para que o bastardo se sentisse farto dos comentários desagradáveis dos trogloditas uniformizados, eclodindo em uma troca de golpes violentos entre ele e mais um infeliz. por deus, recusava-se a aceitar aquele abuso por mais um ano, logo, o comportamento reativo parecia ser a única ferramenta disponível em situações como aquela. nenhum dos dois estudantes saíram com machucados graves, não fosse pelas cicatrizes nos punhos e um discreto arranhão no supercílio do garoto. em compensação, fora premiado com uma anotação para a detenção e uma dor de cabeça duradoura que não parecia ter fim.
ao entrar no prédio, deparou-se com as mesas de madeira vazias, a não ser por outros três corpos amaldiçoados pela mesma fortuna que ele. discretamente sentou-se em uma das cadeiras do fundo, debruçando o peso do corpo sob a superfície afim de descansar a cabeça por alguns segundos. quando a levantou, pode reconhecer o botton preso a bolsa da garota em sua frente, identificando-a. – logo você aqui? achei que esse era o território de sua irmã. – o comentário relaxado combinava com o mau-humor que sentia. – o que você fez para te mandarem pra cá, afinal? deixou de ir aos ensaios do coral da igreja? – dessa vez a pergunta acompanhava uma risada divertida e uma cadência menos rígida, embora o comentário pudesse soar infeliz até demais para a outra.
@catsinclair
Saturday, March 24, 1984. Shermer High School, Shermer, Illinois, 60062. Dear Mr. Vernon, we accept the fact that we had to sacrifice a whole Saturday in detention for whatever it was we did wrong. What we did was wrong. But we think you’re crazy to make us write an essay telling you who we think we are. What do you care? You see us as you want to see us - in the simplest terms, in the most convenient definitions. You see us as a brain, an athlete, a basket case, a princess and a criminal. Correct? That’s the way we saw each other at 7:00 this morning. We were brainwashed.
The Breakfast Club (1985) dir. John Hughes
@causeimmrbrightside-walt @catsinclair @ursulaxdelamora
Dark Passage (1947) dir. Delmer Daves
twssa·:
Tessa só havia concordado em aparecer naquela reunião porque Nicholas e Nancy também concordaram, pois caso eles não fossem, a loira nem estaria ali agora falando com ex-namorado e amigo. “Voltamos e muito no tempo! Eu realmente achei que ia dar meia volta e ir pra casa quando vi toda a decoração em vermelho e branco. Praticamente me senti sugada para uma daquelas festas pra comemorar as vitórias dos lions, sabe?” Comentou, abrindo um sorriso divertido com toda aquela situação. Não é que Tessa odiasse sua época do colégio, na verdade, havia aprendido com o tempo a não guardar mágoa de ninguém, e ela também tinha deixado toda aquela época para trás assim que pisou em Nova York.
A loira riu apenas em pensar na hipótese de voltar tão drasticamente assim no tempo. Estar ali já era algo fora de seus planos rotineiros, mas a sensação de ter entrado numa espécie de túnel do tempo só aumentava conforme o tempo ia passando naquela reunião. “Nossa, para! Eu acho que não tenho mais idade pra essas coisas. Será que isso já significa que eu tô velha?” Ela brincou, tentando se convencer que não estava tão velha e sim amadurecida de tudo aquilo. “Falando em lions, eu achei que fosse me lembrar de todo mundo com quem a gente estudou, mas na verdade, aparentemente eu esqueci o rosto de pelo menos metade desse pessoal. Acho que decorar tantos scripts acabou comendo parte do meu cérebro.” Ela disse, rindo em seguida antes de dar mais um gole em seu champagne. “Então vamos! Minha bebida tá acabando e eu também vou precisar de mais, porque aparentemente essa noite não vai acabar tão cedo.” Tessa já estava familiarizada com o local, então saiu puxando Leonard pela mão até o bar. Assim que chegaram, a loira pediu um martíni e deixou Leo pedir o que ele quisesse. “Então… Tá preparado pra encontrar todo mundo?”
𝐅𝐋𝐀𝐒𝐇𝐁𝐀𝐂𝐊.
o comentário de tessa o fez rir – não somente porque era um tanto óbvio que a amiga estava longe de ser velha, ainda no início de sua terceira década de vida e pela gentileza com a qual o tempo tratou de conservar seus traços, quase que de maneira intacta, mas porque o espírito jovem da amiga ainda brilhava com a mesma intensidade que os fios de cabelo dourados. – se isso te faz velha, então eu tenho receio de pensar o que isso me torna. – comentou em um tom bem humorado, refletindo sobre o próprio espírito, que definitivamente não continha a mesma vivacidade que o dela. ao contrário do que poderia ser o caso para a maior parte dos adultos de sua idade, o woolrich jamais encarava tal questão como um problema, o que certamente garantia alguma tranquilidade frente à possibilidade de uma crise de meia-idade já que desde muito cedo o homem aceitou que não partilhava da mesma aura jovial que seus pares. – nem me fale. acho que pelo visto vamos passar o resto da noite tentando resolver um jogo de cara-a-cara, olhando para as fotos do anuário e adivinhando quem é quem. – a observação fora um tanto despretensiosa, mas aquele parecia ser o único recurso disponível para identificar os rostos desconhecidos.
– por falar nisso, como vão as coisas em julliard? – a pergunta havia de ser feita, naturalmente. embora alguma distância tivesse sido criada entre os dois, leonard fazia questão de se manter atualizado quanto ao trabalho da outra, comparecendo à suas produções sempre que podia. – é, só assim para passar por essa experiência vivo e sem nenhum trauma emocional irreversível. – apelar para a dramatização fora um hábito adquirido ainda na juventude, mas o qual ele esperava que a ex-namorada fosse entender. o eixo de equilíbrio fora perturbado pelo súbito movimento provocado pela mulher, que o guiou até o bar com determinação. após a solicitação da outra, leo fizera o mesmo, mas optou por uma dose de uísque com algumas pedras de gelo, bebericando o licor âmbar alguns instantes depois. – preparado eu não estava nem mesmo durante a escola, agora então... – o pessimismo também se mantinha inalterado, por vezes sendo traduzido em comentários tão amargos quanto a bebida. – mas não pode ser tão ruim assim, não acha? quer dizer, para quem aguentou isso durante anos e com uma quantidade muito menor de álcool no sangue, algumas horas não devem ser nada. – a observação fora acompanhada de uma piscadela singela e familiar, exatamente como costumava fazer há treze anos.

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nzncy·:
O pensamento de Leonard acerca do que lhe esperavam naquela noite a fez rir e negar levemente com a cabeça. “Não acho que viria algo do tipo apesar de não me importar. Tenho certeza que eu terminaria primeiro que todo mundo.” Respondeu, dando a ele uma piscadela. Em vida toda Nancy trabalhou com números então não seria assim tão difícil. “Talvez um trivia’s night? Eu não o que acontece em reuniões como essa, é a primeira que eu vou.” Brincou. Era bom que, apesar de tudo, a relação dos dois continuou leve e sem muitos problemas, tornando assim a conversa simples, sem nenhum bicho de sete cabeças. “Não é mesmo? Só assim pra você tomar vergonha na cara e vir me visitar.” Implicou. A verdade era que nem mesmo ela estava tendo tempo de fazer mais nada além de trabalhar. “Mas o que me conta de bom? Quando sai a próxima trilha digna de Oscar?”
