Desde que chegara ao acampamento grego, se surpreendera com a quantidade de filhos que Ares tinha, em vista de Belona. A deusa não era o que se podia dizer de deusa dada à distrações, o que justificava a quantidade de filhos. Portanto, o chalé era mais cheio comparado a sua morada enquanto em Nova Roma. Não iria mentir, aquilo o incomodava. Privacidade era algo que prezava. E em suas condições, estar o mais longe de incômodos era a coisa certa a se fazer. Não tinha muito o que fazer, porém, a não ser se manter longe do chalé e entrar nele apenas para dormir, como têm feito.
Ouvia dizer em todos os cantos, especialmente das crias do amor, que para saber se está amando alguém é só acordar de um sono; se a pessoa for a primeira na qual você pensar, é ela a eleita. Achou que fosse ser algo do tipo quando, de súbito, visualizou o rosto de Erika, a filha de Áclis, quase como literalmente, diante de seus olhos. E ainda dizendo para ir até ela. Mas o fato era que ele estava com sono demais e consciência de menos. Até mesmo franziu o cenho, numa completa confusão. Mensagens de Iris, ela o ensinara. Blaise ainda não estava ajustado aos costumes gregos.
“ Sabe, eu podia pedir uma transferência de chalé. Assim, eu me livraria dos pirralhos raivosos e você, senhorita, teria a minha companhia vinte e quatro horas. Vê? Todos saem ganhando. ” piscou para Erika, em teor brincalhão. Se jogou na cama paralela à da Viper, e podia sentir a atmosfera mais pesada daquele chalé. Frio, seco; sombrio. Virou-se lateralmente, apoiando o cotovelo no colchão enquanto descansava cabeça na mão, atento aos traços da semideusa. “ No, really. Did something happen? ”
“ — Vinte e quatro horas?! Pfff, eu passo.” Os olhos claros arregalaram e a cabeça negou veemente, em clara provocação. Naqueles curtos segundos, pensou como seria agradável ter companhia em meio ao chalé pouco habitado, principalmente se fosse a de alguém como Blaise. Entretanto, a solidão imposta tinha um motivo -- um que ia além de suas tendências gótico-depressivas. “ — Não acho que o Quírion permitiria. E por mais espetacular que seja admirar as suas crises de ira, também não acho que seria muito seguro... para nenhum de nós dois.” Erika sabia que deveria medir as palavras, mas jamais havia sido boa em defender-se sem atacar a outrem, ainda que não fosse sua intenção. De todo modo, estava muito mais preocupada com a segurança dele do que com a própria. Era exatamente aquele ponto que a fazia tão incerta sobre a amizade que nutriam, mesmo que o Hemingway fosse uma das únicas pessoas que a compreendesse.
“ — I, uh... You know, I had a nightmare.” Na cama, os joelhos estavam dobrados e os braços cruzados sobre o busto num gesto de autoproteção. Era assim que costumava ficar sempre que na proximidade de outros semideuses, retraída e alerta. Principalmente quando se sentia tensa, como naquele momento. “ — Mas esse foi pior. Sonhar com morte geralmente não é a coisa mais divertida do mundo, mas dessa vez... foi brutal, foi... eu não sei nem explicar. Foi intenso demais.” Ela fazia caretas enquanto falava, tentando sem muito êxito transpassar toda a angústia que havia sentido. Seus ombros ainda estavam tensos. O coração permanecia descompassado. “ — Foi com aquela romana. De novo.”