CAPÍTULO 1 – O NASCER DA ESCURIDÃO
Já não me lembrava quando fora a última vez que o baile de Primavera de Elrond havia acontecido. Uma tradição que pertencia a era dos Deuses e que Arkanum ainda atravessava dias de paz. Era, a qual, o mundo ainda não havia conhecido a tirania das trevas e muito menos havia separação de raças e reinos. Tradição, que após a grande guerra, fora esquecida não apenas pelos líderes de Arkanum, mas também pelo seu povo. Pela primeira vez em séculos, todos os reinos estavam reunidos no grande salão de Elrond, independente de raça, ou até mesmo classe social. Nobres e plebeus celebravam a chegada de mais uma primavera, o início do ciclo de Ménides, a mãe natureza.
Do alto do meu trono, observava a todos os presentes se divertirem ao som das melodias entoadas pelos bardos e esbaldando-se dos melhores vinhos vindos de Ashtae e do banquete que era oferecido pelos serviçais da Fortaleza Mística. Kimberly e nossas filhas haviam pensados em cada um dos detalhes, de modo que tudo parecesse seguir a perfeição. Até mesmos os reis e rainhas dos reinos de Arkanum, não apenas se comportavam, como mandava o figurino, como alguns até mesmo rodopiavam pelo grande salão, aproveitando o máximo daquela noite.
Embora tudo estivesse funcionando perfeitamente, não podia dizer que estava confortável naquela noite. Não era um rei como os outros, era um soldado, um guerreiro, era o líder dos Guardiões Místicos, senhor de Elrond, protetor de todos os reinos de Arkanum. Por isso, minha cabeça nunca poderia estar em uma festa, ainda mais após os últimos relatórios. Arkanum já não era a mesma e embora, ainda fossem relatos isolados, as criaturas das trevas começavam a agir em meio as sombras, atacando viajantes e vilarejos isolados. Ataques que por quase um século não se tinha notícias.
As badaladas do relógio anunciaram a chegada da meia-noite, o ciclo de Ménides finalmente havia chegado e com isso, todos os presentes ao salão abraçavam-se e desejavam uma primavera próspera e cheia de alegrias. Era realmente um grande evento, embora, não tivesse memória alguma de outros em minha juventude. Aliás, não celebrava o momento, permanecia-me parado, sentado em minha cadeira. A sensação dentro do meu peito era ruim, sentia-se como algo grande estivesse chegando. Minha boca amargava, assim como cada pelo que cobria meu corpo arrepiava-se. Algo estava chegando e meu coração dizia que não era bom.
A celebração teve fim quando um forte trovão ecoou por toda Elrond, abalando as paredes da Fortaleza e até mesmo trincando algumas de suas vidraças. O som de chuva tomou o lugar da melodia e não tardou para que os mais antigos tivessem suas expressões alteradas, pareciam aterrorizados. Senti minha esposa apertar minha mão, buscando a proteção de meu corpo e ao buscar pelos líderes dos reinos, também percebi a apreensão, principalmente daqueles que assim como eu, pertenceram aos Guardiões. O bochicho espalhou-se por todo salão e logo os mais exaltados anunciavam a chegada de dias de difíceis. O motivo? Segundo a crença dos mais antigos, sempre que uma primavera chegava junto a uma tempestade, significava que Arkanum atravessaria tempos difíceis. Fora assim antes do levantar-se de Vladmir, como também antes da grande seca. O que nos atingiria desta vez? A resposta não tardou a chegar.
Em meio ao barulho da tempestade, pode-se ouvir o som das trombetas de Elrond e em seguida a movimentação dos guardas. Estávamos sobe ataque e a noite que havia se iniciado com festa, terminaria em sangue. Mantive-me sentado em meu trono. Calma? Não. Estava em choque, para ser franco, sentia um misto de sensações ruins, sentia me impotente e culpado. Como poderia ter deixado meu dever para com o povo de Arkanum de lado e me juntado a uma festa? Não tinha este direito. Meu dever era estar do lado de fora, junto com meus homens. Defendendo nossas muralhas, enfrentando aquele que ousará desafiar o poder dos Guardiões Místicos.