𝐅𝐋𝐀𝐒𝐇𝐁𝐀𝐂𝐊.
a resposta ágil e bem-humorada da amiga não o surpreendeu em nada, ao contrário, apenas fez arrancar uma risada rápida dos lábios de leonard, contraindo os ombros. nancy, mesmo ainda durante os anos escolares, era incrivelmente talentosa em todos os campos científicos e parecia fazê-lo com pouco ou nenhum esforço, o que certamente era mais do que o suficiente para justificar o orgulho e honra que a mulher sentia de si mesma. a amizade entre os dois sempre o pareceu algo um tanto improvável, especialmente porque o rapaz jamais fora abençoado pelos mesmos dons lógicos que a outra, mas marcavam um contraponto interessante entre a sabedoria que ambos carregavam.
– eu também não faço a menor ideia. eu achei que seriam, sei lá, meia dúzia de fotografias pregadas com fita adesiva nas paredes e não isso. – de alguma forma, leonard não podia conceber a ideia de que alguém pudesse sentir tanta falta dos anos de escola à ponto de organizar algo daquela magnitude. – mas se for realmente isso então acho que eu me daria tão mal quanto em um teste de matemática, sério. quer dizer, você se lembra de alguma coisa? tudo parece um grande borrão, se você me perguntar o nome de metade dessas pessoas eu não consigo te responder nem que minha vida dependa disso. – o homem deu de ombros, fazendo pouco caso do passado, a honestidade de leonard beirava perigosamente a indiscrição, mas pouco se importava. – culpado, eu sei, eu sei. – as mãos se ergueram à altura do peito, se rendendo as acusações mais que verdadeiras da colega. – em minha defesa, não sou eu quem faz parte de uma organização ultrassecreta. eu nunca sei se você está no sofá vendo algum programa meia-boca durante uma quinta à noite ou interrogando um chefe da máfia italiana. – o comentário continha suas devidas doses de exagero, mas sequer poderia imaginar como era a rotina de trabalho de Nancy.
– ah não, você sabe como eu me sinto sobre o oscar, eles provavelmente vão entregar aquela estatueta para alguma animação meia-boca de um estúdio corporativista. – ignorar sua urgência de fazer algum comentário crítico a indústria de cinema norte-americana parecia algo fisicamente impossível para o compositor. – mas a última trilha que eu fiz está concorrendo à um prêmio internacional na mostra de cinema de copenhague, é um pequeno curta que está em cartaz apenas em dezoito cidades, mas é bem legal. – as mãos se enfiaram nos bolsos da calça, tratando o assunto com uma casualidade divertida. – e você, o de sempre? apenas salvando o mundo entre um café e outro, eu imagino. – devolveu a pergunta, mantendo o mesmo tom prático de antes.
bcnyboo·:
w. @woclrich·
A terceira ou quarta vez que ia até o bar, sempre que seguia esse caminho, ele analisava a ostentação do ambiente, desnecessário para um grupo de jovens alunos meia boca que só fazia merda, ao menos era o que ele achava no seu mais sincero sentimento. Estava aguardando a bebida fazia algum tempo, nem mesmo pedia nada diferente, uma garrafa de cerveja e ficava tudo dentro da sua normalidade, apesar da roupa fina e o relógio caro no pulso, Benjamin não combinava em nada com o ambiente e os poucos que o conheciam ali, poucos mesmo, sabiam exatamente do que se tratava. Não ouvia nada além de barulhos amontoados e o zumbido mais alto, o que já estava enlouquecendo ainda mais a cabeça que já não era tão saudável, foi no virar para conferir o ambiente que alguém bateu contra ele, derrubando a bebida no blaser caro e o acidente foi tão rápido, que a pessoa simplesmente seguiu caminho, deixando-o ali com o prejuízo. “Por favor… por favor… tem um pano…” Tentou falar com o bartender quando uma luz lhe surgiu logo ao lado, a silhueta que conhecia tão bem, suspirou em alívio. “Leo, eu queria te recepcionar melhor, mas…” Indicou a mancha escura no terno azul, procurando alguma coisa que pudesse usar ali. “E esse barulho todo…”
acompanhando as horas do dia que pareciam escapar pelos ponteiros de seu relógio, o homem sentia sua disposição esvair-se lentamente pelas veias dos braços, lançando-o em um estado de estafa mental que nem mesmo o álcool parecia capaz de driblar, tornando-o mais palatável em suas breves e ordinárias interações sociais. do lado de fora do estabelecimento, onde a brisa abafada de new york capturava a altitude do rooftop, leonard queimava seu último cigarro, degustando o sabor da nicotina que lhe amargava os lábios, aproveitando os últimos minutos sob o efeito da droga que lhe mantinha em um estado de rápido relaxamento. em silêncio, deixou que o a sensação comandasse seus sentidos por alguns minutos, encarando o horizonte de olhos fechados enquanto pode, sendo perturbado pelo som estridente que novamente penetrava seus ouvidos. “chega”, resmungou para si próprio, seguido de um longo suspiro.
a procura da saída, leo dava voltas e mais voltas ao redor das mesas do salão, desviando de pequenos grupos e suas risadas artificiais sob a forma de algum bom-humor falso e irritante. as córneas já cansadas de tanto revirarem, um reflexo natural do compositor frente à toda aquela encenação de nostalgia falida, entretanto, avistaram uma figura que não lhe despertava o mais completo desprezo. espontaneamente um sorriso simpático – um dos pouquíssimos em toda noite – surgiu em seu rosto, erguendo as maçãs do rosto em direção as têmporas. – ben. – a voz adequou-se à um volume mais baixo, dada a proximidade física entre os dois amigos. – oh! não, não. – a mão destra menosprezou o aviso de cuidado feito pelo outro, ignorando a mancha avermelhada que tingia o tecido, partindo para um abraço onde as roupas ainda se mantinham intactas. – nem me fale. eu me desacostumei totalmente a tudo... isso. – mencionou em pavor, sabendo exatamente ao que benjamin se referia. – mas e você? não sabia que viria! imaginei que pudesse estar preso no trabalho. – o colega era uma das pouquíssimas pessoas de seu passado por quem ainda nutria um profundo respeito, especialmente porque sabia da dedicação do homem ao trabalho e o papel que cumpria na comunidade. – é bom te ver, você parece ótimo. como vão as coisas? – perguntou, contente em ver um rosto querido.
fiitzgeralds·:
𝐅𝐋𝐀𝐒𝐇𝐁𝐀𝐂𝐊.
Connor arqueou uma das sobrancelhas para a negação forte do outro sobre morar em Manhattan, não lhe fazia sentido a aversão ao que julgaria como o melhor lugar possível para se viver. Gostava do lugar e de como era fácil se esconder entre as multidões; uma fala que iria ao contrário de seu eu juvenil, que sempre tentava ser o destaque delas. “É claro.” Foi mais dirigido ao termo gentrificação do que ao bairro aonde ele morava, parecia o tipo de coisa com que ele se preocuparia — omitiu a parte de que morava no Upper West Side, porque tinha quase certeza de aquilo levantaria um debate sobre assuntos variados, como taxação de fortunas. “É uma cerimônia chata, a de entrega dos anéis. Muita falação e discursos, enquanto todos só querem pegar e ir para a verdadeira festa.” A euforia de verdade era no campo, na hora que davam o jogo por encerrado, mas a joia era uma boa lembrança do momento. A analisou por mais alguns segundos, não costumava a usar assim, para qualquer lugar, mas lhe pareceu interessante deixar claro que tinha sucedido. Num menear da cabeça, voltou a encarar o outro homem, esperando uma resposta. “Eu não sabia que era a minha também, mas o tempo acabou dizendo.” Nem soube dizer o porque de falar aquilo, podia ter simplesmente ter concordado e dito que sim, desde criança, era seu maior sonho, mas seria uma mentira. O tempo vinha atrelado a várias coisas, de lesões físicas e emocionais. O Fitzgerald então, talvez pela primeira vez que realmente prestava atenção, viu o irmão parecer genuíno e não sarcástico. “Música? Eu não sabia desse seu… interesse.” Estava surpreso, mas não é como se isso houvesse sido, em algum momento, algo com o qual se preocupou. Enquanto Leonard era presente no seu cotidiano, tudo o que lhe interessava sobre ele era o que ele poderia lhe tomar, não o resto. “Nossa, parece bem, como posso dizer, boêmio? De qualquer maneira, Nova York é certamente o lugar ideal.” Não mentiria e diria que se interessava pelo cinema europeu, longe disso, mas toda a descrição que apareceu em sua mente pareceu se encaixar muito bem com o homem. “Ha, eu com certeza gostaria de ter melhores desculpas de ir para lá. Nice e Cannes são minhas praias favoritas.” Dessa vez um riso não forçado escapou seus lábios, um assunto em comum, quem diria. “Já fui no Festival de Cannes, uma vez, acompanhando uma, hm, amiga.” Comentou, imaginando que era para esse tipo de coisa que o outro deveria gostar das cidades europeias, e não para farras polêmicas, como era o seu caso. “Vim sim,” Engoliu um suspiro, balançando a cabeça como se não fosse nada demais, fazia anos que não tinha uma namorada séria, ao menos não ao ponto de a trazer para um evento desse tipo. “e você também pelo visto.”
