O piso estava finalmente seco depois de semanas de chuva. Andar de mota com piso molhado é chato e eu estava contente por poder finalmente gozar uma condução mais livre. Era um final de tarde de Domingo e o trânsito rolava tranquilamente. Os carros à minha frente vinham a uma velocidade que não justificava ultrapassagens e portanto mantive-me a gerir as distâncias e a apreciar a forma metódica de conduzir como se de um avião com procedimentos e controladores de tráfego se tratasse. Esta ficção detalhista ajuda a manter a concentração necessária à sobrevivência e é uma obsessão-compulsão útil.
Há uma distância entre carros mais à frente que fica mesmo a calhar para a saÃda que eu quero tomar. Acelero um pouco antes, desacelero a meio e no fim, já à mesma velocidade, coloco-me ao lado do espaço que pretendo ocupar, curvo ligeiramente à medida que deixo a velocidade diminuir para o adequado à trajectória de saÃda. A saÃda é um ramal de duas faixas e um só sentido que cruza por cima da auto-estrada de que sai para depois subir a encosta duma montanha, ao lado das outras duas faixas que descem e ir juntar-se com outra auto-estrada, sobrecruzando-a ao virar costas a um imenso vale imediatamente antes de entrar num túnel já quase no topo da encosta. É um troço estimulante não só pela sua linha que permite uma condução elegante e por ser Ãngreme mas sobretudo pela vista do vale que a subida alcança. Antecipo-o sempre.
O fluxo de veÃculos torna-se progressivamente mais espesso e lento. Passa-se algo mais à frente, de certeza. Uso a distância que ainda tenho para me encostar à berma onde poderei passar pelos carros parados. Um vulto aparece junto à separação e atravessa a auto-estrada inteira. É uma senhora, a uns cem metros, vinda do outro lado que desce. Vem até à berma do lado direito e sobe, a correr junto aos carros. Uns quarenta e cinco anos, magrinha e não muito alta.
De onde vem? Para onde vai? O que a move? Lá em cima, no pináculo deste peculiar troço rodoviário agora cenário duma peça de final incógnito, num viaduto encurvado, no topo duma encosta, à boca dum túnel, estão umas luzes, uma ambulância. Houve um acidente e esta desesperada senhora dirige-se para lá.
Aos poucos vou-me aproximando mesmo tendo reduzido a velocidade para nÃveis de voyeur. O sol ilumina-nos à direita por sobre uma nuvem densa que flutua por cima das montanhas do outro lado do vale, e por pouco o não esconde totalmente. Os últimos instantes de sol deste Domingo periclitam caprichosamente no flutuar daquela nuvem. A senhora corre, sem jeito nem fôlego mas determinada em direcção à ambulância. A pequena multidão de condutores do aglomerado ordeiro e alinhado de carros assiste impotente dentro das suas jaulas à medida que avançam envergonhadamente para a vez alternada de cada um.
Lentamente emerge entre todos aflição perante o desfecho. O que vai esta senhora encontrar? Quem vai esta senhora encontrar? O que vamos nós encontrar? Entrevejo mais à frente uma mota caÃda e torcida nos rails do viaduto. São mãe e filho.
O polÃcia, portador da mensagem de alÃvio ou de desgraça, ao ver a senhora a aproximar-se ainda longe demais para comunicar mas perto o suficiente para se ver, fita-a e nesse instante em que os raios de sol que nos atingem podem bem ser os últimos do dia e tudo terminar sem nenhuma boa razão, sentimos a impotência, a arbitrariedade, a sorte ou o azar. O não saber se é um ou o outro.
A dez metros, sucumbe à emoção e de voz falha e boca repuxada grita "meu filho!". O polÃcia levanta os braços para receber a mãe exausta num gesto da humanidade mais primordial, grita "não se preocupe" e abraçando-a diz "ele está bem".
Passo por eles, termino a curva e entro no túnel. O sol continuou a brilhar.