Por um instante o terror tomou conta dos presentes, alguns mais exaltados anunciavam o fim, outros gritavam por socorro e donzelas perdiam seus sentidos devido ao choque. Também havia aqueles que acusavam outras raças, assim como aqueles que confiavam na proteção dos guerreiros de Elrond. August, senhor de Alomoju, como de se esperar, erguia-se em sua ira, acusando-me de criar uma emboscada. O rei dos humanos sempre pregou que eu tinha um plano para governar toda Arkanum sozinho e certamente não perderia a oportunidade de me atacar, razão, pela qual tratei de ignorar suas ofensas, mesmo este estando dentro de meus domínios. Minha cabeça estava em um turbilhão de pensamentos e devo admitir que toda aquela balburdia não me ajudava em nada. Também era impossível não notar a forma como Mandy, minha irmã, rainha de Arkanatus, olhava para nossa tia, Katherine, líder dos rebeldes. Era uma tensão gigantesca, a qual crescia a cada novo som de espada que ecoava do lado de fora da Fortaleza. Eu precisava controlar a situação, criar um plano de emergência… Eu havia falhado com meu povo.
Os ataques de August eram cada vez mais ferozes, o homem já se colocava de pé e tinha sua espada em mãos e apenas ainda não havia começado um banho de sangue dentro do grande salão, devido ao fato de estar sendo contido por Damian, antigo rei dos Elfos e Merac, senhor dos magos, ambos guerreiros que lutaram ao lado de meu pai na Guerra Mística. Se me assustava? Claro que não. Em batalha, sempre fui superior a August e era por isso que ele tanto me odiava, ou melhor me temia. Sendo assim, tinha total ciência que tudo aquilo era uma grande encenação do homem, o qual tinha que manter sua soberania e tirania com o seu povo.
Meu corpo estava congelado, não tinha reação. Eu podia sentir que meus homens estavam em apuros no campo de batalha. Os gritos que ouvia eram de pavor, de dor. Estavam diante de um inimigo desconhecido e ao que parecia, diferente de tudo aquilo que conhecíamos e havíamos enfrentado, ainda não podia acreditar que em Arkanum existia alguém capaz de nos desafiar, de ousar invadir a nossa fortaleza. Seria o fim?
Tal pensamento apenas se dissipou de minha cabeça quando senti o toque das mãos macias de minha esposa me tocarem e ao erguer minha cabeça para lhe encarar, também vi ao seu lado nossas filhas. Por mais que eu não acreditasse, elas nunca deixaram de acreditar e sabia que enquanto eu vivesse, não apenas ela, como toda Arkanum estariam seguras.
- Todos em silêncio! - Ordenei, erguendo-me de modo que todo homem e mulher presente naquele salão pudessem me ver e ouvir minha voz. – Guardas, guiem nossos convidados a passagem subterrânea. Levem os para o alto da montanha… Lá estarão seguros….
Era claro que tais ordens também valiam para minha esposa e filhas, afinal, não as deixariam a mercê de nossos inimigos. Com líder dos Guardiões, meu primeiro dever era com o povo, por isso, tinha que colocá-los em segurança e então estaria livre para me juntar as minhas tropas. Mas, o destino já estava traçado, aquela noite teria um significado na história de nosso mundo.
- Senhor… – As portas do grande salão se abriram e a figura de um soldado, o meu capitão, com o corpo banhado em sangue se desenhou diante dos meus olhos. Jorah se quer tinha forças para ficar em pé, por isso, lutava-se para manter-se ao menos de joelhos, era um homem valente. – Elrond caiu…. O inimigo avançou por toda fortaleza… As tre… vas… Voltaram… – havia gasta o resto de sua energia e assim que terminou sua frase, suspirou uma última vez e caiu sem vida diante dos tronos.
Assim que Jorah caiu morto, os guardas presentes trataram de fechar novamente as portas do grande salão, dando início ao plano de retirada, guiando os cidadãos pela passagem secreta. Aquela altura, eu já havia me retirado do lugar, tendo não apenas a minha família, como os outros reis em meu encalço. Seguia para meu escritório em passadas largas, em passos tomados pela fúria. Minha passividade havia transformando-se em fúria. Minha fortaleza havia caído, meus inimigos estavam por todos os cantos de meu território. Mas, ainda era um Guardião, ainda carregava o nome dos Vladisk e não permitiria tamanha ousadia. O inimigo havia quebrado a minha defesa…, mas, não sairiam com vida…
Notas: capítulo escrito em meio a inspiração da canção God Was Never On Your Side - Motörhead