ao o que o irmão postiço respondeu com um sucinto “é claro” às suas objeções ao modo de vida na ilha novaiorquina, coroando a estranheza com que recebia tal informação com um reflexo dos nervos da face, leonard selou os lábios de modo a barrar a risada cínica e desajeitada que crescia em sua garganta frente ao silêncio esquisito que seguiu a resposta genérica do atleta. talvez aquele pudesse ser um sintoma do excesso de franqueza do woolrich – que claramente sentia-se confortável até demais para falar sobre o que -quer-que fosse sem se importar muito com as repercussões de suas palavras – ou então da completa ausência de familiaridade entre os dois sujeitos, mas a atmosfera artificial entre os dois irmãos era suficiente para denunciar a total ausência de afinidades entre eles. o compositor assentiu com a cabeça enquanto desviava sua atenção para os arredores que os cercavam, dando pouca atenção à reação esquisita de connor, pouco interessado em tornar a ocasião mais suportável para os dois; continuava tão teimoso quanto na juventude.
ao ouvir o relato do outro sobre os rituais cerimoniais da profissão, leonard não pode, senão, vislumbrar momentaneamente como seria sua vida caso tivesse decidido seguir os mesmos caminhos do meio irmão, mas nada do que sua mente era capaz de criar se parecia com a imagem do homem à sua frente. ainda muito cedo, a ideia de que eram essencialmente pessoas diferentes, vindas e destinadas à mundos diferentes, havia sido entranhada com sucesso no consciente do bastardo e que apesar de seus melhores esforços, nunca seriam capazes de coexistir de maneira igual em um mesmo ambiente. o profundo ressentimento nascido a partir do cultivo dessa disputa naturalmente pareceu dirigir leonard à busca de uma identidade que estivesse integralmente desassociada do outro, o que incluía a eleição do esporte como uma bússola. embora os pensamentos do que poderia ter sido vire e mexe voltassem a perturbar a cabeça do homem, em um espiral de dúvidas que jamais seriam respondidas, o homem sabia que jamais poderia viver no mesmo mundo de connor, e nem o desejava. – tempo, huh? – perguntou em ceticismo, cerrando os olhos azuis enquanto assistia ao outro. – então quer dizer que isso não tem nada a ver com o troféu do nacional de 1992 da sala de estar do fitz, né? – o tom debochado, dessa vez, não era hostil, mas bem-humorado e um tanto simpático. a felicidade de não conviver com o patriarca por vezes era traduzida em uma espécie de alívio de não ter de contemplar símbolos como aquele todos os dias.
– não é como se nós falássemos sobre outras coisas além de futebol, ou sobre qualquer coisa, na verdade. – admitiu, refletindo sobre como a relação entre ambos havia sido conflituoso desde o princípio. as poucas interações verbais que não resultavam em ataques enfurecidos de ódio costumavam manter a civilidade apenas em nome da coletividade, já que os irmãos eram obrigados a entrar no campo lado a lado. a descrição escolhida pelo outro o divertiu, incitando um riso abafado – leonard não considerava seu estilo de vida em nada hedonista, céus, por vezes passava as tardes mergulhado em sua própria miséria, mas jamais admitira isso ao outro. – talvez. – concordou, tomando o gole derradeiro da bebida. – sem dúvidas... são raras as vezes que venho a manhattan, acho que não combina muito comigo. – o que significava dizer que, se manhattan combinava com connor, então ela definitivamente não fazia o estilo de leonard. – de qualquer forma vocês têm a melhor pizza da cidade, o que acaba compensando a viagem de metrô até aqui, eu acho. – aquela parecia a maneira mais sutil que poderia encontrar de concordar com o colega sem ferir o próprio orgulho.
– é mesmo? então acho que agora nós dois sabemos uma nova informação sobre o outro, estamos empatados. – a pergunta inicial acompanhou o mesmo tom de surpresa que o outro havia utilizado minutos atrás, quando poderia imaginar que connor frequentaria os mesmos espaços que ele? nunca!. a observação inconveniente feita por leo fora retribuída na mesma velocidade, o pegando desprevenido. – touché. – os ombros se encolheram enquanto o rapaz buscava usar o humor para disfarçar o embaraço discreto que sentia; mesmo após tanto tempo, o sentimento competitivo entre os dois parecia tão vivo e pungente quanto na adolescência.
ursulaxdelamora·:
Diante do comentário do rapaz, Ursula abriu levemente os braços como quem demonstrava sua figura, quase que pedindo por alguns instantes da atenção alheia em sua imagem, e então riu um pouco. Havia mudado, sim, com tantos anos era impossível não o fazer. Fisicamente falando haviam inúmeros aspectos que não mais eram os mesmos de quando mais nova. Mas ele estava certo: num geral, Ursula ainda era a mesma Ursula — apenas anos mais velha, um pouco mais traumatizada, igualmente problemática e irreversivelmente impulsiva. “Em time que está ganhando não se mexe” A piada saiu com o humor que ele já estaria acostumado, mesmo após tantos anos sem qualquer proximidade entre as duas figuras. “A não ser que seja pra parar de deixar as sobrancelhas uma linha fina e horrorosa, nesse caso a gente mexe um pouco sim” Não que a de la Mora fosse minimamente conectada com moda, em si, mas podia se orgulhar de ter evoluído no aspecto do estilo. Alguma coisa tinha que evoluir, huh? “Também é bom te ver, Leon” Utilizou o apelido antigo também, soando genuíno no sotaque hispânico. Não sabia se ele mantinha aceso em sua memória a única vez que haviam se esbarrado no meio daqueles anos - o que, apenas cinco meses antes de seu divórcio? Na ocasião, sim, talvez Ursula não estivesse tão facilmente reconhecível. Não pela aparência, mas pela maneira relativamente quieta e contida que fora obrigada a agir na época, e que ninguém que a conhecia seria capaz de relacionar a ela. Esperava que sua escolha em evitar Leonard o máximo possível no tal evento tivesse sido suficiente para que ele não prestasse atenção na energia incomum da mulher, ou que agora a comparasse com a Ursula que tinha diante de si no reencontro. “Tem razão. Lembrarei de perguntar mais tarde. O que eu sei que posso te perguntar agora, então, é quem você não está ansioso para rever” Sorriu interessada, caos sempre lhe chamara atenção. Não que apostasse que Leonard fosse responder tão abertamente, mas não custava perguntar. Imaginava que ele não tivesse ficado muito animado em rever o irmão playboy, pelo menos. “Sempre tem alguma coisa na cozinha, mesmo que digam que não. Mas para convencer algum dos funcionários é difícil” Disse, talvez com mais conhecimento naquilo que deveria. Poderia simplesmente fingir que era pela experiência adquirida no bar, claro. “Eu diria que podemos tentar entrar escondidos na cozinha e buscar, mas imagino que seria melhor deixar o crime para o meio ou final da festa, certo?” Deu de ombros, ela também poderia tentar usar alguns atributos para convencer qualquer garçom dali, mas por algum motivo não se sentiu confortável em fazê-lo na frente de Woolrich. Decidiu não pensar muito sobre — ao contrário do que muitos poderiam imaginar, sua mente simplesmente não parava já há algum tempo antes mesmo da festa iniciar. Sentia-se já exausta ao tentar compreender os próprios sentimentos desde que pisara ali, não precisava revisitar aqueles que há muito estavam guardados nas mais antigas lembranças. “Ah! Talvez eles tenham Gin. Virou uma coisa de gente rica agora, algo sobre calorias ou carboidrato, sei lá.” Ergueu a mão para chamar atenção do garçom que passava por perto, pedindo que fosse até os dois e então indagando se ele poderia lhes trazer duas doses de Gin, esperando que o mais velho especificasse as preferências da bebida quando o funcionário afirmou que era um dos destilados na lista de disponibilidade.
