Acordava antes do Sol nascer. Era guiado pelos raios quentes, e atĂ© que as nuvens do amanhecer fossem embora, ficava ali, na sacada do seu apartamento, ansiando pela energia vinda do cĂ©u. Algumas vezes, para ajudar na espera, fumava um cigarro ou simplesmente fechava o olho direito e tentava enxergar o mundo apenas com o esquerdo, pois este olha em especĂfico percebia a vida de maneira diferente.
As cores nĂŁo eram as mesmas quando vistas por esse olho, tĂŁo pouco as pessoas, nem o ar era o mesmo. Tudo parecia marcado de maneira assustadora e ao mesmo tempo bela. Talvez, o mundo inteiro fosse daquela maneira e os olhos que se dizem normais, mentem para nĂłs. O fato Ă©: Nunca foi possĂvel acostumar-se com aquelas mudanças de realidade. Passar muito tempo vendo aquelas cores saindo das pessoas, emanando de sua pele como suor, era cansativo e muitas vezes, demandava uma energia muito grande, alĂ©m claro, de dores de cabeça infernais.
Como se nĂŁo bastasse, com o tempo, alguns seres estranhos começaram aparecer naquele mundo colorido. Esses seres mudavam ou nĂŁo as cores das pessoas que estavam por perto, ou objetos que tinham contato. Começar a perceber esses indivĂduos estranhos despertou um medo grande, porĂ©m compreensĂvel.
O medo é uma maneira de preservação. Quando pequeno, era o medo de ver aqueles monstrinhos novamente que impedia o retorno aquele mundo abstrato. Mais tarde o medo do castigo divino veio para me despedaçar em vårios pedaços e depois o medo de socialmente ser taxado como mentalmente doente, fechava o circulo da autopreservação.
EntĂŁo temos um adolescente que cresce pela metade, que se torna um adulto pela metade, que sonha pela metade e que todos seus objetivos atĂ© ali sĂŁo pela metade. A sensação de faltar algo, do vazio nĂŁo preenchido, por tentar lembrar-se de algo esquecido lĂĄ no começo da sua existĂȘncia.
Essa sensação de falta de progresso sempre foi implacåvel. Pior que essa sensação, só a sensação de não conseguir completar absolutamente nada na sua vida, justamente por sentir-se incompleto. Mas onde diabos estå a outra metade?
Foi então que... abri o olho esquerdo novamente na esperança de reencontrar a outra metade perdida no processo.
Quando percebi, nĂŁo havia mais nada lĂĄ. JĂĄ nĂŁo existiam mais cores ou monstros para ver, apenas um grande e escuro borrĂŁo cinza.
E com lĂĄgrimas nos olhos entendi que de tanto ocultar aquele dom, ele foi embora e deixou o vazio escuro da minha outra metade.
Antes de matar-me, segundo antes do espĂrito sair do corpo para ser mais exato, tento uma ultima vez e...
EstĂĄ ali, estĂĄ ali! Meu mundo que sĂł eu consigo ver!