emoldurando-a sob a contemporaneidade do tempo presente, leonard pode ver através dos belos e encíclicos olhos castanhos que ursula havia feito um bom trabalho, mesmo após todos aqueles anos, em manter vivo o espírito vibrante que tinha durante a adolescência. a efervescência com a qual a melodia de sua voz ecoava sob a acústica do ambiente parecia intacta, exteriorizando as paixões que sempre pareceram guiar seu espírito mesmo sob as assombrosas circunstâncias que a vida insistia em tomar – era, e parecia continuar a ser, profundamente diferente do woolrich em tantos sentidos, continha a vivacidade e a coragem que sempre o faltaram, o ímpeto fugaz de fazer as coisas acontecerem sob qualquer custo, furiosamente intensa. talvez daí nascera o interesse do rapaz sobre a outra há muitos anos atrás: ursula parecia contrapor todas as características que lhe faltavam, o que o permitia enxergar através da sensibilidade da outra o que para ele parecia ser impossível, o que antes era tão bruto e pálido para leo, com sula ganhava vida e energia. tão acostumado à melancolia e solidão, a amiga tornou-se um caleidoscópio, uma ferramenta que o possibilitava divertir-se com a agitação dos fenômenos ópticos mesmo que por um curto intervalo de tempo; uma distração efêmera diante de seu próprio desencantamento com o mundo, uma ilusão.
a espontaneidade com a qual articulava as palavras, tal como treze anos atrás, arrancou um sorriso distraído do homem, tirando satisfação do comentário simpático e bem-humorado da outra. ergueu as sobrancelhas, assentindo com a cabeça para cima e para baixo, deslizando a mão destra sobre a parte detrás da nuca, surpreendido pelo apelido que não ouvia há anos. – eu tinha me esquecido desse. – admitiu, enfiando as mãos no bolso, buscando reestabelecer a postura confiante de segundos atrás. a lembrança o transportou para os dias quentes da juventude, onde tudo parecia aflorar os sentimentos com mais facilidade, saboreando a memória dos encontros casuais e inusitados que tinham, onde dividiam seus corpos uns com os outros enquanto a língua materna da garota parecia narrar os momentos que passaram juntos. – e destruir a fantasia de que tudo isso ficou no passado? oh, não. mas boa tentativa, ursula. – o nome da mulher rolou para fora de seus lábios com tamanha familiaridade que sequer parecia que haviam se passado anos e mais anos desde seu último encontro. – além do mais essa conta seria muito grande, não acha? talvez seja mais prático fazer o raciocínio inverso, não? – piscou, abandonando as intenções misteriosas de seu pensamento ao ar, pouco se importando em contextualizar o que gostaria de dizer com aquilo – duvidando ele mesmo de quais eram seus objetivos com a imprecisão de seu comentário.
a sugestão rebelde e nada convencional feita pela outra apenas confirmaram à leonard de que ele conversava com a mesma pessoa de treze anos atrás, a não ser, é claro, pelas mudanças gentis que o tempo imprimiu sobre a beleza da outra. – então é esse o nível de nostalgia que você está disposta a alcançar? – a pergunta retórica não necessitava de uma resposta já que se parecia muito mais com um pensamento alto do homem. – não era isso que nós costumávamos fazer durante as festas de recepção do semestre? sempre tinha alguma família que insistia em organizar alguma celebração formal, mas tudo que era servido era alguma bebida borbulhante horrorosa, o que claro incentiva o furto de quantas garrafas pudéssemos carregar para fora da cozinha antes de sermos pegos por algum garçom. – a memória continha algumas manchas, dificultando a lembrança do acontecimento em sua exatidão de detalhes, mas não foram poucas às vezes em que leonard e ursula optavam por suas celebrações para longe do restante da turma. – de rico, hun? – perguntou, fitando-a nos olhos. – quer dizer que a mesma sula que costumava comprar vodka de dez dólares do posto de gasolina agora entende do comportamento do 1%? uau, os tempos realmente mudaram. – comentou em tom despreocupado, rindo de suas próprias conclusões, sem imaginar que a outra poderia se sentir remotamente incomodada por suas palavras. – o que você fez durante todos esses anos, hein? alguma formação gastronômica ou coisa do tipo? – a postura relaxada revelava a completa ausência de seriedade com a qual a questão havia se encaminhado, sequer imaginando que a ex-colega poderia, de fato, ter seguido a carreira de sommelier ou algo do gênero, ignorando a possibilidade de uma resposta séria para a pergunta que tinha feito de maneira tão desatenta. – eu quero o mesmo que ela, por favor. – dirigiu seu pedido ao garçom, confiando nas escolhas da mulher.
Paolo + waking up

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catsinclair·:
“ ━━ não somos tão diferentes, no final das contas. tendemos a estar nos mesmos lugares, mas em momentos diferentes e a partir de necessidades diferentes. ━━ ” raciocinou com tranquilidade na devolutiva levando em consideração a resposta do woolrich, consideravelmente atravessada para muitos. de fato, em questões de adequação, ela e leonard não eram muito diferentes. na maior parte do tempo, os momentos em que o encontrara sozinho fazendo sabe-se lá o que foram os mesmos momentos em que catherine também pensara que permanecer só era a melhor ideia de se colocar em prática. a única coincidência era que geralmente o rapaz estava lá também. eram excluídos juntos, por vezes excluindo-se mutualmente. isso, de certa forma, a confortava na época. apesar da forma como se comunicavam, catherine jamais veria aquilo como rudeza, estava mais do que acostumada com existências e personalidades complexas. deus, ela viera de um ambiente como o teatro, tinha a crença de que podia lidar com qualquer coisa. encarando discretamente grupos que conversavam animadamente sobre o passado, a sinclair entendeu o ponto do homem.
“ ━━ tenta enxergar o lado bom da coisa. só se aproxima de você quem tem algo realmente consistente pra falar. você também não parece ter se tornado o tipo de quem perde tempo com trivialidades. pelo menos não era assim. ━━ ” riu baixo, tomando um gole modesto da própria bebida. de fato, ela não estava ali por nada. era um passo arriscado a dar, catherine sabia. mas talvez leonard fosse o fator inovador que precisava pra alavancar. ela pesquisara o suficiente. “ ━━ agradeço, leonard. apesar de toda a aura estoica, você também não está mal.━━ ” um breve curvar dos lábios vermelhos demonstraram a gratidão e devolveram a generosidade. a pergunta não a surpreendera. na realidade, esperar que ele entrasse no assunto fizera com que catherine acreditasse que aquela versão do woolrich não era tão desconhecida pra ela.
“ ━━ por enquanto, um pouco parado. estive trabalhando em algumas peças pequenas no teatro municipal, pequenos roteiros e contratação de um cast de uma companhia local. tem dado um retorno considerável, mas não é o sonho da minha vida.━━ ” não demorou a rir brevemente. definitivamente, não era o sonho de sua vida. “━━ mas estou pensando em algo. algo maior, que eu possa levar pra nova york, com uma composição mais elaborada do que o básico que ando fazendo. ━━ ” comentou, encarando-o. “━━ fiquei sabendo que você atende um público mais fechado voltado pra área musical. encontrei algumas boas resenhas sobre o seu trabalho.━━” catherine soara pretensiosa, ela sabia. mas não era como se o woolrich nunca houvesse visto o viés de negociação da sinclair. apesar de mais esperta e habilidosa, a morena continuava a utilizar-se de uma clareza delicada em seus firmamentos. “━━ abrir-se a novos projetos é essencial pra manutenção de uma carreira vasta em experiências. acredito eu.━━”
as pupilas negras contraídas encaravam o horizonte alaranjado que queimava há milhares de quilômetros de distância, deixando-se aquecer pelo comentário gentil de catherine, que aquecia suas inquietações como a enorme bola de fogo. discretamente permitiu que um sorriso satisfeito se acomodasse no canto dos lábios, cedendo a simpatia da antiga conhecida. – caramba, e são apenas o quê? seis e quarenta da noite? – o homem balançou o pulso direito, inspecionando os ponteiros do velho relógio após um riso abafado. – sabe, eu tinha me preparado para passar a noite toda ouvindo qualquer sentimentalismo barato. uma consulta ao sábio definitivamente não estava no itinerário. – comentou em descontração, dedilhando a borda do copo conforme alternava o campo de visão entre a figura feminina e o objeto em mãos. talvez aquela havia de ser a frase mais longa que ouvira de catherine até então, dado que a interação entre ambos costumava ser restrita aos ensaios no teatro, o qual leo fazia questão de passar tempo o suficiente para cumprir suas tarefas, esquivando-se das obrigações sociais às quais as eram impostas a si. pouco tinha a ver com ela, na verdade, se davam bem e compartilhavam de afinidades semelhantes durante a juventude, o que para ele era suficiente para gastarem algumas horas em silêncio sob o alento do piano e dos roteiros improvisados.
o conselho da amiga o incitou a dar um longo gole na bebida, saboreando o gosto amargo do licor antes de deixá-lo escorrer pela garganta. embora o raciocínio da outra fosse muito mais feliz e otimista, leonard já havia tido encontros o suficiente naquela noite para discordar da tese da mulher, escapando de ao menos duas fotos de recém nascidos (e as histórias de seus partos) e de uma proposta de negócio de pirâmide estranhíssima que, aparentemente, “poderia revolucionar a indústria de wellness do sul da flórida”. – eu acho que estou pagando todos os meus pecados estando aqui, sabia? isso é o destino cobrando a dívida que eu criei durante o colégio ao escapar com quase 100% de sucesso de todas as interações sociais possíveis. – o tom anedótico continha o mesmo senso de humor áspero do passado que para qualquer um poderia soar como antipatia, mas talvez não fosse o caso da produtora, caso contrário já havia teria sido abandonado à própria companhia. – de qualquer forma é bom saber que minha reputação se mantém, eu me preocupo muito com ela, afinal de contas. – deu de ombros, revirando os olhos diante do escárnio de seu próprio comentário. – você sabe de uma coisa? eu não sei se você está falando sério ou não, mas dane-se, eu aceito. – franziu as sobrancelhas, erguendo as maçãs do rosto em direção às têmporas. – se você tivesse dito isso há treze anos talvez teria me convencido a ficar em alguma confraternização em noite de abertura. – para o jovem woolrich, os elogios ao espírito imperturbável certamente eram o caminho para sua afinidade.
ouvindo-a, leonard se mantinha atento aos detalhes – embora não tivesse mantido contato com catherine, e tão pouco com sua obra, havia testemunhado ainda muito cedo o comprometimento da ex-colega para com os palcos, jamais duvidando de seu talento por detrás das cortinas do teatro. – ah, eu posso imaginar. se nem mesmo a acústica embolorada de east wenk te impediu de nos fazer trabalhar por horas e horas naquela adaptação de wicked, então imagino que não existam limites para essa sua ambição. – piscou, divertindo-se com a memória do passado. – oh, é mesmo? isso é ótimo! mais uma produção cristã, eu imagino. – a fala sequer tinha pretensão de soar como uma pergunta (ou ao menos não tão debochada), já que a religiosidade de cat era sempre impressa em seus trabalhos, logo, parecia óbvio que aquela seguisse as inspirações cristãs de sempre. – então agora você anda encontrando coisas sobre meu trabalho, catherine? se eu não te conhecesse melhor, diria que está atrás de alguma coisa. – a frase fora acompanhada de uma risada despreocupada, completamente alheio dos interesses que borbulhavam dentro da sinclair mais velha. – mas, hm, sim, faço parte de um núcleo de compositores independentes, então sempre acabo contribuindo para alguma produção de pequeno ou médio porte. nos últimos anos tenho feito mais composições para curtas ou filmes independentes europeus, há dois meses fiquei sabendo que vamos conseguir ir pra copenhagen para a mostra de cinema com nosso último trabalho, o que é ótimo. – para alguém que detestava falar sobre si, leonard poderia passar infinitos dias falando sobre seu trabalho, orgulhoso do currículo que havia construído até então.
– ei, você se importa? – o homem sacou a carteira metálica dos bolsos, entretanto, não aguardou pela resposta da outra antes de acender o cigarro junto aos lábios, bloqueando a brisa noturna que pairava sob o rooftop. o olhar estreito cruzou com o dela, observando-a com suspeita, vendo até onde os comentários vagos e esperançosos de catherine poderiam chegar. – ah, é? e que projetos você tem em mente, por acaso? – os dedos apanharam a nicotina dos lábios, com leonard afastando-se afim de libertar a fumaça para longe da companhia. – aceita? – ofereceu o cigarro à outra, apesar de duvidar do interesse da mesma pela substância.
callmax·:
A fila para entrar no local onde seria realizado o reencontro da turma de 2008 estava bem longa, por isso Maxence resolveu se distrair um pouco com seu celular enquanto avançava. Aproveitou para fazer um storie para o instagram, não perderia a chance de compartilhar o momento com seus seguidores. A indignação do homem à sua frente ao ter que pronunciar a senha chamou sua atenção “Once a lion. Uma eternidade só para dizer isso?” disse, só depois percebendo que se tratava de Leonard Woolrich “Bom, você fazia parte do time de futebol americano, não é? Achei que o lema estaria na ponta da língua” adicionou logo em seguida, percebendo que talvez a forma como falou tenha soado mais rude do que pretendia. O segurança finalmente liberou passagem para aos dois, Max olhando em volta para toda aquela decoração temática “Se querem nos fazer voltar ao passado com tudo isso aqui, acho que tão conseguindo. Só não sei até que ponto esse reencontro pode significar algo bom” comentou ainda sem olhar diretamente o rosto alheio, mas de certa forma acompanhando seus passos.
a resistência de leonard de mencionar a simples frase, entretanto, ia muito além de um mero capricho ou da típica teimosia que frequentemente envenenava seu humor – adentrar o espaço, mesmo após todo aquele tempo, significava entrar em contato com uma lembrança que há muito havia sido sepultada em algum canto abandonado de sua memória, muito em razão da ausência de momentos que fossem dignos de alguma nostalgia. repetir o mantra da antiga escola parecia, então, muito mais doloroso do que estava disposto a admitir, uma vez que a menção ao lema vinha acompanhado de mais uma meia dúzia de lembranças desagradáveis – ao menos é isso que todo livro de autoajuda vagabundo vendido na loja de presentes do aeroporto dizia.
a aparição inesperada de maxence o fez revirar os olhos em cansaço, fazendo pouco ou nenhum esforço para que o ex-colega não notasse sua reação. – e eu achei que após todos aqueles prêmios de plástico da nickelodeon você saberia ao menos fingir que não é um completo intragável. – a provocação fora mais tentadora do que o woolrich poderia prever, fazendo piada das conquistas do falido astro de televisão mirim. apenas deus sabia o quanto leonard detestava a pessoa de max e tudo que nele encontrava alguma representação: a produção em massa de uma legião de artistas cujo talento e vocação às artes poderia ser reduzido à uma noz, cristalizados em papéis que pouco colaboravam para o avanço das artes modernas. era óbvio que a implicância de leonard para com o colega ia muito além da pobre existência do mesmo, com críticas ácidas a indústria do entretenimento norte-americano, mas se tornava quase impossível não sentir um desgosto sempre que se deparava com o sorriso artificial daquele ser. bufou, tentando o seu melhor para se desfazer da antipatia que nutria pelo outro. – dessa vez eu serei obrigado a concordar com você. – leo enfiou as mãos no bolso, incomodado com o amargor de suas próprias palavras. – o confete branco e vermelho, os troféus de futebol... é apenas uma questão de tempo até você se aproveitar do seu status de quinze anos atrás para conseguir o telefone de alguma mulher, não? – os olhos azuis do homem se acenderam com a provocação, se divertindo com as tiradas inconvenientes que certamente seriam capazes de incomodar o outro. – por falar nisso, como anda o trabalho, max? a última vez que te vi na TV foi em um canal aberto. – disse, maneando a cabeça em desdém de uma maneira cômica. – as coisas estão realmente difíceis nessa economia, não? – a mão destra apanhou uma dose de whisky, imediatamente afogando os lábios traiçoeiros.
causeimmrbrightside-walt·:
Das diversas coisas que Walter havia aprendido com seu pais, duas haviam se tornado imprescindíveis no desenvolvimento do loiro. Um: sempre seja gentil. Dois: perceba as pessoas. Tentando ser gentil, Walter fazia questão de tentar lembrar de todos os rostos que podia, havia inclusive pesquisado alguns dos colegas nas redes para não cometer a gafe de confundir alguém, ao mesmo tempo, sabia que a reciproca poderia não ser verdadeira. As frases desprovidas de pronomes definidos e o olhar que parecia varrer toa sua face em busca de respostas, lembravam o schotsman de si mesmo quando alguma amiga de sua avó insistia em dizer que havia pego o rapaz no colo quando mais novo, uma lembraça que era um verdadeiro desafio, você sabe…quem diabos mantém memorias antes dos dois anos de idade? De toda forma, ser gentil consistia também em tentar fazer a pessoa não se sentir mal sobre a falta de lembrança, tornar o esquecimento algo constrangedor não era nem um pouco educado. - Sim… Um pouco. - Disse, cumprimentando o outro com um aperto de mãos. - Digo…A primeira impressão fiquei esperando alguém me lembrar que minha ex-namorada não era tão minha namorada assim nas minhas coisas. E depois eu fiquei meio “Walter Schotsman, treze anos se foram, ninguém se importa mais com isso”. - O loiro havia usado todas as referencias que podia para tentar aliviar a memória do companheiro, inclusive praticamente se apresentando novamente ao dizer nome e sobrenome. Sabia que as pessoas guardavam escandalos com muito mais facilidades do que pequenas gentilezas, então preferiu comentar, da maneira mais eufemica possível ao fato de ter sido, durante mais da metade do ensino médio, bem…corno. - E, obrigado. Você também…Os anos parecem ter sido realmente gentis com você. Qual a formula?
entre o intervalo de uma fala e outra, leonard cautelosamente buscava por algo na figura alheia que fosse capaz de despertar alguma lembrança do passado – uma marca impressa na pele, como uma mancha ou cicatriz, ou então algum trejeito que tivesse resisto às mudanças do tempo, como uma risada desajeitada ou a maneira de mexer nos cabelos – mas nada parecia contribuir para a ativação de seus neurotransmissores, com a memória de longo-prazo do woolrich traindo suas esperanças de identificar o sujeito adulto após tantos anos. não poderia se ver, óbvio, mas se uma superfície refletora estivesse apontada para seu rosto certamente denunciaria a maneira inadequada com a qual os olhos azuis vasculhavam a fisionomia do loiro, inspecionando-o com indelicadeza; enquanto o fazia, porém, fora pego de surpresa pelo outro, que havia notado o semblante desorientado esculpido em seu rosto. – oh, sim... – leonard balançou a cabeça para cima e para baixo, buscando convencê-lo de que sabia do que estava falando em uma tentativa de também se autoconvencer. – sim, sim. – as palavras escapavam de sua boca ao passo que ele tentava se agarrar a algum daqueles detalhes, buscando encaixar as peças do quebra cabeça na própria mente. naturalmente desinteressado por qualquer coisa que acontecesse dentro dos corredores estreitos da east wenk high, leo pouco se importava com as histórias escandalizantes que os alunos espalhavam feito pestes por toda escola, frequentemente sendo o último a saber de alguma fofoca, tamanho desprezo que sentia pelas conversas abafadas no vestiário masculino. a menção ao nome do homem, entretanto, acendeu-se como uma faísca em seu cérebro, involuntariamente deixando que uma arfada escapasse de seus lábios. – cacete! era você? – toda gentileza havia sido descartada daquele momento em diante, com leonard quase expelindo a bebida borbulhante pelas narinas. – quer dizer, é... – o tom de voz buscou retornar ao timbre apático de antes, recompondo a sobriedade do homem. – essas coisas ficaram no passado, walter. – buscou tranquilizá-lo, mesmo sabendo que seria impossível fazê-lo após a reação desproporcionada que havia acabado de ter. – ninguém deve se lembrar mais, tenho certeza. – mentiu, afogando a língua com o restante da bebida que tinha em mãos, desviando o olhar do conhecido. – além do mais, ninguém naquela época era tão namorado assim de alguém, vai por mim. – deu uma risada, maneando a cabeça de um lado para o outro, pensando em como ele mesmo havia sido um canalha em algumas situações. – é muita gentileza da sua parte, meu amigo. – sorriu, aceitando o elogio com cortesia. – a fórmula? ficar longe de qualquer coisa parecida com isso aqui. – usou a taça em suas mãos para apontar para o grupo de ex-colegas à distância. – o que eles estão colocando na água de manhattan? as pessoas parecem mais cretinas do que há treze anos, cruzes. – a acidez do woolrich atacou novamente, sem imaginar que walter poderia se sentir ofendido pela colocação.
fiitzgeralds·:
Era estranho ver Leonard desse jeito, principalmente quando tinha passado anos achando que ele também se tornaria um jogador profissional, e que tentaria se destacar mais que ele. Agora, bem, agora ele parecia tudo, menos alguém que aparentemente queria o seu sonho. Tentou se recordar da última vez que o tinha visto ou pelo menos ouvido dele. A primeira havia sido durante a formatura, tinha quase certeza, e se lembrava vagamente da ex-esposa comentar algo sobre o paradeiro dele. Cômico, sinceramente, como haviam chegado perto de um ódio mortal e, agora, provavelmente nem pensavam um no outro a anos. Jamais aconteceria isso com uma de suas irmãs, Connor falava com as três sempre (nem que fosse um simples bom dia), eram muito próximos, os quatro, e nem imaginava como seria passar mais que algumas semanas sem as ver. Por um momento, ponderou como as coisas teriam sido se o pai tivesse sido minimamente decente e Leo e ele tivessem sido criados juntos. Teriam sido próximos? A razão de ter tido tanta raiva dele era porque havia sido criado num contexto totalmente diferente e que, possivelmente talvez o tivesse causado até inveja? Até parece, pensou, parecia uma piada todas essas coisas e colocou a culpa desses pensamentos nos quatro copos de bebida que já havia ingerido.
Não o respondeu, dando de ombros e ignorando aquilo, uma especialidade do Fitzgerald. “Você está morando em Manhattan?” Arqueou uma das sobrancelhas, a fala saindo num tom blasé, enquanto pensava para si que ele não parecia um morador dali de perto. Ok, talvez pudesse morar em Tribeca ou no Harlem — estava parecendo lugares onde ele se encaixaria. Meneou com a cabeça, aceitando o agradecimento, e engolindo metade do líquido de sua taça num gole só. “Valeu. A meta é superar o Tom Brady e ter um para cada dedo.” Estralou a língua, enquanto descia o olhar para o adereço chamativo demais. Tinha aprendido a ser menos cheio de si, mas não quando se tratava das conquistas de seu esporte. “Se eu não estou usando, ficam. Eu pensava que você gostaria de ganhar um também, anos atrás.” Foi uma leve alfinetada, disfarçada de um comentário qualquer, também não queria brigar e estragar toda a noite. “O que você anda fazendo?” Uma pontinha infantil sua torceu para que ele não estivesse bem sucedido, só para ter a realização de que, no fim, ele não havia conquistado aquilo que sempre tinha sido o seu destino, mas a pergunta não passou de uma tentativa de dar continuidade a conversa, e já a tinha feito ao menos umas dez vezes naquela noite.
mais do que nunca, connor e leonard se pareciam como dois completos estranhos – talvez, enfim, os desejos do segundo tivessem se concretizado após tantos anos e agora pouco os unia, nem mesmo os gostos ou a aparência eram capazes de atar os dois irmãos. o pesadelo que fora vivenciar toda a juventude como o outro filho de carter fitzgerald parecia, agora, uma fotografia que se esmaeceu com o andar do tempo, sobrando apenas um vestígio do que algum dia existiu. olhando para o rosto do meio-irmão, o woolrich sequer era capaz de sentir o ressentimento que antes o assombrava toda vez que o via, já não havia nada no outro homem que lhe despertasse o sentimento de inveja ou de raiva, olhar para ele era como ver um desconhecido, algo que nunca deixara de ser, afinal de contas.
– deus, não. – a resposta imediatamente o repreendeu ao que leonard abominava a ideia de viver em uma ilha como manhattan, o que ele, obviamente, julgava ser um dos centros da peste virulenta capitalista que varria as metrópoles modernas como nos séculos anteriores. – williansburg, mas isso antes da gentrificação. – comentou em um tom bem humorado, esperando que o colega não estranhasse, mesmo após tanto tempo, a acidez com a qual leonard era acostumado a usar. – ah, mas é claro. – o homem balançava a cabeça para cima e para baixo, mantendo a expressão do cenho franzida, como se prestasse muita atenção em tudo aquilo que o outro dizia. a falta de proximidade durante toda a vida não permitia que o bastardo soubesse muito sobre os planos do irmão postiço, mas o olhar contente de satisfeito denunciava o orgulho que connor sentia da joia escandalosa em seu dedo anelar direito. em contraposição, o anel parecia ocupar o espaço destinado ao símbolo do matrimônio, uma aliança, o que despertou sua atenção, erguendo uma das sobrancelhas. – eu? talvez... um dia, anos atrás. – deu de ombros, transparecendo um sorriso ingênuo nos lábios rosados, saboreando as lembranças que o assunto evocava para si. – era legal, eu acho. mas eu sabia que não era a minha paixão, ao menos não como é para você. – admitiu, deixando escorregar uma honestidade e um sentimentalismo o qual seu eu de treze anos atrás ficaria mortificado. – eu? ainda fazendo música, era o que eu mais gostava de fazer de qualquer jeito. – dessa vez, fora leonard quem deixou transparecer pelos olhos azuis a paixão pela carreira que havia escolhido. – tenho trabalhado com composições para trilhas sonoras, a maioria em filmes europeus, mas vire e mexe acabo contribuindo em alguma coisa feita pelo pessoal do departamento de cinema da NYU. – respondeu, bebericando o restante do espumante. – no final das contas é a desculpa ideal para poder ir pra veneza ou pra riviera francesa. – brincou, de certa forma tentando romper a rigidez que se impunha entre ambos. – veio desacompanhado? – perguntou, imediatamente afogando a curiosidade no restante de champagne que ainda o restava, observando-o através do longos cílios escuros.
alliehowe·:
Na cabeça da Howe também passava a possibilidade de desistir. O que ganharia daquele evento além de uma tremenda dor de cabeça? Era uma luta interna, afinal havia prometido que ao menos entraria na festa e ficaria por alguns minutos. Era o mínimo. A demora na fila apenas a apreendera mais, os braços cruzados e os saltos batendo contra o chão aqui e ali. Ainda sem reconhecê-lo, percebeu que o homem à sua frente achava aquilo tudo tão ridículo quanto ela, contrariado com a frase “senha” que os admitiria no reencontro. Embora compartilhassem do mesmo sentimento, Allie ficou ainda mais impaciente. “ — Always a lion! Vamos logo com isso, sim?!”
contrariado com todas as exigências formais do evento, leonard não imaginou que poderia haver alguém mais aborrecido que ele com toda aquela situação, mas a interrupção malcriada que ecoou em seus ouvidos o provou o contrário. “por deus, existia alguém cuja experiência durante os anos de escola havia sido mais miserável que a minha para justificar tamanha antipatia?”– o homem ponderou consigo mesmo, reconhecendo os limites da própria hostilidade, o que certamente nem sempre estava disposto a fazer. sob o ombro direito, a visão periférica pode enxergar de escanteio a figura feminina que martelava os calçados contra o piso em um compasso de dar nos nervos. soterrada sob as memórias da época da escola que preferia esquecer, leo resgatou a imagem mental da mulher, identificando o rosto amadurecido à versão mais nova de anos atrás: alissa howe, uma das responsáveis por fazer de seus dias um inferno noscorredores da east wenk. – talveza decoração temática e a playlist ultrapassada te deram a impressão de que realmente estamos no ensino médio, alissa, mas tenho uma notícia pra você: tratar as pessoas feito pedras em seu caminho, mesmo após treze anos, sócontinua sendo escroto mesmo. – desabafou, sentindo as mãos formigarem de nervoso.

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catsinclair·:
☾with @woclrich·;
havia o avistado mais cedo tendo problemas para entrar no evento, mas apesar da expressão insatisfeita e mal humorada por provavelmente acreditar que estava em um lugar onde não combinada com nada, o rosto de leonard, mesmo com o passar dos anos, ainda era muito reconhecível pra ela. não que houvessem compartilhado de um laço muito estreito quando mais jovens, nada disso; se comparasse com suas relações mais duradouras (e peculiares!) provindas do colegial, o woolrich era alguém a qual a existência não passava mais do que uma lembrança de momentos em que não tivera que se preocupar com muita coisa, como uma pequena parte do dia onde fazia o que tinha vontade e não tinha que se preocupar com pré-conceitos e julgamentos. ela e leonard sempre trabalharam bem juntos, não havia dúvida, por mais estranhas que fossem suas metodologias e organizações de trabalho. entretanto, demorou para que ele aprendesse seu nome enquanto colaboravam nas pequenas produções da escola, demorou para que ele se acostumasse com sua presença silenciosa em momentos de almoço ou de intervalo, e, por fim, também havia demorado para reencontrá-lo, o que a fez por fim – e como sempre– resolver aproximar-se primeiro para socializar. apesar da distância e nunca mais ter ouvido falar dele a nível pessoal, catherine sabia o que ele fazia, e sabia o quão bem fazia, afinal, de certa forma, na carolina do norte também trabalhava com o cenário indie antes de voltar e ser amaldiçoada pelo pai e suas ideias cristãs e politicamente corretas. talvez fosse a hora de fazer o tal networking, como lhe fora recomendado. “━━ pelo visto não abandonou essa mania de andar sozinho por aí, woolrich. ━━” comentou, aproximando-se com os braços cruzados. não tinha plena certeza de que ele a reconheceria, mas esperava que sim. “━━ era difícil fazer com que você passasse o intervalo junto com o grupo nas épocas das produções do teatro. acho que no fim, tem coisa que a gente não pode mudar muito. ━━”
debruçado sob o guarda-corpo transparente, leonard espiava com o canto dos olhos a efervescência com a qual os antigos colegas compartilhavam as histórias dos anos juvenis, embriagados por um entusiasmo nostálgico que parecia o antídoto mais eficaz contra as dores do passado. naturalmente o homem havia debandado do grupo, afastando-se da agitação do lado de dentro e encontrando conforto junto ao som abafado do trânsito nova iorquino que borbulhava há dezenas de metros abaixo. o semblante melancólico que assombrava seu olhar era o mesmo de treze anos atrás: o sentimento de pertencimento àquele lugar era, novamente, inexistente; embora as memórias materiais pudessem argumentar o contrário, com o rosto de leonard estampado em grande parte das fotografias do time de futebol americano, ou no anuário, nas páginas do clube de teatro e música, era como se todas aquelas evidências estivessem mortas e vazias de significado.
os lábios mantinham-se hidratados pela bebida alcoólica que bebia enquanto observava o horizonte, assistindo o sol queimar diante de seus olhos. o hábito de contemplar a própria solidão parecia ser seu estado natural, com os pensamentos zunindo de um canto ao outro da cabeça em uma bagunça orquestrada. a atmosfera pacífica fora perfurada pela companhia de catherine, que assim como nos anos de escola, mantinha os passos silenciosos e compassados, invadindo sorrateiramente a visão periférica do homem. o comentário o fez sorrir discretamente, bebericando o licor incolor lentamente. – como mesmo após todo esse tempo você sempre me acha? – retrucou, acomodando o copo de cristal nas mãos, não percebendo que poderia ter soado mais ríspido do que pretendia. a menção aos tempos de escola o transportou imediatamente para o apertado teatro que dividiram durante o último ano escolar, onde passavam as tardes de quarta-feira trabalhando nas produções desajeitadas a que se propunham fazer. embora o departamento artístico de east wenk high sofresse com o baixo repasse de investimentos – enquanto o orçamento milionário era destinado ao time de futebol americano – osjovens davam seu melhor para fazer as peças acontecerem, o que significava pintar cenários aos domingos e, no caso de leo, dividir o tempo entre as composições ao piano e a assistência à direção da sinclair mais velha. – essas coisas nunca fizeram muito o meu estilo. – o queixo apontou para o grupo de colegas, fazendo referência a comemoração. – não sei exatamente por que eu aceitei vir, tolice achar que poderia ser diferente. – respondeu, encontrando os olhos castanhos dacolega. – você parece bem, catherine. – a escolha ao usar o nome completo da outra era proposital, nunca foram muito próximos, à não ser pela parceria durante os ensaios; com o findar do último ano, não mantiveram contato, mas há alguns meses encontrou a foto da colega em uma nota de rodapé de alguma publicação independente que falava sobre seu trabalho. – como anda o trabalho? – a pergunta parecia demasiada formal para a ocasião, mas aquele havia de ser o assunto que mais tinham em comum mesmo após todos esses anos.
nzncy·:
A mulher ainda estava tentando assimilar tudo a sua frente. Estava ali com pessoas que não via há 13 anos, vestindo vermelho e branco, uniformes e troféus expostos, playlist nostálgica, jesus, estava realmente acontecendo. Nancy estava passando próxima da entrada quando ouviu alguém e deixou um sorriso escapar. Apesar de ter levado a amizade dele para além da escola, era mais complicado de se encontrarem com frequência - dilemas da vida adulta - mas era impossível não reconhecer o tom rabugento. “Yeah yeah, ele era um Lion agora deixe-o entrar, por favor.” Falou com o segurança antes de segurar o pulso de Leonard e o puxar para dentro. “É sério, eu preciso muito saber quem organizou tudo isso para reclamar dessa senha ridícula. Eu nem era tão torcedora do time assim.” Mentira. Todos os jogo lá estava Nancy, torcendo. Além de Leo e Luke, era impossível não suspirar por um certo quarterback. Com um sorriso nos lábios, a loira abraçou o amigo, depositando ali toda a saudade que sentia. “Long time no see.”
talvez o defeito mais notório de leonard fosse sua teimosia, tão escancarada e óbvia que tentar escondê-la seria tolice e uma enorme perda de tempo. a maturidade e sabedoria adquiridas ao longo do caminho na última década certamente haviam contribuído para o enfraquecimento da característica no homem, mas quando confrontado com os fantasmas do passado, não parecia ser possível ignorar os mesmos sentimentos da juventude, caindo na mesma armadilha de treze anos atrás. revirou os olhos, prestes a dar o braço a torcer em sinal de derrota, pronto para entoar o lema do ensino médio como era obrigada a fazer nos vestiários sempre antes de uma partida de futebol, mas fora resgatado pela mão que agarrara seu pulso, o levando para longe do segurança. a reclamação bem-humorada feita pela colega o divertiu: – se a senha para entrar é essa, você pode imaginar o que nos aguarda lá dentro? não me surpreende se nosso último professor de álgebra aparecer com um teste surpresa. por deus, querem nos traumatizar após todos esses anos? – comentou, aproveitando a companhia da conhecida para fazer o último de seus comentários rabugentos. ainda atordoado pelo rápido movimento, leo fora mais uma vez pego de surpresa pelo abraço repentino que fora lançado sob seus ombros, retribuindo-o ainda meio sem jeito, desacostumado a fazê-lo após tantos anos; nancy havia de ser uma das únicas que não lhe levava a loucura, tornando-se uma companhia agradável em meio ao caos que fora o ensino médio. – não é? – o homem enfiou as mãos no bolso, acostumando-se com a atmosfera do ambiente. – mas era óbvio que dentre todos os pretextos possíveis o universo nos uniria novamente em uma obrigação escolar, ou quase isso. – riu, constatando a ironia do reencontro que replicava a mesma forma como haviam se conhecido em primeiro lugar. – é bom te ver, lab partner. – piscou em simpatia para a amiga, adentrando o restaurante logo em seguida.